
A Casa do Horror

Stephen King



Digitalizao  de Jorge TORRES COSTA E CORRECO DE Maria Fernanda Pereira
Contra Capa


B140

O Hotel Overlook situava-se num dos mais belos cenrios do mundo. Mas os Invernos rigorosos eram de uma crueldade fantstica e s para Jack Torrance, o novo guarda
do hotel durante os meses desertos, uma poca to agreste se revestia de esperana; essa era a oportunidade de fugir ao fracasso e  angstia, de devolver  sua
mulher Wendy e ao seu filho Danny, de cinco anos, a estabilidade familiar.
Apesar da antipatia que lhe inspirava Stuart Ullman, o responsvel pelo hotel, no podia dar-se ao luxo de o hostilizar. Alis, este no escondia a relutncia
com que lhe entregava o posto de trabalho. Ele sabia que Jack s recentemente deixara de beber. Talvez isso explicasse a insistncia com que lhe falava do seu antecessor,
Grady, que perdera a cabea, provavelmente por excesso de lcool, matando a famlia e suicidando-se a seguir. Mas Jack no se deixou intimidar. Precisava muito
daquele lugar.
A solido seria suportvel para Wendy, que via este santurio isolado como uma hiptese frgil de proteGEr a famlia, e Danny...
Danny que fora amaldioado ou abenoado por um extraordinrio dom: tinha vises aterradoras que se situavam para alm da compreenso de uma criana. Pressentia
o mal escondido nos cento e dez quartos vazios de Overlook; um mal que estava precisamente  espera deles.




SHINING
A CASA DO HORROR
CRCULO DE LEITORES
 Ttulo original:  THESHINING
Traduo de:
M." FILOMENA DUARTE
Sobrecapa de:
ANTUNES
Ilustrao:
Jck Nicholson no papel de Jack Torrance no filme Skming de Stanley Kubrick, 1980

,''   ? ?
Copyright  1977 by Stephen King
Impresso e encadernado por Resopal
no ms de Setembro de 1988
Nmero de edio 2289 Deposito legal nmero 20 41S/88
Dedico este livro a Joe Hill King, que brilha.
O editor desta obra, tal como das minhas duas anteriores, foi William G. Thompson, um homem inteligente e sensato. Foi grande a contribuio que deu a este livro,
e por isso lhe agradeo.
Alguns dos hotis mais belos do mundo situam-se no Colorado, mas o hotel que surge nestas pginas no se inspira em nenhum deles.
O Overlook e as pessoas que lhe esto associadas existem
                inteiramente?
na imaginao             Do autor.
Era neste apartamento, tambm, que havia um relgio de bano gigantesco. O pndulo balouava de um lado para o outro, com um clangor pesado e montono; e quando...
chegava o momento de dar as horas, dos seus pulmes de metal libertava-se um som alto, claro, profundo e pleno de  musicalidade, mas com uma sonoridade e uma nfase
de tal modo peculiares, de hora a hora, que os msicos da orquestra eram obrigados a fazer um intervalo... para escutar o som; e era assim que, por fora das circunstncias,
os que danavam a valsa cessavam as suas evolues; e, por breves instantes, todo aquele grupo alegre se sentia desconcertado; e, enquanto soava o carrilho, verificava-se
que os mais entusiastas empalideciam, e os mais idosos e serenos passavam a mo pela testa, como se algum sonho ou meditao os confundisse. Mas quando os ecos se
desvaneciam por completo, uma gargalhada sonora percorria de repente a assembleia... e (eles) sorriam como que do seu prprio nervosismo... e formulavam votos uns
aos outros, em surdina, para que o bater da hora seguinte no produzisse neles uma emoo semelhante; e depois, passados sessenta minutos... ouvia-se novo toque
do relgio, a que se seguia o mesmo desconcerto, a mesma tremura, as mesmas meditaes.
Mas, apesar disto, era um momento alegre e esplendoroso...A Mscara Vermelha da Morte
O sono da razo gera monstros.
Goya
Brilha quando brilhar. Dito popular   ?'
APARTE QUESTES PRELIMINARES

,   1
A ENTREVISTA
Jack Torrance pensou: Que homenzinho servil e desprezvel.
UUman no tinha sequer um metro e sessenta de altura, e quando se mexia era com aquela rapidez afectada que parece ser apangio exclusivo dos homens pequenos e rolios.
O risco no cabelo era impecvel e o fato de cor escura era sbrio mas confortvel. Sou uma pessoa a quem podem expor os vossos problemas, dizia aquele fato aos clientes
que largavam o seu dinheiro. Para com os colaboradores assalariados o tom era mais rude: Vocs a, o melhor  portarem-se bem. Usava um cravo vermelho na lapela,
talvez para que ningum que encontrasse Stuart Ullman na rua o confundisse com o cangalheiro da terra.
Enquanto ouvia Ullman falar, Jack admitiu que provavelmente no teria gostado de ningum que estivesse sentado do outro lado da secretria... nas actuais circunstncias.
Ullman fizera-lhe uma pergunta que ele no percebera. Isso era mau sinal; Ullman era o tipo de pessoa que reteria na memria lapsos semelhantes para mais tarde
voltar a pensar neles.
Como disse?
Perguntei se a sua mulher compreendeu inteiramente o
que voc viria fazer para aqui. E h tambm o seu filho,  claro.
Ullman olhou para o formulrio que tinha na frente.
Daniel. A sua mulher no se sente um pouco assustada
com a ideia?
Wendy  uma mulher extraordinria.
E o seu filho tambm  extraordinrio?
Jack sorriu, um grande e largo sorriso de relaes pblicas.
        Pelo menos agrada-nos pensar que assim . Para uma cri
ana de cinco anos, tem bastante confiana em si prpria.
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Ullman no retribuiu o sorriso. Fez deslizar a ficha de Jack para o interior de uma pasta, que por sua vez enfiou numa gaveta. Em cima da secretria havia apenas
um mata-borro, um telefone, um candeeiro e um cesto para correspondncia, que tambm estava vazio.
Ullman levantou-se e encaminhou-se para um ficheiro que havia a um canto.
        Chegue aqui, se no se importa, senhor Torrance. Vamos
dar uma vista de olhos  planta do hotel.
Pegou em cinco grandes folhas de papel e estendeu-as em cima do tampo reluzente da secretria, de madeira de nogueira. Jack ficou a seu lado, muito atento ao aroma
da gua-de--colnia de Ullman. A frase Todos os meus homens devem usar English Leather, ou mais vale que no usem nada veio-lhe  mente, sem qualquer motivo, e
teve de prender a lngua entre os dentes para evitar um ataque de riso. Do outro lado da parede, vinham os sons abafados da cozinha do Hotel Overlook, onde se faziam
os preparativos para o almoo.
        Este  o ltimo andar  disse Ullman bruscamente.  O
sto. De momento, no h l absolutamente nada a no ser
bricabraque. Desde a Segunda Guerra Mundial que o Over
look mudou de mos vrias vezes e parece que todos os geren
tes mandam para o sto tudo o que no lhes agrada. Quero l
ratoeiras e veneno espalhados por todo o lado. Algumas criadas
no terceiro andar dizem que tm ouvido barulhos esquisitos.
No acredito nisso, nem por um instante, mas no deve haver
sequer uma possibilidade em mil de existir um nico rato no
Hotel Overlook.
Jack, que imaginava que em todos os hotis do mundo haveria um ou dois ratos, calou-se.
 claro que no dever nunca permitir que o seu filho v
ao sto.
No, claro  disse Jack, disparando de novo um grande
sorriso de relaes pblicas.
Pensaria este homenzinho desprezvel que ele deixaria que o seu filho andasse a vaguear por um sto cheio de ratoeiras, de mveis velhos e sabe-se-l mais o qu?
Ullman ps de lado a planta do sto e colocou-a no fundo da pilha.
        O Overlook tem cento e dez aposentos para hspedes 
disse, com ares de mestre-escola.  As suites, trinta ao todo,
ficam aqui no terceiro andar. Dez na ala ocidental (incluindo
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a Suite Presidencial), dez ao centro, e dez na ala oriental. Todas elas possuem vistas magnficas.
No poderias ao menos poupar-me a essa conversa de vendedor?
Mas Jack manteve-se em silncio. Precisava do emprego.
Ullman ps a planta do terceiro andar no fim da pilha, e comearam a estudar a do segundo.
        Quarenta quartos  disse Ullman. '? Trinta duplos e
dez individuais. E vinte de cada no primeiro andar. Alm de
trs roupeiros em cada andar e de um quarto de arrumaes no
extremo oriental do hotel, no segundo andar, e no extremo oci
dental, no primeiro. Tem alguma pergunta a fazer?
Jack abanou a cabea. Ullman ps de lado as plantas do segundo e do primeiro andar.
Agora, o rs-do-cho. Aqui ao meio  o balco da recep
o. Atrs fica o escritrio. O trio mede trinta e cinco por
trinta e cinco metros contados a partir do balco. Aqui, do lado
direito, fica a sala de jantar do Overlook e o salo Colorado. O
salo de banquetes e o salo de baile ficam do outro lado. Tem
alguma pergunta a fazer?
S acerca da cave  respondeu Jack.  Para o guarda
de Inverno  o piso mais importante. Onde se desenrola a ac
o, por assim dizer.
Watson vai mostrar-lhe tudo isso. A planta da cave est
pendurada na parede do compartimento da caldeira.
Ullman franziu o sobrolho de forma ostensiva, talvez para mostrar que, como gerente, no se preocupava muito com esses aspectos comezinhos do funcionamento do Overlook
que eram a caldeira e as canalizaes.
        Talvez no seja m ideia pr tambm algumas ratoeiras l
em baixo. Espere a...
Escrevinhou qualquer coisa num bloco que tirou da algibeira interior do casaco (Gabinete de Stuart Ullman, lia-se em cada folha, gravado a negro), rasgou a folha
e atirou-a para o cesto. A folha l ficou, solitria. O bloco desapareceu no interior da algibeira do casaco de Ullman, como que graas a um truque mgico. Ora
vs, ora no vs, Jack. Este tipo  mesmo de peso.
Voltaram  posio original, Ullman atrs da secretria e Jack do outro lado, em frente, entrevistador e entrevistado, o patro relutante e o empregado suplicante.
Ullman cruzou as mos, mostrando os dedos pequenos e bem tratados, e pou-
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sou-as no mata-borro da secretria. Olhou de frente para Jack. Um homem pequeno e insignificante, com um fato de banqueiro e uma discreta gravata cinzenta. Uma
flor na lapela estabelecia o equilbrio com um pequeno alfinete do outro lado, onde se lia apenas pessoal em pequenas letras douradas.
        Vou ser muito franco consigo, senhor Torrance. Albert
Shockley  um homem poderoso, fortemente interessado no
Overlook, que, pela primeira vez na sua histria, teve lucros
durante a presente poca. O senhor Shockley tambm faz parte
da direco, mas no  homem para estar num hotel, e seria o
primeiro a admiti-lo. No entanto, disse muito claramente o que
pretende neste caso. Quer que o senhor seja contratado. E  o
que farei. Mas se fosse eu a decidir sozinho, no o faria.
Jack apertou as mos com fora, no regao, a suar. Homenzinho servil e desprezvel, homenzinho servil e desprezvel, homenzinho...
        No creio que me d muita importncia, senhor Tor
rance. No me ralo.  claro que os sentimentos que nutre por
mim em nada me influenciam quanto  minha convico de
que no serve para o lugar. Durante uma poca, que decorre de
quinze de Maio a trinta de Setembro, o Overlook emprega
cento e dez pessoas a tempo inteiro, tantas quantos os quartos
que h no hotel, pode dizer-se. No creio que muitas delas
gostem de mim e desconfio que algumas me acham um patife.
Talvez no se enganem na avaliao do meu carcter. Em
parte, tenho de comportar-me como patife para gerir este hotel
da maneira que ele merece.
Olhou para Jack  espera de um comentrio. Jack ostentou de novo o sorriso amplo e insultuosamente escancarado de relaes pblicas.
Ullman prosseguiu:
O Overlook foi construdo entre mil novecentos e sete e
mil novecentos e nove. A cidade mais prxima  Sidewinder,
sessenta quilmetros a leste daqui, por estradas que esto fe
chadas desde fins de Outubro ou Novembro at Abril. O fun
dador foi um homem chamado Robert Townley Watson, o av
do nosso actual encarregado da manuteno. Aqui ficaram hos
pedados Vanderbilts, Rockefellers, Astors e Du Ponts. A Suite
Presidencial acolheu quatro presidentes: Wilson, Harding,
Roosevelt e Nixon.
No me sentiria muito orgulhoso ao pensar em Harding e
Nixon  murmurou Jack.
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Ullman franziu o sobrolho, mas prosseguiu sem se importar com o seu comentrio:
O senhor Watson cansou-se do hotel e vendeu-o em mil
novecentos e quinze. O Overlook foi de novo vendido em mil
novecentos e vinte e dois, mil novecentos e vinte e nove e mil
novecentos e trinta e seis. Manteve-se vago at ao fim da Se
gunda Guerra Mundial, altura em que foi comprado e comple-
tamente renovado por Horace Derwent, milionrio, inventor,
piloto, produtor de filmes e empresrio.
J ouvi falar dele  disse Jack.
Ah, sim. Tudo aquilo em que tocava parecia transformar-
-se em ouro... Excepto o Overlook. Enterrou aqui mais de um
milho de dlares antes de o primeiro cliente do ps-guerra ter
transposto estas portas e transformou uma relquia decrpita
num local digno de se ver. Foi Derwent que mandou construir
o campo de roque que voc viu  chegada.
Roque?
Um antepassado ingls do nosso croquet, senhor Tor-
rance. O croquet  o roque abastardado. Segundo a lenda, Der
went aprendeu a jogar com a secretria e apaixonou-se comple-
tamente pelo jogo. O nosso campo de roque  talvez o melhor da
Amrica.
No duvido  respondeu Jack com um ar solene.
Um campo de roque, uma cerca de bucho aparado com formas de animais, o que se seguiria? Uma casa de bonecas em tamanho natural por trs da casa das mquinas? Estava
a ficar farto do senhor Stuart Ullman, mas apercebeu-se de que Ullman ainda no acabara. Ullman diria tudo o que tinha a dizer, at ao fim.
Depois de ter perdido trs milhes, Derwent vendeu-o a
um grupo de investidores da Califrnia. A experincia destes
com o Overlook foi igualmente m. Tambm no eram pessoas
para isto.
Em mil novecentos e setenta, o senhor Shockley e um
grupo de scios compraram o hotel e entregaram-me a
gerncia. Durante vrios anos vi-me aflito, mas posso afir
mar com satisfao que a confiana que os actuais donos
depositavam em mim nunca vacilou. No ano passado, os
encargos igualaram as receitas. E este ano as contas do
Overlook apresentaram, pela primeira vez em quase se
tenta anos, um saldo positivo.
Jack achou que o orgulho deste homenzinho empertigado se
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justificava e o seu desagrado inicial desvaneceu-se, como que varrido por uma onda. Disse:
No vejo relao entre a histria do Overlook, sem d
vida colorida, e a sua sensao de que no sirvo para o lugar,
senhor Ullman.
Uma das razes pelas quais o Overlook tem dado tanto
prejuzo reside na degradao que se verifica todos os Invernos.
Faz baixar a margem de lucro muito mais do que imagina, se
nhor Torrance. Os Invernos so de uma rudeza fantstica. Para
resolver o problema, contratei uma pessoa a tempo inteiro para
se encarregar de fazer a manuteno da caldeira e manter vrias
partes do hotel aquecidas, numa base rotativa diria. Para con
sertar peas que se partem e fazer reparaes, para que nada
falhe. Para se manter em alerta constante perante qualquer
contingncia. No nosso primeiro Inverno contratei uma famlia
em vez de um s homem. Foi uma tragdia. Houve uma trag
dia. Uma tragdia horrvel.
Ullman olhou para Jack com um ar frio de avaliao.
        Cometi um erro. Admito-o francamente. O homem era
um brio.
Jack sentiu que esboava um sorriso lento e quente  a anttese total do sorriso escancarado de relaes pblicas.
Ai sim? Admira-me que Al no lhe tenha dito. Deixei de
beber.
Sim, o senhor Shockley disse-me que o senhor j no
bebe. Tambm me falou do seu ltimo emprego... Do seu l
timo lugar de responsabilidade, pode dizer-se. Voc dava aulas
de ingls numa escola preparatria de Vermont. Perdeu as es
tribeiras, creio que no preciso de ser mais explcito do que
isto. Mas acredito que casos como os de Grady tm uma razo
de ser e  por isso que fui buscar o assunto da sua... histria
anterior para esta conversa. No Inverno de mil novecentos e
setenta, setenta e um, depois de termos abastecido o Overlook,
mas antes do incio da nossa primeira poca, contratei esse...
esse infeliz chamado Delbert Grady. Instalou-se nos aposentos
que voc vai partilhar com a sua mulher e o seu filho. Tinha
mulher e duas filhas. Eu punha reservas, algumas das quais
advinham da rudeza do Inverno e do facto de os Grady ficarem
separados do mundo durante cinco ou seis meses.
Mas isso no  verdade, pois no? Aqui h telefones e
possivelmente uma estao de radioamadores. Alm disso, o
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Parque Nacional das Montanhas Rochosas est ao alcance de qualquer helicptero e decerto uma regio to vasta como esta tem um ou dois aparelhos.
        No sei  respondeu Ullman.  O hotel tem um rdio
de emisso e recepo que Watson ir mostrar-lhe, alm de
uma lista das frequncias que dever utilizar caso precise de
auxlio. As linhas telefnicas entre este local e Sidewinder
ainda esto de p, mas quase todos os Invernos se avariam num
stio ou noutro e podem ficar assim tanto por trs semanas
como por um ms e meio. Do equipamento tambm faz parte
um limpa-neves.
        Nesse caso o local no fica isolado.
O senhor Ullman mostrou-se aflito.
        Suponha que a sua mulher ou o seu filho tropeam nas
escadas e partem a cabea, senhor Torrance. No acha que,
nesse caso, o local fica isolado?
Jack compreendeu onde ele queria chegar. Um limpa-neves,  velocidade mxima, poderia levar hora e meia a chegar a Sidewinder... talvez. Um helicptero do Servio
de Salvamentos do Parque levaria trs horas a chegar ali... se as condies atmosfricas fossem boas. No meio de uma tempestade nunca conseguiria levantar voo,
e no se poderia esperar que um limpa--neves atingisse o mximo da velocidade se transportasse uma pessoa gravemente ferida, com temperaturas que podiam ir dos vinte
e cinco aos quarenta e cinco graus negativos, se se lhe acrescentasse o factor vento.
        No caso de Grady  disse Ullman  argumentei tanto
como o senhor Shockley parece ter feito no seu caso. A solido
em si pode ser devastadora. O melhor  um homem ter a fa
mlia ao p. Se surgissem problemas, pensei, seriam poucas as
probabilidades de no haver uma cabea partida, um acidente
com uma ferramenta ou qualquer espcie de convulso. Um
caso srio de gripe, uma pneumonia, um brao partido, at
mesmo uma apendicite. Para qualquer destes casos haveria
tempo suficiente.
Desconfio que o que aconteceu foi uma consequncia do usque barato em demasia, do qual Grady se abastecera com abundncia, sem eu saber, e de uma situao curiosa
a que os antigos chamam febre de cabina. Conhece o termo?
Ullman ostentou um sorrisinho paternalista, pronto a dar a explicao assim que Jack admitisse a sua ignorncia. Jack ficou satisfeito por poder responder prontamente,
com rudeza:
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         um termo em calo destinado a designar a reaco
claustrofbica que se verifica quando as pessoas se mantm fe
chadas em conjunto durante longos perodos. A sensao de
claustrofobia manifesta-se sob a forma de desagrado pelas pes
soas com quem estamos fechados. Em casos extremos pode dar
origem a alucinaes e a violncia. J foram cometidos crimes
por coisas to insignificantes como um bocado de carne quei
mada ou uma discusso sobre quem lava a loua.
Ullman mostrou-se bastante embaraado, o que fez muito bem a Jack. Resolveu forar um pouco mais a situao, mas, em silncio, prometeu a Wendy que manteria o sangue-frio.
Creio que nesse caso o senhor cometeu um erro. Ele agre
diu-os?
Matou-os, senhor Torrance, e em seguida suicidou-se.
Assassinou as rapariguinhas com um machado, a mulher com
uma espingarda e deu cabo dele da mesma maneira. Tinha uma
perna partida. Com certeza estava to embriagado que caiu
pelas escadas.
Ullman esticou as mos e olhou para Jack com um ar hipcrita.
Ele era licenciado?
Por acaso no era  respondeu Ullman um pouco emper
tigado.  Eu estava convencido de que um (como chamar-
-lhe?), um indivduo menos imaginativo seria menos suscept
vel aos rigores,  solido...
Esse foi o seu erro  retorquiu Jack.  Um homem es
tpido est mais sujeito  febre de cabina, assim como a alvejar
algum por um jogo de cartas ou a cometer um roubo ocasio
nal. Aborrece-se. Quando a neve comea a cair, no h nada
para fazer seno ver televiso, jogar sozinho e irritar-se quando
no consegue que lhe saiam todos os ases. No tem mais nada
que fazer seno tratar mal a mulher, embirrar com os filhos e
beber. Com o silncio, custa-lhe a adormecer. Ento bebe para
dormir e acorda com uma ressaca. Fica impaciente. Talvez o
telefone se avarie, a antena de televiso caia e no haja nada
para fazer a no ser pensar, aborrecer-se por estar sozinho e
impacientar-se cada vez mais. Por fim... Pum... Pum...
Pum...
 ento prefervel um homem mais culto, como voc?
Tanto eu como a minha mulher gostamos de ler. Estou a
escrever uma pea de teatro, tal como Al Shockley talvez j lhe
tenha dito. Danny tem os seus jogos, os seus livros de colorir e
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a sua galena. Tenciono ensinar-lhe a ler e a patinar na neve. Wendy tambm gostava de aprender. Oh, sim, se a televiso funcionar, creio que poderemos manter-nos
ocupados sem andarmos atrs uns dos outros. Fez uma pausa;
E Al foi sincero quando lhe disse que eu j no bebo. Bebi
em tempos e o caso poderia ter sido srio. Mas h catorze meses
que no bebo mais do que um copo de cerveja. No tenciono
trazer lcool para c e no creio que tenha oportunidade de o
fazer seno quando a neve acabar.
Nisso tem razo  disse Ullman.  Mas o potencial de
problemas multiplica-se enquanto estiverem os trs aqui. J
transmiti isto ao senhor Shockley e ele respondeu-me que assu
miria a responsabilidade. Agora disse-o a si e, aparentemente,
tambm voc quer assumir a responsabilidade...
 verdade.
Muito bem. Aceito-o, uma vez que tenho pouca margem
de escolha. Mas mesmo assim preferia um rapaz acabado de
sair do liceu. Bem, talvez voc consiga. Agora vou apresent-lo
ao senhor Watson, que ir mostrar-lhe a cave e os jardins.
A menos que tenha mais perguntas a fazer...
        No. Nenhuma.
Ullman levantou-se.
Espero que no haja ressentimentos, senhor Torrance.
No h nada de pessoal no que acabo de dizer-lhe. S quero o
melhor para o Overlook.  um grande hotel. Quero que conti
nue a s-lo.
No. Nada de ressentimentos.
Jack voltou a disparar o sorriso de relaes pblicas, mas ficou satisfeito por Ullman no lhe ter estendido a mo. Ia haver ressentimentos. De toda a espcie.
2
BOULDER
Da janela da cozinha, Wendy avistou-o, sentado no muro, no a brincar com os carrinhos, o comboio ou mesmo com a prancha de deslizar, que tanto lhe agradara desde
que Jack a
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trouxera, na semana anterior. Ali estava sentado, procurando com o olhar o VW j velho, com os cotovelos plantados nas coxas e o queixo apoiado nas mos, como qualquer
rapazinho de cinco anos  espera do pai.
De repente, Wendy sentiu-se mal, quase  beira das lgrimas.
Pendurou o pano da cozinha por cima do lava-louas e desceu as escadas, abotoando os dois ltimos botes do vestido de trazer por casa. Jack tinha o seu orgulho!
No, Al, no preciso de nenhum adiantamento. C me arranjo por uns tempos. As paredes estavam cheias de buracos, de riscos de lpis e de tinta de spray. As escadas
eram ngremes e a madeira comeava a lascar. Todo o prdio tinha um cheiro acre. Que espcie de lugar era este para Danny, depois da casinha de tijolo, to aprumada,
em Stovington? As pessoas que viviam por cima, no terceiro andar, no eram casadas e, embora Wendy no se importasse com isso, as suas brigas constantes e rancorosas
incomodavam-na. Assustavam-na. O homem do andar de cima chamava-se Tom. Logo que os bares fechavam e eles voltavam para casa, as brigas comeavam a atingir o rubro.
Os outros dias da semana eram apenas uma amostra em comparao com as noites de sexta-feira, como Jack lhes chamava, mas no tinha graa nenhuma. A mulher, Elaine,
ficava lavada em lgrimas e no parava de dizer: No, Tom. No, por favor! E ele gritava com ela. Uma vez tinham mesmo acordado Danny, e Danny dormia como uma
pedra. Na manh seguinte, Jack apanhara Tom a sair de casa e ficara a falar com ele no passeio, durante algum tempo. Falaram muito baixinho e Wendy no conseguira
ouvir o que diziam, mas Tom limitara--se a abanar a cabea com um ar solene e afastara-se. Isto passara-se h uma semana e durante uns dias as coisas andaram melhores,
mas desde o fim-de-semana que a situao voltara ao normal, ou antes, ao anormal. Era mau para o mido.
Caiu de novo no abatimento, mas, como j ia no passeio, reprimiu-o. Enrolou o vestido debaixo do corpo e, sentando-se na beira do passeio ao lado do filho, perguntou:
        O que se passa?
Danny sorriu mas respondeu com indiferena:
        Ol, mam.
Tinha a prancha entalada entre os ps. Wendy reparou que a madeira abrira uma fenda, num dos lados.
        Queres que eu tente arranjar isso, querido?
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Danny olhava de novo a rua fixamente.
No. O pap arranja.
 provvel que o pap no volte antes da hora do jantar.
Tem um longo caminho a percorrer por aquelas montanhas.
Acha que o carro vai ter uma avaria?
No, acho que no.
Mas Danny acabava de acrescentar mais uma preocupao  lista das suas. Obrigada, Danny. Era mesmo disso que eu estava a precisar.
O pap disse que sim  atalhou Danny com um ar ma
quinal, quase enfadado.  Disse que a bomba de gasolina es
tava completamente na merda.
No digas isso, Danny.
O qu? Bomba da gasolina?  perguntou o rapazinho,
verdadeiramente surpreendido.
Wendy suspirou.
No. Completamente na merda. No digas isso.
Porqu?
E feio.
O que  ser feio, me?
 quando metes o dedo no nariz  mesa ou fazes chichi
com a porta da casa de banho aberta. Ou dizes coisas como
completamente na merda. Merda  uma palavra feia. As pes
soas educadas no a utilizam.
O pap di-la. Quando ele estava a olhar para o motor do
automvel disse: Meu Deus, esta bomba est completamente
na merda! O pap no  uma pessoa educada?
Porque te metes nestas coisas, Winnifred?
 uma pessoa educada, mas  tambm um adulto. E tem
muito cuidado em no dizer coisas como essa diante de pessoas
que no o entenderiam.
Pessoas como o tio Al?        ;.<
Sim, exactamente.
Posso dizer essas coisas quando for crescido?       >    "
Acho que sim, quer eu goste quer no.
Com quantos anos?
Que tal achas com vinte?
Tenho muito que esperar.        va,
Tens razo, mas vais tentar?'
Vou.
Danny voltou a olhar fixamente a rua. Inclinou-se um pouco Para a frente, como se fosse levantar-se, mas a imagem do ma-
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chado surgiu, mais viva, mais rubra que nunca. Danny voltou a sentar-se. Wendy interrogou-se sobre o que esta mudana para o Colorado custara a Danny. Ele no abrira
a boca sobre o assunto, mas preocupava-a verificar que passava tanto tempo sozinho. Em Vermont, trs dos colegas de faculdade de Jack tinham filhos da idade de Danny
 e havia a escola infantil , mas aqui no havia ningum com quem ele brincasse. A maior parte dos apartamentos era ocupada por estudantes universitrios, e dos
poucos casais que moravam em Arapahoe Street s uma pequena percentagem tinha filhos. Wendy apercebera-se da existncia de uns doze adolescentes que frequentavam
o liceu, trs bebs, e mais ningum.
        Me, porque  que o pap perdeu o emprego?
Wendy viu-se arrancada do seu devaneio,  procura de uma
resposta. Ela e Jack tinham discutido as maneiras de tornear este assunto junto de Danny, e essas maneiras iam desde a fuga at  verdade nua e crua. Mas Danny nunca
fizera perguntas. At agora, numa altura em que Wendy se sentia em baixo e pouco preparada para uma pergunta destas. No entanto, Danny fitava-a, apercebendo-se
talvez da sua confuso e formulando hipteses. Wendy pensava que, aos olhos das crianas, os assuntos e os actos dos adultos deveriam parecer enormes e terrveis
como animais ferozes nas sombras de uma floresta escura. As crianas eram manipuladas como marionetas e tinham apenas uma vaga noo da razo de ser das coisas.
Este pensamento deixou-a de novo  beira das lgrimas, e, enquanto lutava para afast-las, inclinou-se, apanhou a prancha e voltou--a nas mos.
O teu pai  que orientava o grupo de discusso. Lembras-
-te disso?
Lembro-me. Discusses a brincar, no era?  respondeu
Danny.
Exactamente.
Wendy revirava a prancha, ao mesmo tempo que olhava para a marca (speedoglide) e para as estrelas azuis estampadas nas abas, e deu consigo a contar toda a verdade
ao filho.
Havia um rapaz chamado George Hatfield que o pap
teve de tirar do grupo. Porque no era to bom como os outros.
George foi dizer que o pap o tirara do grupo porque no gos
tava dele e no porque ele no fosse bom. Foi ento que George
fez uma coisa feia. Creio que sabes o que foi.
Foi ele que furou os pneus do nosso automvel?
22
        Foi. Foi depois das aulas e o pap apanhou-o em fla
grante.
Nesta altura, Wendy hesitou de novo, mas agora no era possvel fugir ao assunto. Restava-lhe dizer a verdade ou mentir.
O pap... por vezes faz coisas de que vem a arrepender-se
mais tarde. Por vezes no pensa como devia. Isso no acontece
muitas vezes, mas acontece.
Ele bateu no George Hatfield como daquela vez em que
eu lhe espalhei os papis?
Por vezes...
(Danny com o brao engessado)
... ele faz coisas de que vem a arrepender-se mais tarde.
Wendy pestanejou com fora, evitando as lgrimas.
        Mais ou menos assim, querido. O pap bateu em George
para impedir que ele continuasse a furar os pneus e George
agrediu-o na cabea. Ento os homens que mandam na escola
disseram que George nunca mais poderia frequentar a escola e
que o pap nunca mais poderia ensinar l.
Wendy calou-se, sem palavras, esperando, aterrorizada, uma torrente de perguntas.
        Oh  disse Danny, voltando a fitar a rua.
Aparentemente o assunto estava encerrado. Se  que poderia
estar encerrado de uma maneira to fcil para ela... Wendy levantou-se.
Vou a casa beber uma chvena de ch. Queres uns boli
nhos e um copo de leite?
Acho que vou  procura do pai.
No acredito que ele volte antes das cinco horas.
Talvez venha mais cedo.

Talvez  concordou Wendy.  Talvez.
Ia j a meio caminho quando o ouviu chamar:
Me!
O que , Danny?
Quer ir viver para aquele hotel, no Inverno?
E agora, qual das quinhentas respostas possveis daria ela quela pergunta? De acordo com o que sentia na vspera, de noite ou esta manh? Eram respostas completamente
diferentes, cujo espectro ia do rosa-claro ao negro-cerrado.
Se for o que o pap quer,  tambm o que eu quero 
respondeu.  E tu?
Acho que tambm quero  respondeu Danny por fim.
? Aqui no tenho muita gente com quem brincar.
23
Sentes a falta dos teus amigos, no sentes?
s vezes sinto a falta de Scott e Andy. De mais ningum.
Wendy voltou atrs e beijou-o, revolvendo-lhe o cabelo louro, que comeava a perder o tom claro de beb. Era um rapazinho to solene que, por vezes, ela pensava
como lhe seria possvel sobreviver com uns pais como ela e Jack. As grandes esperanas com que tinham comeado ruram quando se haviam mudado para este apartamento
desagradvel, numa cidade que no conheciam. A imagem de Danny com o brao partido ergueu-se de novo diante dela. Algum dos Servios de Colocao da Divina Providncia
cometera um erro, e s vezes Wendy temia que esse erro nunca fosse corrigido e que o inocente que estava mais  mo viesse a pagar por ele.
No vs para a estrada, querido  disse Wendy abraan
do-o com fora.
No vou, me.
Wendy voltou para casa e entrou na cozinha. Preparou o bule e ps uns biscoitos num prato para o caso de Danny resolver vir a casa enquanto ela estava deitada.
Sentada  mesa, com uma grande chvena de porcelana na frente, espreitou-o atravs da janela, ainda sentado na beira do passeio, com asjeans e o bluso verde-escuro
da Escola Preparatria de Stovington, enorme, e a prancha a seu lado. As lgrimas que durante todo o dia tinham ameaado aparecer, irromperam ento numa torrente.
Wendy inclinou-se sobre os rolos de fumo aromtico que saa do bule e chorou. De tristeza e de desespero pelo passado, e de terror pelo futuro.
3
WATSON
Voc perdeu a cabea, dissera Ullman.
 Ora bem, aqui est a sua fornalha  disse Watson acendendo a luz do aposento escuro, a cheirar a mofo.
Era um homem musculoso, de cabelo louro e macio, camisa branca e calas verde-escuras. Abriu uma pequena grelha quadrada nas entranhas da fornalha e ambos espreitaram
l para dentro.
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        Aqui  a luz-piloto.
Um jacto forte de um tom azul-esbranquiado canalizou, com um som sibilante, uma fora destruidora, mas a palavra--chave, pensou Jack, era destruidora e no canalizou:
se algum metesse a mo ali dentro, ficaria com ela carbonizada em trs segundos.
Perdeu a cabea.
(Danny, ests bem?)
A fornalha ocupava todo o aposento, sem dvida o maior e o mais velho que Jack j vira.
        A luz-piloto tem uma caixa de segurana  explicou
Watson.  Aquele pequeno sensor mede o calor. Se o calor
descer abaixo de um certo ponto, toca um alarme nos seus apo
sentos. A caldeira fica do lado de l da parede. Vou lev-lo at
l.
Watson fechou a grelha com fora e conduziu Jack para as traseiras do corpo de ferro da fornalha, na direco de outra porta. O ferro irradiava um calor insuportvel,
e por qualquer razo Jack pensou num grande gato adormecido. Watson fez tilintar as chaves e assobiou.
Perdeu a...
(Quando regressou ao escritrio e viu Danny de p, sem nada vestido a no ser as calas do fato de treino, a sorrir, uma nuvem vermelha de raiva, erguendo-se lentamente,
ofuscara--lhe a razo. Pareceu-lhe que o processo mental fora lento mas tudo devia ter-se passado em menos de um minuto. Pareceu--lhe lento da mesma maneira que
alguns sonhos nos do a sensao de lentido. Os sonhos maus. Todas as portas e gavetas existentes no escritrio pareciam ter sido revolvidas durante a sua ausncia.
Armrios, a estante deslizante. Todas as gavetas tinham sido arrancadas. O seu manuscrito, a pea em trs actos que tinha vindo a criar a partir de uma pequena novela
que escrevera durante os seus tempos de estudante universitrio, estava espalhado no cho. Estava a beber uma cerveja e a fazer correces no segundo acto quando
Wendy veio dizer-lhe que o telefone era para ele, e Danny entornara o contedo da lata em cima das pginas. Talvez para ver a espuma. Para ver a espuma, para ver
a espuma, as palavras ecoavam-lhe na mente como o som de um piano desafinado, completando o ciclo da sua fria. Encaminhou-se resolutamente para o filho de trs
anos, que o olhava com um sorriso satisfeito pelo belo trabalho que acabara de fazer no escritrio do pai; Danny comeou a
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dizer qualquer coisa e foi ento que ele lhe agarrou na mo e lha torceu para o obrigar a largar a borracha e o lpis que tinha na mo. Danny comeara a chorar...
No... No... Para dizer a verdade... comeara a gritar. Era to fcil recordar tudo o que se passara no meio daquela cegueira de fria, daquele som de piano desafinado.
Algures, Wendy perguntou o que se passava. A sua voz esmoreceu, abafada por aquela espcie de nvoa interior. Foi isto o que se passou entre eles os dois. O pai
obrigou Danny a dar uma reviravolta para lhe bater, os seus dedos de adulto cravados no brao magro do rapazinho, contornando-o at formarem um punho fechado, e
o estalo do osso partido no fora sonoro, fora IMENSO, mas no sonoro. Apenas o som de uma fenda na nvoa avermelhada, como que provocada por uma seta  mas em
vez de deixar entrar o sol, aquele som deixava entrar as nuvens escuras da vergonha e do remorso, do terror, da agonizante convulso do esprito. Um som ntido com
o passado de um lado e o futuro do outro, um som como uma ponta de lpis a partir-se ou um graveto que se quebra em cima do joelho. Do outro lado, um momento de
estranho silncio, talvez a respeito do futuro prximo, do resto da sua vida. Ao ver o rosto de Danny mudar de cor at ficar plido como um queijo, ao ver os seus
olhos, sempre grandes, tornarem-se ainda maiores e baos, Jack pensou que o mido ia cair morto na poa de cerveja e de papis; a sua prpria voz, fraca e arrastada,
tentando afastar tudo aquilo, encontrar uma maneira de evitar aquele som no muito forte do osso a quebrar-se e voltar ao passado  a casa tinha uma atmosfera prpria?
 perguntando: Danny, ests bem? Danny respondeu com um grito, depois Wendy apareceu junto deles, ofegante, e viu o ngulo peculiar que o brao de Danny formava
no stio do cotovelo; aquilo no era um brao normal. O seu grito ao tomar o filho nos braos, e um balbuciar absurdo: Oh, meu Deus, Danny, oh, meu Deus, o teu
pobre bracinho. E Jack estava ali, embasbacado, estupefacto, tentando entender como aquilo acontecera. O seu olhar cruzou-se com o de Wendy e viu que a mulher o
odiava. No lhe ocorreu o que o dio poderia significar em termos prticos. S mais tarde compreendeu que ela poderia t-lo deixado naquela noite, ido para um motel,
pedir o divrcio na manh seguinte, ou chamado a polcia. Reparou apenas que a mulher o odiava e sentiu-se abalado por isso, sozinho. Sentiu-se terrivelmente mal.
Era assim como se estivesse a ver a morte aproximar-se. Ento Wendy correu para o telefone
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e ligou para o hospital, com o filho nos braos, a chorar, e Jack no foi atrs dela, limitou-se a ficar no seu escritrio em runas, a cheirar a cerveja e a pensar...)
Voc perdeu a cabea.
Esfregou a boca com as mos, com fora, e seguiu Watson at  casa das caldeiras. Estava hmido ali, mas no era s a humidade a responsvel por aquelas gotculas
de suor doentio que lhe cobriam a fronte, o estmago e as pernas. Era a recordao, era uma coisa que fazia com que aquela noite de h dois anos parecesse ter apenas
duas horas. Os acontecimentos no tinham ficado prisioneiros do tempo. Traziam de novo a vergonha e a repulsa, a sensao de no ter valor nenhum, e aquele sentimento
que o obrigava sempre a beber, e o desejo de beber desesperava-o ainda mais  alguma vez teria uma hora, no uma semana ou um dia, mas apenas uma hora de viglia
em que a nsia de beber no o apanhasse assim de surpresa?
        A caldeira  anunciou Watson.
Tirou do bolso um leno encarnado e azul, assoou-se com um ronco decidido, e voltou a guard-lo depois de uma esprei-tadela rpida para verificar se trouxera alguma
coisa interessante.
A caldeira estava assente em quatro blocos de cimento. Era um grande tanque de metal, de forma cilndrica, revestido de cobre e com alguns remendos. Estava encaixada
numa confuso de tubos e de condutas que seguiam em ziguezague at ao tecto de teias de aranha. A direita de Jack viam-se dois tubos que atravessavam a parede,
vindos da fornalha da sala ao lado.
        Esta  a vlvula da presso.  Watson deu-lhe uma pan-
cadinha.  Em quilos por centmetro quadrado, note bem.
Creio que voc sabe disso. Agora pu-la a cem porque os quartos
so um pouco frios de noite. Alguns hspedes queixam-se. De
qualquer modo,  preciso serem doidos para virem para aqui
em Setembro. Alm disso, isto  como se fosse um beb j
velho. Tem mais remendos do que a bata de um asilado.
Watson puxou de novo o leno de assoar. Outro ronco. Outra espreitadela. Tornou a guard-lo.
        Apanhei um raio de uma constipao...  disse, para fa
zer conversa.  Em Setembro apanho sempre uma. Tenho de
aguentar esta puta e depois ir l para fora cortar a relva ou
aparar aquele campo de roque. Apanha frio e arranja uma cons
tipao, j a minha velha me o dizia. Que Deus a abenoe, j
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morreu h seis anos. De cancro. Uma vez que o cancro se apodera de ns, podemos comear a tratar do testamento.
Mantenha a presso a no mais de cinquenta, sessenta talvez. O senhor Ullman diz para aquecermos a ala oeste num dia, a ala central no dia seguinte e a ala leste
no outro dia. No  doido? Odeio aquele chato. Bl-bl-bl todo o santo dia, parece um daqueles ces pequenos que nos mordem as canelas, depois desatam a correr
e mijam na carpete. Se o crebro tivesse plvora l dentro, ele no podia nem assoar-se.  pena que vejamos certas coisas quando no temos uma arma connosco.
Repare. Estas bocas abrem e fecham puxando estes aros. Marquei-os todos para voc no se enganar. Os terminais azuis correspondem a todos os quartos da ala leste,
os vermelhos aos da ala central e os amarelos aos da ala oeste. Quando voc acender o aquecimento na ala oeste no se pode esquecer que essa  a zona do hotel mais
batida pelo tempo. Quando neva, aqueles quartos ficam frios como uma mulher frgida com um cubo de gelo nas entranhas. Nos dias em que aquece a ala oeste pode pr
 vontade a presso nos oitenta. Eu punha, de qualquer modo.
        Os termostatos l em cima...  comeou a dizer Jack.
Watson abanou a cabea com veemncia, fazendo balouar o
cabelo fofo.
        No esto ligados. Esto ali apenas para vista. Alguns
destes tipos da Califrnia no se sentem bem enquanto no mal
dito quarto no h calor suficiente para fazer crescer uma pal
meira. Todo o calor vem dali. Voc tem de vigiar a presso.
Est a v-la a subir?
Jack deu uma pancadinha com a mo no mostrador principal, que subira de cem para cento e duas polegadas enquanto Watson se entregava ao seu solilquio. Subitamente
sentiu um arrepio nas costas e pensou: Este tipo caminha sobre a minha sepultura. Em seguida, Watson fez rodar a torneira da presso e desligou a caldeira. Ouviu-se
um forte silvo e a agulha voltou aos noventa e um. Watson fechou a vlvula e o silvo calou-se com relutncia.
        Ela sobe com facilidade  disse Watson.  V algum
dizer isto quele chato do Ullman. Ele puxa dos livros das con
tas e passa trs horas a demonstrar como conseguiremos di
nheiro para comprar uma caldeira nova antes de mil novecen
tos e oitenta e dois. Garanto-lhe que isto algum dia ainda vai
tudo pelos ares, e s espero que seja aquela besta a conduzir o
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fogueto. Meu Deus, quem me dera ter bom corao como a minha me. Via o bem em toda a gente. Eu sou mesquinho como uma cobra com doena de pele. Mas o que hei-de
fazer? Um homem no pode fugir  sua natureza.
Voc no se pode esquecer de que tem de vir aqui abaixo duas vezes por dia e uma vez  noite antes de se deitar. Tem de vigiar a presso. Se se esquecer, ela subir
de tal maneira que, no outro dia, voc e a famlia acordam na Lua. Desligue-a durante algum tempo e no ter problemas.
Qual  o limite mximo?
Ora, ela marca at aos duzentos e cinquenta, mas isto
explodiria tudo muito antes de ela atingir esse valor. Ningum
me obrigaria a ficar aqui se ela subisse at aos cento e oitenta.
No desliga automaticamente?
No. Isto foi construdo antes de essas coisas serem obri
gatrias. Hoje em dia, o Governo Federal est metido em tudo,
no  verdade? O FBI abre as cartas, a CIA faz escutas telefni
cas... E olhe o que aconteceu ao Nixon. No foi uma triste
figura? Mas se voc vier aqui de vez em quando e verificar a
presso, tudo correr bem. E no se esquea de manter estas
bocas como ele quer. No leve a temperatura dos quartos mui
to acima dos vinte e um graus, a menos que o Inverno seja
particularmente frio. Quanto aos seus aposentos, pode aquec-
-los como quiser.
E as canalizaes?
        Ora bem, ia mesmo falar-lhe nisso. Por baixo deste arco.
Passaram para uma sala rectangular, que parecia no ter fim.
Watson puxou um cordo, e uma lmpada de setenta e cinco velas projectou uma luz trmula e doentia no aposento em que se encontravam. Mesmo em frente ficava o fundo
do fosso do elevador. Viam-se pesados cabos lubrificados enfiados em roldanas de seis metros de dimetro e um motor enorme, bem oleado. Por toda a parte havia jornais
amontoados, atados, encaixotados. Noutras caixas de carto lia-se Registos, Facturas ou Recibos. Livra! A atmosfera era desagradvel, cheirava a mofo. Algumas das
caixas de carto estavam rasgadas e largavam pelo cho folhas de papel muito fino que talvez tivessem uns vinte anos. Jack olhou  volta, fascinado. Toda a histria
do Over-look poderia estar ali, enterrada naquelas caixas de carto apodrecido.
         uma chatice para manter este elevador a funcionar 
disse Watson, apontando com o dedo.  Eu sei que o Ullman
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anda a comprar o fiscal do Estado com uns quantos jantares para ele no vir c ver isto. Agora temos aqui o ncleo central das canalizaes.
Na frente deles viam-se cinco grandes condutas, todas elas revestidas de material isolante e envolvidas em cintas de ao, que subiam na direco da parte escura
da sala, at perder de vista.
Watson apontou para uma prateleira cheia de teias de aranha ao lado do cabo de servio, onde se via um monte de trapos engordurados e uma anilha solta.
Ali est todo o esquema das canalizaes  disse.  No
me parece que voc venha a ter problemas de fugas. Pelo me
nos nunca aconteceu. Mas s vezes as condutas gelam. A nica
maneira de evitar que isso acontea  rodar as torneiras ligeira
mente, durante a noite, mas h mais de quatrocentas neste mal
dito palcio. Aquele maricas l em cima ficaria possesso
quando visse a conta a gua. No acha?
Eu diria que se trata de uma anlise particularmente as
tuta.
Watson olhou para ele com admirao.
        Voc  mesmo um tipo culto, no ? Fala como um livro
aberto. Admiro as pessoas assim, desde que no seja nenhum
desses maricas. Muitos deles so. Sabe quem provocou aqueles
tumultos nas faculdades h uns anos atrs? Os homossexuais,
digo-lhe eu. Andam frustrados e tm de aliviar de qualquer
maneira, de vomitar tudo, como eles dizem. Que merda, no
sei o que vai ser do mundo. Bem, se ela gelar,  muito provvel
que seja neste cabo. Nada de calor, percebe? Se isso acontecer,
use isto.
Watson pegou num maarico cor de laranja, partido, e acendeu uma pequena chama.
Voc retira o isolamento at encontrar a tomada e deita-
-lhe calor para cima. Est a perceber?
Estou. Mas e se gelar uma conduta sem ser no ncleo de
utilizao?
Isso no acontecer se voc fizer o seu trabalho e mantiver
o local aquecido. De qualquer modo, voc no pode chegar s
outras condutas. No se preocupe com isso. No vai ter proble
mas. Este maldito stio... Cheio de teias de aranha! Mete-me
medo, palavra.
Ullman disse-me que o primeiro guarda de Inverno ma
tou a famlia e se suicidou.
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         verdade. Foi aquele tipo, o Grady. Era um mau actor,
apercebi-me disso logo que o vi. Sempre a rir-se, como se fosse
um co baboso. Foi na altura em que isto estava a comear e
que aquele porco do Ullman contrataria nem que fosse o Es-
trangulador de Boston se ele trabalhasse pelo ordenado m
nimo. Foi um guarda do Parque Nacional que os descobriu.
O telefone estava cortado. Estavam todos no terceiro andar, na
ala oeste, como pedras de gelo. O pior foram as meninas. Ti
nham seis e oito anos. Lindas como o sol. Oh, foi uma coisa
horrvel! Aquele Ullman dirige uma espelunca qualquer na
Florida, durante a estao baixa. Apanhou um avio para Den-
ver e depois alugou um tren para o trazer de Sidewinder at
aqui porque as estradas estavam cortadas. Um tren, j imagi
nou? Esmifrou-se para tentar manter o caso afastado dos jor
nais. E saiu-se muito bem, tenho de reconhec-lo. Saiu uma
pequena notcia no Detiver Post e,  claro, uma referncia no
obiturio daquele pasquim nojento que eles tm em Estes
Park, mas no houve mais nada. Muito bom, se considerarmos
a fama que este lugar conseguiu. Eu estava  espera que apare
cesse a algum reprter a remexer tudo e se servisse de Grady
como desculpa para pr a nu os escndalos.
        Que escndalos?
Watson encolheu os ombros.
        Todos os grandes hotis tm escndalos. Da mesma ma
neira que todos os grandes hotis tm um fantasma .Porqu?
Ora, porque entram umas pessoas e saem outras. s vezes,
umas morrem no quarto, com um ataque de corao, uma
trombose ou qualquer outra coisa. Os hotis so lugares de su
perstio. No h dcimo terceiro andar nem quarto nmero
treze, nem espelhos nas portas quando se entra, coisas desse
gnero. Ainda em Julho deste ano perdemos aqui uma senhora.
O Ullman teve de tomar conta do caso e garanto-lhe que conse
guiu.  para isso que lhe pagam vinte e dois mil dlares por ano
e, embora eu o deteste, acho que ele vale esse dinheiro. E que
algumas pessoas vm para aqui s para armar sarilho e eles
contratam um tipo como o Ullman s para limpar a porcaria
que elas fazem. Foi o caso desta mulher. Devia ter uns sessenta
anos (a minha idade!) com o cabelo pintado de roxo, como es
sas putas que andam por a, umas tetas a balouar, que lhe
chegavam quase at ao umbigo porque no usava soutien, as
pernas cheias de varizes, enormes, que faziam lembrar dois
mapas de estrada, com papada e os braos e as orelhas flcidas.
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E trazia aquele mido, que no tinha mais de dezassete anos, com o cabelo comprido at ao rabo e o sexo saliente como se estivesse enchido de jornais. Estiveram
aqui uma semana, dez dias talvez, e todas as noites era a mesma coisa. L em baixo, no Salo Colorado, ela bebia como se a Lei Seca fosse entrar em vigor no dia
seguinte e ele saboreava a nica garrafa de Olym-pia, fazendo-a durar. E ela contava anedotas e dizia coisas engraadas, e de cada vez que ela contava uma ele sorria
como se fosse um macacOj como se tivesse fitas atadas aos cantos da boca. S passados alguns dias  que nos apercebemos que cada vez lhe era mais difcil sorrir,
e sabe Deus aquilo em que tinha de pensar para conseguir endireitar a picha ao chegar  cama. Bem, depois iam jantar, ela ao lado dele, a cambalear, bbada que nem
um cacho, e ele a dar belisces s criadas e a rir-se para elas quando ela no estava a olhar. Bem, at fizemos apostas sobre o tempo que aquilo duraria. Watson
encolheu os ombros.
 ento que, uma noite, aparece a dizer que a sua mu
lher estava indisposta, o que significava que ela estava b
bada como em todas as outras noites desde que ali estavam, e
que ia buscar-lhe um remdio para o estmago. L foi, no pe
queno Porsche em que tinham vindo, e foi essa a ltima vez que
o vimos. Na manh seguinte, ela veio para baixo e fez o poss
vel por representar o seu papel, mas durante o dia foi ficando
cada vez mais plida, e Mister Ullman perguntou-lhe, de uma
maneira diplomtica, se queria que ele avisasse a polcia fe
deral, no fosse ele ter sofrido um acidente ou coisa parecida.
Ela virou-se para ele como uma gata. Que no, que no, que ele
era um bom volante, que ela no estava preocupada, que estava
tudo sob controlo, que ele voltaria para jantar. Naquela tarde
foi para o Salo Colorado por volta das trs e no jantou. Subiu
para o quarto por volta das dez e meia, e foi a ltima vez que a
vimos com vida.
O que aconteceu?
O juiz diz que ela tomou trinta comprimidos para dormir
por cima da bebida. O marido apareceu no dia seguinte, um
advogado influente qualquer, de Nova Iorque. Deu ao velho
Ullman quatro vises diferentes do inferno. Que ia processar
este e aquele e que, quando estivesse farto, o outro no teria
nem uma camisa para vestir. Mas Ullman, interesseiro como ,
conseguiu acalm-lo. Talvez tenha perguntado quele impor-
tanto se gostaria de ver a mulher escarrapachada nos jornais
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de Nova Iorque: Mulher de advogado famoso de Nova Iorque encontrada morta com a barriga cheia de comprimidos. Depois de andar a brincar s escondidas com Um mido
que podia ser neto dela. A polcia federal descobriu o Porsche nas traseiras daquela espelunca em Lyons, que est aberta toda a noite, e Ullman teve de mexer os
cordelinhos para conseguir que o devolvessem ao advogado. Depois, andaram os dois atrs do velho Archer Houghton, o juiz federal, e conseguiram que ele alterasse
o veredicto para morte acidental. Um ataque de corao. Agora o velho Archer anda de Chrysler. No o censuro. Um homem tem de se defender, especialmente quando
comea a entrar na idade.
Nesta altura, o leno de assoar saiu outra vez. Um ronco. Uma espreitadela. De novo na algibeira.
        Ento o que vem a acontecer? Uma semana mais tarde,
uma estpida de uma criada de quarto, chamada Delores
Vickery, que estava a arrumar o quarto em que aqueles
dois tinham ficado, d um grito e desmaia. Quando vem
a si, diz que viu a mulher morta na casa de banho, nua den
tro da banheira. Estava muito corada e a arfar, a rir-se para
mim, disse ela. Ento Ullman pagou-lhe dois meses de
ordenado e disse-lhe que desaparecesse. Pelas minhas contas,
talvez j tenham morrido neste hotel quarenta a cinquenta
pessoas desde que o meu av o inaugurou, em mil novecentos e
dez.
Watson lanou a Jack um olhar arguto.
Sabe como morre a maior parte? Com ataques de corao
ou tromboses, quando esto a foder a mulher que os acompa
nha.  do que estes hotis tm muito, tipos velhos que querem
fazer uma ltima tentativa. Vm aqui para as montanhas para
fingir que tm vinte anos outra vez. Por vezes soa qualquer
coisa, e nem todos os tipos que estiveram  frente deste hotel
foram to bons como o Ullman para afastar as notcias dos jor
nais. Por isso o Overlook tem uma certa fama, isso tem. Aposto
que o Biltmore, em Nova Iorque, tambm tem fama do
mesmo, se perguntarmos a certas pessoas.
Mas no h fantasmas?
Senhor Torrance, tenho trabalhado aqui toda a minha
vida. Brinquei aqui em criana quando tinha a idade do seu
filho naquela fotografia que voc me mostrou. Nunca vi ne
nhum fantasma. Tem de voltar para trs comigo. Vou mostrar-
-lhe a arrecadao.
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        Est bem.
Quando Watson se preparava para apagar a luz, Jack observou:
Deve haver muitos papis ali.
Oh, claro que h. At parece que j tm mais de mil anos.
Jornais, facturas antigas, guias de remessa e sabe-se l mais o
qu. O meu pai costumava guard-los, quando tnhamos o ve
lho forno de lenha, mas agora eles j no ligam nenhuma a isso.
Qualquer dia tenho de chamar um rapaz que os leve para Side-
winder e os queime. Se o UUman aguentar a despesa. Creio que
o far, se eu protestar bastante.
Ento h ratos?
Sim, acho que h alguns. Arranjei as ratoeiras e o veneno
que o Ullman quer que voc ponha aqui e no sto. Tenha
cuidado com o seu mido, senhor Torrance. Com certeza que
no quer que lhe acontea nada.
No, claro que no.
Vindo de Watson, o conselho no o irritava. Encaminharam-se para as escadas e pararam por instantes, para Watson se assoar mais uma vez.
Encontrar ali todas as ferramentas de que precisa e ou
tras que nem imagina. E h as telhas. O Ullman no lhe falou
nisso?
Falou. Ele quer que parte da ala oeste do telhado leve
telhas novas.
Ele h-de extorquir de si o mais que puder, aquele porco,
e depois, na Primavera, comea a lamuriar-se e a dizer que voc
no fez o trabalho bem feito. Eu j lho disse uma vez na cara.
Disse-lhe que...
As palavras de Watson adquiriram uma tonalidade agradvel enquanto subiam as escadas. Jack Torrance olhava por cima do ombro para aquela obscuridade impenetrvel
e bafienta e pensou que, se houvesse um stio povoado de fantasmas, seria este. Pensou em Grady, isolado pela neve macia e implacvel, enlouquecendo em silncio
e cometendo atrocidades. Perguntou a si prprio se eles teriam gritado. Pobre Grady, sentindo-se cada dia mais isolado e sabendo que a Primavera nunca chegaria para
ele. No devia ter ido para ali. E no devia ter perdido a cabea.
Enquanto seguia Watson, as palavras ecoavam na sua mente como um toque a finados, acompanhado de um estalido forte,
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como o da ponta de um lpis a partir-se. Meu Deus, tinha de beber qualquer coisa..
           4     -
NO PAS DAS SOMBRAS  :
Danny despertou dos seus pensamentos e foi tomar o leite e os bolos s quatro e um quarto. Devorou-os enquanto olhava pela janela e depois foi dar um beijo  me,
que estava deitada. Ela sugeriu-lhe que ficasse em casa a ver a Sesame Street  assim o tempo passaria mais depressa , mas ele abanou a cabea com firmeza e voltou
para o seu lugar na beira do passeio.
Eram agora cinco horas e, embora no tivesse relgio e ainda no soubesse muito bem ver as horas, tinha a noo da passagem do tempo atravs do comprimento das
sombras e do matiz dourado que coloria agora a luz da tarde.
Voltando a prancha nas mos, cantava em surdina:
Salta para a minha, Lou, eu no me importo... Salta para a minha, Lou, eu no me importo... O meu amo foi-se embora... Lou, Lou, salta para a minha, Lou...
Era costume cantarem em conjunto aquela cano na escola infantil que frequentara em Stovington. Aqui, no fora para a escola infantil porque o pai no tinha dinheiro
para o pr l. Sabia que o pap e a mam estavam preocupados com isso, que aumentava ainda mais a sua solido (mais ainda, embora no se falasse no assunto, facto
pelo qual Danny os censurava), mas a verdade  que ele no queria voltar para aquela escola. Era uma escola para bebs. Ainda no era crescido, mas tambm j no
era um beb. Os midos crescidos vo para a escola dos crescidos e tm almoo quente. Na primeira classe. Para o ano que vem. Este ano ainda estava a meio caminho
entre um beb e um mido a srio. No tinha importncia. Sentia a falta de Miss Scott e de Andy  principalmente de Miss Scott , mas mesmo assim no tinha importncia.
Era prefervel esperar sozinho pelo que viesse a acontecer a seguir.
Ele compreendia muitas das coisas que se passavam com os
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pais, e sabia que eles no gostavam das suas percepes, alm de, muitas vezes, nem acreditarem nelas. Mas algum dia teriam de acreditar. Ele contentava-se em esperar.
Era pena que eles no acreditassem em mais coisas, especialmente em alturas como esta. A me estava deitada em casa, quase a chorar de preocupao pelo pai. Algumas
coisas que a preocupavam eram demasiado complicadas para Danny  coisas vagas, que tinham a ver com segurana, com a imagem que o pai tinha de si prprio, sentimentos
de culpa e de fria e medo do que seria deles , mas os dois assuntos mais importantes que preocupavam agora a me eram que tivesse acontecido alguma coisa ao
pai nas montanhas (caso contrrio, porque no telefonara?) ou que o pai tivesse ido fazer uma Coisa Feia. Danny sabia muito bem o que era uma Coisa Feia desde que
Scotty Aaronson, que era seis meses mais velho, lho explicara. Scotty sabia porque o pai dele tambm fizera uma Coisa Feia. Scotty contara-lhe que, uma vez, o pai
dele dera um soco num olho da me e aleijara-a muito. Por fim, o pai e a me de Scotty tinham-se divorciado por causa da Coisa Feia, e quando Danny o conhecera
Scotty vivia com a me e s via o pai aos fins-de--semana. O maior terror de Danny era o divrcio, uma palavra que sempre surgira na sua mente como um sinal pintado
de letras vermelhas cobertas de cobras venenosas, a assobiar. No divrcio, os pais deixavam de viver juntos. J tinham feito meno de brigar num campo (de tnis?,
de badminton? Danny no tinha a certeza de qual, ou se era de outro qualquer, mas a me e o pai tinham jogado tnis e badminton em Stovington; por isso podia ser
qualquer deles), e ele tinha de ir com um deles e praticamente nunca veria o outro, e aquele com quem ficasse poderia vir a casar com algum que ele nem sequer conhecia,
se lhe desse para isso. A coisa mais terrvel sobre o divrcio  que ele j sentira a palavra  ou conceito, ou fosse l o que fosse que ele entendera  a pairar
sobre a cabea dos pais, algumas vezes difusa e relativamente distante, outras vezes espessa, obscura e aterradora. Fora por isso que o pai o castigara por espalhar
os papis no escritrio dele e o mdico tivera de pr-lhe o brao em gesso. Essa recordao j se desvanecera, mas a recordao dos pensamentos sobre o divrcio
continuava a ser ntida e aflitiva. Daquela vez o perigo viera mais da me, e ele andara aterrorizado, temendo que a fosse buscar ao crebro e a pronunciasse, tornando-a
real. divrcio. Era uma recorrncia constante nos seus pensamentos, uma das
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poucas que ele podia sempre ir buscar, como o simples compasso da msica. Mas, tal como o compasso da msica, o pensamento central constitua apenas a espinha
dorsal de pensamentos mais complexos, pensamentos que ele no conseguia sequer interpretar, que chegavam at ele sob a forma de cores e apetites. Os pensamentos
sobre a me e o divrcio centravam--se naquilo que o pai lhe fizera ao brao, e no que acontecera em Stovington quando o pai perdera o emprego. Aquele rapaz. Aquele
George Hatfield que ficara furioso com o pai e lhe furara os pneus do carro. Os pensamentos sobre o divrcio do pai eram mais complicados, de um tom roxo-escuro
com veios negros assustadores. s vezes chegava a pensar que os pais ficariam melhor se ele se fosse embora. Que as coisas deixariam de os atormentar. O pai estava
quase sempre atormentado, sobretudo por causa da Coisa Feia. O pai quase poderia remediar aquilo tambm: iria para um stio s escuras, ver televiso e comer amendoins
de uma taa e fazer a Coisa Feia at que a cabea sossegasse e o deixasse em paz.
Mas naquela tarde a me no precisava de preocupar-se e ele gostaria de poder ir ao seu encontro e dizer-lho. O carro no tivera nenhuma avaria. O pai no estava
em lado nenhum a fazer a Coisa Feia. Estava quase a chegar a casa, vinha na auto-estrada entre Lyons e Boulder. De momento, o pai nem sequer vinha a pensar na Coisa
Feia. Vinha a ptnsar em... Em...
Danny lanou um olhar furtivo  janela da cozinha. Por vezes, de tanto pensar nas coisas elas quase aconteciam. Fazia com que as coisas  as verdadeiras  se afastassem,
e depois via coisas que no existiam. Uma vez, no muito tempo depois de lhe terem posto o brao em gesso, isto acontecera ao jantar. No estavam a conversar muito
uns com os outros. Mas estavam a pensar. Oh, sim. Os pensamentos sobre o divrcio pairavam sobre a mesa da cozinha como uma nuvem de chuva, negra, cheia, prestes
a rebentar. O ambiente era to mau que ele no conseguiu comer. O pensamento da comida aliado a toda aquela escurido do divrcio dava-lhe vontade de vomitar. E
porque aquilo parecera muito importante, ele concentrara-se e acontecera mesmo qualquer coisa. Quando ele voltou  realidade, estava cado no cho, cheio de feijes
e pur de batata em cima e a me pegava nele, a chorar, enquanto o pai estava ao telefone. Assustara-se, tentara explicar-lhes que estava a sentir-se bem, que
estas coisas lhe aconteciam s vezes
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quando ele se concentrava e empenhava em compreender para alm do que era normal nele. Tentou falar sobre Tony  a quem os pais chamavam o seu companheiro de brincadeiras
invisvel. O pai dissera:
        Ele est com uma Halu-Ssi-Nao. Parece estar bem, mas
de qualquer modo quero que ele seja visto pelo mdico.
Depois de o mdico sair, a me f-lo prometer que nunca mais voltaria a fazer aquilo, nunca mais a assustaria daquela maneira, e Danny concordou. Ele prprio ficou
assustado. Porque, ao concentrar-se, a sua mente fugira para o pai, e por instantes, antes de Tony aparecer (ao longe, como sempre acontecia, a cham-lo  distncia)
e as coisas estranhas terem dissipado a cozinha e o bife no prato azul, por instantes a sua conscincia mergulhara no universo obscuro do pai e descobrira uma palavra
incompreensvel, muito mais assustadora que divrcio: a palavra suicdio. Danny nunca mais penetrara na mente do pai, nem desejava faz-lo. Nem se importava de no
descobrir o que a palavra queria dizer exactamente.
Mas gostava de se concentrar, porque s vezes Tony aparecia. Nem sempre. s vezes as coisas tornavam-se confusas e sinuosas por instantes e depois esclareciam-se
 na maior parte das vezes, na verdade , mas outras vezes Tony aparecia no limite preciso da sua viso, a chamar e a acenar,  distncia...
Isto acontecera duas vezes desde que se tinham mudado para Boulder e Danny recordava-se como ficara admirado e satisfeito por verificar que Tony o seguira desde
Vermont. Afinal nem todos os seus amigos tinham ficado para trs.
Da primeira vez, Danny fora para o ptio das traseiras e no acontecera grande coisa. Apenas Tony a acenar, depois a escurido e instantes depois voltara  realidade,
com uns fragmentos difusos na memria, como se tivesse acordado de um sonho confuso. Da segunda vez, h duas semanas, fora mais interessante. Tony aparecera a acenar,
a chamar  distncia: Danny... Anda ver... Parecia que algum estava a pux-lo para cima, depois a cair num grande buraco, como Alice no Pas das Maravilhas. Em
seguida vira-se na cave da casa e Tony estava junto dele, apontando para o ba onde o pap guardava os papis importantes, especialmente a pea.
        Ests a ver?  dissera Tony, na sua voz musical e dis
tante.  Est debaixo das escadas. Os homens das mudanas
puseram-no mesmo ali... Debaixo... Das escadas.
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Danny aproximara-se para ver esta maravilha mais de perto e voltara a cair, desta vez do balouo que havia no ptio das traseiras, onde sempre estivera sentado.
Tambm conseguira afastar esta corrente de si prprio.
Trs ou quatro dias depois, o pap comeara a barafustar, a dizer  mam, furioso, que j dera a volta  maldita cave e que o ba no estava l e que ele ia processar
os malditos homens das mudanas que o tinham largado algures entre Vermont e o Colorado. Como havia ele de conseguir acabar a pea se estavam constantemente a acontecer
coisas como estas?
Danny disse-lhe:
        No, pap. O ba est debaixo das escadas. Os homens
das mudanas puseram-no mesmo debaixo das escadas.
O pap lanara-lhe um olhar estranho e fora ver. L estava o ba, precisamente onde Tony lho mostrara. O pap chamou-o, sentou-o no colo e perguntou-lhe quem o levara
 cave. Fora Tom, o vizinho de cima? A cave era perigosa, dissera o pap. Era por isso que o senhorio a tinha fechada  chave. Se algum deixara a porta aberta,
o pap queria saber. Ficara satisfeito por recuperar os seus papis e a sua pea, mas nada disso teria valor para ele, disse, se Danny tivesse cado das escadas
e partido... uma perna. Danny jurou a ps juntos ao pap que no estivera na cave. A porta estava sempre fechada  chave. E a me confirmou. Danny nunca ia para
as traseiras do prdio, que eram hmidas e escuras e tinham teias de aranha. E ele no mentia.
Ento como soubeste, p?
Foi Tony que me mostrou.
A me e o pai trocaram um olhar sobre a sua cabea. Isto j acontecera antes, de vez em quando. Como era um assunto assustador, varreram-no rapidamente da mente.
Mas Danny sabia que eles estavam preocupados com Tony, em especial a mam, e ele tinha o cuidado de pensar de maneira que Tony no aparecesse num stio onde ela
tambm estivesse. Mas agora sabia que a mam estava deitada e concentrou-se para ver se conseguia perceber aquilo em que o pap andava a pensar.
Franziu o sobrolho e fechou as mos com fora. No fechou
os olhos  no era preciso , mas semicerrou-os e imaginou a
voz do pai, a voz de Jack, de John Daniel Torrance, profunda e
firme, subindo ou descendo de tom consoante estava bem-
-disposto ou zangado ou tornando-se firme porque estava a
pensar. A pensar. A pensar. A pensar...        -:,
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(a pensar)
Danny suspirou e o seu corpo caiu da beira do passeio como se os msculos tivessem desaparecido. Estava totalmente consciente. Viu a rua e o menino e a menina que
seguiam no passeio do outro lado, de mos dadas, porque estavam (apaixonados?) to contentes com o dia que estava e consigo prprios. Viu as folhas de Outono resvalando
ao longo da goteira, como carroas amarelas de forma irregular. Viu a casa em que viviam e reparou que o telhado estava coberto de
(telhas. Creio que no haver problema se as luzes est bem sim est bem. aquele watson. meu deus que feitio, quem me dera que houvesse lugar para ele na pea. vou
acabar com a maldita raa humana se no tiver cuidado, sim. telhas, aquilo ali so pregos? oh merda esqueci-me de lhe perguntar se se tiram com facilidade, o armazm
de sidewinder. vespas, esto afazer ninho nesta altura do ano. podia comprar um daqueles insecticidas no caso de haver algumas quando eu tirar as telhas velhas,
telhas novas, velhas) telhas. Ento era nisso que o pap estava a pensar. Conseguira o emprego e estava a pensar nas telhas. Danny no sabia quem era Watson, mas
agora tudo lhe parecia claro. E conseguia mesmo ver um ninho de vespas. To certo como se chamar
        Danny... Danee...
Levantou o olhar, e l estava Tony, na rua, ao longe, ao lado de um semforo, a dizer adeus. Como sempre, Danny sentiu-se inundado por uma onda de prazer ao ver
o amigo, mas desta vez sentiu tambm um certo medo, como se Tony trouxesse a escurido atrs de si. Um frasco cheio de vespas que, uma vez soltas, o picariam muito.
Mas no estava em questo ir ao seu encontro.
Danny saltou pesadamente da beira do passeio, as mos escorregaram-lhe inertes ao longo do corpo, baloiando. Baixou a cara at o queixo lhe tocar no peito. Depois,
sentiu um impulso fraco, indolor, que parecia vir de dentro de si e correu ao encontro de Tony, na escurido.
        Danne...
Agora a escurido fora invadida por uma brancura on
dulante. Um som que lembrava uma tosse seca e sombras tor
turadas dissolviam-se na escurido dos pinheiros, empurradas
por um vento sibilante. A neve rodopiava e danava. Havia
neve por todo o lado.        i     
         demasiado fundo  disse Tony, no escuro.
Havia na sua voz uma tristeza que aterrou Danny.
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         demasiado fundo para se sair daqui.
Outro vulto. Terrvel, ameaador. Grande, de forma rectangular. Um telhado inclinado. Manchas brancas na escurido da tempestade. Muitas janelas. Um grande edifcio
com telhado de telhas. Algumas telhas eram mais novas que outras. Fora o pai que as pusera. Com pregos vindos do armazm de Sidewin-der. Agora a neve cobria as telhas.
Cobria tudo.
Uma luz esverdeada, demonaca, brilhou na frente do edifcio e transformou-se numa caveira gigant esca, a sorrir, sobre dois ossos cruzados.
        Veneno. Veneno  disse Tony, emergindo da escurido
ondulante.
Outros sinais desfilaram diante dos olhos de Danny, alguns em letras verdes, outros em tabuletas cadas sobre montes de neve.  proibido nadar, perigo, cabos de
electricidade, 
PROIBIDO ENTRAR NESTA PROPRIEDADE. ALTA TENSO. TERCEIRA FAIXA. PERIGO DE MORTE. NO SE APROXIME. NO PASSE DESTA ZONA.  OS INFRACTORES SERO ABATIDOS A TIRO.
Danny
no compreendia inteiramente nenhum deles  no sabia ler! , mas apercebia-se do seu significado e, como que em sonhos, sentia-se envolvido num terror profundo,
como um rebento castanho-dourado que morre ao ver a luz do Sol.
Os sinais desvaneceram-se. Agora Danny via-se num quarto
com uma moblia muito estranha. Um quarto escuro. A neve
batia nas vidraas como se algum estivesse a atirar areia. Dan
ny tinha a boca seca, os olhos pareciam berlindes incandescen
tes e o corao saltava-lhe no peito. L fora ouvia-se um rudo
cavo, forte e prolongado, como uma porta medonha que se
abre de repente. Passos. Do outro lado do quarto havia um
espelho e, em baixo, junto da moldura prateada, surgiu uma s
palavra, com letras de fogo, e essa palavra era:
OINISSASSA
O quarto desapareceu. Outro quarto. Ele conhecia        
(viria a conhecer)
este. Uma cadeira tombada. Um vidro da janela partido e a neve a entrar em rodopios. J gelara o canto da carpeta. Os cortinados tinham sido arrancados e pendiam
do varo partido. Um pequeno armrio de pernas para o ar.
Mais rudos fortes e prolongados, compassados, horrveis. Vidros a partirem-se. O aproximar da destruio. Uma voz rouca, a voz de um louco, tornada ainda mais terrvel
pela sua familiaridade:
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Sai! Sai, verme! Toma o teu remdio!
Pum. Pum. Pum. Madeira a despedaar-se. Um rugido de fria e satisfao. OINISSASSA. A aproximar-se.
 deriva pelo quarto. Quadros arrancados das paredes. Um gira-discos
(o gira-discos da me?)
tombado no cho. Os discos dela, Grieg, Handel, os Beatles, Art Garfunkel, Bach, Liszt, espalhados por todo o lado. Feitos em pedaos. Um feixe de luz vindo de outra
diviso, a casa de banho, uma luz branca e agreste e uma palavra a aparecer e a desaparecer no espelho do armrio dos medicamentos, como se fosse um olho vermelho,
OINISSASSA, OINISSASSA, OINISSASSA...
 No  sussurrou Dany.  No, Tony, por favor.
E, balouando na beira da banheira de porcelana branca, uma mo. Aleijada. Um pequeno fio de sangue a escorrer por um dedo, o do meio, e a cair da unha cuidadosamente
modelada para o mosaico.
No, oh, no, oh, no!
(oh, Tony, por favor, ests a assustar-me)
OINISSASSA OINISSASSA OINISSASSA.
(pra, Tony, pra)
Comea a desaparecer.
Na escurido, os rudos tornam-se ainda mais fortes e ecoam por todo o lado.
Agora, Danny estava de ccoras num corredor escuro, sobre uma carpete azul com uma confuso de formas negras, ouvindo os rudos aproximarem-se, e agora surgia um
Vulto que comeava a encaminhar-se para ele, aos tombos, a cheirar a sangue e a destruio. Trazia um machado na mo, fazendo-o balouar (OINISSASSA) e descrevendo
crculos malvolos, batendo com ele na parede, rasgando o papel e arrancando pedaos de estuque de formas fantasmagricas:
Anda tomar o remdio! Toma-o como se fosses um homenzinho!
O Vulto avanava para ele, tresandando quele cheiro agridoce, gigantesco, a lmina do machado a cortar o ar com um silvo horrvel, depois o grande cabo oco a espetar-se
na parede, levantando uma poeira seca e sarnenta. Dois pequenos olhos vermelhos brilhavam no escuro. O monstro estava junto dele, descobrira-o, ali de ccoras,
com a parede branca por trs.
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Escurido. Deriva.
        Tony, leva-me daqui, por favor, por favor...
E Dartny voltou. Viu-se de novo sentado na beira do passeio de Arapahoe Street, com a camisa colada ao peito, com o corpo banhado em suor. Tinha ainda nos ouvidos
aquele barulho medonho e prolongado e apercebeu-se de que urinara no auge do terror. Via aquela mo aleijada pendurada na beira da banheira, com o sangue a escorrer
pelo dedo, o terceiro, e aquela palavra inexplicvel, muito mais horrvel do que qualquer outra: OINISSASSA.
Agora regressava  luz do dia.  realidade. Excepto no caso de Tony, agora a seis quarteires de distncia, apenas uma mancha na esquina, dizendo com uma voz fraca,
aguda e terna:
        Tem cuidado, p...
Depois, logo a seguir, Tony desapareceu e o velho automvel do pai apareceu ao dobrar da esquina e comeou a subir a rua, a custo, soltando um fumo azulado. Num
segundo, Danny ps-se de p, aos saltos, a acenar e a gritar:
        Pap! Pap! Ol! Ol!
O pai encostou o VW ao passeio, desligou o motor e abriu a porta. Danny correu para ele e depois ficou gelado, de olhos escancarados. Sentiu um n na garganta, como
se o corao estivesse a sufoc-lo. Junto do pai, no banco ao lado, estava um machado de cabo curto, cuja lmina estava cheia de sangue e cabelos.
Afinal, era apenas um saco com compras.        >1
Danny... Ests bem, p?        !
Estou. Estou bem.        ;<?;
Foi ao encontro do pai, escondeu a cara no seu bluso forrado de pele e abraou-o com muita, muita fora. Jack abraou-o tambm, um pouco surpreendido.
Ouve l, no deves estar assim ao sol. Ests a escorrer
suor.
Acho que adormeci. Gosto muito de si, pap. Tenho es
tado  sua espera.
Eu tambm gosto muito de ti, Dan. Trouxe umas coisas.
Achas que j tens fora suficiente para as levares para cima?
Claro que sim!
Danny Torrance, o homem mais forte do mundo  disse
Jack, afagando-lhe o cabelo.  Que costuma adormecer  beira
do passeio.
Em seguida encaminharam-se para a porta de casa. A me
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viera at ao alpendre ao encontro deles e Danny ficou no segundo degrau vendo-os beijarem-se. Tinham ficado satisfeitos de se verem. O amor emergia deles como do
rapaz e da rapariga que Danny vira a subir a rua, de mos dadas. Danny sentiu-se satisfeito.
O papel do saco das compras  apenas um saco de compras  estalou-lhe nas mos. Estava tudo bem. O pai estava em casa. A me amava-o. Estava tudo a correr bem.
E nem tudo o que Tony lhe mostrava acontecia sempre.
Mas o medo rondava-lhe o corao, um medo enorme e terrvel, e aquela palavra indecifrvel que vira no espelho da sua mente perseguia-o.
5
NA CABINA TELEFNICA
Jack estacionou o VW em frente do Rexall, no centro comercial Table Mesa, e deixou o motor ir abaixo. Perguntou a si prprio se no seria prefervel continuar a
andar e ir substituir a bomba do combustvel, mas voltou a reconhecer que no podiam fazer essa despesa. Se o carrinho continuasse a andar at Novembro, sairia
de cena com todas as honras. Em Novembro a neve aqui nas montanhas cobriria o tejadilho do carro... Cobriria talvez trs carros uns em cima dos outros.
Quero que fiques no carro, p. Trago-te um chocolate.
Porque no posso ir tambm?
Porque tenho de fazer um telefonema. E um assunto par
ticular.
 por isso que no o faz de casa?
Adivinhaste.
Wendy insistira na questo do telefone apesar de estarem mal de finanas. Argumentara que com uma criana pequena  em especial um rapazinho como Danny, que por
vezes tinha crises de desfalecimento  no se podiam permitir estar sem telefone. Foi a muito custo que Jack conseguiu pagar os trinta dlares de taxa de instalao
e uma cauo de noventa dlares, que doeu mesmo. E at agora o telefone mantivera-se mudo,  parte duas pessoas que se tinham enganado no nmero.
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Compras-me um Baby Ruth, pai?
Compro. Senta-te a sossegado e no brinques com o
volante, ests a ouvir?
Est bem. Fico a ver os mapas.
Isso mesmo.
Quando Jack se afastou, Danny abriu o porta-luvas e tirou os cinco mapas j gastos que o pai comprara no posto de gasolina: Colorado, Utah, Nebrasca, Wyoming e Novo
Mxico. Adorava ver os mapas de estrada e seguir os percursos com o dedo. Quanto a ele, os novos mapas era o que de melhor tivera a sua mudana para o Oeste.
Jack foi ao armazm, comprou o chocolate para Danny, um jornal e um exemplar do Writer's Digest de Outubro. Deu  empregada uma nota de cinco dlares e pediu-lhe
o troco em moedas de vinte e cinco cntimos. Com as moedas na mo, encaminhou-se para a cabina telefnica que ficava junto da mquina de fazer chaves e entrou.
Daquele stio, atravs de trs vidros, avistava Danny sentado no carro. O rapaz estudava atentamente os mapas. Jack foi invadido por uma ternura quase desesperada
pelo filho. A emoo estampou-se-lhe no rosto sob a forma de uma mscara de impenetrvel tristeza.
 claro que poderia ter feito de casa este telefonema obrigatrio de agradecimento a Al. Certamente no iria dizer-lhe nada que Wendy no pudesse ouvir. Mas o orgulho
recomendara-lhe que no o fizesse. Nos dias que iam correndo, quase sempre Jack escutava o que o orgulho lhe ditava porque, alm da mulher e do filho, uma conta
bancria de seiscentos dlares e um Volkswagen de 1968 j estafado eram tudo o que lhe restava do seu orgulho. Eram as nicas coisas que lhe pertenciam. At a conta
bancria era conjunta. No ano anterior estivera a dar aulas de ingls numa das melhores escolas preparatrias da Nova Inglaterra. Fizera amigos  embora no exactamente
os mesmos que tinha antes de se deitar  vida , alguns companheiros de folia, colegas de faculdade que admiravam a sua sobriedade nas aulas e a sua particular
devoo  escrita. As coisas tinham corrido muito bem durante seis meses. De repente, na altura de receber, de quinze em quinze dias, vira-se com dinheiro suficiente
para abrir uma conta de poupana. Nos tempos em que bebia nunca lhe sobrara nem um cntimo, embora com Al Shockley se tivesse passado o contrrio. Ele e Wendy comearam
a falar em arranjarem uma casa e darem uma entrada inicial no espao de um ano ou coisa assim. Uma
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casa de quinta no campo, que levaria seis ou oito anos a pagar, com os diabos!, mas eles eram novos, tinham tempo.
Depois, perdera a cabea.
George Hatfield.
Da esperana passara ao cheiro a couro antigo do gabinete de Crommert, como se fosse uma cena da sua pea: as fotografias dos antigos professores de Stovington penduradas
nas paredes, gravuras em ao da escola tal como fora em 1879, altura em que fora construda, e em 1895, quando o dinheiro de Vanderbilt lhes permitira construir
o edifcio que ainda existia na ala ocidental, junto do campo de futebol, slido, imenso, revestido de hera. Em Abril, o sussurro da hera entrava pela janela entreaberta
de Crommert, misturando-se com o rudo montono do vapor que se libertava do radiador. Aquilo no era cenrio, e Jack lembrava-se de que pensava nisso mesmo. Era
a realidade. A sua vida. Porque a deitara a perder to estupidamente?
A situao  grave, Jack. Muito grave. A direco encarregou-me de lhe comunicar a sua deciso.
A direco quisera que Jack se demitisse e este no pusera obstculos. Em circunstncias diferentes, ter-se-ia mantido at Junho.
O que se seguira quela entrevista no gabinete de Crommert fora a noite mais escura e mais horrvel da sua vida. Nunca como nessa altura sentira uma nsia, uma necessidade
to grande de se embriagar. Tinha as mos a tremer. Andava aos encontres s coisas. E queria a todo o custo esconder o que se passara de Wendy e Danny. O seu humor
assemelhava-se ao de um animal enraivecido prestes a rebentar a trela. Sara de casa com medo de agredir a mulher e o filho. Parara num bar, e a nica coisa que
o impedira de entrar fora o facto de saber que, se o fizesse, Wendy acabaria por deix-lo e levaria Danny. E no dia em que eles se fossem embora Jack morreria.
Em vez de entrar no bar, em que as sombras escuras saboreavam as doces guas do esquecimento, fora a casa de Al Shoc-kley. A direco votara seis contra um. O voto
contra fora de Al.
Ligou para a telefonista e pediu que, por um dlar e oitenta e cinco cntimos, o pusesse em contacto com Al, a duas mil milhas de distncia, por trs minutos. O
tempo  relativo, meu caro, pensou, e meteu na ranhura oito moedas. Mas conseguia ouvir os apitos da prpria ligao a estabelecer-se.
O pai de Al fora Arthur Longley Shockley, o baro do ao.
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Deixara ao seu nico filho, Albert, uma fortuna e uma imensidade de investimentos e de posies em direces e conselhos de administrao. Uma delas fora na Direco
da Escola Preparatria de Stovington, a preferida do velho. Tanto Arthur como Albert Shockley eram bacharis e Al vivia em Barre, suficientemente perto da escola
para se dedicar aos assuntos desta. Durante vrios anos Al fora o treinador de tnis da escola.
Jack e Al tinham-se tornado amigos da forma mais natural e sem qualquer coincidncia: nas festas da escola em que estavam presentes eram sempre os que mais se embriagavam.
Shockley estava separado da mulher, e o casamento de Jack estava a resvalar para o abismo, embora ele continuasse a gostar de Wendy e lhe tivesse prometido sinceramente
(e com frequncia) emendar-se, por ela e pelo filho, Danny.
Muitas eram as festas da escola de que saam os dois a percorrer os bares at fecharem, e depois, parando num supermercado, compravam uma grade de cerveja, que
esvaziavam, estacionados numa rua sem movimento. Houvera manhs em que Jack entrara em casa a cambalear, j depois do nascer do Sol, e fora dar com Wendy a dormir
no sof, com o filho ao colo  Danny estava sempre junto dela  de mozinha fechada debaixo do queixo da me. Ao v-los, Jack odiava-se e sentia na boca um gosto
mais amargo que o da cerveja, dos cigarros e dos martinis, dos marcianos, como Al lhes chamava. Era nestas alturas que a sua mente se fixava conscientemente numa
pistola, numa corda ou numa lmina de barbear.
Se a pardia tinha sido num dia de semana, dormia trs horas, depois levantava-se, vestia-se, engolia trs Excedrins e saa para dar a aula das nove sobre Poesia
Americana. Bom dia, meninos, hoje o Bonito de Olhos Vermelhos vai contar-vos como  que Longfellow perdeu a mulher no grande incndio.
Nunca se convencera de que era um alcolico, pensava Jack enquanto escutava o telefone de Al a tocar. As aulas a que faltara, ou que dera com a barba por fazer,
ainda a tresandar aos martinis da noite anterior, Eu no, eu posso parar a qualquer altura. As noites que ele e Wendy tinham dormido em camas separadas. Escuta,
eu estou bem. Os guarda-lamas amachuca-dos. Claro que estou bem para guiar. As vezes que Wendy se escondera na casa de banho, a chorar. Os olhares furtivos dos colegas
nas festas em que serviam lcool, ou mesmo vinho. A lenta percepo de que estavam a falar dele. A sensao de que no estava a produzir mais do que bolas de papel
em branco
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que acabavam no cesto dos papis. Fora uma espcie de revelao para Stovington, talvez um escritor americano que despontava lentamente, e decerto uma pessoa qualificada
para ensinar aquele grande mistrio que  a escrita de criao. Publicara duas dzias de contos. Estava a trabalhar numa pea e estava convencido de que andava a
forjar-se um romance num qualquer canto obscuro da sua mente. Mas agora no estava a produzir nada e as suas aulas tinham-se tornado irregulares.
E, naquela noite, h menos de um ms, acabara por partir o brao ao filho. Aquilo, parecia-lhe, fora o fim do seu casamento. S restava a Wendy fazer as malas...
e Jack sabia que, se a me dela no fosse uma grande cabra, Wendy teria voltado de autocarro para New Hampshire assim que Danny estivesse em condies de viajar.
J passara.
Fora pouco depois da meia-noite. Jack e Al vinham para Barre pela Estrada 31. Al vinha ao volante do seu automvel, inclinando-se perigosamente nas curvas, por vezes
atravessando mesmo o trao contnuo. Vinham ambos muito bbados  naquela noite, os marcianos tinham aterrado em fora. Chegaram  ltima curva antes da ponte
a setenta. Havia uma bicicleta de criana na estrada, depois ouviu-se um forte estampido, como se os pneus do automvel de Al estivessem a rasgar--se, e Jack lembrava-se
de ver o rosto de Al emergir do volante como se fosse uma lua cheia. Em seguida, o rudo do choque quando embateram na bicicleta a quarenta quilmetros  hora. A
bicicleta elevara-se no ar, como se fosse um pssaro ferido, o guiador embatera no pra-brisas e depois dera outra reviravolta no ar, deixando o vidro rachado diante
dos olhos arregalados de Jack. Pouco depois o estrondo final, horrvel, como se acabasse de aterrar na estrada, atrs deles. Qualquer coisa estalou debaixo dos
pneus. O automvel deu uma guinada, Al sempre ao volante, e  distncia Jack ouviu a sua prpria voz dizer:
 Meu Deus, Al. Ns atropelmo-lo. Eu senti.
Continuava a ouvir o telefone a tocar. V l, Al. V se ests em casa. Deixa-me acabar com isto.
Al meteu os traves a fundo a no mais de trinta centmetros do pilar da ponte. Dois dos pneus estavam em baixo. Tinham deixado no asfalto marcas de borracha queimada,
em ziguezague, num rasto de metro e meio. Os dois homens olharam um para o outro e depois comearam a correr, no meio daquela escurido.
A bicicleta ficara completamente espatifada. Faltava-lhe
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uma roda e, olhando por cima do ombro, Al avistou-a no meio da estrada. Tinha meia dzia de raios soltos como se fossem as molas de um piano. Al disse, hesitante:
Acho que o atropelmos, Jack, meu rapaz.
Ento, onde est o mido?
Tu viste um mido?
Jack franziu o sobrolho. Tudo se passara to rapidamente... Ao dar a curva. A bicicleta apareceu  luz dos faris. Al gritara qualquer coisa. Depois, seguira-se
a coliso e uma grande derrapagem.
Puseram a bicicleta na beira da estrada. Al voltou para o carro e acendeu os quatro faris. Passaram duas horas a esquadrinhar as bermas da estrada com uma lanterna
forte. Nada. Embora j fosse tarde, passaram vrios carros pelo Jaguar e pelos dois homens com a lanterna. Nenhum parou. Jack pensou mais tarde que, por um estranho
desgnio da Providncia, empenhada em dar-lhes uma ltima oportunidade, a polcia no tinha aparecido e nenhum dos automobilistas que passaram por ali a tinha chamado.
s duas e um quarto da manh voltaram para o Jaguar, sbrios mas estonteados.
        Se a bicicleta no levava ningum em cima, o que estaria a
fazer no meio da estrada?  perguntou Al.  No estava esta
cionada na berma, estava mesmo no meio da estrada!
Jack limitou-se a abanar a cabea.
Ningum responde do seu nmero  disse a telefonista.
 Quer que eu continue a tentar?
Mais um pouco, por favor. No se importa?
        No, senhor  respondeu a voz, impecvel.
V l, Al.
Al atravessara a ponte na direco do telefone mais prximo, telefonara a um amigo solteiro e prometeu-lhe que lhe pagaria cinquenta dlares se ele fosse buscar
 garagem os pneus de neve e lhos trouxesse  Estrada 31, na ponte  sada de Barre. O amigo apareceu vinte minutos depois, de jeans e casaco de pijama. Observou
a cena.
        Mataram algum?  perguntou.
Al estava j a levantar a parte de trs do carro com o macaco e Jack desapertava as porcas.
Ningum, graas a Deus  respondeu Al.
Creio que vou andando. Pagas-me amanh.
Est bem  disse Al sem olhar para ele.
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Os dois homens substituram os pneus sem incidentes e regressaram a casa de Al Shockley. Al meteu o carro na garagem e desligou o motor.
Na obscuridade silenciosa da casa, Al disse:
 Vou deixar de beber, Jacky, meu rapaz. Acabou. Acabo de eliminar o meu ltimo marciano.
E agora, a suar dentro desta cabina, Jack lembrou-se de que nunca duvidara da capacidade de Al para se desenvencilhar das situaes. Jack voltara para casa no seu
VW, com o rdio ligado, e um grupo musical cantava sem parar, qual talism, em casa, antes de amanhecer: F-lo de qualquer maneira... Tu queres faz-lo... F-lo
tal como queres... Apesar de ter ainda nos ouvidos o rudo dos pneus a rasgarem-se, o choque. Ao fechar os olhos viu aquela roda amolgada, cujos raios partidos
apontavam para o cu.
Quando entrou em casa, Wendy estava a dormir no sof. Foi espreitar ao quarto de Danny e viu o filho deitado no bero, a dormir profundamente, com o brao ainda
engessado.  luz coada que vinha da rua, viu no gesso alvo os riscos negros das assinaturas de todos os mdicos e enfermeiras do servio de pediatria.
Foi um acidente. Ele caiu das escadas.
( meu grande mentiroso)
Foi um acidente. Perdi a cabea
(bbado de um raio, grande pedao de trampa)
Ouam, palavra, foi apenas um acidente...
Mas o ltimo argumento foi afastado pela imagem daquele feixe de luz com que esquadrinhavam as ervas secas, naquela noite de fins de Novembro,  procura de um corpo
estendido que devia estar por ali,  espera da polcia. No era importante que Al fosse a conduzir. Houvera outras noites em que era ele que ia ao volante.
Tapou Danny, foi para o quarto e tirou uma Spanish Llama calibre trinta e oito da prateleira do armrio. Estava dentro de uma caixa de sapatos. Durante uma hora,
ficou sentado em cima da cama, com ela na mo, olhando-a, fascinado pelo seu brilho mortfero.
J nascera o Sol quando a ps de novo dentro da caixa que voltou a arrumar no armrio.
Naquela manh telefonou a Bruckner, o chefe do departamento, e pediu-lhe que se encarregasse de dar as suas aulas. Estava com gripe. Bruckner concordou, menos solcito
do que
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era costume. Neste ltimo ano, Jack Torrance andava muito susceptvel s gripes.
Wendy preparou-lhe ovos mexidos e caf. Comeram em silncio. O nico som provinha do ptio das traseiras, onde Danny brincava alegremente com os carrinhos no monte
de areia, com a mo boa.
Wendy foi lavar a loua. De costas para ele, disse:
Jack, estive a pensar.
Sim?
Jack acendeu um cigarro, com as mos a tremer. No estava com ressaca naquela manh, por muito estranho que isso parecesse. S as tremuras. Fechou os olhos. Nesse
instante de escurido a bicicleta embateu no pra-brisas, quebrando o vidro. Os pneus chiaram. O feixe de luz procurava.
Quero falar contigo sobre... Sobre o que ser melhor para
mim e para Danny. Para ti tambm, talvez. No sei. Acho que
j devamos ter falado nisto h mais tempo.
Fazes-me uma coisa?  pediu Jack, olhando para o fumo
ondulante do cigarro.  Fazes-me um favor?
O que ?
O tom de Wendy era montono e neutro. Jack olhou para a mulher, que estava de costas viradas para ele.
        Falaremos nisso daqui a uma semana. Se ainda te apete
cer.
Ento Wendy voltou-se para ele, com as mos cheias de espuma, e o seu belo rosto plido e desiludido.
        Jack, as tuas promessas no resultam. Voltas ao mesmo...
Calou-se, olhando-o nos olhos, fascinada, acometida de uma
sbita incerteza.
        Daqui a uma semana  disse Jack.
A sua voz perdera toda a fora e no passava agora de um murmrio.
        Por favor. No estou a prometer coisa nenhuma. Se
ainda quiseres falar nessa altura, falaremos. Sobre o que tu
quiseres.
Atravs da cozinha cheia de sol ficaram muito tempo a olhar um para o outro, e, quando ela se voltou de novo para o lava--loua sem dizer mais nada, Jack comeou
a tremer. Meu Deus, precisava de uma bebida. S de um golinho, para encarar as coisas segundo a sua verdadeira perspectiva...
        Danny contou-me que sonhara que tu tinhas tido um de
sastre de automvel  disse Wendy de repente.  Ele s vezes
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tem sonhos curiosos. Contou-me esta manh quando eu estava a vesti-lo. Tiveste, Jack? Tiveste algum desastre de automvel?
        No.
 tarde, a necessidade de uma bebida transformara-se num estado febril. Foi a casa de Al.
Bebeste?  perguntou Al antes de o mandar entrar.
Al estava com aspecto horrvel.
Estou seco at aos ossos. Tu pareces o Lon Chaney
Fantasma da pera.
Entra.
Estiveram a jogar s cartas toda a tarde. No beberam nada.
Passou-se uma semana. Jack e Wendy no falaram muito. Mas ele sabia que ela andava a vigi-lo, sem acreditar. Jack bebia caf e um sem-nmero de garrafas de coca-cola.
Uma noite bebeu seis coca-colas de uma vez e depois foi a correr para a casa de banho vomitar. O nvel das garrafas no bar no desceu. Depois das aulas ia a casa
de Al Shockley  Wendy odiava Al Shockley mais do que qualquer outra pessoa  e quando voltava para casa ela juraria que ele cheirava a usque ou a gim, mas ele
conversava com ela com lucidez. Antes de jantar bebia caf, brincava com Danny depois de comerem, partilhava com ele uma coca-cola, lia-lhe uma histria antes de
ele adormecer, e depois sentava-se a corrigir pontos, bebendo sucessivas chvenas de caf, e Wendy teve de admitir que estava enganada.
As semanas passavam e a conversa adiada fugia-lhe da boca. Jack apercebeu-se da sua reserva, mas sabia que ela no duraria sempre. As coisas comearam a correr um
pouco melhor. Depois foi o caso de George Hatfield. Jack voltara a perder a cabea, desta vez completamente sbrio.
Senhor, o seu nmero ainda no...
Est?  disse Al do outro lado da linha, sem flego.
? Fale  disse a telefonista, mal disposta.
Al, daqui fala Jack Torrance.
Jacky, meu rapaz! Como ests?
A sua voz denunciava um sincero prazer.
Bem. Telefonei apenas para te agradecer. Consegui o em
prego. Foi ptimo. Se no conseguir acabar a maldita pea
durante o Inverno, nunca mais a acabo.
Hs-de acabar.
Como vo as coisas?  perguntou Jack, hesitante.
Secas  respondeu Al.  E tu?
Que nem palhas.
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Sentes muito a falta?
Todos os dias.
Al riu-se.

Sei bem como isso . Mas no sei como tens conseguido
manter-te sem beber depois daquele caso do Hatfeld. Aquilo
ultrapassou tudo.
De facto, deu mesmo cabo da minha vida  respondeu
Jack com um ar tranquilo.
Com os diabos. Na Primavera o conselho directivo volta a
reunir. O Effinger j anda a dizer que talvez tenham sido preci
pitados. E se essa pea der alguma coisa...
Escuta, Al, tenho o mido no carro. Parece que ele j est
a ficar inquieto...
Com certeza. Compreendo. Vais ter um bom Inverno l
em cima, Jack. Ainda bem que pude ajudar.
Mais uma vez obrigado, Al.
Jack desligou, fechou os olhos no calor da cabina e viu de novo a bicicleta amolgada, a luz dos faris. Viera uma crtica ao sucedido no jornal do dia seguinte,
no mais de umas Unhas para encher, mas o autor no assinara. Por que razo ficara a bicicleta ali de noite fora sempre um enigma para eles, e talvez fosse melhor
assim.
Voltou para o carro e deu a Danny o chocolate j meio derretido.
Pai...
O que , p?
Danny hesitou, olhando para o rosto ausente do pai.
Enquanto estava  espera que viesses do hotel tive um
sonho mau. Lembras-te? Quando adormeci?
S... sim.
Mas no valia a pena. A mente do pai estava noutro lado, no estava com ele. Estava outra vez a pensar na Coisa Feia. (Sonhei que tu me aleijaste, pai.)
Que sonho foi esse, p?
Nada  respondeu Danny ao sarem do parque de esta
cionamento.
Voltou a guardar os mapas no porta-luvas.
Tens a certeza?
Claro.
Jack lanou um olhar rpido e preocupado ao filho e depois concentrou-se de novo na sua pea.
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6
PENSAMENTOS NOCTURNOS
 Tinham acabado de fazer amor e o seu homem dormia a seu lado.
O seu homem.
Wendy sorriu na escurido. O seu esperma, quente, escorria-lhe ainda, lentamente, pelas coxas ligeiramente entreabertas, e o sorriso de Wendy era ao mesmo tempo
de arrependimento e satisfao porque a frase o seu homem despertara-lhe uma infinidade de sentimentos. Cada um deles, examinado isoladamente, era confuso. Em conjunto,
nesta obscuridade que rondava o sono, pareciam uma cano de blues ouvida  distncia num clube nocturno, melanclica mas agradvel.
Amar-te, querido,  como fazer rolar um tronco
Mas se no puder ser a tua mulher tambm no serei o teu co.
Seria de Billie Holiday? Ou de algum mais prosaico, como Peggy Lee? No interessava. Era sonora e ardente, e no silncio da sua mente tinha um tom adocicado, como
se sasse de uma daquelas jukeboxes de antigamente, uma Wurlitzer, talvez, meia hora antes de o bar fechar.
Agora, afastando-se da sua conscincia, perguntava a si mesma em quantas camas j dormira com este homem a seu lado. Tinham-se conhecido na faculdade e feito amor
pela primeira vez no apartamento dele... Isso acontecera quase trs meses depois de a me a ter posto fora de casa, de lhe ter dito que nunca mais voltasse, e que
se quisesse ir para algum lado fosse para casa do pai, j que fora ela a responsvel pelo divrcio de ambos. Isto fora em 1970. H tanto tempo? Seis meses depois,
tinham ido viver juntos, arranjado trabalho para o Vero e ficado com o apartamento logo no incio do ano lectivo. Wendy lembrava-se muito bem da cama, uma grande
cama de casal com uma cova no meio. Quando faziam amor, as velhas molas ferrugentas rangiam a compasso. Naquele Outono, conseguira finalmente libertar-se da me.
Jack ajudara-a. Ela quer continuar a agredir-te, dissera Jack. Quanto mais vezes lhe telefonares, quanto mais vezes voltares, a rastejar, a pedir per-
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do, mais ela te agredir com o teu pai.  bom para ela, Wendy, porque continuar a acreditar que a culpa foi tua. Mas no  bom para ti. Falaram muitas vezes
no assunto, na cama, naquele ano.
(Jack sentado, com os cobertores  roda do corpo, um cigarro na mo, olhando-a nos olhos  ele tinha uma maneira meio zangada, meio divertida de fazer aquilo ,
a dizer-lhe: Ela nunca te disse para voltar, pois no? Para lhe apareceres  porta, pois no?  por isso que ela no atende o telefone quando sabe que s tu. Limita-se
a dizer que no podes entrar l se eu for contigo. Porque acha que eu lhe fao frente, ela quer continuar a atormentar-te, querida. s tonta se continuares a permitir
que ela faa isso. Se ela disse que nunca mais voltasses porque no lhe pegas na palavra? Esquece o assunto. E por fim Wendy vira as coisas  maneira dele.)
Jack  que fora da ideia de se separarem por uns tempos, para ganhar perspectiva da relao, dissera. Wendy temera que ele estivesse interessado noutra pessoa. Acabara
por verificar que no fora assim. Na Primavera estavam de novo juntos e ele perguntou-lhe se fora visitar o pai. Wendy deu um salto como se Jack lhe tivesse batido.
Como soubeste?
A Sombra sabe sempre.        ?
Andaste a espiar-me?        ?     ?. 
E o riso impaciente de Jack, que sempre a fizera sentir to esquisita, como se ela tivesse oito anos e ele conseguisse deteCtar as suas motivaes com mais clareza
do que ela prpria.
Precisas de tempo, Wendy.
Para qu?
Creio que... Para ver com qual de ns queres casar.
Jack, o que ests a dizer?
Creio que estou a pedir-te em casamento.
O casamento. O pai estivera presente, a me no. Wendy descobrira que poderia viver com aquilo se tivesse Jack. Depois nascera Danny, o seu lindo menino.
Aquele fora o melhor ano, aquela a melhor cama. Depois de Danny nascer, Jack arranjara-lhe um emprego de dactilgrafa. Trabalhava para meia dzia de professores
do Departamento de Ingls  testes, pontos de exame, lies, notas de estudo, listas de leitura. Chegou mesmo a passar  mquina um romance para um deles, um romance
que nunca foi publicado... Facto que Jack acolheu com uma satisfao oculta e irre-
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verente. O emprego era bom, ganhava quarenta dlares por semana, que subiram at aos sessenta durante os dois meses que em dactilografou o romance falhado. Compraram
o primeiro carro, um Buick de cinco anos, com um assento para beb no meio. Recm-casados, felizes, irrequietos. Danny forou uma reconciliao entre ela e a me,
uma reconciliao que se rodeou sempre de tenso e nunca de felicidade, mas mesmo assim uma reconciliao. Quando levou Danny l a casa, Jack no a acompanhou.
E Wendy no lhe contou que a me tirava sempre a fralda a Danny, franzia o sobrolho ao mtodo dela e localizava sempre os primeiros sinais de uma erupo de pele
no rabinho do beb. A me nunca dissera nada abertamente, mas o recado vinha sempre, de qualquer maneira: o preo que ela comeara a pagar (e que talvez pagasse
sempre) pela reconciliao era o sentimento de que no era uma boa me. Era o modo de a me a atormentar.
Durante o dia Wendy ficava em casa, a fazer o seu papel de dona de casa, a dar de comer a Danny, no bibero, na cozinha inundada de sol do apartamento de quatro
divises num prdio de dois andares, a ouvir as suas msicas no gira-discos j gasto que conservava desde os tempos do liceu. Jack voltava para casa s trs horas
(ou s duas, se conseguia escapar-se  ltima aula), e, enquanto Danny dormia, ele levava-a para o quarto e todos os receios de ser uma m me se dissipavam.
 noite, enquanto ela dactilografava, ele escrevia as suas obras e fazia os seus trabalhos. Naquela altura, era frequente ela sair do quarto, onde estava a mquina
de escrever, e vir dar com os dois a dormir no sof do escritrio, Jack em cuecas e Danny confortavelmente deitado no seu peito, com o dedo na boca. Wendy punha
Danny no bero, em seguida lia o que Jack escrevera naquela noite, antes de acord-lo, e depois chamava-o para ir para a cama.
A melhor cama, o melhor ano.
Um dia o sol brilhar no meu jardim...
Naquela altura Jack ainda dominava a bebida. Nas noites de sbado, um grupo de colegas dele ia l a casa. Bebia-se uma grade de cerveja e havia discusses em que
era raro ela participar, porque o seu campo era sociologia e o dele era ingls: discusses sobre se os dirios de Pepsy eram literatura ou histria, discusses
sobre a poesia de Charles Olson. Por vezes liam trabalhos que estavam em curso. Isto e centenas de outras coisas. No, milhares. Wendy no sentia verdadeiramente
necessidade
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de participar; bastava-lhe sentar-se na cadeira de balouo junto de Jack, que estava sentado no cho, de pernas cruzadas, com uma cerveja numa das mos e acariciando-lhe
o tornozelo com a outra.
Na UNH, a competio fora renhida e a escrita de Jack sobrecarregava-o ainda mais. Reservava-lhe pelo menos uma hora todas as noites. Era um hbito. As noites
de sbado constituam uma terapia necessria. Permitiam-lhe libertar qualquer coisa que, de outro modo, o faria inchar at rebentar.
No fim da licenciatura conseguiu o lugar em Stovington, em grande parte graas aos seus contos  quatro foram publicados naquela altura, um deles no Esquire. Wendy
lembrava-se muito bem daquele dia; levaria muito tempo a esquec-lo. Wendy estivera quase a deitar fora o sobrescrito, pensando que se tratava de uma proposta para
uma assinatura qualquer. Ao abri--lo, verificou que era uma carta a dizer que o Esquire gostaria de publicar o conto de Jack Concerning the Black Holes no ano
seguinte. Pagariam novecentos dlares, no aquando da publicao mas no acto de aceitao. Isto equivalia a seis meses de dactilografia e Wendy correra para o telefone,
deixando Danny na cadeira alta, a fazer gracinhas para ela, com a cara cheia de pur de ervilhas e de carne picada.
Jack chegara da universidade quarenta minutos depois, com sete amigos e uma grade de cervejas no Buick. Depois de um cerimonial de brindes (Wendy tambm bebeu, embora
no gostasse muito de cerveja), Jack assinou a carta de aceitao, meteu-a no sobrescrito e foi  rua p-la no correio. Quando voltou, parou  porta com um ar solene
e disse: Ver, vidi, vici1 Houve palmas e aplausos. s onze horas da noite, quando a grade estava vazia, Jack e os dois nicos amigos que ainda conseguiam andar
saram para ir percorrer alguns bares.
Wendy fora ter com ele ao corredor. Os outros dois j estavam no carro, a cantar uma cano de New Hampshire, com a voz entaramelada. Jack tinha um joelho em terra
e tentava a todo o custo atar os atacadores dos sapatos.
        Jack  disse Wendy.  No devias sair. Nem sequer
consegues atar os sapatos, quanto mais guiar.
Jack levantou-se e ps-lhe a mo nos ombros, tranquilamente.
        Esta noite, poderia chegar  Lua, se quissesse.        >
1 Cheguei, vi e venci. (N. da T.)        '?   '        ?>
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        No  atalhou Wendy.  Nem por todos os contos no
Esquire deste mundo.
        No me demoro.
Mas Jack no voltara para casa seno s quatro horas da manh, a cambalear e a resmungar pelas escadas acima, de tal modo que acordou Danny. Tentara acalmar o beb
e deixara-o cair no cho. Wendy precipitara-se para ele, a pensar no que a me iria dizer se visse a ndoa negra antes de ela inventar uma desculpa qualquer  Deus
lhe valesse, Deus valesse aos dois , depois pegou em Danny, sentou-se na cadeira de balouo com ele ao colo e sossegou-o. Durante as quase cinco horas em que Jack
estivera fora de casa Wendy pensou na profecia da me segundo a qual Jack nunca chegaria a nada. Tem grandes ideias, dissera a me. Claro. O estado est cheio
de idiotas, muito cultos, com grandes ideias. O conto do Esquire dera ou no razo  me? Winnifred, no ests a tratar bem desse beb. Confia-mo. E ela no estava
a tratar bem do marido? Que outros divertimentos encontraria fora de casa? Sentiu--se aterrorizada ao pensar nisto, pois nunca lhe ocorrera que ele saa por motivos
que no tinham nada a ver com ela.
Parabns  disse ela, embalando Danny, que estava qua
se a dormir outra vez.  Talvez lhe tenhas provocado alguma
leso.
Foi s o susto.
Jack. estava de mau humor embora desejasse mostrar-se arrependido: um autntico garoto. Naquele instante Wendy odiou-o.
        Talvez, ou talvez no  respondeu Wendy com dureza.
O seu tom assemelhava-se de tal modo ao da me a dirigir-se
ao pai que ficou mal disposta e assustada.
        Tal me tal filha  disse Jack entre dentes.
Vai para a cama!  gritou Wendy, deixando que a cle
ra tomasse o lugar do medo.  Vai para a cama, que ests
bbado!
No me digas o que hei-de fazer.
        Jack... Por favor, no devamos...
No havia palavras.
        No me digas o que hei-de fazer  repetiu Jack com ar
grave.
Em seguida foi para o quarto. Wendy ficou sozinha na cadeira de balouo com Danny ao colo, a dormir. Cinco minutos depois o ressonar de Jack ouvia-se na sala. Era
a primeira vez que ela dormia no sof.
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Agora voltava-se na cama, inquieta, j a dormitar. A sua mente, liberta de qualquer organizao linear pelo sono que se instalava, recuava aos tempos do primeiro
ano em Stovington, ao perodo mau, que atingira o auge quando o marido partira o brao a Danny, quela manh da discusso ao pequeno--almoo.
L fora, Danny brincava com os carrinhos na areia, com o brao ainda em gesso. Jack estava sentado  mesa, plido e abatido, com um cigarro a tremer-lhe nas mos.
Wendy resolvera pedir-lhe o divrcio. Pensara no assunto sob uma srie de ngulos diferentes; na realidade j andava a pensar nele seis meses antes do incidente
do brao partido. Reconheceu que j teria tomado essa deciso h muito tempo se no fosse por Danny, mas isto no era necessariamente verdade. Sonhava nas longas
noites em que Jack no estava em casa, e os seus sonhos concentravam-se sempre no rosto da me e no seu prprio casamento.
(Quem d esta mulher em casamento? O pai, envergando o seu melhor fato, que no era de grande qualidade  era caixei-ro-viajante e vendia uma gama de produtos
enlatados que j naquela altura estavam em decadncia , o rosto cansado e envelhecido, plido: Eu.)
Mesmo depois do acidente  se  que poderia chamar-se acidente  Wendy no conseguira assumir, admitir que o seu casamento fora um fiasco. Esperara que acontecesse
um milagre e que Jack se apercebesse do que estava a suceder, no s a ele como a ela. Mas no houvera nenhum abrandamento de atitude. Um copo antes de sair para
a faculdade. Duas ou trs cervejas ao almoo, em Stovington House. Trs ou quatro mar-tinis antes do jantar. Mais cinco ou seis enquanto estava a corrigir os pontos.
Aos fins-de-semana era pior. Nas noites em que saa com Al Shockley, pior ainda. Wendy nunca imaginara que a vida podia ser to dolorosa, apesar de a sade no faltar.
Sofria continuamente. Qual a sua quota-parte de responsabilidade em tudo aquilo? Esta pergunta perseguia-a. Sentia-se como a me. Como o pai. s vezes, quando
se sentia ela prpria, perguntava-se o que pareceria aos olhos de Danny e receava o dia em que ele fosse suficientemente crescido para a acusar. Interrogava-se
para onde iriam. No tinha dvidas de que a me a aceitaria, e de que, depois de seis meses de ela mudar de fraldas ao filho, de lhe preparar as refeies  sua
maneira, de o vestir de outro modo, de lhe cortar o cabelo ou de Wendy
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vir dar com os livros que a me achava imprprios atirados para um canto do sto... Depois de seis meses, no tinha dvidas de que teria um esgotamento nervoso.
E de que a me lhe daria uma palmadinha na mo e lhe diria em ar de consolao: Embora no tenhas culpa, s a responsvel. Nunca te preparaste. Mostraste verdadeiramente
o que eras quando te puseste entre mim e o teu pai.
O meu pai. O pai de Danny. O meu, o dele.
(Quem d esta mulher em casamento?  Eu. Morreu com um ataque de corao seis meses depois.)
Na noite anterior, Wendy estivera acordada quase at o marido voltar para casa, a pensar, a tomar a sua deciso.
O divrcio era necessrio, disse para si mesma. O pai e a me no tinham responsabilidades naquela deciso. Nem os seus sentimentos de culpa relativamente ao casamento
deles nem a sensao de incapacidade em relao a si prpria. Era preciso, pelo filho e por ela, se queria ainda salvar qualquer coisa da sua vida. Aquelas palavras
escritas na parede eram brutais mas reveladoras. O marido era um bbado. Tinha mau feitio, que no conseguia dominar agora que andava a beber tanto e que a sua
escrita estava a correr to mal. Por acidente ou no, partira o brao a Danny. E ia perder este emprego, seno neste ano no ano seguinte. Wendy j se apercebera
dos olhares de comiserao que lhe deitavam as mulheres dos colegas da faculdade. Disse para consigo que aguentara o casamento o mais que pudera. Agora tinha de
acabar com ele. Jack teria todo o direito de visitar o filho e Wendy s queria que ele os sustentasse at ela conseguir arranjar emprego, o que teria de acontecer
rapidamente, pois no sabia por quanto tempo poderia Jack pagar o seu sustento. Trataria do assunto com a menor amargura possvel. Mas tinha de acabar.
Foi a pensar assim que Wendy caiu num sono leve e inquieto, assombrado pelo rosto da me e do pai. No passas de uma destruidora de lares, dissera a me. Quem
d esta mulher em casamento?, perguntara o padre. Eu, respondera o pai. Mas, quando chegou a manh, clara e soalheira, Wendy sentia--se da mesma maneira. De costas
para ele, com as mos mergulhadas na gua da loua at aos pulsos, comeou a sentir-se mal.
 Quero falar contigo sobre uma coisa que pode ser melhor para Danny e para mim. Para ti, talvez. Acho que j devamos ter falado nisto h mais tempo.
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E ento ele dissera uma coisa estranha. Wendy esperava despertar a sua clera, o seu azedume, recriminaes. Esperava que o bar sofresse um desbaste. Mas no esperava
esta resposta branda, quase inaudvel, que no era prpria dele. Era quase como se a pessoa com quem vivia h seis anos no tivesse voltado na noite anterior, como
se tivesse sido substituda por um extraterrestre que ela no conhecia.
Fazes-me uma coisa? Um favor?
O qu?
Wendy teve de dominar-se para no denunciar a tremura na voz.
        Falaremos nisso daqui a uma semana. Se ainda te apete
cer.
E ela concordara. E no tinham falado mais nisso. Durante aquela semana Jack encontrara-se com Al Shockley mais do que nunca, mas vinha para casa cedo e no cheirava
a lcool. Wendy convenceu-se que sim, mas sabia que no era verdade. Passou-se outra semana. E mais outra.
E o divrcio no foi posto  votao.
O que acontecera? Wendy fazia esta pergunta a si mesma mas no encontrava a resposta. O assunto era tabu entre eles. Era como se o marido estivesse agachado a um
canto e tivesse visto de repente um monstro  espreita, deitado entre os despojos de anteriores devastaes. As bebidas continuavam no bar, mas ele no lhes tocava.
Wendy chegara a pensar em deit-las todas fora, mas por fim afastava sempre essa ideia, como se receasse quebrar qualquer encanto desconhecido com esse acto.
E havia que considerar o papel de Danny em tudo isto.
Se tinha a sensao de no conhecer o marido, o filho metia--lhe medo, medo no sentido estrito do termo: uma espcie de terror supersticioso que no sabia definir.
A dormitar, veio at ela a imagem do nascimento do filho. Estava de novo deitada na marquesa, banhada em suor, com as mos atadas e as pernas abertas, apoiadas nos
suportes.
(E um pouco tonta com o gs da mscara que estavam cons-tantemente a pr-lhe; a tal ponto que ela comentara, num murmrio, que parecia estar a fazer um anncio
de uma violao em massa, e a enfermeira, uma velha espertalhona que j assistira ao nascimento de crianas suficientes para povoar um liceu, achara-lhe imensa
graa.)
O medido entre as suas pernas, a enfermeira ao lado, pre-
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parando os instrumentos e falando em voz baixa. As dores agudas e cortantes que vinham em intervalos fixos, cada vez menores, e as vezes que gritara apesar de
ter vergonha.
Depois o mdico dissera-lhe, com firmeza, que ela tinha de EMPURRAR, ela empurrou e em seguida sentiu que tiravam qualquer coisa do seu corpo. Era uma sensao ntida
e diferente, que nunca poderia esquecer  aquilo que lhe tinham tirado l de dentro. Depois o mdico pegou no filho pelas pernas  ela vira o seu sexo minsculo
e percebera logo que era um rapaz , e quando lhe tiraram a mscara ela vira outra coisa, to horrvel que conseguiu foras para gritar de novo:
Ele no tem cara!
 claro que tinha cara, a carinha linda de Danny, e a placenta que o envolvia ao nascer repousava agora num frasco que ela guardara, quase com vergonha. No acreditava
em velhas supersties, mas, pelo sim pelo no, guardou a placenta. No acreditava em histrias de comadres, mas o menino mostrara um comportamento invulgar desde
o princpio. No acreditava em maus-olhados, mas...
O pap teve um desastre? Sonhei que o pap tinha tido um desastre.
Qualquer coisa se modificara nele. Wendy no acreditava que fosse precisamente a circunstncia de ela se mostrar disposta a divorciar-se que operara essa modificao.
Qualquer coisa que acontecera enquanto ela estava a dormir. Al Shockley afirmara que no sucedera nada, nada mesmo, mas desviara o olhar ao dizer isto e, a acreditar
nos mexericos que corriam pela faculdade, Al tambm andava a sair dos eixos.
O pap teve um desastre?
Talvez fosse uma simples obra do acaso, decerto no era nada de mais concreto. Wendy leu o jornal daquele dia e o do dia seguinte com mais ateno do que era costume,
mas no viu nada que pudesse relacionar com Jack. Meu Deus, andara  procura de algum acidente em que o motorista se tivesse posto em fuga ou de uma rixa de bar
de que tivessem resultado feridos graves ou... Quem saberia? E quem desejaria uma coisa dessas? Mas nenhum polcia telefonou nem apareceu a fazer perguntas ou com
um mandado intimando-o a tirar pedaos de tinta do pra-choques do VW. Nada. Apenas a volta de cento e oitenta graus do marido e a pergunta do filho, sonolento,
ao acordar:
O pai teve um desastre? Sonhei...
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Wendy fora mais severa para com Jack por causa de Danny do que admitira nos seus momentos de viglia, mas agora, a dormitar, admitia-o: quase desde o princpio
que Danny fora mais apegado a Jack. Tal como acontecera entre ela e o pai, quase desde o princpio. No se lembrava que alguma vez Danny tivesse cuspido o leite
do bibero na camisa do pai. Jack conseguia obrig-lo a comer depois de ela ter desistido, desesperada, mesmo quando Danny tinha os dentes a nascer e lhe custava
a mastigar. Quando Danny tinha dores de estmago, ela tinha de embal-lo durante uma hora para ele sossegar; a Jack, bastava-lhe pegar-lhe ao colo, dar duas voltas
pelo quarto com ele, e Danny adormecia no ombro do pai, com o dedo na boca.
Jack no se importava de lhe mudar as fraldas, mesmo aquelas a que chamava encomendas especiais. Ficava sentado com Danny, horas sem fim, a embal-lo no regao,
a brincar com os seus dedos e a fazer caretas enquanto Danny lhe dava pancadi-nhas no nariz e se torcia a rir. Jack construa frmulas e aplicava-as infalivelmente
para que Danny arrotasse. Mesmo quando o filho era ainda beb, Jack levava-o sempre consigo no automvel se ia comprar o jornal, uma garrafa de leite ou pregos
ao supermercado. Chegara a levar Danny a um desafio de futebol entre o Stovington e o Keene, quando Danny tinha apenas seis meses, e Danny mantivera-se quieto, sentado
ao colo do pai durante todo o jogo, embrulhado numa envolta, com um pequeno galhardete enfiado na mozinha rolia.
Danny adorava a me mas era o menino do pai.
E no se apercebera ela, vezes sem conta, da oposio surda do filho  ideia do divrcio? Pensava nisto enquanto estava na cozinha, revolvendo na sua mente ao mesmo
tempo que descascava as batatas para o jantar. E, ao voltar-se, via-o de pernas cruzadas, numa cadeira da cozinha, olhando-a com uma expresso que tinha tanto
de assustado como de acusatrio. Durante um passeio ao parque, ele pegara-lhe de repente nas mos e perguntara, quase num tom de splica: Gostas de mim? Gostas
do pap? E ela, confusa, respondera: Claro que gosto, querido. Ento ele correra para o lago dos patos, que, assustados, tinham fugido a grasnar para o outro
extremo do lago, sacudindo as asas em pnico perante a ferocidade da investida da criana. A me ficava a observ-lo e interrogava-se.
Havia mesmo alturas em que parecia que a sua determinao de, pelo menos, discutir o assunto com Jack se desvanecia, no por fraqueza sua mas por vontade do filho.
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No acredito nessas coisas.
Mas quando estava a dormir acreditava nelas, e durante o sono, com o smen do marido ainda nas coxas, sentia que os trs tinham vivido sempre muito juntos, e que
se aquela unidade fosse destruda no seria s mos de nenhum dos trs, mas por causas exteriores a eles.
A maior parte daquilo em que acreditava girava  volta do seu amor por Jack. Nunca deixara de am-lo, excepto talvez naquele perodo negro imediatamente a seguir
ao acidente de Danny. E amava o filho. Acima de tudo, amava os dois em conjunto, quer andassem a passear, a andar de automvel ou estivessem simplesmente sentados
em qualquer lado, a cabea grande de Jack e a de Danny, mais pequena, observando os leques das velhas senhoras, partilhando com o pai uma garrafa de coca-cola e
vendo a banda desenhada. Wendy gostava de t-los ao p de si, e pedia a Deus que aquele emprego do hotel que Al arranjara a Jack fosse o recomeo dos bons velhos
tempos.
E o vento vai soprar, querida,        .
e afastar a minha angstia...
Terna e doce, a cano voltava e ficava seguindo-a num sono mais profundo, em que os pensamentos desapareciam e os rostos aparecidos em sonhos caam no esquecimento.
7 NOUTRO QUARTO
Daniel acordou com o estrondo ainda nos ouvidos, e a voz entaramelada e mal-humorada erguendo-se num grito rouco e selvagem: Anda c para fora e traz o remdio!
Hei-de descobrir-te! Hei-de descobrir-te!
Mas o estrondo no era agora mais do que o bater apressado do seu corao, e a nica voz na noite era agora o som distinto de uma sirena da polcia.
Deixou-se ficar deitado, imvel, a olhar para as sombras ondulantes das folhas projectadas no tecto. Estas entrelaavam--se, em movimentos sinuosos, e os seus contornos
lembravam
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gavinhas e trepadeiras de uma selva, como se fossem desenhos de uma carpete espessa e felpuda. Danny tinha o pijama vestido, mas entre o casaco e a pele desenvolvera-se
uma camada de suor.
        Tony?  sussurrou.  Ests a?
No houve resposta.
Deslizou para fora da cama e, s apalpadelas e sem fazer barulho, encaminhou-se para a janela e espreitou para Ara-pahoe Street, agora calma e silenciosa. Eram duas
horas da manh. L fora no havia nada seno passeios semeados de folhas cadas, automveis estacionados e,  esquina, em frente da bomba de gasolina de Cliff Brice,
um candeeiro muito alto. Encimado pela campnula e na sua postura imvel, o candeeiro parecia um monstro espacial sado de um filme de fico.
Danny olhou para um lado e para o outro da rua, em busca do vulto esguio de Tony, a acenar, mas no viu ningum.
O vento suspirava por entre as rvores e as folhas cadas percorriam com rudo as ruas desertas e rodopiavam  volta dos tampes das rodas dos automveis. Era um
som dbil e triste, e o rapaz convenceu-se de que era o nico em Boulder que estava acordado e o ouvia. O nico ser humano, pelo menos. No podia saber se mais algum
andaria pela noite, a farejar avidamente atrs das sombras,  espreita.
Hei-de descobrir-te! Hei-de descobrir-te!
        Tony?  sussurrou de novo, mas sem grandes esperan
as.
S o vento lhe respondeu, desta vez soprando com fora, espalhando as folhas pela zona inclinada do telhado, por baixo da janela. Algumas escorregaram para a goteira
e ali ficaram a repousar, como bailarinas exaustas.
Danny... Dannee...
Ao ouvir aquela voz conhecida, Danny deu um salto e espreitou pela janela, agarrando o parapeito com as pequenas mos. Com o som da voz de Tony a noite parecia
ter-se aproximado em silncio e revivescido, soltando um murmrio mesmo quando o vento acalmava e as folhas e as sombras se aquietavam. Danny julgou avistar uma
sombra mais escura na paragem do autocarro do quarteiro seguinte, mas era difcil afirmar se se tratava de realidade ou de iluso.
No vs, Danny...
Ento o vento soprou de novo com fora, fazendo-o estremecer, e a sombra na paragem do autocarro desapareceu..., se 
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que alguma vez l estivera. Ficou  janela por mais algum tempo (um minuto?, uma hora?), mas no aconteceu mais nada. Por fim, voltou para a cama, puxou os cobertores
e viu as sombras projectadas no tecto transformarem-se numa selva insidiosa, cheia de plantas carnvoras que queriam cerc-lo, sugar-lhe a vida e arrast-lo para
um stio escuro onde a palavra sinistra cintilava em tons de vermelho: OINISSASSA.
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II PARTE O LTIMO DIA
;
,   '?!
8
)I\:
UMA PANORMICA DO OVERLOOK
A me estava preocupada.
Tinha receio de que o carro no conseguisse subir e descer todas aquelas montanhas e que ficassem abandonados  beira da estrada, onde algum poderia aparecer de
noite e atac-los. Danny estava mais optimista: se o pai achava que o carro conseguiria fazer esta ltima viagem, era possvel que no se enganasse.
Estamos quase a chegar  disse Jack.
Wendy afastou o cabelo da testa.
Graas a Deus!
Ia sentada do lado direito, com um livro de bolso aberto mas com o rosto no colo. Trazia o vestido azul, aquele que Danny achava mais bonito. Tinha uma gola  marinheiro
e dava-lhe um aspecto mais jovem, como se fosse uma raparguinha re-cm-sada do liceu e pronta a entrar na faculdade. O pai estava sempre a pousar a mo na perna
dela, e a me ria-se e afastava--a, dizendo: Vai-te embora, mosca.
Danny estava impressionado com as montanhas. Um dia, o pai levara-os a visitar umas que ficavam nos arredores de Boul-der, a que chamavam Flatirons, mas estas eram
maiores e nas mais altas avistava-se uma fina camada de neve, que, segundo o pai, se mantinha ali durante todo o ano.
Encontravam-se mesmo no meio das montanhas, sem nada  volta. Rostos de pedra emergiam das escarpas e rodeavam-nos, to alts que mal se lhes via o cimo, mesmo que
nos esticssemos para fora da janela. Quando saram de Boulder, a temperatura rondava os vinte e sete graus. Agora, pouco depois do meio-dia, a atmosfera l em
cima estava glida, como se tivessem regressado ao Vermont, em Novembro, e o pai deixara avariar o radiador... No era que trabalhasse l muito bem.
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Passaram por vrias placas onde se lia zona de desprendimento de terras (a me ia-lhas lendo) e, embora Danny ansiasse por ver um rochedo cair, isso no aconteceu.
Pelo menos at quela altura.
Meia hora depois, passaram por outra placa que o pai disse ser muito importante. Lia-se est a entrar na estrada de sidewinder e o pai explicou que, no Inverno,
os limpa-neve no iam mais alm. Depois, a estrada tornou-se mais ngreme. No Inverno, ficava isolada da pequena cidade de Sidewinder, por onde tinham passado antes
de avistarem a placa, a caminho de Buckland, no estado de Utah.
Passavam agora por outra placa.
        O que diz aquela, me?
         Diz OS VECULOS LENTOS DEVEM SEGUIR PELA FAIXA DA
direita. E o nosso carro.
O nosso carro vai conseguir  disse Danny.
Meu Deus, por favor  disse a me, fazendo figas com as
mos.
Danny olhou para as sandlias que ela trazia e reparou que ela fizera figas tambm com os dedos dos ps. Riu-se. Ela sorriu para ele, mas Danny sabia que ela continuava
preocupada.
A estrada subia, serpenteando numa srie de longas curvas em S, e Jack passou da quarta velocidade para a terceira, e em seguida para a segunda. O carro resfolegou
e protestou. O olhar de Wendy fixou-se na agulha do velocmetro, que desceu abruptamente dos quarenta para os trinta e depois para os vinte, onde se manteve, com
relutncia.
A bomba da gasolina...  disse Wendy, timidamente.
A bomba da gasolina vai aguentar mais cinco quilmetros
 retorquiu Jack, peremptrio.
 sua direita, o muro de rocha interrompia-se e revelava um vale pronunciado, que parecia nunca mais acabar, forrado de um verde-escuro que era caracterstico dos
pinheiros e dos abetos das Montanhas Rochosas. Os pinheiros estendiam-se at uma zona de rochedos de tom acinzentado que desciam centenas de metros a pique, at
perder de vista. Wendy avistou uma queda de gua que galgava um deles. O sol da tarde fazia-o brilhar como um peixe dourado apanhado numa rede azul. As montanhas
eram muito belas, mas agrestes. Wendy estava convencida de que no admitiriam muitos erros. Sentiu um n de angstia formar-se-lhe na garganta. Mais para oeste,
na serra Nevada, o grupo dos Donner ficara isolado pela neve e tivera
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de recorrer ao canibalismo para sobreviver. As montanhas no admitiam muitos erros.
Com um estico na alavanca das mudanas, Jack passou para a primeira e l seguiram estrada acima, a custo, com o motor a estrepitar.
        Sabes...  disse Wendy.  Creio que no chegmos a
ver cinco automveis desde que virmos para Sidewinder. Um
deles era o carro do hotel.
Jack fez um sinal de assentimento.
Vai para o aeroporto de Stapleton, em Denver. Watson
diz que j h zonas cobertas de gelo acima do hotel, e esperam
que amanh a camada de neve j seja maior. Qualquer pessoa
que v a atravessar as montanhas neste momento prefere seguir
por uma das estradas principais, pelo sim pelo no. Espero que
o velhaco do Ullman ainda esteja l em cima. Creio que estar.
Tens a certeza de que a despensa est bem fornecida? 
perguntou Wendy, ainda a pensar nos Donner.
Ele disse que sim. Queria que Hallorann l fosse contigo.
Hallorann  o cozinheiro.
Oh!  exclamou Wendy, a desfalecer, olhando para o
velocmetro, que descera de quinze para dez milhas por hora.
L est o cimo  disse Jack, apontando para um local
trazentos metros mais acima.  H ali um miradouro de onde
se avista o Overlook. Vou sair da estrada e dar ao carro uma
oportunidade para descansar.
Olhou por cima do ombro para Danny, que ia sentado numa pilha de cobertores.
O que achas, p? Talvez avistemos algum veado. Ou um
caribu.
Claro, pap.
O Volkswagen continuou a subir com esforo. O velocmetro desceu s cinco milhas por hora e fez meno de parar quando Jack saiu da estrada.
        O que diz aquela tabuleta, mam?        j
Vista panormica  leu Wendy, desconfiada.
Jack ps o carro em ponto morto.
Venham da  disse, e saiu.
Encaminharam-se os trs para a cerca.
        Isso mesmo  disse Jack, apontando para o mostrador
do relgio que marcava onze horas.
Para Wendy, tratava-se de descobrir a realidade num lugar--comum: ficara sem flego. Por momentos, no conseguiu res-
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pirar; a vista cortara-lhe o ar. Estavam muito prximos do cimo de um pico. Na sua frente  quem sabia a que distncia?  uma montanha ainda mais alta elevava-se
para o cu, e o seu cume escarpado era agora apenas uma silhueta aureolada pelo Sol, que comeava a declinar. Todo o sop do vale se estendia abaixo deles e os declives
que haviam subido no automvel esfalfado desvaneciam-se com rapidez de tal modo perturbante que Wendy tinha a certeza de que, se olhasse l para baixo por muito
tempo, comearia a sentir nuseas e chegaria mesmo a vomitar. A imaginao parecia irromper com toda a fora, para alm do controlo da razo, e olhar l para baixo
era o mesmo que imaginar-se a resvalar, desamparada, cu e montanhas a mudarem alternadamente de stio, e um grito a sair-lhe da boca como um balo errante, o cabelo
e o vestido a esvoaarem...
Wendy afastou o olhar do abismo quase  fora e seguiu a direco que o dedo de Jack apontava. Avistou a estrada, colada quele pinculo de catedral rochosa, retraindo-se
mas sempre na direco noroeste, continuando a subir embora em curvas menos pronunciadas. Mais acima, aparentemente encaixado na encosta, Wendy verificou que
os pinheiros, que cresciam a custo, davam lugar a um amplo rectngulo arrelvado. No meio, dominando tudo isto, ficava o hotel. O Overlook. Ao v-lo, Wendy recuperou
o flego e a voz.
Oh, Jack,  uma maravilha!
Sim,  verdade  disse Jack.  Ullman acha que  o stio
mais belo da Amrica. No dou muita importncia ao que ele
diz mas creio que talvez... Danny, Danny, sentes-te bem?
Wendy olhou  sua volta,  procura do filho, e o sbito receio por ele ofuscou tudo o resto, admirvel ou no. Precipitou--se para ele. Danny estava agarrado 
cerca e olhava para o hotel. O seu rosto tinha uma cor pastosa, e os olhos o ar vago de quem se encontrava  beira do desfalecimento.
Wendy ajoelhou-se a seu lado e agarrou-lhe os ombros com firmeza.
Danny, o que se...?
Jack aproximou-se dela.
Ests bem, p?
Deu um pequeno safano a Danny, cujo olhar fixo se desvaneceu.
        Estou bem, pap. Estou ptimo.
        O que foi, Danny?  perguntou Wendy.  Sentes-te
tonto, querido?
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        No, estava s a... pensar. Desculpem. No quis assust-
-los.
Olhou para os pais, ajoelhados na sua frente, e esboou um sorriso de admirao.
Talvez fosse do sol. O sol a bater-me nos olhos.
Vamos para o hotel. L bebers um copo de gua  disse
o pai.
Est bem.
J no carro, que subia com mais segurana  medida que avanava mais devagar, continuou a olhar l para fora, avistando a estrada por entre a silhueta dos pais
e lanando olhares ocasionais ao Hotel Overlook e  sua Unha macia de janelas viradas a ocidente, que reflectiam o sol. Era o local que vira no meio do temporal,
o local obscuro e opressivo para onde um qualquer vulto que lhe era terrivelmente familiar o arrastava, ao longo de enormes corredores atapetados de mato. O local
contra o qual Tony o prevenira. Era ali. Era ali. Fosse oinissas-sa o que fosse, ficava ali.
9 PASSEIO DE RECONHECIMENTO.- t
Ullman aguardava-os do lado de dentro das portas amplas e antiquadas que constituam a entrada principal. Apertou a mo a Jack e cumprimentou Wendy com um frio aceno
de cabea, reparando talvez na maneira como as cabeas se voltaram quando ela entrou no trio, com o cabelo louro espalhando-se pelos ombros do simples vestido 
marinheiro. A bainha do vestido elevava-se duas modestas polegadas acima do joelho, mas no era preciso ver mais para saber que se tratava de um bom par de pernas.
Danny foi o nico com quem Ullman se mostrou verdadeiramente afectuoso, mas Wendy j antes se dera conta dessa situao. Danny parecia ser uma criana que, em geral,
captava as simpatias dos adultos. Ullman curvou-se ligeiramente e estendeu a mo a Danny, que a apertou com formalismo, sem um sorriso.
 O meu filho, Danny, e minha mulher, Winnifred  disse Jack.
73



Tenho muito prazer em conhec-los  disse Ullman. 
Quantos anos tens, Danny?
Cinco, senhor        f

Senhor, hem?        1
Ullman sorriu e voltou-se para Jack.
Ele  muito bem-educado.
Claro que   respondeu Jack.
E a senhora Torrance.
Ullman fez-lhe o mesmo tipo de vnia e, por instantes, Wendy, perturbada, convenceu-se de que ele iria beijar-lhe a mo. Fez meno de lha estender e ele pegou-lhe,
mas para apert-la entre as suas, por um momento. As mos de Ullman eram pequenas, secas e macias. Wendy apostava que ele as friccionara com p de talco.
O trio do hotel era um frenesim de actividade. Quase todas as velhas cadeiras de espaldar alto estavam ocupadas. Os empregados entravam e saam, carregados de
malas, e, junto da recepo, havia uma fila de pessoas que era dominada por uma enorme caixa registadora metlica. Nela, os autocolantes dos cartes de crdito
Bank of America e Master Charge pareciam tremendamente anacrnicos.
A direita, na direco de duas portas duplas que se encontravam fechadas e de reposteiros corridos, havia uma lareira antiga onde ardiam toros de vidoeiro. Mesmo
ao p, ficava um sof onde estavam sentadas trs freiras. Conversavam e sorriam, com as malas encostadas ao corpo,  espera de que a fila diminusse. No momento
em que Wendy olhou para elas, romperam num riso sonoro e acrianado. Wendy sentiu que um sorriso lhe aflorava os lbios; nenhuma delas tinha menos de sessenta anos.
Do fundo vinha o sussurro permanente da conversa, o tilintar fraco da campainha de prata que havia junto da caixa registadora quando um dos dois empregados de servio
a tocava, exclamando num tom que denotava uma leve impacincia:
        A seguir, por favor!
Trazia-lhe  memria recordaes vivas e ternas da sua lua--de-mel em Nova Iorque, com Jack, em Beekman Tower. Pela primeira vez, deixou-se embalar na crena de
que isto poderia ser exactamente aquilo de que os trs precisavam: uma temporada juntos, longe do mundo, uma espcie de lua-de-mel em famlia. Lanou um sorriso
afectuoso a Danny, que olhava para
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tudo com um ar perscrutador. Outra limusina, do mesmo tom de cinzento do colete do banqueiro, parara diante do hotel.
O ltimo dia da temporada  disse UUman.  O ltimo
dia.  sempre agitado. Esperava-o mais perto das trs horas,
senhor Torrance.
Quis dar oportunidade ao Volkswagen de ter um ataque
de nervos, se lhe apetecesse, mas isso no aconteceu  expli
cou Jack.
Que sorte  disse UUman.  Gostava de levar os trs a
dar uma volta por aqui, um pouco mais tarde, e  claro que
Dick Hallorann quer mostrar  senhora Torrance a cozinha do
Overlook.
Um dos empregados aproximou-se, de mos na cabea.
Desculpe, senhor Ullman.
O que se passa?
E a senhora Brant  explicou o empregado, pouco  von
tade.  No quer pagar a conta a no ser com o carto Ameri
can Express. J lhe disse que nunca aceitamos pagamentos com
o American Express no fim da temporada, mas ela no...
O homem olhou de soslaio para a famlia Torrance e depois fixou-se em Ullman. Encolheu os ombros.
J l vou tratar do assunto.
Obrigado, senhor Ullman.
O empregado voltou para o balco, onde uma mulher corpulenta envolvida num enorme casado de peles, e que mais parecia uma grande jibia, gesticulava, falando em
voz alta.
Venho para o Hotel Overlook desde mil novecentos e cin
quenta e cinco  dizia ela ao pobre empregado, que sorria,
encolhendo os ombros.  Continuo a vir para c, mesmo de
pois de o meu segundo marido ter morrido com um ataque de
corao naquele campo de roque, que  estafante (bem o avisei
de que naquele dia o sol estava quente de mais), e nunca...
Repito nunca paguei a conta com outra coisa que no fosse o
carto de crdito American Express. Chamem a polcia, se qui
serem! Levem-me daqui de rastos! Recuso-me a pagar sem ser
com o meu carto de crdito American Express. Repito...
Desculpem-me  disse o senhor Ullman.
Viram-no atravessar o trio, tocar no ombro da senhora Brant com deferncia, abrir as mos e fazer um sinal de assentimento quando ela descarregou a sua fria sobre
ele. O senhor Ullman escutou-a com um ar compreensivo, baixou de novo a cabea e disse-lhe qualquer coisa. A senhora Brant sorriu com
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um ar triunfante, voltou-se para o pobre empregado e disse em voz alta:
        Felizmente ainda h algum neste hotel que no  um
perfeito idiota!
A senhora Brant permitiu a Ulhnan, que mal lhe chegava ao ombro enorme, que lhe desse o brao e que a conduzisse provavelmente ao seu gabinete.
Livra! - disse Wendy, sorrindo.  Vale bem o dinheiro
que ganha.
Mas ele no gosta daquela senhora  disse Danny pron
tamente.  Ele est apenas a fingir que gosta dela.
Jack sorriu para o filho.
Acho que tens razo, filho. Mas a lisonja  que faz girar o
mundo.
O que  lisonja?
Lisonja  explicou Wendy   quando o pai diz que
gosta das minhas novas calas amarelas e no gosta, e quando
diz que eu no preciso de mais dinheiro.
Ah,  mentir a brincar?
Mais ou menos isso.
Danny estivera a observ-la e disse por fim:
        Ests bonita, me.
Franziu o sobrolho, envergonhado, quando os pais trocaram um olhar de entendimento e depois desataram a rir.
Ullman no desperdiou grandes elogios comigo  disse
Jack.  Venham aqui para o p da janela. Sinto-me mal aqui
no meio da sala, de bluso vestido. Nunca pensei que no ltimo
dia estivesse c tanta gente. Enganei-me.
Ests muito elegante  disse Wendy.
Wendy ps a mo na boca do marido e desataram-se de novo a rir.
Danny no percebeu, mas estava bem. Os pais amavam-se. Danny pensou que este local lhe lembrava outro qualquer
(stio do homem de bico)
onde me fora feliz. Quem lhe dera gostar tanto dele como a me gostava, mas repetiu a si prprio que nem sempre as coisas que Tony lhe mostrava se tornavam verdadeiras.
Ia ter cuidado. Iria descobrir uma coisa chamada o Oinissassa. Mas no diria nada a ningum, a menos que fosse obrigado a isso. Porque os pais sentiam-se felizes,
tinham estado a rir-se, e no havia maus pensamentos.
        Olhem para esta vista  disse Jack.
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        Oh, que maravilha! Danny! Olha!
Mas Danny no achava que a vista fosse assim to bonita. No gostava das alturas, faziam-no sentir-se tonto. Para l do alpendre largo, que se estendia ao longo
da fachada do hotel, havia um relvado muito bem tratado que descia em declive at uma grande piscina rectangular. Numa das extremidades da piscina, havia uma tabuleta
em cima de um trip, onde se ha fechado. Fechado era uma das palavras que Danny j sabia ler sozinho, assim como Pare, Sada, Pizza, e mais umas quantas.
Num plano superior ao da piscina, via-se um campo de pe-drisco salpicado de pinheiros recm-nascidos, abetos vermelhos e choupos. Havia ali uma pequena tabuleta
que ele no sabia o que queria dizer: roque. Com uma seta por baixo.
O que  R-O-Q-U-E, pai?
Um jogo  explicou o pai.   parecido com o croquet,
s que tem de jogar-se num campo de pedrisco que seja prote
gido dos lados como se fosse uma grande mesa de bilhar, em
vez de ter relva  volta.  um jogo muito antigo, Danny. s
vezes h campeonatos aqui.
Joga-se com um mao?
Mais ou menos  explicou Jack.  Mas o cabo  mais
curto e a cabea tem dois lados. De um lado  borracha e do
outro  madeira.
(Sai da, sai da, patife!)
Pronuncia-se roque. Hei-de ensinar-te a jogar, se quiseres
 disse o pai.
Talvez  respondeu Danny num tom incaracterstico,
que procovou um troca de olhares admirados entre os pais.
No sei se irei gostar...
Bem, se no gostares, no s obrigado a jogar, p. Combi
nado?
Claro.
Gostas dos animais?  perguntou Wendy.  Aquilo
chama-se um topirio.
Do outro lado do caminho que dava acesso ao roque havia sebes de buxo aparado com o feitio de vrios animais. Danny, que era bom observador, descobriu um coelho,
um co, um cavalo, uma vaca e trs animais maiores que lhe pareceram lees a brincar.
        Foram aqueles animais que fizeram com que o tio Al se
lembrasse de mim para este emprego  explicou Jack.  Ele
sabia que, quando eu andava na faculdade, trabalhava numa
77
empresa de jardinagem, que se encarregava de arranjar a relva, os arbustos e as sebes nos jardins das pessoas. Eu costumava aparar o topirio de uma senhora.
Wendy tapou-lhe a boca com a mo e riu-se. Jack olhou para ela e disse:
 verdade, eu costumava aparar-lhe o topirio pelo me
nos uma vez por semana.
Vai-te embora, mosca  disse Wendy, rindo-se outra vez.
As sebes dela eram bonitas, pai?
Ao ouvirem a pergunta de Danny os pais desataram a rir. Wendy riu-se tanto que as lgrimas comearam a correr-lhe pela face e teve de tirar da mala um leno de papel.
        No eram animais, Danny  explicou Jack, assim que
conseguiu controlar-se.  Eram naipes de cartas. Espadas, co
pas, paus e ouros. Mas as sebes vo crescendo, percebes...
(Trepam, dissera Watson... No, no so as cercas,  a caldeira. Tem de vigi-la constantemente seno voc e a sua famlia ainda vo parar  Lua.)
Os pais olharam para ele, admirados. Danny pusera-se muito srio.
        Pap...  disse.
Pestanejou, como se tivesse regressado de muito longe.
Elas vo crescendo, Danny, e perdendo a forma. Vou
dar-lhes uma aparadela uma ou duas vezes por semana at che
gar o frio intenso, que as impede de crescer.
E tambm tem um parque infantil  disse Wendy. 
Mas que sorte, filho.
O parque infantil ficava por trs do topirio. Tinha dois escorregas, meia dzia de balouos de diferentes alturas, umas grades para trepar, um tnel feito de anis
de cimento, uma zona com areia e uma casinha de brincar que era a rplica exacta do Overlook.
Gostas, Danny?  perguntou Wendy.
Claro que gosto  respondeu o filho, esperando aparen
tar um entusiasmo maior do que sentia na realidade.  E giro.
Por trs do parque infantil havia um pequeno muro quase imperceptvel, depois a estrada larga, alcatroada, que seguia na direco do hotel e, a seguir, o vale a
perder de vista atravs da luz coada da tarde. Danny no conhecia a palavra isolamento, mas se algum lhe explicasse o seu significado t-lo-ia entendido. L muito
ao longe, ao sol, como se fosse uma grande cobra preta que tivesse resolvido dormir a sesta, ficava a estra-
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da para Sidewinder e, eventualmente, para Boulder. A tal estrada que no Inverno ficava cortada. Danny sentiu-se um tanto sufocado ao pensar nisso, e quase deu um
pulo quando o pai lhe pousou a mo no ombro.
Vou arranjar-te qualquer coisa para beberes assim que
puder, p. Eles agora esto muito atarefados.
Est bem, pap.
A senhora Brant saiu do gabinete com ar de quem fora vingada. Pouco depois, apareceram dois paquetes tentanto arrastar oito malas, os quais se encaminharam para
a porta o melhor que puderam, atrs dela, triunfante. Pela janela, Danny viu um homem de farda cinzenta e com um bon, que parecia um capito da Marinha, trazendo
um automvel metalizado para junto da porta e sair. Quando chegou junto dela levou a mo ao bon e correu a abrir o porta-bagagens.
E num desses lampejos que s vezes tinha, que pairavam sobre a confuso de emoes e de cores que em geral o assaltavam quando estava em stios muito concorridos,
Danny apercebeu-se totalmente do que ela estava a pensar.
(Gostava de me enfiar nas calas dele.)
Danny franziu os sobrolho ao ver os paquetes meterem as malas dela no porta-bagagens. A senhora Brant olhava fixamente para o homem de farda cinzenta que fiscalizava
o trabalho dos paquetes. Porque quereria ela enfiar-se nas calas do homem? Teria frio, apesar daquele casaco de peles to grosso? E, se tinha frio, porque no
vestia ela umas calas? Wendy usava calas durante o Inverno.
O homem de farda cinzenta fechou o porta-bagagens e aproximou-se dela para a ajudar a entrar no automvel. Danny manteve-se atento para ver se ela falava nas calas,
mas a senhora Brant limitou-se a sorrir e a estender-lhe uma nota de um dlar, uma gorjeta. Pouco depois, o grande automvel metalizado seguia pela estrada, com
ela ao volante.
Danny lembrou-se de perguntar  me por que razo  que a senhora Brant quereria enfiar-se nas calas do homem, mas resolveu no o fazer. s vezes as perguntas criavam
muitos problemas. Isso j lhe acontecera.
Em vez disso, meteu-se entre os pais, que estavam sentados
num pequeno sof, e ficou a observar todas as pessoas que se
iam aproximando do balco. Estava contente por a me e o pai
se sentirem felizes e se amarem, mas no conseguia afastar uma
certa preocupao. No conseguia.
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10
HALLORANN
O cozinheiro no condizia com a imagem que Wendy tinha de uma personagem tpica de uma cozinha de hotel. Para comear, essa personagem era um chefe, no um indivduo
mundano como um cozinheiro  cozinhar era o que ela fazia na cozinha da sua casa quando punha a comida num tabuleiro de pyrex untado e a cobria de nozinhas de manteiga.
Alm disso, o mago da culinria de um local como o Overlook, que fazia publicidade na seco de hotelaria do New York Sunday Times, deveria ser baixo, gordo e de
rosto pastoso; devia ter um bigode fino como a estrela de uma comdia musical dos anos 40, olhos escuros, sotaque francs e uma personalidade detestvel.
Hallorann tinha olhos escuros e mais nada. Era um homem alto, negro, que comeava a perder o seu ligeiro toque africano. Tinha um leve sotaque do Sul e quando se
ria mostrava uns dentes demasiado brancos e alinhados para no serem uma daquelas dentaduras Sears and Roebuck famosas nos anos 50. O pai de Wendy tambm tinha
uma, a que chamava Roebuckers, que tirava de vez em quando por graa quando estava a jantar... sempre  recordava-se Wendy  quando a me ia  cozinha buscar qualquer
coisa ou estava ao telefone.
Danny estivera a observar este gigante negro, vestido de sarja azul, e depois sorrira quando ele lhe pegara ao colo, sem esforo, o pusera aos ombros e dissera:
No vais ficar aqui em cima durante todo o Inverno.
Vou, vou  respondeu Danny com um sorriso tmido.
No, vens comigo at St. Pete, aprendes a cozinhar e to
das as tardes vais  praia ver os caranguejos, est bem?
Danny sorriu deliciado e abanou a cabea. Hallorann pousou-o no cho.
        Se mudares de ideias  disse Hallorann, inclinando-se para
ele com um ar solene ,  melhor que o faas quanto antes.
Daqui a meia hora ponho-me a caminho. Duas horas e meia de
pois, na porta trinta e dois do Aeroporto Internacional de Staple-
ton, na cidade de Denver, com mil e seiscentos metros de altura,
no Colorado. Trs horas depois, estarei a alugar um automvel no
Aeroporto de Miami e pr-me-ei a caminho de St. Pete, desejoso
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de vestir os cales de banho e a rir-me dos que estejam enfiados na neve. Ests a imaginar, meu rapaz?
Estou sim, senhor  respondeu Danny, a sorrir.
Hallorann voltou-se para Jack e Wendy.
Tm aqui um belo rapaz.
Achamos que sim  disse Jack, estendendo-lhe a mo.
Hallorann correspondeu ao cumprimento.

O meu nome  Jack Torrance. A minha mulher Winni-
fred. Danny, j o conhece.
Com muito prazer. Minha senhora, tratam-na por Win-
nie ou por Freddie?
Por Wendy  respondeu Wendy a sorrir.
Est bem. Acho prefervel a qualquer dos outros. Ve
nham por aqui. Se o senhor Ullmam quer que dmos a volta,
daremos a volta.
Abanou a cabea e acrescentou em voz baixa:
        E no me apetece nada v-lo outra vez.
Hallorann comeou por mostrar-lhes a cozinha maior que Wendy j vira. Estava a reluzir de limpeza. Todos os tampos estavam impecavelmente areados. Era mais que grande,
era assustadora. Wendy caminhava ao lado de Hallorann, enquanto Jack, completamente fora do seu elemento, ficara um pouco para trs com Danny. Na parede via-se
uma prancha enorme cheia de instrumentos cortantes, desde facas de serrilha a cutelos de dois cabos. Ao lado, um lava-loua com quatro cubas. Havia uma tbua para
po to grande como a mesa da cozinha da casa de Boulder. Uma quantidade incrvel de tachos e panelas cobria uma parede inteira, do cho at ao tecto.
Acho que vou deixar um rasto de migalhas cada vez que
entrar aqui  disse Wendy.
No deixe que ela a deprima  disse Hallorann.  E
grande, mas no passa de uma cozinha. Nem sequer ter de
mexer na maior parte destas coisas. Mantenha-a limpa,  s o
que lhe peo. Aqui est o fogo que eu usaria, se fosse a si. H
trs ao todo, mas este  o mais pequeno.
O mais pequeno, pensou Wendy, desconsolada, olhando para ele. Tinha doze queimadores, dois fornos normais, um assador, uma fornalha em que se podia assar chourio
ou cozer feijes, um grelhador e uma estufa, alm de mil e um mostradores e botes.
? E todo a gs  explicou Hallorann.  J tem cozinhado com gs, Wendy?
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Sim...
Eu adoro o gs  disse Hallorann, acendendo um dos
queimadores.
Emergiu uma chama azul, que ele reduziu com um toque delicado.
Gostava de ver a chama com que vai cozinhar. Est a ver
onde esto os botes dos queimadores?
Estou.
E os botes do forno esto todos sinalizado    Por mim,
prefiro o do meio porque me parece que aquece mais por igual,
mas pode usar o que quiser, ou os trs, tanto faz.
Um para cada refeio  disse Wendy, soltando um risi-
nho dbil.
Hallorann deu uma gargalhada sonora.
Porque no? Deixei uma lista de tudo o que h para co
mer em cima do lava-loua. Est a ver?
C est, mam!
Danny trouxe-lhe duas folhas de papel escritas de ambos os lados.
        Lindo menino  disse Hallorann, tirando-lhas da mo e
acariciando-lhe o cabelo.  Tens a certeza de que no queres
vir comigo para a Florida, meu rapaz? Para aprender a fazer o
mais delicioso arroz de camaro deste lado do paraso?
Danny tapou a boca com as mos, riu-se e voltou para junto do pai.
        Acho que vocs os trs tm aqui comida que chega
para um ano  disse Hallorann.  Temos uma despensa
refrigerada, uma cmara frigorfica, toda a espcie de reci
pientes para guardar legumes e dois frigorficos. Vou mos
trar-lhos.
Hallorann passou os dez minutos seguintes a abrir e a fechar portas e gavetas, mostrando comida em quantidades que Wendy nunca vira. As reservas de alimentos espantavam-na
mas no a sossegavam tanto como ela pensara: o grupo dos Donner continuava a vir-lhe  mente, no com pensamentos de canibalismo (com toda esta comida teria de passar
muito tempo at que fosse necessrio racion-la), mas com a convico de que esta situao era grave: quando a neve comeasse a cair, sair daqui no seria uma questo
de ir a guiar uma hora at Sidewinder, mas uma operao de grande envergadura. Ficariam aqui sentado neste hotel enorme, a comer o que lhes tinham deixado, como
se fossem personagens de um conto de
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fadas, e a escutar o vento l fora, a varrer a neve. Em Vermont, quando Danny partira o brao.
(quando Jack lhe partira o brao)
chamara o piquete de emergncia, ligando para o nmero que figurava no pequeno carto que havia junto do telefone. Tinham chegado dez minutos depois. Naquele carto
minsculo havia outros nmeros de telefone. Era possvel chamar um carro da polcia em cinco minutos e um camio dos bombeiros ainda em menos tempo, porque o quartel
dos bombeiros ficava apenas a trs quarteires de distncia. Era possvel chamar uma pessoa para arranjar a electricidade, outra para arranjar o chuveiro e outra
para arranjar a televiso se ela se avariasse. Mas o que aconteceria aqui se Danny tivesse um dos seus desfalecimentos e enrolasse a lngua?
(Oh, meu Deus, que pensamentos!)
E se houvesse um incndio? Se Jack casse no fosso do elevador e fracturasse o crnio? Se...
(E se gozssemos este momento? Acaba com isso, Winni-fred!)
Hallorann comeou por mostrar-lhes a cmara frigorfica, onde o seu bafo quente se libertava como se fosse um balo. L dentro estava frio como se o Inverno j tivesse
chegado.
Hamburgers em grandes sacos de plstico, cinco quilos em cada saco, doze sacos ao todo. Quarenta frangos inteiros pendurados de uma fila de ganchos espetados numa
parede forrada de madeira. Uma dzia de latas de fiambre, dez nacos de carne de vaca, dez nacos de carne de porco e uma grande perna de carneiro.
        Gostas de carneiro, p?  perguntou Hallorann, sor
rindo.
        Adoro  respondeu Danny prontamente.
Nunca comera carneiro.
        J sabia. No h nada que chegue a duas fatias de carnei
ro, numa noite fria, com geleia de hortel-pimenta. Tambm
aqui est a geleia. A carne de carneiro solta os intestinos.
 uma carne que tem propriedades laxativas.
Atrs deles, Jack perguntou, curioso:
Como sabia que o tratvamos por p?
Hallorann voltou-se para ele.
Como disse?
        Danny. s vezes tratamo-lo por p. Como nos desenhos
animados do Bugs Bunny.
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Jack encolheu o nariz, deu um estalido com a boca e disse a Danny:
        Eh, como vais, p?
Danny soltou uma risadinha e depois Hallorann disse-lhe qualquer coisa
(Tens a certeza de que no queres ir para a Florida, p?) com muita nitidez. Danny ouviu tudo. Olhou para Hallorann, surpreendido e um pouco assustado. Hallorann
pestanejou com um ar solene e voltou s explicaes sobre a comida.
Wendy desviou o olhar das costas largas do cozinheiro, vestido de sarja azul, para o filho. Tinha a sensao estranha de que algo se passara entre eles, algo que
ela no percebera.
Aqui tm doze embalagens de salsichas, doze embalagens
de toucinho fumado. Tanto pior para o porco. Nesta gaveta
esto dez quilos de manteiga.
Manteiga mesmo?  perguntou Jack.
Da melhor que h.
Acho que no como manteiga da verdadeira desde os
meus tempos de criana em Berlin, New Hampshire.
Bem, aqui vai com-la at se fartar  disse Hallorann,
rindo-se.  Aqui est o po: trinta pes brancos e vinte es
curos. Como vem, tento manter o equilbrio racial no Over-
look. Eu sei que este po no vai ser suficiente, mas ingredien
tes no faltam para o fazer, e  prefervel comerem-no fresco do
que congelado.  Ali em baixo est o peixe. Faz bem ao cre
bro, no , p?
Faz, mam?
Se o senhor Hallorann diz que faz,  porque faz, querido
 respondeu Wendy, sorrindo.
Danny franziu o nariz.
No gosto de peixe.
Ests muito enganado  disse Hallorann.  Tu  que
nunca encontraste um peixe que gostasse de ti. Mas os peixes
que esto aqui vo gostar. Dois quilos e meio de trutas, dez
quilos de rodovalhos, quinze latas de atum...
Oh, eu gosto de atum.
... e dois quilos e meio dos linguados mais deliciosos que
j houve no mar. Meu rapaz, quando chegar a Primavera vais
agradecer ao velho...
Hallorann deu um estalo com os dedos como se estivesse esquecido qualquer coisa.
        Como me chamo eu? Acho que me esqueci.
84
        Senhor Hallorann  disse Danny, sorrindo.  Dick,
para os amigos.
        Exactamente! E como tu s um deles tratas-me por Dick.
Assim que o cozinheiro se afastou, Jack e Wendy trocaram
um olhar admirado e tentaram recordar-se se Hallorann lhes dissera qual era o seu primeiro nome.
        E aqui pus uma coisa muito especial  disse Hallorann.
 Espero que gostem.
        Oh, mas que amvel!  exclamou Wendy, comovida.
Era um peru de dez quilos atado com uma fita vermelha com
um lao no cimo.
No podia faltar-vos o peru no dia de Aco de Graas,
Wendy  disse Hallorann com um ar solene.  Creio que h
por a um capo para o Natal. Ho-de encontr-lo. Vamos sair
daqui antes que apanhemos uma pneumonia. No , p?
!
Na despensa havia mais surpresas. Cem caixas de leite em p (Hallorann aconselhou Wendy leite fresco para o filho em Side-winder, enquanto fosse possvel), cinco
sacos de acar de seis quilos cada, um frasco de melao, cereais, embalagens de arroz, macarro, esparguete, latas de fruta e de salada de frutas, um cesto de
mas frescas que perfumavam todo o aposento, uvas, ameixas e alperces secos (Temos de ser metdicos se quisermos atingir a felicidade, dissera Hallorann, fazendo
tremer com o seu riso o tecto da despensa, onde um velho globo pendia de uma corrente de ferro). Um grande caixote cheio de batatas; caixas mais pequenas com tomates,
cebolas, nabos, abboras e couves.
        Palavra de honra...  disse Wendy quando iam a sair.
Mas ao ver toda aquela comida e ao compar-la com o seu
oramento de trinta dlares por semana para a mercearia ficou de tal modo admirada que no foi capaz de continuar.
Est-se a fazer tarde para mim  disse Hallorann,
olhando para o relgio.  Vo procurando nos armrios e nos
frigorficos  medida que se forem instalando. H queijos, latas
de leite, leite condensado, fermento, soda, uma embalagem da
quelas empadas Table Talk, vrios cachos de bananas que
ainda no esto maduras...
Pare  disse Wendy levantando a mo e rindo.  No
conseguirei fixar tudo isso.  de mais. E prometo-lhe que dei
xarei tudo limpo.
E s o que eu quero.  E, voltando-se para Jack, pergun-
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tou:  O senhor Ulmman cantou-lhe a lengalenga dos ratos l no seu gabinete? Jack sorriu.
Disse que talvez houvesse alguns no sto e o senhor
Watson disse que devia haver alguns na cave. L em baixo deve
haver toneladas de papel, mas no vi nada rodo, como se eles
estivessem a fazer ninho.
Aquele Watson...  disse Hallorann num misto de troa
e de aborrecimento.  J viram algum com uma conversa
mais tola?
 uma personagem muito especial  concordou Jack,
cujo pai fora a pessoa com a conversa mais tola que ele conhe
cera.
 uma pena  disse Hallorann conduzindo-os para a
porta larga de batentes que dava para a sala de jantar do Over-
look.
Havia dinheiro naquela famlia, h muito tempo. Foi o
av ou o bisav de Watson  no me lembro qual deles  que
construiu isto.
Foi o que me contaram  disse Jack.
O que aconteceu?  perguntou Wendy.
Bem, no conseguiram tomar conta disto  disse Hallo
rann.  Watson vai contar-lhe a histria toda... duas vezes por
dia, se o deixar. O velho apanhou uma maluqueira com isto.
Deixou-se abater por isto, acho eu. Ele tinha dois filhos e um
deles morreu num acidente de automvel enquanto o hotel es
tava ainda a ser construdo. Isso deve ter sido por volta de mil
novecentos e oito ou mil novecentos e nove. A mulher do velho
morreu com um ataque de gripe e o velho viu-se sozinho com o
filho mais novo. Acabaram por ficar como guardas no hotel que
o velho tinha construdo.
Que pena!  disse Wendy.
O que lhe aconteceu? Ao velho?  perguntou Jack.
Meteu o dedo numa ficha de electricidade, por engano, e
a foi o fim dele  explicou Hallorann.  No princpio dos
anos trinta, aquando da Depresso, fechou isto durante dez
anos. De qualquer modo, Jack, gostava que voc e a sua mu
lher estivessem atentos aos ratos na cozinha. Se virem algum,
usem as ratoeiras, nunca o veneno.
Jack pestanejou.
        Claro. Quem se lembraria de pr veneno para ratos na
cozinha?
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Hallorann soltou uma gargalhada trocista.
        O senhor Ullman, por exemplo. Teve essa ideia bri
lhante, no Outono passado. Mas eu enfrentei-o e disse-lhe: E
se em Maio, quando estivermos todos aqui, senhor Ullman, e
eu servir o tradicional jantar de abertura  que por acaso 
salmo com um molho delicioso  e toda a gente adoecer e o
mdico vier e disser: 'Ullman, o que aconteceu aqui? Voc con
seguiu envenenar oitenta dos homens mais ricos da Amrica
com veneno dos ratos!'?...
Jack atirou a cabea para trs e desatou a rir.
        E o que respondeu Ullman?
Hallorann passou a lngua pela gengivas como se estivesse a limpar um resduo de comida.
        Disse: Arranje ratoeiras, Hallorann!
Desta vez todos se riram, mesmo Danny, embora no tivesse percebido muito bem a graa, excepto que tinha algo a ver com Mr. Ullman, que no sabia nada de nada.
Os quatro atravessaram a sala de jantar, agora calma e silenciosa, com a sua vista fabulosa, a poente, dos picos das montanhas salpicados de neve. Cada uma das
toalhas de linho branco estava coberta com um plstico resistente de cor clara. A carpete, agora enrolada, estava a um canto, como se fosse uma sentinela de servio.
Do outro lado da sala enorme havia duas portas de batentes e, sobre elas, uma velha tabuleta onde se lia em letras douradas: Salo Colorado.
Hallorann disse:
        Se voc costuma beber, espero que tenha trazido o seu
prprio fornecimento. Isto est completamente limpo. Ontem
 noite foi a festa dos empregados, sabe? Hoje no h para a
criada nem paquete que no esteja com dores de cabea, a co
mear por mim.
        Eu no bebo  retorquiu Jack prontamente.
Voltaram para o trio.
A maior parte das pessoas tinha-se escoado durante a meia hora que tinham passado na cozinha. Na grande sala principal comeava a criar-se a atmosfera silenciosa
e desolada  qual Jack contava habituar-se dentro de pouco tempo. As freiras que estavam sentadas junto da lareira tinham-se ido embora e o fogo estava agora reduzido
a alguns pedaos de carvo incandescente. Wendy deitou um olhar ao parque de estacionamento e verificou que restava apenas uma meia dzia de automveis.
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Deu consigo a desejar que se metessem todos no Volkswagen e voltassem para Boulder... ou para qualquer outro stio.
Jack olhou em redor,  procura de Ullman, mas este no estava no trio.
Uma criada jovem, loura, de rabo-de-cavalo, apareceu junto deles.
A tua bagagem est l fora no alpendre, Dick.
Obrigado, Sally.
Hallorann deu-lhe uma palmadinha na testa.
        Passa bem o Inverno. Ouvi dizer que vais casar.
Quando a rapariga se afastou, voltou-se para os Torrance e
piscou o olho.
Tenho de me despachar se quiser apanhar o avio. Dese
jo-vos muita sorte. Tudo vai correr bem.
Obrigado  respondeu Jack.  Foi muito amvel.
Vou tomar bem conta da sua cozinha  prometeu
Wendy mais uma vez.  Goze bem a Florida.

E o que fao sempre  respondeu Hallorann.
Pousou as mos nos joelhos e inclinou-se sobre Danny.
 a tua ltima oportunidade, p. Queres ir at  Florida?
Acho que no  respondeu Danny a sorrir.
Est bem. Ajudas-me a pr as malas no carro?
Se a me me deixar.
Podes ir  disse Wendy , mas tens de abotoar o casaco.
Wendy inclinou-se para o fazer, mas Hallorann j se lhe
adiantara e os seus grandes dedos negros moviam-se com destreza.
Ele j volta  disse.
Est bemrespondeu Wendy, seguindo-os com o olhar.
Jack continuava  procura de Ullman. Na caixa, o ltimo
hspede do Overlook pagava a conta.
11 O BRILHO
Mesmo  porta viam-se quatro malas empilhadas. Trs eram
enormes, j velhas e gastas, de pele preta a imitar crocodilo.
A quarta era um grande saco de xadrez desbotado.
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        Podes trazer essa, no podes?  perguntou Hallorann.
Pegou em duas malas com uma mo e ps a outra debaixo do
brao.
        Claro  respondeu Danny.
Pegou no saco com as duas mos e desceu os degraus do alpendre atrs do cozinheiro, tentando no se queixar e esquecer o peso do saco.
Desde que eles tinham chegado que se levantara um vento cortante, que assobiava ao longo do parque de estacionamento, obrigando Danny a semicerrar os olhos enquanto
carregava o saco na sua frente, a bater-lhe nos joelhos. Algumas folhas soltas de choupo chocalhavam e rodopiavam no asfalto agora quase deserto, fazendo Danny
pensar por instantes naquela noite da semana anterior em que acordara do seu pesadelo e ouvira
        ou convencera-se de que ouvira, pelo menos  Tony a di
zer-lhe que no fosse para ali.
Hallorann pousou as malas junto do porta-bagagens de um Plymouth Fury de cor bege.
        Este carro no  grande coisa  confidenciou a Danny.
        Aluguei-o. O meu Bessie est do outro lado. Esse  que 
um carro! Um Cadillac de mil novecentos e cinquenta, e anda
que  uma maravilha. Nem calculas. Deixo-o ficar na Florida
porque j est muito velho para estas subidas. Queres que eu te
ajude?
        No, senhor  respondeu Danny.
Conseguiu andar os ltimos dez ou doze passos sem se queixar e pousou o saco, soltando um grande suspiro de alvio.
        Lindo menino!  disse Hallorann.
Tirou um grande molho de chaves do bolso do bluso de sarja azul e abriu o porta-bagagens. Enquanto punha as malas l dentro, disse;
Tu brilhas, rapaz. Amais do que qualquer outra pessoa que
eu tenha conhecido. E j vou fazer sessenta anos em Janeiro.
O qu?
Tens um dom especial  disse Hallorann, voltando-se para
ele.  Quanto a mim, sempre lhe chamei brilho. Tambm era
assim que a minha av lhe chamava. Ela tambm o tinha. Costu
mvamos sentar-nos na cozinha, quando eu tinha a tua idade, e
tnhamos longas conversas sem sequer abrirmos a boca.
A srio?
Hallorann sorriu para Danny, que estava de boca aberta, ansioso, e disse:
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        Entra e senta-te no carro comigo por uns momentos.
Quero falar contigo
E fechou o porta-bagagens com fora.
Do trio do Overlook, Wendy Torrance viu o filho entrar no carro de Hallorann, enquanto o grande cozinheiro negro se sentava ao volante. Sentiu um calafrio e abriu
a boca para dizer a Jack que Hallorann no estava a brincar ao falar em levar o filho para a Florida  tratava-se de um rapto. Eles estavam apenas a conversar. Mas
via a silhueta da cabecinha do filho voltada para Hallorann, com um ar muito atento. Mesmo  distncia, aquela pequena cabea tinha uma postura que ela reconheceu
 era a maneira como o filho olhava quando a televiso estava a transmitir qualquer coisa que o fascinava particularmente, ou quando ele e o pai estavam a jogar.
Jack, que continuava  procura de Ullman, no reparara. Wendy mante-ve-se em silncio, observando o automvel de Hallorann com nervosismo e perguntando a si mesma
de que poderiam ambos estar a falar para Danny estar com tanta ateno.
No carro, Hallorann dizia:
        No te sentes um pouco sozinho ao pensares que s o
nico?
Danny, que ora se sentia s ora assustado, fez um sinal afirmativo.
Eu sou o nico que o senhor conheceu?  perguntou.
Hallorann riu-se e abanou a cabea.
No, pequeno, no. Mas s o que brilha mais.
H muitos, ento?

No  respondeu Hallorann , mas encontram-se al
guns. H muitas pessoas que tm um certo brilho. Nem
mesmo sabem que o tm. Mas parecem sempre radiantes
quando as mulheres esto indispostas com a menstruao, tm
boa nota nos pontos para os quais nem sequer estudaram e
apercebem-se de como as pessoas se sentem assim que entram
numa sala. J conheci uns cinquenta ou sessenta assim. Mas
talvez s uma dzia, contando com a minha av,  que sabiam o
que era brilhar.
Livra!  disse Danny pensativo.  Conhece a senhora
Brant?
Ela?  replicou Hallorann com um ar trocista.  Ela no
brilha. Essa s devolve o jantar duas ou trs vezes por noite.
Eu sei que no  disse Danny com veemncia.  mas
conhece o homem de farda cinzenta que vai buscar os carros?
90
Mike? Claro que o conheo Mike. O que se passa com
ele?
Senhor Hallorann, porque quereria ela enfiar-se nas cal
as dele?
De que ests a falar, rapaz?
Bem, enquanto ela estava a olhar para ele estava a pensar
que gostaria de enfiar-se nas calas dele, e eu no percebo por
que...
Mas Danny no pde continuar. Hallorann atirara a cabea para trs e atroava os ares com as suas gargalhadas, que pareciam disparos de canho. At o banco tremia.
Danny sorriu, atrapalhado, e por fim a tempestade amainou. Hallorann tirou da algibeira de cima do casaco um grande leno de assoar de seda, como que em sinal de
rendio, e limpou as lgrimas que lhe marejavam os olhos.
 rapaz  disse, ainda a rir-se , hs-de saber tudo so
bre o ser humano antes de fazeres dez anos. No sei se hei-de
invejar-te ou no.
Mas a senhora Brant...
No penses mais nisso  disse ele.  E no faas per
guntas  tua me. S irias aborrec-la; percebes onde quero
chegar?
Percebo  respondeu Danny.
Percebia at muito bem. Isso j tinha acontecido.
        Aquela senhora Brant  apenas uma velha porca com uma
espcie de febre;  tudo o que h para saber.
E, olhando para Danny com um ar perscrutador, acrescentou:
At onde consegues ir, p?
O qu?
D-me uma noo. Pensa em mim. Quero saber se s to
bom como eu penso.
Em que quer que eu pense?
Em qualquer coisa. Mas pensa com fora.
Est bem  respondeu Danny.
Por instantes, ficou a pensar; depois fez um esforo de concentrao e dirigiu o pensamento para Hallorann. Nunca fizera nada parecido e no ltimo momento uma parte
do seu instinto despertou e abrandou a fora dos seus pensamentos  no Queria magoar o senhor Hallorann. De novo a sua mente o aguilhoou com uma violncia de que
nunca suspeitara. Parecia um lanamento de Nolan Ryan com um pouco mais de fora.
91
(Espero no o ter magoado.)
E o pensamento era:
(!!!OL, DICK!!!)
Hallorann estremeceu e encostou-se para trs no banco. Cerrou os dentes com um clique forte e uma pequena gota de sangue escorreu-lhe do lbio inferior. Levou
involuntariamente as mos ao peito e em seguida pousou-as de novo no regao. Por instantes as suas plpebras estremeceram, descontrolada-mente, e Danny assustou-se.
Senhor Hallorann! Dick! Est a sentir-se bem?
No sei  respondeu Hallorann com um riso dbil. 
Nunca vi. Meu Deus, tu s uma bomba.
Desculpe  disse Danny, ainda mais assustado.  Quer
que eu v chamar o meu pai? Ele vem num instante.
No, no  preciso. Eu estou bem, Danny. Deixa-te estar
sentado aqui. Sinto-me um pouco tonto, mais nada.
No fiz tanta fora como podia  confessou Danny. 
Tive medo, no ltimo instante.
Talvez tenha sido a minha sorte... Senti os miolos a sa
rem-me pelos ouvidos.
Hallorann reparou no ar assustado de Danny e sorriu.
No fizeste nada de mal. E tu o que sentiste?
Era como se Nolan Ryan estivesse a lanar a bola  res
pondeu Danny prontamente.
Gostas de basebol, no gostas?  perguntou Hallorann,
esfregando a testa.
O meu pai e eu gostamos dos Angels  disse Danny. 
O Red Sox de um lado e os Angels do outro. Eu vi o Red Sox
jogar contra o Cincinnati no Campeonato do Mundo. Quando
era mais pequeno. E o meu pai est...
Danny corou, atrapalhado.
O que foi, Danny?
Esqueci-me  disse Danny.
Levou um dedo  boca, mas j no era nenhum beb. Voltou a pousar a mo no colo.
        Consegues adivinhar aquilo em que o teu pai e a tua me
esto a pensar, Danny?
Hallorann olhava-o fixamente.
Quase sempre, se eu quiser. Mas em geral nem tento.
Porqu?
Bem...        .?''..
Calou-se, atrapalhado. Depois prosseguiu:
92
Era como se estivesse a espreitar para o quarto enquanto
eles esto a fazer aquilo que faz nascer os bebs. Sabes o que ?
Mais ou menos  respondeu Hallorann muito srio.
Eles no haviam de gostar que eu espreitasse o que eles
estavam a fazer. Seria muito feio.
Estou a entender.
Mas eu sei o que eles sentem  acrescentou Danny. 
No posso evit-lo. E tambm sei o que est a sentir. Magoei-o.
Desculpe.
No passa de uma dor de cabea. J tive ressacas que
eram muito piores. E consegues ler na mente de outras pes
soas, Danny?
Ainda no sei ler seno algumas palavras  disse Danny.
        Mas este Inverno o meu pai vai ensinar-me. Dantes o meu
pai ensinava a ler e a escrever numa grande escola. Principal
mente a ler, mas tambm a escrever.
        Queres dizer que podes dizer o que uma pessoa qualquer
est a pensar?
Danny ficou a pensar.
        Posso, se for em voz alta  respondeu Danny, por fim.
        Como aconteceu com a senhora Brant e as calas. Ou como
uma vez, quando eu e a minha me estvamos no armazm
grande a comprar sapatos, e aquele mido crescido estava a
olhar para os rdios e a pensar em levar um sem pagar. E pen
sava: E se eu for apanhado? Depois pensava: Mas eu quero
lev-lo. Depois pensava outra vez que ia ser apanhado. Estava
a ficar doido e a pr-me doido a mim. A me ps-se a falar com
o homem que estava a vender os sapatos e eu fui ter com ele e
disse: P, no leves o rdio. Vai-te embora. Ele ficou mesmo
assustado. E foi-se embora.
Hallorann ria com gosto.
        Calculo... E fazes mais alguma coisa, Danny? So s pen
samentos e sensaes ou  mais alguma coisa?
Danny, cauteloso, perguntou:
E o senhor faz mais alguma coisa?
s vezes  respondeu Hallorann.  No muitas. s ve
zes... s vezes h sonhos. Tu sonhas, Danny?
s vezes  disse Danny.  Sonho acordado. Quando
Tony aparece.
Levou outra vez o dedo  boca. Nunca falara de Tony a mais ningum excepto  me e ao pai. Voltou a pr a mo no colo.
        Quem  Tony?
93
E de repente Danny teve um daqueles lampejos de entendimento que mais o assustavam; era como uma sbita percepo de que uma qualquer mquina incompreensvel podia
ser inofensiva ou terrivelmente perigosa. Ele era demasiado criana para decidir. E tambm para compreender.
        O que se passa?  exclamou.  O senhor est a pergun
tar-me tudo isso porque est preocupado, no est? Por que
motivo est preocupado comigo? Por que motivo est preocu
pado connosco?
Hallorann pousou as grandes mos escuras nos ombros do rapazinho.
Cala-te  disse.  Talvez no seja nada. Mas se for al
guma coisa... Bem, tens uma coisa muito importante na ca
bea, Danny. Creio que ainda tens de crescer muito para te
aperceberes. Tens de ser corajoso.
Mas eu no compreendo coisas!  explodiu Danny. 
Compreendo mas no compreendo! As pessoas... sentem coisas e
eu sinto coisas, mas no sei o que estou a sentir!
Danny baixou o olhar tristemente.
Quem me dera saber ler. s vezes Tony mostra-me sinais
e eu quase no os percebo.
Quem  Tony?  voltou a perguntar Hallorann.
A me e o pai chamam-lhe o meu amigo invisvel 
respondeu Danny, pronunciando as palavras com cuidado. 
Mas ele existe mesmo. Pelo menos acho que sim. s vezes,
quando tento muito compreender as coisas, ele aparece. E diz:
Danny, quero mostrar-te uma coisa. E  como se eu me pas
sasse para o outro lado. S que... so sonhos, como o senhor
disse.
Danny olhou para Hallorann e engoliu em seco.
Dantes eram agradveis. Mas agora... No me lembro do
nome daquela palavra que quer dizer sonhos que nos assustam
e que nos fazem chorar.
Pesadelos?  perguntou Hallorann.
Sim.  isso mesmo. Pesadelos.

Sobre este stio? Sobre o Overlook?
Danny olhou outra vez para as mos.
Sim  respondeu em surdina.
Depois acrescentou com uma voz estridente, olhando para Hollarann:
        Mas eu no posso contar isto ao meu pai, e o senhor tam
bm no! Ele tem de arranjar este emprego porque foi o nico
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que o tio Al conseguiu para ele e tem de acabar de escrever a pea, seno comea outra vez a fazer a Coisa Feia, e eu sei o que ,  embebedar-se. Dantes ele estava
sempre bbado e isso era uma Coisa Feia! Calou-se, quase a chorar.
        Chiu  disse Hallorann, encostando a cara de Danny 
sarja spera do casaco, que cheirava fortemente a naftalina. 
Est bem, filho. E se esse dedo gosta da tua boca, deixa-o estar
onde ele quer.
Mas o seu rosto denotava preocupao. Disse:
        Ao que tu tens, filho, eu chamo brilhar, a Bblia chama
vises e h cientistas que lhe chamam premonio. J li coisas
sobre isso, filho. J estudei isso. Todas querem dizer prever o
futuro. Percebes?
Danny fez um sinal afirmativo, sem afastar a cara do peito de Hallorann.
        Estou a lembrar-me do brilho mais forte que tive... No
sou de esquecer... Foi em mil novecentos e cinquenta e cinco.
Nessa altura ainda estava na tropa, destacado no estrangeiro,
na Alemanha Ocidental. Faltava uma hora para o jantar e eu
estava a ralhar com o soldado por ele estar a descascar as bata
tas com a pele muito grossa. Disse-lhe: Deixa-me ensinar-te
como se faz. Ele estendeu-me a batata e a faca e, logo a seguir,
a cozinha desapareceu. Pum, assim mesmo. Tu dizes que vs
esse tal Tony antes... antes de teres sonhos?
Danny fez um sinal afirmativo.
Hallorann passou-lhe um brao  volta do corpo.
        Comigo era um cheiro a laranjas. Durante toda aquela
tarde me cheirou a laranjas, e no achei estranho porque faziam
parte da ementa do jantar... tnhamos trinta caixas de laranjas
de Valncia. Naquela noite, toda a gente que estava na maldita
cozinha me cheirava a laranjas.
Por instantes foi como se eu tivesse passado para o outro lado. Depois, ouvi uma exploso e vi chamas. Havia pessoas a gritar. Sirenas. E ouvi aquele assobio que
s podia ser vapor. Depois pareceu-me que eu me aproximava um pouco mais daquilo e depois vi uma carruagem que descarrilara, tombada, e que tinha escrito 'Caminhos
de Ferro da Jrgia e da Carolina do Sul', e soube de repente que o meu irmo Cari ia naquele comboio, que descarrilara, e que Cari tinha morrido. Nem mais nem menos.
Depois, tudo desapareceu, e l estava outra vez aquele estpido soldado, assustado, na minha frente, com a
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batata e a faca na mo. Perguntou-me: Sentes-te bem, Serge? E eu respondi: No, o meu irmo acaba de morrer na Jrgia. E por fim recebi um telefonema da minha
me a contar como tudo acontecera. Mas, como vs, meu rapaz, eu j sabia como fora.
Hallorann abanou a cabea lentamente, como para afastar a recordao, e olhou para Danny, que estava de olhos arregalados.
Mas o que tens de te lembrar, meu rapaz,  isto: aquelas
coisas nem sempre acontecem. Recordo-me que h quatro anos eu
estava a trabalhar como cozinheiro num acampamento de rapazes
no Maine, em Long Lake. Quando estava  espera de embarcar
no Aeroporto de Logan, em Boston, comeou a cheirar-me a la
ranjas. Pela primeira vez, talvez em cinco anos. Ento disse com
os meus botes: Meu Deus, o que ir contecer desta vez? Fui 
casa de banho e fechei a porta para ficar sossegado. Nunca deixei
de ter conscincia do stio em que estava, mas comecei a ter a
sensao, cada vez mais forte, de que o avio ia cair. Depois a
sensao desvaneceu-se, assim como o cheiro a laranjas, e tudo
acabou. Fui ao balco das Delta Airlines e escolhi um voo trs
horas mais tarde. E sabes o que aconteceu?
O qu?  perguntou Danny em voz baixa.
        Nada!  disse Hallorann, rindo-se.
Sentiu-se aliviado ao ver o mido sorrir tambm.
Absolutamente nada! Aquele velho avio aterrou  tabela,
sem qualquer incidente. Por isso, ests a ver... Por vezes essas
sensaes no querem dizer nada.
Ah!  disse Danny.
Ou ento segues a pista. Eu fao-o muitas vezes e em geral
saio-me bem. Acompanho-os desde o incio, e s vezes apercebo-
-me de uma coisa ou de outra. Em geral essas sensaes ajudam-
-me a sentir-me bem. Estou sempre a dizer a mim prprio que
qualquer dia tenho trs revelaes de uma vez e fico arrumado.
Ainda no aconteceu. Mas passa-se muito tempo sem que eu veja
algum brilhar, excepto Deus l em cima no cu, talvez.
Sim, senhor  disse Danny, lembrando-se de que havia
quase um ano Tony lhe mostrara um beb num bero na casa
deles em Stovington. Ficara muito entusiasmado com aquilo, e
esperara, pois sabia que levava tempo, mas no viera nenhum
beb.
Agora, ouve  disse Hallorann, pegando em ambas as
mos de Danny.  J tive alguns sonhos maus aqui, e sensa-
96
es ms. J trabalho neste hotel h duas pocas e talvez uma dzia de vezes tenha tido... bem, pesadelos. E talvez uma meia dzia de vezes tenha visto coisas. No,
no te vou dizer o qu. No so para uma criana como tu. So coisas desagradveis. Uma delas tinha a ver com aquelas malditas sebes aparadas como se fossem animais.
Outra vez foi uma criada, Delores Vickery, que tinha um certo brilho, mas no creio que o soubesse. O senhor Ullman despediu-a... Sabes o que isso quer dizer, p?
Sei  respondeu Danny com candura.  O meu pai foi
despedido do liceu e foi por isso que viemos para o Colorado,
suponho.
Bem, Ullman despediu-a por ela ter dito que vira no sei
o qu num dos quartos e que... Bem, em que acontecera uma
coisa m. Foi no quarto duzentos e dezassete, e quero que me
prometas que no irs l, Danny. Durante todo o Inverno.
Afasta-te de l.
Est bem  respondeu Danny.  E a senhora, a criada,
pediu-lhe para ir l ver?
Sim, pediu. E havia l uma coisa m. Aliis... no era uma
coisa m que magoasse algum, Danny,  o que estou a tentar
dizer-te. As pessoas que brilham por vezes vem coisas que vo
acontecer e outras vezes coisas que j aconteceram. So como
gravuras de um livro. J viste num livro alguma gravura que te
assustasse, Danny?
J  respondeu Danny, a pensar nas histrias do Barba
Azul e na gravura em que a nova mulher do Barba Azul abre a
porta e v as cabeas todas.
Mas sabias que no ia fazer-te mal, no sabias?
S... sim respondeu Danny, hesitante.
Bem,  o que acontece no Overlook. No sei porqu, mas
parece que neste hotel h vestgios por todo o lado das coisas
ms que aqui aconteceram. No sei porque havia de ser logo
aqui. Acontecem coisas ms em todos os hotis do mundo,
acho eu, e j trabalhei em muitos e nunca tive problemas. S
aqui. Mas, Danny, no creio que estas coisas possam fazer mal
a algum.
Hallorann enfatizava cada palavra, abanando ao de leve os ombros do mido.
        Por isso, se vires qualquer coisa, no corredor, num
quarto ou l fora numa das sebes... Desvia os olhos, e quando
voltares a olhar j l no estar nada. Ests a perceber?
97
        Estou  respondeu Danny.
Sentia-se muito melhor, aliviado. Ps-se de joelhos no banco, beijou a face de Hallorann e deu-lhe um abrao com fora. Hallorann abraou-o tambm.
Quando largou o mido, perguntou:
Os teus pais no brilham, pois no?
No, acho que no.
Sondei-os como fiz contigo  disse Hallorann.  A tua
me teve uma ligeira reaco. Creio que todas as mes brilham
um pouco, pelo menos at os filhos crescerem o suficiente para
cuidarem de si prprios. O teu pai...
Por instantes Hallorann calou-se. Pusera  prova o pai do mido e no chegara a nenhuma concluso. Era como se tivesse conhecido algum que tivesse brilho e ao mesmo
tempo o no tivesse. Sondar o pai de Danny fora... estranho, como se Jack Torrance tivesse qualquer coisa  qualquer coisa  que estava a esconder. Ou qualquer coisa
to arreigada nele que no era possvel captar.
No creio que ele brilhe  concluiu Hallorann.  Por
isso no te preocupes com eles. Toma conta de ti. No creio que
haja aqui nada que possa fazer-te mal. Mantm-te despreocu
pado, est bem?
Est bem.        .        ;
; Danny, ouve l, p! danny olhou  volta.
         a minha me. Quer que eu volte para o p dela. Tenho
de ir-me embora.
 Eu sei que sim  disse Hallorann.  Diverte-te aqui, Danny. O mais que puderes.
        Prometo, senhor Hallorann. Sinto-me muito melhor.
E pensou, divertido: Dick, para os amigos.
(Sim, Dick, est bem.)
Os olhares de ambos cruzaram-se e Dick Hallorann pestanejou.
Danny endireitou-se no banco e abriu a porta do seu lado. Quando ia a sair, Hallorann chamou-o:
Danny!
O que ?

Se houver problema... chama-me. Um grande grito como
aquele que deste h bocado. Ouvir-te-ei mesmo que esteja na
Florida. E se ouvir, virei a correr.
Est bem  disse Danny, sorrindo.
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Tem cuidado, rapaz.
Prometo que terei.
Danny fechou a porta e correu para o alpendre onde Wendy se encontrava, de ombros encolhidos por causa do vento gelado. Hallorann ficou a observ-los e o sorriso
foi-se desvanecendo lentamente.
No creio que haja aqui nada que possa fazer-te mal.
No creio.
Mas, e se estivesse enganado? Sabia que esta fora a sua ltima poca no Overlook desde que vira aquilo na banheira do quarto 217. Nunca vira uma coisa to horrvel
num livro, e a esta distncia o rapaz a correr ao encontro da me parecia to pequeno...
        No creio...
Desviou o olhar para o topirio.
De repente ps o carro a trabalhar, meteu a primeira e arrancou, tentando no olhar para trs.  claro que o fez, e o alpendre estava vazio. Wendy e Danny tinham
ido para dentro. Era como se o Overlook os tivesse engolido.
        12:
    VOLTA DE RECONHECIMENTO
De que estavam vocs a falar, hem?  perguntou Wendy
assim que entraram no hotel.
De nada em especial.
        Para nada em especial foi uma longa conversa.
Danny encolheu os ombros e Wendy viu no seu gesto um
sinal de paternalismo. Jack no teria feito melhor. No perguntou mais nada a Danny. Sentia uma forte exasperao ao mesmo tempo que um amor ainda mais forte. O
amor era inevitvel e a exasperao decorria da sensao de estar a ser excluda deliberadamente. Por vezes sentira-se excluda pelos dois, como um actor que tivesse
ido acidentalmente aos bastidores enquanto a aco decorria no palco. Bem, este Inverno no poderiam exclu-la, os seus dois homens exasperantes; os aposentos ficavam
demasiado perto para isso. De repente apercebeu-se de que estava com inveja da proximidade que existia
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entre o marido e o filho, e sentiu-se envergonhada. Devia ser assim que a sua me se sentira...
O trio estava agora sem ningum, excepto Ullman e o encarregado da recepo (estavam a fechar a caixa, junto da registadora), duas criadas agora de calas e bluses
quentes, junto da porta principal, com a bagagem ao p, e Watson, o encarregado da manuteno. Watson apanhou Wendy a olhar para ele e piscou-lhe o olho... com
um ar lascivo. Wendy afastou rapidamente o olhar. Jack estava junto da janela, mesmo ao p do restaurante, a gozar a vista. Parecia ausente e sonhador.
Aparentemente, a caixa estava certa porque agora Ullman fechava-a com um gesto autoritrio. Retirou a fita e guardou-a numa pequena bolsa. Em silncio, Wendy aplaudiu
o encarregado, que parecia estar muito aliviado. Ullman parecia o tipo de pessoa capaz de tirar partido de uma falha do encarregado... sem derramar uma gota de
sangue. Wendy no se deixava impressionar muito pelos seus modos servis e exuberantes. Ele era igual a todos os chefes que conhecera, fossem mulheres ou homens.
Ullman era capaz de se desfazer em amabilidades com os hspedes e de ser um tiranete para os criados. Mas agora a aula acabara e o homem tinha a alegria estampada
no rosto. Acabara para todos, excepto para ela, Jack e Danny.
        Senhor Torrance, quer fazer o favor de chegar aqui? 
chamou Ullman num tom peremptrio.
Jack aproximou-se, acenando a Wendy e Danny para que viessem tambm.
O encarregado, que fora l atrs, voltava agora de sobretudo.
Desejo-lhe um Inverno agradvel, senhor Ullman.
Duvido  replicou Ullman, distante.  Doze de Maio,
Braddock. Nem um dia a mais ou a menos.
Sim, senhor.
Braddock contornou o balco, com uma expresso sbria e digna, como que compenetrado do seu papel, mas assim que ficou de costas para Ullman sorriu de troa. Disse
qualquer coisa s duas raparigas que estavam  porta,  espera, e ouviram-se risos abafados.
Agora Wendy comeava a aperceber-se do silncio daquele local. Cara sobre o hotel como um pesado cobertor que tivesse abafado tudo excepto o pulsar dbil do vento
da tarde, l fora. Do stio em que estava via o gabinete, agora com um ar com-pletamente estril, com duas secretrias vazias e dois armrios de ficheiros. Por detrs,
via-se a cozinha imaculada de Hallo-
100
rann, cujas grandes portas com culos de vidro estavam abertas e seguras por cunhas de borracha.
        Vou ficar mais uns minutos para lhe mostrar o hotel 
disse Ullman.
Wendy verificou que Ullman pronunciava sempre aquela palavra com nfase. De propsito.
        Creio que o seu marido ter de conhecer muito bem todos
os cantos do Overlook, mas a senhora e o seu filho utilizaro
mais a zona do trio e do primeiro andar, onde ficam os vossos
aposentos.
        Sem dvida  concordou Wendy em voz baixa.
Jack lanou-lhe um olhar discreto.
        E um belo local  disse Ullman, exuberante.  Gosto
muito de mostr-lo.
Tambm acho, pensou Wendy.
        Vamos subir ao terceiro andar e depois viremos por a
abaixo  disse Ullman.
Parecia verdadeiramente entusiasmado.
Se estamos a demor-lo...  disse Jack.
De maneira nenhuma  disse Ullman.  Fechou a loja.
Tout fini, por esta poca, pelo menos. Alm disso, tenciono
passar a noite em Boulder, no Boulderado, claro.  o nico
hotel decente deste lado de Denver... alm do Overlook, evi
dentemente. Por aqui.
Entraram todos no elevador, que tinha ornamentos de cobre e lato. Ullman deixou-o parar por completo antes de abrir a porta. Danny fez meno de recuar, pouco 
vontade, e Ullman sorriu para ele. Danny tentou retribuir o sorriso, sem grande xito.
No te preocupes, menino  disse Ullman.  O eleva
dor  totalmente seguro.
O Titanic tambm era  disse Jack olhando para o globo
de vidro no tecto do elevador.
Wendy mordeu o lbio para no se rir. Ullman no achou graa. Fez deslizar a porta interior com rudo.
O Titanic fez uma nica viagem, senhor Torrance. Este
elevador j fez milhares delas desde que foi instalado, em mil
novecentos e vinte e seis.
Isso  reconfortante  respondeu Jack, acariciando o ca
belo de Danny.  O avio no vai cair, p.
Ullman carregou no boto, e por instantes no sentiram nada
101
excepto um estremecimento e a lamria torturada do motor, l em baixo. Wendy teve uma viso dos quatro, encurralados entre dois pisos como moscas apanhadas numa
garrafa, a serem descobertos na Primavera, aos pedaos, como os do grupo dos Donner...
(Acaba com isso!)
O elevador comeou a subir, a princpio com uma certa vibrao e rudos vindos de baixo. Depois comeou a deslizar. No terceiro andar, Ullman f-lo parar de repente
e abriu as portas. A cabina do elevador encontrava-se ainda seis polegadas abaixo do nvel do cho. Danny olhou para o desnvel que havia entre o cho do elevador
e o soalho do terceiro piso, como se se tivesse apercebido de que o universo no era to severo como lhe haviam dito. Ullman pigarreou, fez subir a cabina mais
um pouco, imobilizou--a com um estico (ficou ainda com um desnvel de duas polegadas), e todos saram. Mais leve, a cabina elevou-se ao nvel do soalho, algo que
Wendy no achou nada reconfortante. Totalmente seguro ou no, estava resolvida a utilizar as escadas para descer. E em nenhuma circunstncia permitiria que qualquer
dos trs voltasse a entrar naquela geringona.
Para onde ests a olhar, p?  perguntou Jack, bem-
-humorado.  Vs alguma ndoa?
Claro que no  atalhou Ullman, irritado.  Todas as
carpetes foram limpas h dois dias.
Wendy deitou um olhar  passadeira do corredor. Bonita, mas definitivamente no a escolheria para sua casa, se um dia chegasse a ter alguma. De fundo azul-forte,
com o que parecia ser uma selva surrealista cheia de cordas, gavinhas e rvores com pssaros exticos. Era difcil dizer que espcie de pssaros, pois os contornos
eram escuros e esbatidos.
        Gostas da passadeira?  perguntou Wendy a Danny.
        Gosto, me  respondeu Danny sem entusiasmo.
Percorriam o corredor, que tinha uma largura confortvel.
As paredes estavam forradas de seda azul, de um tom mais claro, a contrastar com o da passadeira. De trs em trs metros e a cerca de dois metros e vinte do cho,
na parede, havia candeeiros elctricos. Concebidos para parecerem candeeiros a gs londrinos, tinham campnulas de vidro creme, fosco, sustentadas por tiras de
ferro entrelaadas.
Gosto muito dos candeeiros  disse Wendy.
Ullman abanou a cabea, satisfeito.
O senhor Derwent instalou-os no hotel depois da guerra,
102
da segunda, suponho. De facto, a maior parte (embora no toda) da decorao do terceiro andar foi ideia sua. Esta  a trezentos, a Suite Presidencial.
Enfiou a chave na fechadura da dupla porta de mogno e abriu-a de par em par. A vista para ocidente que se desfrutava da sala f-los suster a respirao, o que provavelmente
fora a inteno de UUman. Este sorriu e perguntou:
 c uma vista, no ?
Sem dvida que   respondeu Jack.
A janela ocupava quase todo o comprimento da sala. O sol incidia directamente sobre dois picos escarpados, espalhando uma luz dourada pelas encostas rochosas e pela
poalha de neve que cobria os picos altos. As nuvens que emolduravam esta vista digna de um bilhete-postal tinham tambm um tom dourado e um raio de sol vinha cair
na zona escura formada pelas copas dos abetos, mais abaixo.
Jack e Wendy estavam to entretidos com a vista que nem repararam em Danny. Este no estava a espreitar pela janela; mas para o papel de riscas vermelhas e brancas
que forrava a parede da esquerda, onde uma porta se abria para um quarto. E a sua respirao ofegante, misturada com a dos outros, nada tinha a ver com beleza.
Grandes manchas de sangue seco  mistura com pedaos de tecido branco-acinzentado espalhavam-se pelo papel da parede. Danny sentiu-se enjoado. Era como o quadro
de um louco pintado com sangue, um esboo surrealista de um rosto de homem aterrorizado, de boca escancarada e com metade da cabea desfeita...
(Se vires qualquer coisa... desvia o olhar; e quando voltares a olhar, j l no estar. Ests a perceber?
De propsito, Danny olhou pela janela, tendo o cuidado de no deixar transparecer nada no rosto, e quando a me lhe estendeu a mo ele agarrou-a, tendo o cuidado
de no a apertar demasiado nem denunciar fosse o que fosse.
O gerente falava ao pai em trancar a janela grande para que a ventania no a danificasse. A medo, Danny voltou a olhar para a parede. A grande mancha de sangue seco
desaparecera. Os pequenos farrapos cinzentos e brancos tinham igualmente desaparecido.
Em seguida, UUman indicou-lhes a sada. A me perguntou--lhe se ele achava as montanhas bonitas. Danny disse que sim, embora verdadeiramente as montanhas no lhe
interessassem.
103
No momento em que Ullman fechava a porta atrs deles, Dan-ny olhou para trs por cima do ombro. A mancha estava l outra vez, mas desta vez o sangue estava fresco.
Corria. Ullman, que olhava naquela direco, prosseguia os comentrios sobre os homens clebres que tinham ficado no hotel. Danny deu-se conta de que mordera o
lbio ao ponto de fazer sangue, e nem sequer sentira. J no corredor, com os outros, deixou-se ficar um pouco para trs, limpou o sangue do lbio com as costas da
mo e pensou: Sangue.
(Teria o senhor Hallorann visto sangue ou outra coisa ainda pior?)
(No creio que essas coisas possam magoar-te.)
Esteve prestes a dar um grito mas abafou-o. A me e o pai no podiam ver aquelas coisas. Nunca as tinham visto. Danny no diria nada. A me e o pai amavam-se, e
isso era uma realidade. O resto eram apenas figuras de um livro. Algumas eram medonhas mas no podiam magoar. Elas... no podem... magoar-te.
O senhor Ullman mostrou-lhes outros quartos do terceiro andar, fazendo-os percorrer corredores que se cruzavam como num labirinto. Aqui era tudo douras, disse
o senhor Ullman, embora Danny no tivesse visto doce nenhum. Ele mostrou-lhes os quartos onde ficara uma senhora chamada Marilyn Monroe, nos tempos em que era
casada com um homem chamado Arthur Miller (Danny tinha a vaga sensao de que eles se tinham divorciado no muito depois de terem ficado no Hotel Overlook).
Mam!
O que , querido?
Se eles eram casados porque tinham apelidos diferentes?
Tu e o pai tm o mesmo apelido.
 verdade, mas ns no somos famosos, Danny  res
pondeu Jack.  As mulheres famosas mantm o apelido de
solteiras mesmo depois de casarem, porque esse apelido  como
o po para a boca.
Como o po para a boca...  repetiu Danny, sem enten
der.
O que o pai quer dizer  que as pessoas estavam habitua
das a ir ao cinema para ver a Marilyn Monroe, mas talvez no
fossem ver a Marilyn Miller  explicou Wendy.
Porque no? Ela seria a mesma pessoa. As pessoas no
sabem isso?
Sabem, mas...
104
Wendy olhou para Jack sem saber como continuar.
        Tmman Capote dormiu neste quarto uma vez  inter
rompeu Ullman, impaciente.  E foi no meu tempo. Um ho
mem extremamente simptico. Modos do continente.
No havia nada de especial em qualquer destes quartos ( parte a ausncia de doces, a que o senhor Ullman no parava de aludir), nada de que Danny tivesse medo.
Na verdade, havia uma nica coisa no terceiro andar que incomodava Danny, sem que ele soubesse explicar porqu. Era o extintor de incndios que havia na parede,
mesmo  esquina do corredor, antes de voltarem para o elevador, que estava aberto  espera, como se fosse uma boca cheia de dentes de ouro.
Era um extintor antigo, uma mangueira espalmada, enrolada com doze voltas. Uma das extremidades estava ligada a uma torneira vermelha muito grande e a outra tinha
na ponta um bocal de lato. As pregas da mangueira estavam apoiadas numa cinta de ao pintada de encarnado, com uma dobradia. Em caso de incndio, dava-se um puxo
 cinta de ao e a mangueira era nossa. Danny percebia muito bem. Era-lhe muito fcil perceber como as coisas funcionavam. Com dois anos e meio conseguira abrir
a cancela de proteco que o pai instalara ao cimo das escadas da casa de Stovington. Ele apercebera-se do modo como o fecho funcionava. O pai dizia que aquilo era
um sexto sentido. Umas pessoas tinham o sexto sentido e outras no.
Este extintor era um pouco mais antiquado que outros que vira  o da escola infantil, por exemplo  mas no era assim to raro. De qualquer modo, fazia-o sentir-se
ligeiramente incomodado, ali enrolado junto do papel azul-claro da parede, como se fosse uma cobra a dormir. Danny sentiu-se satisfeito quando dobrou a esquina
do corredor e deixou de o ver.
         claro que todas as janelas tm de ser trancadas  disse
Mr. Ullman quando voltaram para o elevador.
De novo a cabina cedeu ao peso dos quatro.
Mas estou especialmente preocupado com a janela da
Suite Presidencial. Aquela janela custou quatrocentos e vinte
dlares na altura em que foi feita, e isso foi h mais de trinta
anos. Hoje em dia, substitu-la custaria oito vezes mais.
Eu tranco-a  disse Jack.
Desceram ao segundo andar, onde havia mais quartos e ainda mais curvas no corredor. A luz vinda das janelas comeava a esmorecer apreciavelmente, agora que o Sol
se escondia
105

atrs das montanhas. O senhor Ullman mostrou-lhes um ou dois quartos e ficou-se por ali. Passou pelo 217, aquele contra o qual Dick Hallorann pusera Danny de sobreaviso,
sem abrandar o passo. Danny olhou para a discreta placa com o nmero, simultaneamente fascinado e pouco  vontade.
Desceram ao primeiro andar. Danny sentia-se preso ao que quer que houvesse ali. No havia nada.
Wendy Torrance sentiu-se bastante aliviada. A Suite Presidencial, com a sua elegncia fria, fazia sentir-se esquisita e desajeitada  era muito interessante visitar
um edifcio histrico restaurado e ler uma placa onde se explicava que Abraham Lincoln ou Fran-klin D. Roosevelt tinham dormido num determinado quarto, mas outra
coisa completamente diferente era imaginar que ela e o marido iriam dormir na roupa e talvez fazer amor na cama em que os homens mais importantes do mundo tinham
dormido uma vez (ou os mais poderosos, de qualquer modo, concluiu). Mas este apartamento era mais simples, mais acolhedor, quase convidativo. Wendy achou que poderia
suportar este local durante uma temporada sem grande dificuldade.
 muito agradvel  disse a Ullman, que se mostrou gra
tificado e fez um sinal de assentimento.
E simples mas apropriado. Durante a temporada ficam
aqui o cozinheiro e a mulher, ou o cozinheiro e o aprendiz.
O senhor Hallorann viveu aqui?  perguntou Danny de
chofre.
O senhor Ullman inclinou a cabea Danny com um ar condescendente.
Exactamente. Ele e o senhor Nevers.        s
E, voltando-se para Jack e Wendy:
Esta  a sala de estar.
Havia vrias cadeiras que, sendo modestas, pareciam confortveis, uma mesa baixa que em tempos fora luxuosa mas que depois fora posta de lado, duas estantes (cheias
de livros do Reader's Digest e de trilogias do Detective Book Club dos anos 40, constatou Wendy, divertida) e um televisor incaracterstico muito menos elegante
que os dos quartos.
        No tem cozinha, evidentemente  disse Ullman. 
Mas h aqui um monta-cargas. Este apartamento fica mesmo
debaixo da cozinha.
Ullman fez correr um painel quadrado e mostrou um tabuleiro amplo tambm quadrado. Deu-lhe um empurro e o tabuleiro desapareceu, deslizando ao longo de um cabo.
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         uma passagem secreta!  exclamou Danny entusias
mado, olhando para a me.
Por momentos esqueceu todos os terrores a favor daquela passagem claustrofbica por trs da parede.
         como em Abbott e Costello e os Monstros!
O senhor Ullman franziu o sobrolho, mas Wendy sorriu com um ar indulgente. Danny correu para o monta-cargas e espreitou para o interior da passagem.
        Por aqui, por favor.
O senhor Ullman abriu a porta que ficava no outro extremo da sala de estar. Dava para um quarto espaoso e arejado, com duas camas iguais. Wendy olhou para o marido,
sorrindo, e encolheu os ombros.
        No faz mal  disse Jack.  Ns juntamo-las.
O senhor Ullman olhou para eles por cima do ombro, com sincera admirao.
Como disse?
As camas. Podemos junt-las  explicou Jack com ar
prazenteiro.
Ah, claro  disse o senhor Ullman, confuso.
Em seguida, o seu rosto clareou-se e um violento rubor comeou a elevar-se desde o colarinho da camisa.
        Como quiserem.
Voltaram  sala de estar, onde uma segunda porta dava para outro quarto, este com beliches. Havia um radiador a um canto. O desenho da carpete consistia num tremendo
emaranhado de salvas e cactos. Wendy apercebeu-se de que Danny gostara logo dela. As paredes do quarto mais pequeno eram forradas de painis de madeira de pinho.
Achas que podes ficar aqui, p?  perguntou Jack.
Claro que posso. Vou dormir na cama de cima, est bem?
Se  o que queres...
Tambm gosto da carpete. Senhor Ullman, porque  que
as carpetes no so todas iguais a esta?
Por instantes, o senhor Ullman ficou a olhar, como se tivesse dado uma dentada num limo. Depois sorriu e deu uma palma-dinha na cabea de Danny.
        Estes so os teus aposentos  disse , excepto a casa de
banho, que d para o quarto principal. O apartamento no 
grande, mas  claro que podero espraiar-se pelo resto do hotel.
A lareira do trio est a funcionar bem, pelo menos foi o que
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Watson me disse, e estejam  vontade para comerem na sala de jantar, se vos apetecer.
O senhor Ullman dirigia-se a eles como se estivesse a conceder-lhes um grande favor.
Est bem  disse Jack.
Vamos para baixo?  perguntou o senhor Ullman.
Com certeza  respondeu Wendy.
Desceram de elevador. O trio estava agora deserto, com excepo de Watson, que estava encostado  porta principal, de casaco de couro e palito na boca.
Pensava que voc j estivesse bem longe daqui a esta hora
 disse o senhor Ullman com uma certa frieza.
Fiquei por aqui s para lembrar ao senhor Torrance a
caldeira  disse Watson, empertigando-se.  Tenha-a debai
xo de olho, amigo, e tudo correr bem. Baixe a presso umas
quantas vezes por dia. Ela trepa.
Ela trepa, pensou Danny, e as palavras ecoaram ao longo de um corredor enorme e silencioso na sua mente, um corredor ladeado de espelhos em que raramente as pessoas
se miravam.
 o que farei  respondeu o pai.
Tudo vai correr bem  disse Watson, estendendo a mo
a Jack e inclinando a cabea a Wendy.  Minha senhora.
        Muito prazer  disse Wendy, sentindo-se ridcula.
No o foi. Viera da Nova Inglaterra, onde passara a vida,
e parecia-lhe que com poucas palavras este homem, Watson, de cabelo sedoso, resumira o que o Oeste era verdadeiramente. O olhar lascivo de h instantes no tivera
qualquer importncia.
        Jovem senhor Torrance  disse Watson com solenidade,
estendendo a mo.
Danny, que h j quase um ano sabia tudo sobre apertos de mo, estendeu timidamente a sua, que foi engolida pela de Watson.
Toma bem conta deles, Dan.
Sim, senhor.
Watson largou a mo de Danny e endireitou-se. Olhou para Ullman.
        At para o ano, creio eu  disse, estendendo-lhe a mo.
Ullman apertou-a com indiferena.  luz dos candeeiros do
trio, a sua aliana libertava um brilho maldoso.
Doze de Maio, Watson  disse Ullman.  Nem um dia
a mais nem um dia a menos.
Sim, senhor  disse Watson.        
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Jack quase conseguiu ler o que ia na mente de Watson: Verme nojento.
Passe bem o Inverno, senhor Ullman.
Oh, duvido  respondeu Ullman, distante.
Watson abriu uma das portas. O vento gemeu com mais fora e comeou a levantar-lhe a gola do casaco.
E vocs tomem cuidado  disse.
Foi Danny que respondeu:
Sim, senhor.
Watson, cujo antepassado no muito remoto fora dono deste hotel, esgueirou-se humildemente para a porta. Esta fechou-se atrs dele, abafando o rudo do vento. Viram-no
descer os degraus do alpendre com as suas botas negras de vaqueiro, j gastas. Ao atravessar o parque de estacionamento na direco do seu International Harvester,
algumas folhas secas de choupo rodopiaram  volta das suas pernas. Entrou. Quando ps o motor a trabalhar, um fumo azulado libertou-se do tubo de escape cheio de
ferrugem. O fascnio do silncio instalou-se entre eles assim que ele se afastou e, depois, saiu do parque. O camio desapareceu na crista do monte e depois reapareceu,
mais pequeno, na estrada principal, na direco leste.
Por instantes, Danny sentiu-se mais s do que nunca.
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o ALPENDRE DA FRENTE
Os Torrance ficaram no grande alpendre da frente do Hotel Overlook como se pousassem para um retrato de famlia, Danny no meio, embrulhado no seu bluso comprado
no Outono do ano anterior, que estava agora a ficar pequeno e a romper-se nos cotovelos, Wendy atrs, com uma mo no seu ombro, e Jack  esquerda, com a mo pousada
na cabea do filho.
Ullman estava no degrau de baixo, com um sobretudo caro de l ntohair. O Sol estava agora do outro lado das montanhas, emoldurando-as de um fogo dourado, aumentando
as sombras e conferindo-lhes uma tonalidade purprea. Os nicos trs veculos que restavam no parque eram o autocarro do hotel, o Lincoln Continental de Ullman
e o velho VW de Torrance.
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        J tem as suas chaves. Percebeu tudo acerca da fornalha e
da caldeira?  perguntou Ullman a Jack.
Jack fez um sinal afirmativo e sentiu uma certa condescendncia em relao a Ullman. A poca estava a acabar e o novelo manter-se-ia intacto at doze de Maio 
nem um dia antes nem um dia depois  e Ullman, que era o responsvel por tudo e se referira ao hotel com eptetos de indesmentvel enfatuao, no conseguia encontrar
as pontas.
Creio que est tudo controlado  disse Jack.
ptimo. Estarei em contacto consigo.
Demorou-se ainda um pouco, como se estivesse  espera de que o vento lhe desse a mo e o transportasse at ao carro. Suspirou.
Est bem. Passem bem o Inverno, senhor Torrance e se
nhora Torrance. E tu tambm, Danny.
Obrigado, senhor. Igualmente  respondeu Danny.
Duvido  repetiu Ullman tristemente.  Aquilo na Flo
rida  uma espelunca, para falar com toda a franqueza. Muito
trabalho. O Overlook  o meu verdadeiro emprego. Tome bem
conta dele por mim, senhor Torrance.
Creio que ainda aqui estar quando o senhor voltar na
Primavera  disse Jack.
Um pensamento assomou  mente de Danny. (E ns estaremos?) e desapareceu.
        Claro. Claro que estar.
Ullman lanou um olhar ao parque infantil. O vento produzia um murmrio entre os animais da sebe. Depois, voltou a acenar, com um gesto profissional.
        Adeus, ento.
Apressado, encaminhou-se para o automvel  que era ridiculamente grande para um homem to pequeno  e meteu-se l dentro. O motor do Lincoln comeou a trabalhar
e os farolins da traseira reluziram no momento em que comeou a afastar-se do parque. Jack leu o que estava escrito no pavimento: reservado PARA O SENHOR ULLMAN,
GERENTE.
        Muito bem  disse Jack entre dentes.
Ficaram a observar o carro at o perderem de vista, a leste. Depois, olharam uns para os outros por instantes, em silncio, quase assustados. Estavam ss. As folhas
de choupo rodopiavam e deslizavam sem nexo pelo relvado, que estava agora cuidadosamente aparado s para eles verem. S eles viam as folhas
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de Outono deslizando na relva. Jack sentiu um calafrio estranho, como se a sua fora vital se resumisse agora a uma mera centelha, enquanto o hotel e os jardins
tinham de sbito aumentado de tamanho e ganho um ar sinistro, oprimindo-os, amarfanhando-os.
Ento Wendy disse:
 Olha como tu ests, p. O teu nariz parece uma mangueira de incndio. Vamos para dentro.
Entraram e fecharam a porta com fora, deixando para trs o infatigvel gemido do vento.
III PARTE O NINHO DE VESPAS

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NO TELHADO
 Filha da me!
Jack Torrance soltou esta exclamao com um misto de surpresa e de dor, batendo com a mo direita na camisa azul de cambraia, que usava para trabalhar, para enxotar
a vespa que se aproximara lentamente e o picara. Em seguida, trepou pelo telhado o mais depressa que pde, olhando para trs, por cima do ombro, para ver se era
perseguido pela famlia da vespa cujo ninho destapara para destruir. Se isso acontecesse, ficaria em maus lenis, pois o ninho estava entre ele e a escada e o alapo
que dava acesso ao sto estava trancado por dentro. Treze metros separavam o telhado do ptio de cimento que havia entre o hotel e o relvado.
A atmosfera estava lmpida, silenciosa e tranquila.
Jack gemeu de dor, sentou-se no telhado e examinou o indicador direito. Este j estava a inchar e Jack calculou que teria de tentar passar pelo ninho para atingir
a escada, descer e pr gelo no dedo.
Estava-se a 20 de Outubro. Wendy e Danny tinham ido a Sidewinder no camio do hotel (um Dodge velho e barulhento, embora mais digno de confiana do que o VW, que
fazia agora um rudo infernal e parecia estar no fim) comprar leite e fazer algumas compras de Natal. Era cedo para fazer compras, mas ningum podia dizer quando
a neve viria para ficar. J haviam cado alguns flocos e em certos troos da estrada que vinha de Overlook j havia uma camada de gelo que fazia escorregar.
At aqui o Outono tinha sido deslumbrante. Desde que tinham chegado, h trs semanas, que os dias soalheiros se sucediam. As manhs frias e secas, com uma temperatura
de zero graus, davam lugar a tardes que se ficavam pelos dezasseis graus, a temperatura ideal para subir ao telhado, pela parte
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virada a ocidente, menos inclinada, e tratar das telhas. Jack admitira h trs dias, perante Wendy, que conseguiria acabar o trabalho, mas verdadeiramente no tinha
pressa. A vista daqui era espectacular e punha mesmo a um canto a que se desfrutava da Suite Presidencial. Mais importante do que isso, o trabalho era apaziguador.
No telhado, Jack sentia que estava a curar-se das feridas dos ltimos trs anos. Sentia-se em paz. Aqueles trs anos comeavam a parecer-lhe um turbulento pesadelo.
As telhas estavam muito danificadas e algumas tinham mesmo voado com as tempestades do ltimo Inverno. Jack levantara-as, exclamando:
 Fora daqui com as bombas!
Atirara-as para o lado, no fosse Danny andar por ali a passar e ser atingido por alguma. Estava a tirar telhas velhas quando a vespa lhe picara.
A parte irnica da questo  que Jack estava sempre com ateno aos ninhos cada vez que subia ao telhado; levava consigo o insecticida apenas por uma questo de
precauo. Mas naquela manh a calma e tranquilidade eram tais que a sua ateno dispersara-se. Regressara ao universo da pea que a pouco e pouco ia criando, esboando
algumas cenas em que iria trabalhar naquela noite. A pea estava a sair muito bem, e, embora Wendy falasse pouco, Jack sabia que ela estava satisfeita. Ficara bloqueado
na cena crucial entre Denker, o sdico director da escola, e Gary Benson, o seu jovem heri, durante os ltimos seis meses de infelicidade em Stovington, meses em
que a necessidade de beber fora to castigadora que mal conseguira concentrar-se nas aulas, pondo de lado as suas ambies literrias extracurriculares.
Mas nas noites dos doze ltimos dias, quando se sentava  secretria que trouxera l de baixo do escritrio principal, o bloqueio desaparecera-lhe dos dedos to
surpreendentemente como o algodo doce se dissolve na boca. Penetrara quase sem esforo nas profundezas do carcter de Denker, que lhe tinham vindo a escapar, e
voltara a escrever a maior parte do segundo acto, fazendo-o reviver  volta da nova cena. E o desenvolvimento do terceiro acto, que concebia quando a vespa viera
pr fim aos seus pensamentos, era j evidente. Estava convencido de que poderia esbo-lo dentro de quinze dias e ter um exemplar da maldita pea por altura do
Ano Novo.
Jack tinha uma agente em Nova Iorque, uma ruiva obstinada chamada Phyllis Sandler, que fumava Herbert Tareytons, bebia
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Jim Beam por um copo de papel e acreditava que o sol da literatura nascia e se punha em Sean O'Casey. J comprara trs contos a Jack, incluindo a pea publicada
no Esquire. Jack escrevera-lhe a falar da pea, que se chamava The Little School, descrevendo o conflito bsico entre Denker, um estudante dotado que falhara e
se transformara no director cruel de uma escola preparatria da Nova Inglaterra no virar do sculo, e Gary Ben-son, que Jack via como uma verso mais jovem de si
prprio. Phyllis respondera-lhe demonstrando o seu interesse e aconselhando-o a ler O'Casey antes de se deitar ao trabalho. J voltara a escrever-lhe, perguntando
o que era feito da pea. Jack respondera-lhe que no sabia quando a acabaria, pois The Little School fora vtima daquela interessante situao que se verifica nos
intelectuais e que d pelo nome de bloqueio do escritor. Agora parecia que Phyllis iria conseguir a pea. Se seria boa ou no ou se chegaria a subir ao palco,
isso era outra questo. E Jack no se importava muito com isso. De certo modo, sentia que a prpria pea constitua um smbolo colossal dos anos difceis passados
na Escola Preparatria do Stovington, do casamento que quase deitara a perder como uma criana estpida que se pe atrs da roda de uma velha carroa, da monstruosa
agresso ao filho, do incidente no parque de estacionamento com George Hatfield, um incidente que j no se limitava a encarar como um rasgo sbito e destruidor.
Estava agora convencido de que o problema da bebida nascera de um desejo inconsciente de se ver livre de Stovington, e a conscincia que tinha desse facto reprimia
a sua capacidade criadora. Deixara de beber, mas a necessidade de se sentir livre era igualmente forte. Da George Hatfield. Agora tudo o que ficara desses dias
fora a pea, em cima da secretria do seu quarto. Assim que estivesse pronta, envi-la-ia para a agncia de Phyllis, em Nova Iorque, e poderia voltar-se para outras
coisas. No um romance, pois no estava disposto a encetar uma nova e espinhosa tarefa de trs anos, mas decerto mais contos. Talvez um livro de contos.
Movendo-se com cuidado, desceu o telhado de gatas para l da Unha de demarcao em que as telhas postas de novo se separavam da zona que acabara de destelhar. Aproximou-se
do ninho de vespas pelo lado esquerdo, pronto para recuar e descer a escada at ao cho se as coisas corressem mal.
J na zona destelhada, inclinou-se e espreitou.
L estava o ninho, encravado no espao que ficava entre as
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 telhas velhas e o forro do telhado. Era enorme. Jack estava convencido de que a bola de papel acinzentado tinha bem uns sessenta centmetros de dimetro. A sua
forma no era perfeita porque o espao que havia entre as telhas e as traves era demasiado estreito, mas mesmo assim considerou que aqueles pequenos insectos tinham
feito um belo trabalho. A superfcie do ninho estava repleta de insectos que se moviam lentamente. Eram das grandes, e no das amarelas, que so mais pequenas e
mais calmas. A temperatura branda daquele Outono tornara-as mais e estpidas, mas Jack, que conhecia as vespas desde os tempos da escola, considerava-se com sorte
por ter sido mordido apenas por uma. E pensou que, se Ullman tivesse querido o trabalho feito no pino do Vero, a pessoa que tivesse destelhado aquela parte do
telhado teria sido vtima de uma desagradvel surpresa. Sem dvida. Quando uma dzia de vespas pousam em cima de ns ao mesmo tempo e comeam a picar-nos a cara,
os braos e as mos, e mesmo as pernas, atravs das calas,  completamente impossvel lembrarmo-nos de que estamos a vinte metros de altura. Podemos aproximar-nos
da beira do telhado ao tentarmos ver-nos livres delas. E essa pequena distncia  o mais importante.
Jack lera em qualquer lado  num suplemento de domingo ou na contracapa de uma revista  que sete por cento dos acidentes de viao fatais permanecem inexplicveis.
Nem falha mecnica, nem excesso de velocidade, nem excesso de bebida, nem mau tempo. Simplesmente, um automvel despista-se num troo de estrada deserto e o nico
ocupante, o motorista, morre sem que ningum consiga explicar o que aconteceu. O artigo inclua uma entrevista com um polcia federal que teorizava que muitos
desses despistes-mistrio resultavam de insectos que haviam entrado dentro dos automveis. Uma vespa, uma abelha, ou mesmo uma aranha, ou uma traa. O condutor entrava
em pnico, tentava enxotar o insecto ou abria a janela para o deixar sair, possivelmente este picava-o e talvez o condutor perdesse o controlo. De qualquer modo...
era fatal. E o insecto, em geral ileso, continuaria a sobrevoar alegremente o destroo fumegante,  procura de melhores pastagens. O polcia defendia que deveria
haver patologistas aptos a detectar veneno de insectos durante as autpsias, recordava Jack.
Agora, ao olhar para o ninho, parecia-lhe que ele deveria servir de smbolo do que passara (e do destino para que arrastara os seus refns) e de bom pressgio para
o futuro. De outro
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modo, como poderia explicar as coisas que lhe tinham acontecido? Porque a verdade  que continuava a sentir que as infelizes experincias de Stovington tinham
de ser encaradas com calma. Ele no fizera nada, fora uma vtima dos acontecimentos. Conhecia muita gente na faculdade de Stovington, dois deles precisamente do
Departamento de Ingls, que bebia muito. Zack Tunney tinha por hbito comprar uma grade de cervejas aos sbados  tarde, p-las no ptio das traseiras durante
a noite, a gelar, e depois devor-las no domingo, enquanto via desafios de futebol e filmes antigos. No entanto, durante a semana, Zack mantinha-se impecavelmente
sbrio e era raro beber.
Jack e Al Schokley tinham sido alcolicos. Haviam procurado a companhia um do outro como dois renegados que eram ainda suficientemente sociveis para se afundarem
em conjunto em vez de o fazerem sozinhos. A nica diferena  que as guas em que mergulhavam no eram salgadas. Ao observar as vespas, que prosseguiam na sua azfama
instintiva antes da chegada do Inverno, altura em que morreriam todas "excepto a rainha, que ficaria a hibernar, Jack ia mais longe. Era ainda um alcolico, s-lo-ia
sempre, talvez desde aquela noite no liceu em que tomara a sua primeira bebida. Isso nada tinha a ver com a fora de vontade, ou com a moralidade da bebida, ou com
a sua fora ou debilidade de carcter. Algures dentro de si havia uma zona danificada ou uma quebra de circuito que no funcionava e ele fora arrastado para a queda,
vacilante, lentamente a princpio, e depois em ritmo acelerado, quando Stovington exercera as suas presses sobre ele. Um grande escorrega e, ao fundo, uma bicicleta
amachucada, sem dono, e um filho com o brao partido. Jack Torrance, passivo. E com o seu temperamento passava-se a mesma coisa. Toda a sua vida tentara control-lo
sem xito. Lembrava-se de que, quando tinha sete anos, fora espancado por uma vizinha por estar a brincar com fsforos. Fugira para a rua e atirara uma pedra a um
carro que passava. O pai vira e avanara para o pequeno Jack, furibundo. Deixara-lhe o rabo a arder... e um olho negro. E assim que o pai voltara para casa, a resmungar,
para ver o que a televiso estava a transmitir, Jack cruzara-se com um co vadio e dera--Ihe um pontap. Tinha-se envolvido em duas dzias de brigas na escola primria,
e ainda em mais no liceu. Fora suspenso duas vezes e ficara detido vezes sem conta, apesar das boas notas. O futebol constitura em parte uma vlvula de escape,
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embora se recordasse perfeitamente de que passava quase todo o tempo sob uma grande tenso e encarava as atitudes dos adversrios como ofensas pessoais. Fora um
bom jogador desde os seus tempos de adolescente e sabia muito bem que devia esse facto ao seu feitio exaltado. No gostava de futebol. Cada jogo era uma exploso
de raiva.
E no entanto, apesar de tudo isso, no se tinha na conta de um mau carcter, de um indivduo mesquinho. Sempre considerara Jack Torrance um tipo simptico que um
dia aprenderia a dominar o seu feitio antes de se meter em sarilhos. Do mesmo modo que havia de aprender a dominar a bebida. Mas o seu alcoolismo tinha tanto de
emocional como de fsico  as duas facetas estavam ligadas algures no seu ntimo, onde era difcil penetrar. Mas no lhe interessava muito se as causas estavam inter-relacionadas
ou eram distintas, sociolgicas, psicolgicas ou fisiolgicas. Tinha de se haver com as consequncias: os espancamentos, as tareias do pai, as suspenses, as tentativas
para explicar os rasges nas batas da escola feitos durante as brigas no recreio, e, mais tarde, as ressacas, a lenta dissoluo do seu casamento, a roda da bicicleta
cujos raios soltos apontavam para o cu, o brao partido de Danny. E George Hatfield, evidentemente.
Jack tinha a sensao de que metera estupidamente a mo no Grande Ninho de Vespas da Vida. Era uma imagem insuportvel. Era um adequado smbolo da realidade. Metera
a mo num telhado danificado, no pino do Vero, e todo o seu brao fora consumido por um fogo sagrado e justo, que lhe destrura o pensamento consciente e tornara
obsoleto o conceito de comportamento civilizado. Poderia esperar-se que algum se comportasse como um ser humano quando a sua mo estava a ser trespassada por
agulhas incandescentes? Poderia esperar-se que uma  pessoa fosse amada pelos mais prximos e pelos mais queridos quando a nuvem escura e furiosa emergia da estrutura
das coisas (a estrutura que julgvamos to inocente) e atingia precisamente essa pessoa? Poderia algum ser considerado responsvel pelos seus actos quando ia a
correr pelo telhado inclinado, vinte metros acima do cho, sem saber para onde ia, sem se lembrar que, em pnico, poderia vacilar, tropear na goteira e despenhar-se
l em baixo, no cimento, a vinte metros de altura, encontrando a morte? Quando metia estupidamente a mo no ninho de vespas, no tinha um pacto com o Diabo para
renegar o seu eu civilizado e as armadilhas do amor, do respeito
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e da honra? Acontecia, pura e simplesmente. Passivamente, sem mais, deixara de ser um ser pensante e passara a ser uma criatura dominada pelos nervos. Em cinco minutos
passara de um homem culto a um macaco lamuriento.
Jack pensou em George Hatfeld.
Alto e de cabelo louro, desgrenhado, George sempre fora belo e insolente. De calas coadas e justas e de bluso da escola, com as mangas arregaadas at aos cotovelos,
mostrando os braos bronzeados, lembrava a Jack um jovem Robert Red-ford. Jack duvidava que George tivesse dificuldade em marcar pontos  no mais do que o jovem
demnio futebolista Jack Torrance tivera dez anos atrs. Podia afirmar com sinceridade que no tinha cimes de George nem invejava a sua boa aparncia; a verdade
 que quase inconscientemente comeara a encarar George como a encarnao do heri da sua pea, Gary Benson, o perfeito contraste com o falhado e envelhecido Den-ker,
cujo dio a Benson aumentava cada vez mais. Mas ele, Jack Torrance, nunca experimentara tais sentimentos por George. Caso contrrio, ter-se-ia apercebido. Disso
tinha a certeza.
George andava a pairar nas suas aulas em Stovington. Uma estrela do futebol e do basebol. Mostrava-se muito pouco exigente com os estudos e contentava-se com suficientes
e, de vez em quando, com um bom em Histria ou Botnica. Era um feroz lutador no campo, mas nas aulas era um aluno lnguido e distrado. Jack conhecia o gnero,
mais dos seus prprios tempos de liceu e de faculdade do que da sua experincia como professor, que era em segunda mo. George Hatfeld enganava. Nas aulas mostrava-se
calmo e pouco exigente, mas quando a sua carga de estmulos era aplicada (como os elctrodos nas tmporas do monstro de Fankenstein, pensava Jack), transformava-se
num dolo.
Em Janeiro, George preprava-se juntamente com mais doze colegas para a equipa de debate. Fora muito franco com Jack. O pai era advogado de uma empresa privada e
queria que o filho lhe seguisse os passos. George, que no sentia apelo para mais nada, tambm queria. No tinha grandes notas, mas ainda estava no liceu e isto
era apenas o princpio. Se fosse necessrio, o pai moveria algumas influncias. A capacidade atltica de George abriria ainda outras portas. Mas Brian Hat-field
achou que o filho devia fazer parte da equipa de debate. Era uma boa experincia, sempre privilegiada nas admisses s
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faculdades de Direito. George entrou para a equipa e em fins de Maro Jack expulsou-o.
No fim do Inverno os debates tinham atingido o esprito competitivo de George Hatfield. Tornou-se um orador determinado, defendendo com veemncia os prs e os contras.
Quer o assunto fosse a legalizao da marijuana, a reinstaurao da pena de morte ou a diminuio do subsdio da gasolina. George tornou-se conversador e era suficientemente
xenfobo para no se importar de que lado estava  uma caracterstica rara e valiosa mesmo nos oradores de alto gabarito, reconhecia Jack. O esprito do aventureiro
poltico no andava longe do do orador; ambos estavam interessados na melhor oportunidade. Quanto mais melhor.
Mas George Hatfield era gago.
Esta deficincia no se manifestava nas aulas, em que George se mostrava sempre frio e controlado (quer tivesse feito o trabalho de casa quer no) e decerto no
nos campos de futebol de Stovington, onde a conversa no era uma virtude e os mais palradores chegavam a ser expulsos do jogo.
Quando George se empenhava a fundo num debate, surgia a gaguez. Quanto mais entusiasmado pior. E, quando sentia que o opositor era fraco, uma espcie de nervosismo
parecia paralisar-lhe a boca enquanto o cronometro ia contando o tempo. Era confrangedor.
        P... P... Por isso p... p... penso que temos de afirmar que
os f... f... factos no caso das cidades do senhor D... D...
Dorsky se tornaram obsoletos devido s r... r... recentes deci
ses tomadas em... em... em...
O tempo acabava e George lanava um olhar furibundo a Jack, sentado a seu lado. Nestas alturas George corava e amarfanhava na mo o papel com as notas.
Jack dera oportunidades a George muito depois de ele ter comeado a furar os pneus, na esperana de que ele se modificasse. Lembrava-se de um fim de tarde, uma
semana antes de ter desferido o golpe com relutncia. George ficara na sala depois de os outros sarem e, furioso, defrontara Jack.
        O senhor adiantou o cronometro.
Jack, que arrumava os seus papis na pasta, levantou o olhar.
George, que ests tu a dizer?
Eu n... n... no tive os meus cinco m... m... minutos.
O senhor adiantou-o. Eu estive a ver pelo relgio.
122
Entre o relgio e o cronometro pode haver pequenas di
ferenas, George, mas no toquei naquela maldita coisa. Pala
vra de honra.
T... T... Tocou, sim senhor!
A forma agressiva e obstinada como George olhava para ele fez com que Jack perdesse a pacincia. H dois meses que andava aguentar a situao  dois meses era muito
tempo  e estava farto. Fez um ltimo esforo para se controlar.
Asseguro-te que no, George. Tu  que gaguejas. Fazes
ideia do que provoca isso? Nas aulas no gaguejas.    ;?;
Eu n... n... no g... g... gaguejo!        s
Fala mais baixo.        ?s,
O s... s... senhor quer prejudicar-me 1 No me q... q...
quer na sua m... m... maldita equipa!
Fala mais baixo, j te disse. Vamos discutir isto racional
mente.
Q... q... que se lixe!
George, se conseguires controlar a gaguez, ficarei muito
satisfeito se continuares. Ests bem preparado, s bom a argu
mentar, o que significa que no s apanhado de surpresa. Mas
isso no tem muito valor se no conseguires controlar essa...
Eu n... n... nunca g... g... gaguejei!  gritou George. 
 o s... s... senhor! Se estivesse outra pessoa  frente da equipa
de debate, eu poderia...
A pacincia de Jack comeava a diminuir.
        George, nunca conseguirs ser um grande advogado se
no conseguires controlar isso. A advocacia no  como o fute
bol. No chegam duas horas de treino por dia. O que tencionas
fazer? Levantares-te no meio de um julgamento e dizeres: E
ag... ag... agora, senhores, o que p... p... pensam deste c... c...
caso?
Jack corou de repente, no de fria mas de vergonha da sua crueldade. Na sua frente estava apenas um rapaz de dezassete anos que enfrentava a primeira grande derrota
da sua vida e que talvez no pedisse a Jack seno que o ajudasse a ultrapass--la.
George deitou um ltimo olhar furibundo, com os lbios a tremer, como se estivesse de fazer um esforo tremendo para falar.
        O s... s... senhor  que c... c... comeou! Odeia-me por
que s... s... sabe que...
Reprimindo um grito, saiu da sala, batendo com a porta com
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tal fora que os vidros chocalharam. Jack ficou ali, mais a sentir do que a escutar o eco das palavras de George na sala vazia. Ainda atormentado pelo seu temperamento
e pela vergonha de ter troado da gaguez de George, o seu primeiro pensamento foi uma espcie de doentia satisfao: pela primeira vez na sua vida, George Hatfield
desejava algo que no podia ter. Pela primeira vez havia algo que todo o dinheiro do pai no podia comprar. No  possvel subornar um grupo de oradores. No  possvel
oferecer mais dinheiro  lngua nem uma prenda no Natal para que ela deixe de tremer e de parecer uma agulha de gira-discos rodando sobre um disco riscado. Depois
a satisfao deu lugar  vergonha e Jack sentiu a mesma coisa que sentira ao partir o brao de Danny.
Meu Deus, eu no sou um filho da me. Por favor.
Aquela alegria doentia com a retirada de George era mais tpica de Denker, a personagem da pea, do que de Jack Tor-rance, o dramaturgo.
O senhor odeia-me porque sabe...
Porque sabia o qu?
O que poderia ele saber sobre George Hatfield que o fizesse odi-lo? Que tinha um futuro na sua frente? Que se parecia um pouco com Robert Redford e que as raparigas
se calavam quando ele dava um duplo salto da prancha para a piscina? Que ele jogava futebol e basebol com uma graciosidade natural e espontnea?
Era ridculo. Completamente absurdo. No invejava George Hatfield. Para falar verdade, sentia-se mais infeliz com a gaguez de George do que o prprio, porque George
daria um excelente orador. E se Jack tivesse adiantado o cronometro  o que  claro que no acontecera  seria porque ele e os outros membros da equipa se sentiam
embaraados com a gaguez de George, se afligiam como quando o orador da noite se esquecia de algumas Unhas. Se ele tivesse adiantado o cronometro, teria sido apenas
com o intuito de... facilitar a tarefa a George.
Mas no adiantara o cronometro. Estava certo disso.
Uma semana depois, expulsara-o, e desta vez conseguira conter-se. Os gritos e as ameaas tinham vindo de George. Oito dias depois, tivera de voltar atrs e ir ao
parque buscar uns livros de consulta de que se esquecera no porta-bagagens do VW e fora dar com George, de joelho em terra, com os cabelos compridos balouando-lhe
na cara e de canivete na mo. Estava a cortar o pneu direito da frente do VW. Os pneus de trs j
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estavam cortados e o carro estava assente nos pneus furados, como se fosse um co exausto.
Jack ficara cego de fria e lembrava-se muito mal do encontro que se seguira. Lembrava-se de ter soltado um berro:
        Muito bem, George. Se  isso que queres vem aqui buscar
o teu remdio.
Lembrava-se de ter visto George levantar o olhar, surpreendido e assustado. Dissera:
        Senhor Torrance...
Como que a explicar que tudo aquilo no passava de um engano, que os pneus j estavam em baixo quande ele ali chegara e que ele estava apenas a limpar o p dos
tampes com a ponta do canivete que trazia consigo por acaso e...
Jack avanara para ele, de punho levantado, e parecera-lhe que George estava a sorrir. Mas no tinha a certeza.
A ltima coisa de que se lembrava era de George, de canivete em riste, a dizer:
        O melhor  no se aproximar...
A seguir, surgira Miss Strong, a professora de Francs, que prendera os braos de Jack e gritara, a chorar:
        Pra com isso, Jack! Pra com isso! Vais mat-lo!
Jack olhara  sua volta com um ar estpido. L estava o
canivete a brilhar, inofensivo, no pavimento de asfalto do parque de estacionamento, a alguns metros de distncia. L estava o seu VW, o seu velho carrinho, veterano
de muitas noites loucas de bebedeira, assente em trs pneus furados. L estava outra amolgadela no guarda-lamas da frente, do lado direito, e qualquer coisa por
cima, que tanto podia ser tinta vermelha como sangue. Por momentos Jack sentiu-se confuso, com os mesmos pensamentos
(Meu Deus, o que fiz eu.)
daquela outra noite. Ento avistara George, que jazia atordoado, no asfalto. A equipa de debate viera c fora e ficara  porta, a olhar para George. Este tinha
sangue na cara que parecia vir de um pequeno golpe, mas tambm escorria sangue dos ouvidos, o que talvez fosse sintoma de traumatismo. No momento em que George
tentou levantar-se, Jack libertou-se de Miss Strong e foi ao seu encontro. George encolheu-se, assustado.
Jack ps-lhe as mos  roda do peito e obrigou-o a deitar-se.
        Deixa-te estar quieto  disse.  No tentes mexer-te.
E, voltando-se para Miss Strong, que olhava para ambos,
aterrorizada, acrescentou:
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        Por favor v chamar o mdico da escola, Miss Strong.
Miss Strong voltou-lhe as costas e correu para o escritrio.
Em seguida, Jack olhou para os seus alunos, olhos nos olhos, porque j conseguira controlar-se inteiramente, e quando se sentia ele prprio no havia tipo mais insinuante
em todo o estado de Vermont. Decerto eles sabiam isso.
        Podem ir para casa  disse-lhes, tranquilo.  Voltare
mos a ver-nos amanh.
No final daquela semana seis dos alunos tinham-se ido embora, entre eles dois dos melhores, mas  claro que isso no tinha grande importncia porque Jack fora informado
de que tambm se iria embora.
Todavia, conseguira distanciar-se um pouco da questo, o que tinha algum significado.
E no odiava George Hatfield. Tinha a certeza. No fora ele que agira, tinham-no obrigado a isso.
O senhor odeia-me porque sabe...
Mas ele no sabia nada. Nada. Juraria diante do Trono do Todo-Poderoso, tal como juraria que no adiantara o cronometro mais do que um minuto. E no fora por raiva
mas por piedade.
Duas vespas arrastavam-se pelo telhado, junto do buraco das telhas.
Jack ficou a observ-las at elas estenderem as asas desajeitadas mas estranhamente eficientes e levantarem voo,  luz do sol de Outubro, porventura para picarem
mais algum. Fora para isso que Deus lhes dera ferres e Jack achava que elas deviam utiliz-los.
H quanto tempo estava aqui sentado, a olhar para o buraco, admirado, a remexer em velhas cinzas? Olhou para o relgio. Era quase uma e meia
Deixou-se deslizar at  beira do telhado, deixou cair uma perna e foi tacteando at o p encontrar o ltimo degrau da escada, mesmo por baixo do beiral. Iria 
arrecadao, onde guardara o insecticida, numa prateleira alta, fora do alcance de Danny. Tr-lo-ia, voltaria aqui e seria a sua vez de as apanhar de surpresa. Podemos
ser mordidos mas tambm podemos morder. Acreditava sinceramente nisso. Duas horas depois, o ninho seria apenas um pedao de papel amachucado e Danny poderia ficar
com ele no quarto, se quisesse  uma vez, em mido, Jack tivera um no quarto, que lhe cheirava sempre um pouco a madeira queimada e a gasoli-
126
na. Poderia pendur-lo mesmo  cabeceira da cama, que no lhe faria mal.
 Estou a melhorar.
O som da sua prpria voz, confiante, na tarde silenciosa, devolveu-lhe a calma, embora ele no tivesse querido falar em voz alta. Estava a melhorar. Era possvel
passar lentamente da passividade para a actividade, transformar aquilo que em tempos quase o levara  loucura no dom neutro, cujas manifestaes no iriam alm
de um interesse acadmico ocasional. E se havia um stio em que isso fosse possvel seria decerto aqui.
Desceu a escada e foi buscar o insecticida. Elas haviam de pagar-lhe. Haviam de pagar-lhe por o terem picado.
15
NO PTIO DA FRENTE
Jack descobrira uma grande cadeira de vime pintada de branco nas traseiras da arrecadao e arrastara-a para o alpendre, apesar dos protestos de Wendy, que dizia
nunca ter visto uma coisa to feia na sua vida. Jack estava agora l sentado, divertindo-se com um exemplar do Welcome to Hard Times, de E. L. Doctorow, quando o
camio do hotel apareceu na estrada, com a mulher e o filho l dentro.
Wendy estacionou-o junto da placa circular, carregou no acelerador e depois desligou o motor. O nico farolim da parte de trs apagou-se. O motor soltou um ronco
final e depois calou-se. Jack levantou-se da cadeira e foi ao encontro de ambos.
Ol, pai!  exclamou Danny, subindo a encosta a correr.
Trazia uma caixa na mo.
Olhe o que a me me comprou!
Jack pegou no filho ao colo, f-lo balouar no ar e beijou-o na boca com ternura.
Jack Torrance, o Eugene 0'Neill da sua gerao, o Sha-
kespeare americano!  disse Wendy, a sorrir.  Imaginem,
quem diria que o viramos encontrar aqui em cima, nas monta
nhas.
J estou farto da multido, minha senhora  respondeu
Jack, abraando-a.
127
Beijaram-se.
Como correu a vossa viagem?
Muito bem. Danny queixa-se de que eu vou sempre aos
solavancos, mas no deixei o motor ir abaixo uma s vez e...
Oh, Jack, j acabaste!
Wendy olhava para o telhado e Danny olhou tambm. Franziu levemente o sobrolho ao avistar a faixa larga de telhas novas no telhado da ala oeste do Overlook, de
um verde mais claro do que o resto do telhado. Em seguida, olhou para a caixa que trazia na mo e o rosto iluminou-se-lhe de novo. A noite, as imagens que Tony lhe
mostrava voltavam a atorment-lo com a nitidez inicial, mas  luz do Sol era mais fcil arred-las do pensamento.
        Olhe, pap, veja!
Jack pegou na caixa que o filho trazia na mo. Era um automvel em miniatura, uma das caricaturas de Big Daddy Roth que Danny tanto admirara no passado. Esta era
o Violento Volkswagen Violeta e a imagem na caixa mostrava um grande VW roxo com uns grandes faris  Cadillac Coupe de Ville de 59 iluminando um caminho de terra
batida. O VW tinha uma pequena capota transparente e, espreitando por ela, via-se um monstro gigantesco, agarrado ao volante, com os olhos injectados de sangue,
um sorriso demonaco e um capacete de corrida enorme.
Wendy sorriu para o marido, que lhe piscou o olho.
 do que eu gosto em ti, p  disse Jack, estendendo-lhe
a caixa.  Os teus gostos recaem sempre no que  calmo, dis
creto, introspectivo. Definitivamente, s o filho das minhas en
tranhas.
A mam disse que o pap me ajudaria a mont-lo assim
que eu aprendesse a ler.
Deixaremos isso para o fim-de-semana  disse Jack.
 E que mais trouxe nesse belo camio, minha senhora?
Ora.
Wendy pegou-lhe no brao e empurrou-o para trs.
No vale espreitar. Algumas coisas so para ti. Danny e
eu levamo-las. Podes trazer o leite. Est na cabina.
 o que eu sou para ti!  exclamou Jack, batendo com a
mo na testa.  Uma simples besta de carga. Traz isto, traz
aquilo.
Traga o leite para a cozinha, senhor!
 de mais!
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Jack atirou-se para o cho e Danny ps-se em cima dele e desatou a rir.
Levanta-te, boi  disse Wendy, tocando-lhe com a ponta
do p.
Ests a ver?  disse Jack a Danny.  Ela chamou-me
boi. s testemunha.
Testemunha, testemunha!  repetiu Danny alegre
mente, dando uma grande salto para se libertar do pai.
Jack sentou-se.
Isso faz-me lembrar uma coisa, filho. Tambm tenho
uma coisa para ti. No alpendre, junto do cinzeiro.
O que ?
Esqueci-me. Vai ver.
Jack levantou-se e ambos ficaram a olhar para Danny, que galgou o relvado e subiu a dois e dois os degraus do alpendre. Jack passou o brao pela cintura de Wendy.
Sentes-te feliz, querida?
Wendy olhou-o com um ar solene.
Nunca me senti to feliz desde que nos casmos.
A srio?
Palavra de honra. Jack apertou-a com fora.        ?;.??:       ;
Amo-te. Wendy apertou-o tambm, comovida. Estas no eram palavras levianas na boca de Jack Torrance. Contavam-se pelos dedos as vezes que lhas ouvira, antes e
depois do casamento.
Tambm te amo.
Me, me.
Danny estava agora no alpendre, gritando, entusiasmado.
Anda ver! Uau! Que giro!
O que ?  perguntou Wendy, saindo do parque de esta
cionamento, de mo dada com o marido.
Esqueci-me  respondeu Jack.
Oh, vou buscar a tua prenda  disse Wendy, empurran
do-o.  Vais ver se no vou.
        Estava  espera de receb-la esta noite  rematou Jack.
Wendy riu-se.
Pouco depois, Jack perguntou:
        Danny sente-se feliz? O que achas?
Tu  que deves saber. Vocs os dois  que tm longas
conversas todas as noites, antes de se deitarem.
Em geral falamos do que ele quer ser quando for crescido
129
ou se o Pai Natal existe mesmo. Isso parece ser importante para ele. Acho que aquele velho amigo dele, o Scott, lhe meteu umas ideias na cabea. No, ele no me
tem falado muito do Overlook.
        A mim tambm no  disse Wendy.
Subiram os degraus do alpendre.
Mas anda muito calado. E creio que est a emagrecer,
Jack, acho que sim.
Ele est a crescer, mais nada.
Danny estava de costas para eles. Examinava qualquer coisa que estava em cima da mesa, junto da cadeira de Jack, mas Wendy no percebeu do que se tratava.
Tambm no anda a comer. Ao princpio devorava tudo o
que havia no prato. Lembras-te, no ano passado?
Eles vo espigando  respondeu Jack, distrado.
 Creio que li isso no livro do Spock. Quando fizer sete anos
voltar a comer bem.
Pararam no degrau de cima.
Ele tambm est a empenhar-se muito na aprendizagem
da leitura. Sei que ele quer aprender, para nos ser agradvel...
Para te ser agradvel  acrescentou Wendy com relutncia.
Para fazer a vontade a si mesmo, acima de tudo  retor
quiu Jack.  No o tenho sobrecarregado. A verdade  que
no quero que ele leve esse assunto to a srio.
Achas que seria tolice se eu lhe marcasse uma consulta?
H um pediatra em Sidewinder. Um jovem que, pelo que me
disseram no mercado...
Ests a ficar um pouco nervosa com a chegada da neve,
no ests?
Wendy encolheu os ombros.
Creio que sim. Se achas que  tolice...
No acho. Podes mesmo marcar consultas para os trs.
Com os nossos boletins de sade limpos j poderemos dormir
descansados.
Esta tarde vou marc-las.
Me! Olhe, me!
Danny veio ao seu encontro a correr, com um grande objecto cinzento na mo e por instantes, que tiveram tanto de cmico como de horrvel, Wendy julgou tratar-se
de massa enceflica. Depois apercebeu-se do que era e recuou instintivamente.
Jack ps-lhe um brao  roda do corpo.
        No te preocupes. Os inquilinos que no conseguiram fu
gir morreram com o insecticida.
130
Wendy olhou para o grande ninho de vespas que Danny tinha nas mos, mas no lhe tocou.
Tens a certeza de que no h perigo?
Absoluta. Tive um no meu quarto quando era mido.
Foi o meu pai que mo deu. Queres p-lo no teu quarto, Danny?
Quero! J!
Danny voltou-lhes as costas e atravessou as portas duplas a correr. Ouviram os seus passos abafados, a correr pela escada acima.
Havia vespas l em cima  disse Wendy.  Picaram-te?
Onde est o meu vermelho  disse Jack, mostrando o
dedo.
O inchao j comeara a diminuir, mas Wendy inclinou-se sobre o dedo do marido e deu-lhe um beijo ao de leve.
Tiraste o ferro?
As vespas no largam o ferro. As abelhas, sim. Tm fer
res farpados. Os das vespas so mais suaves. Por isso so to
perigosos. Podem picar vezes sem conta.
Jack, achas que no h perigo para Danny?
Segui as instrues da bomba de insecticida. Garantem
que o produto mata todos os insectos em duas horas e que no
deixa resduos.
Odeio-as  disse Wendy.
O qu... As vespas?
Tudo o que pica  respondeu Wendy, cruzando os bra
os e apoiando as mos nos cotovelos.
Eu tambm  disse Jack, abraando-a.
16
DANNY
L em baixo, do trio, Wendy ouvia a mquina de escrever que Jack trouxera para cima ganhar vida durante trinta segundos, depois ficar silenciosa por um minuto
ou dois e voltar a bater. Era como se estivesse a escutar uma metralhadora num abrigo isolado. Aquele som era msica para os seus ouvidos; Jack no escrevia com
tanto afinco desde o segundo ano de casamento, altura em que produzira aquele conto que o Esquire
131
comprara. Jack dissera estar convencido de que acabaria a pea perto do fim do ano, para o bem ou para o mal, e que comearia outra coisa de novo. Afirmara que no
se importava se The Little School despertasse algum entusiasmo na altura em que Phyllis a publicasse ou se no deixasse rasto, e Wendy acreditava que era verdade.
O facto de ele estar actualmente a escrever despertava nela grandes esperanas, no porque esperasse grandes coisas da pea, mas porque o marido parecia estar a
pouco e pouco a fechar as portas de um grande quarto povoado de monstros. J h muito tempo que rondava aquela porta, mas por fim estava a conseguir fech-la.
Cada vez que carregava numa tecla fechava-a um pouco mais.
 Olha, Dick, olha.
Danny estava debruado sobre a primeira das cinco cartilhas que Jack descobrira ao percorrer os mil e um alfarrabistas que havia em Boulder. Com elas, Danny chegaria
ao segundo grau, um programa que Wendy considerava demasiado ambicioso, conforme j dissera a Jack. O filho era muito inteligente, eles sabiam isso, mas seria
um erro exigirem dele muito em pouco tempo. Jack concordara. No o forariam a nada. Mas se o mido aprendesse depressa, estariam preparados. E agora interrogava-se
se Jack no teria razo, tambm nisso.
Danny, preparado por quatro anos de Sesame Street e trs anos de Electric Company, parecia estar a aprender a uma velocidade quase assustadora. Isso incomodava
Wendy. O filho debruava-se sobre os livrinhos incuos, com a galena e a prancha na prateleira acima da sua cabea, como se a sua vida dependesse de aprender a
ler.  luz do candeeiro de p alto que lhe tinham posto no quarto, o rostozinho ficava mais plido e tenso do que Wendy gostaria. Estava a tomar aquilo muito a srio,
tanto a leitura como os exerccios que o pai lhe preparava todas as tardes. O desenho de uma pra e de uma ma. A palavra ma escrita por baixo na letra grande
e regular de Jack. Tinha de fazer um crculo  volta do desenho que a palavra representava. E o filho observava alternadamente as palavras e os desenhos, mexendo
os lbios, falando em voz alta, quase a suar. E pegava no lpis vermelho com a mozinha direita; j sabia escrever cerca de trs dzias de palavras.
Sublinhava lentamente as palavras no livro de leitura. Por cima havia uma figura de que Wendy mal se recordava dos seus
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tempos da escola primria, h dezanove anos. Um rapazinho de cabelo castanho encaracolado, a rir-se. Uma menina de vestido curto e caracis louros, com uma corda
de saltar nas mos. Um co de p nas patas traseiras, a brincar com uma grande bola de borracha vermelha. O trio da primeira classe, Dick, Jane e Jip.
Vejam Jip a correr  lia Danny em voz alta, devagar.
Corre, Jip, corre. Corre, corre, corre.
Fez uma pausa e deixou que o dedo deslizasse para a Unha seguinte.
        Vejam a...
Inclinou-se mais, com o nariz quase em cima do livro,     u
Vejam a...
To perto, no, p  disse Wendy com doura.  Estra
gas a vista. ...
No me diga nada!  disse Danny, endireitando-se de
repente.
Parecia alarmado.
No me diga nada, me, a ver se eu consigo!
Est bem, querido. Mas isso no  assim to importante.
No  mesmo.
Sem lhe dar ateno, Danny voltou a inclinar-se sobre o livro. O seu rosto adquirira uma expresso que seria mais vulgar encontrar num aluno do liceu durante o
exame. Wendy cada vez gostava menos daquilo.
        Vejam a... bue... bue. Vejam a buela? Vejam a buela.
Bola!
De sbito, o triunfo na voz. O afinco. O afinco que assustava Wendy.
Vejam a bola!
Isso mesmo  disse Wendy.  Creio que por hoje j
chega.
S mais umas pginas, me. Por favor!
No, p.
Wendy fechou o livro de capa encarnada com determinao.
So horas de ires para a cama.
Por favor!
No me aborreas, Danny. A mam est cansada.
Est bem  respondeu Danny, no sem deitar um olhar
nostlgico  cartilha.
Vai dar um beijo ao pap e depois vai lavar-te. No te
esqueas de lavar os dentes.
Est bem.
133
Danny saiu do quarto. Vestia umas calas de pijama que lhe tapavam os ps e um grande casaco de flanela com uma bola de futebol desenhada na frente e new england
patriots escrito nas costas.
A mquina de escrever de Jack parou e Wendy ouviu o som do beijo terno de Danny.
Boa noite, pap.
Boa noite, p. Como vais?
Bem, acho eu. A mam obrigou-me a parar.
A mam tem razo. J passa das oito e meia. Vais  casa
de banho?
Vou.
Est bem. Tens batatas a nascer nas orelhas. E cebolas e
cenouras a...
O riso de Danny a desvanecer-se, depois interrompido pelo clique da porta da casa de banho a fechar-se. Era muito cioso da sua privacidade quando estava na casa
de banho, o que no acontecia com ela e com Jack. Mais um sinal  e estes sinais vinham a multiplicar-se  de que havia ali outro ser humano, no apenas uma cpia
a qumico de um deles ou uma combinao de ambos. Isto entristecia-a um pouco. Um dia o filho seria um estranho para ela, e ela uma estranha para ele... mas no
ao ponto a que a me chegara com ela. Por favor, no permitas que seja assim, meu Deus. Deixa-o crescer e continuar a gostar da me.
A mquina de escrever de Jack recomeou a sua batida irregular.
Ainda sentada junto da secretria de Danny, Wendy deixou que o seu olhar vagueasse pelo quarto do filho. A aba da prancha fora cuidadosamente arranjada. Em cima
da secretria havia uma pilha de livros de gravuras, livros de colorir, velhos livros de quadradinhos do Homem Aranha, de capa rasgada, Crayolas, um monte desordenado
de Lincoln Logs. O VW fora colocado em cima destes objectos menores, ainda por desembrulhar. Ele e o pai iriam mont-lo na noite seguinte ou dois dias depois, se
Danny mantivesse o seu ritmo, e no interessava o fim da semana. As suas gravuras de Pooh, Eyore e Christo-pher Robin estavam cuidadosamente pregadas na parede,
e dentro de pouco tempo seriam substitudas por coristas e fotografias de cantores de rock, drogados, pensava Wendy. Da inocncia para a experincia.  a natureza
humana, minha filha. No h nada a fazer. Mesmo assim sentia-se triste. No ano
134
seguinte, Danny iria para a escola e ela perderia pelo menos uma metade dele, talvez mais, em favor dos amigos. Durante uns tempos, ela e Jack tinham tentado ter
outro filho, quando as coisas pareciam estar a correr bem em Stovington, mas agora Wendy estava outra vez a tomar a plula. As coisas estavam demasiado incertas.
Deus sabe onde estariam dali a nove meses.
O olhar de Wendy caiu sobre o ninho de vespas.
Ocupava o lugar de honra, numa grande placa de plstico em cima da mesa de cabeceira. Wendy no gostava daquilo, mesmo vazio. Talvez tivesse germes. Pensou em perguntar
a Jack, mas depois achou que ele iria rir-se dela. Mas perguntaria ao mdico no dia seguinte, se conseguisse ficar a ss com ele. No lhe agradava a ideia que presidira
 concepo daquela coisa, construda com as excrees e a saliva de tantos seres estranhos, a poucos centmetros da cama onde o filho dormia.
Na casa de banho, a gua continuava a correr. Wendy levantou-se e foi ao seu quarto para se certificar de que tudo estava bem. Jack nem reparou nela; embrenhado
no mundo que estava a criar, escrevia  mquina com um "cigarro de filtro na boca.
Wendy bateu ao de leve  porta da casa de banho.
Ests bem, p? Ests acordado?
No houve resposta.
Danny?        ':
No houve resposta. Wendy tentou abrir a porta. Estava f*
chada  chave.
        Danny!
Comeava a ficar preocupada. O facto de no haver nenhum som para alm do da gua a correr deixava-a inquieta.
Danny! Abre a porta, querido
No obteve resposta.
Danny!

Pelo amor de Deus, Wendy! No posso imaginar que vais
ficar a bater  porta a noite inteira.
Danny fechou-se  chave na casa de banho e no me res
ponde!
Jack levantou-se, com um ar aborrecido. Bateu  porta uma vez, com fora.
        Abre a porta, Danny. Nada de brincadeiras.
No houve resposta.
Jack bateu com mais fora.        ''
135
        Deixa-te de brincadeiras, p! So horas de ires para a
cama. Dou-te uma tareia se no abrires a porta.
Ests a perder a cabea, pensou Wendy, ainda mais assustada. Jack nunca mais tocara em Danny desde aquela noite, h dois anos, mas naquele momento parecia suficientemente
zangado para o fazer.
        Danny, querido...
No houve resposta. Apenas a gua a correr.
        Danny, se me obrigas a rebentar com a fechadura, posso
garantir-te que dormes no cho  advertiu Jack.
Nada.
        Rebenta-a  disse Wendy, de sbito com dificuldade em
falar.  Depressa!
Jack levantou uma perna e deu um grande pontap na porta do lado direito do puxador. A fechadura, que era fraca, cedeu imediatamente e a porta abriu-se, batendo
com fora na parede de mosaico e soltando-se dos gonzos.
A gua corria para dentro do lavatrio. Ao lado, um tubo de pasta de dentes sem tampa. Danny estava sentado na beira da banheira, do outro lado da diviso, segurando
a escova de dentes na mo esquerda e com a boca orlada de espuma da pasta. Olhava fixamente, como que em transe, para o armrio de medicamentos que estava colocado
por cima do lavatrio. A sua expresso era de horror, e o primeiro pensamento de Wendy foi que ele estivesse a ser acometido de algum ataque epilptico, que tivesse
enrolado a lngua.
        Danny!
Danny no respondeu. Sons guturais saam-lhe da garganta. Em seguida sentiu-se empurrada com tanta fora que foi embater no toalheiro, enquanto Jack se ajoelhava
diante do filho.
        Danny!  disse.  Danny, Danny!
Dava estalos com os dedos diante do olhar vidrado do rapaz.
Ah, claro  disse Danny.  Torneio. Pancada.
Nurrrr...
Danny!
Roque!  disse Danny, de repente com voz grossa, quase
de adulto. Roque. Pancada. O mao de roque... tem dois la
dos. Gaaaaa...
Oh, Jack, meu Deus, o que se passa com ele?
Jack pegou no filho pelos cotovelos e abanou-o com fora. A cabea de Danny rolou para trs, inerte, e em seguida para a frente, como um balo espetado num pau.
136
        Roque. Pancada. Oinissassa.
Jack sacudiu-o de novo, e de repente o olhar de Danny clareou. A escova de dentes caiu-lhe da mo para o cho de mosaico, fazendo um rudo seco.
O qu?  perguntou, olhando  roda. Viu o pai de joe
lhos na sua frente e Wendy de p junto da parede.  O qu? 
perguntou, cada vez mais alarmado.  U... U... Uuuh. O que
 r... r... rrr.
No gaguejes!  gritou-lhe Jack.
Danny gritava, em estado de choque, com o corpo rgido, tentando libertar-se do pai, e depois desatou a chorar. Destroado, o pai puxou-o para si.
        Oh, querido, desculpa. Desculpa, p. Por favor. No
chores. Desculpa. Est tudo bem.
A gua continuava a correr para dentro do lavatrio. Wendy sentiu que estava no meio de um pesadelo desgastante em que o tempo voltara para trs,  poca em que
o marido, bbado, partira o brao ao filho e depois se lhe dirigira quase com as mesmas palavras.
(Oh, querido. Desculpa, p. Por favor. Desculpa.)
Wendy correu para ambos, conseguiu tirar Danny dos braos de Jack (reparou no seu ar de furiosa reprovao mas resolveu que pensaria nisso mais tarde) e pegou-lhe
ao colo. Levou--o para o quarto pequeno. Danny ia agarrado ao pescoo da me e Jack atrs deles.
Wendy sentou-se em cima da cama de Danny e comeou a embal-lo, sossegando-o com palavras absurdas, sem parar. Olhou para Jack, em cujo olhar se lia agora apenas
preocupao. Olhou para ela com um ar interrogador. Ela abanou levemente a cabea.
        Danny  disse.  Danny, Danny. Est tudo bem, p.
Est tudo bem.
Por fim, Danny acalmou-se, com o corpo sacudido por um leve tremor. No entanto, foi a Jack que se dirigiu em primeiro lugar. Jack estava agora sentado na cama, ao
lado deles, e Wendy sentiu o velho acesso
(E ele primeiro, sempre ele o primeiro.) de cime. Jack gritara com ele e ela confortara-o, mas foi ao pai que Danny disse:
Desculpa se eu fui mau.
No tens que pedir desculpa, p  respondeu Jack, afa
gando-lhe o cabelo.  Que diabo se passou aqui?
137
Danny abanou a cabea, atordoado.
No... No sei... Porque me disse para no gaguejar,
pap? Eu no gaguejo.
Claro que no  disse Jack com ternura, mas Wendy
sentiu um calafrio. Jack, de repente, ficou assustado, como se
tivesse visto um fantasma.
Qualquer coisa sobre o cronometro...  murmurou
Danny.
O qu?
Jack inclinou-se para a frente e Danny agarrou-se ao brao da me.
        Jack, ests a assust-lo!  disse, quase a gritar, em tom
de acusao.
De repente, apercebeu-se de que estavam todos assustados. Mas com o qu?
No sei, no sei  dizia Danny ao pai.  O que disse eu,
pap?
Nada  disse Jack entre dentes.
Tirou o leno de assoar da algibeira e limpou a boca. Wendy teve de novo aquela sensao doentia de que o tempo estava a recuar. Aquele gesto do marido era tpico
do tempo em que ele bebia.
        Porque fechaste a porta  chave, Danny?  Perguntou
Wendy com doura.  Porque fizeste uma coisa dessas?
        Foi Tony. Tony  que me mandou  respondeu Danny.
Ambos trocaram um olhar sobre a cabea do filho.
E Tony explicou-te porqu, filho?  perguntou Jack
com calma.
Eu estava a lavar os dentes e a pensar na minha leitura 
explicou Dany.  Estava mesmo a pensar nisso... E... e vi
Tony descer no espelho. Ele disse que tinha de me mostrar
outra vez.
Queres dizer que ele estava atrs de ti?  perguntou
Wendy.
No, ele estava no espelho  sublinhou Danny.  L
mesmo dentro. E depois eu atravessei o espelho. Aquilo de que
me lembro a seguir  do pap a abanar-me e a dizer-me que eu
estava outra vez a portar-me mal.
Jack pestanejou como se o tivessem atingido.
No, p  disse com ternura.
Tony disse-te para fechares a porta  chave?  perguntou
Wendy, passando as mos pelo cabelo.
138
Disse.
E o que queria ele mostrar-te?
Danny estava tenso. Era como se os msculos do seu corpo se tivessem transformado nas cordas de um piano.
        No me lembro  respondeu, ausente.  No me lem
bro. No me faam perguntas. Eu... Eu no me lembro de
nada!
Chiu  disse Wendy, alarmada.
Recomeou a embal-lo.
Se no te lembras, no faz mal. Claro que no faz mal.
Por fim, Danny comeou de novo a descontrair-se.
        Queres que fique aqui mais um bocadinho? Que te leia
uma histria?
No. Deixe-me s o candeeiro de dormir.
E, olhando timidamente para o pai:
Fica aqui, pap? Um bocadinho?
Claro, p.
Wendy suspirou.
Eu vou para a sala, Jack.
Est bem.
Wendy levantou-se e viu Danny enfiar-se dentro dos cobertores. Parecia to pequenino...
Tens a certeza de que ests bem, Danny?
Estou bem. Mas acenda o Snoopy, mam.
Claro.
Wendy acendeu o candeeiro que representava o Snoopy deitado, a dormir, em cima da casota. Danny nunca quisera ficar com a luz acesa durante a noite seno depois
de se terem mudado para o Overlook, altura em que reclamou mesmo um candeeiro. Wendy apagou a luz de cima e olhou para eles. Jack estava inclinado sobre o pequeno
crculo que era o rosto de Danny. Hesitou
(e depois eu atravessei o espelho) e em seguida saiu, sem fazer barulho.
Ests com sono?  perguntou Jack, afastando os cabelos
da testa do filho.
Estou.m
Queres gua?
        No...
Durante cinco minutos ficaram em silncio. Pensando que
Danny j adormecera, Jack fez meno de se levantar e de sair devagarinho, quando Danny disse, ensonado:
139
        Roque.
Jack voltou-se para trs gelado.
Danny...
Nunca seria capaz de magoar a me, pois no, pap?
No.
E a mim?        :
No.
Fez-se novo silncio.        <-:?-.
Pap...
Oque?
Tony veio falar-me do roque.
Veio, p? E o que disse ele?
No me lembro muito bem. Excepto que ele disse que se
jogava por turnos. Como no basebol. No  engraado?
.
O corao de Jack comeou a bater-lhe com fora no peito. Como podia o filho saber uma coisa daquelas? O roque jogava--se por turnos, no como o basebol mas como
o etiquete.
        Pap...
Danny estava quase a dormir.
O que ?
O que quer dizer oinissassa?

Oinissassa? Parece-me qualquer termo guerreiro indiano.
Fez-se novo silncio.
Ouve l, p...
Mas Danny estava a dormir, respirando fundo. Por instantes, Jack ficou ali sentado a olhar para ele e sentiu-se varrido por uma onda de ternura. Porque gritara
com o filho daquela maneira? Era perfeitamente normal que ele gaguejasse um pouco. Sara de um sonho ou de um transe esquisito e era perfeitamente natural que
gaguejasse nessas circunstncias. Perfeitamente. E no falara em cronometro. Fora outra coisa qualquer, sem sentido.
Como soubera ele que o roque se jogava por turnos? Algum lhe dissera? Ulhnan? Hallorann?
Jack olhou para as mos. Estava tenso, tinha os punhos cerrados com fora
(Meu Deus, como preciso de uma bebida!) e as unhas enterradas nas palmas das mos, como se fossem pequenos ties. Comeou a abri-las lentamente.
        Amo-te, Danny. Deus sabe que sim  murmurou.
Saiu do quarto. Tinha voltado a perder a cabea, por pouco
140

tempo, mas o suficiente para se sentir doente e assustado. Uma bebida dissiparia aquela sensao, sem dvida. Dissiparia aquilo e
(qualquer coisa sobre o cronometro)
tudo o resto. No havia dvida sobre aquelas palavras. Nenhuma. Tinham soado claras como o som de uma campainha. Jack parou no corredor, a olhar para trs, e, maquinalmente,
limpou a boca ao leno de assoar.
Os seus vultos no passavam de silhuetas escuras recortadas pela luz do pequeno candeeiro. Wendy, em cuecas, aproximou-se da cama do filho e aconchegou-o mais uma
vez. Danny atirara a roupa para trs. Jack ficou  porta, vendo-a levar a mo  testa do filho.
Ele tem febre?
No  respondeu Wendy, beijando-lhe a face.
Ainda bem que marcaste a consulta  disse ele quando
iam a sair.  Achas que esse tipo sabe do ofcio?
A empregada da caixa disse que ele era muito bom.
 tudo o que sei.
Se alguma coisa no estiver bem, vou mandar-vos aos
dois para casa da tua me, Wendy.
No.
Eu sei o que sentes  disse Jack, enlaando-a.
No percebes nada do que eu sinto por ela.
Wendy, no te posso mandar para outro lado. Sabes isso.
Se tu viesses...        Sem este emprego ficamos em apuros. Tu sabes...
Wendy abanou a cabea lentamente. Ela sabia que era ver
dade.
Quando tive aquele encontro com Ullman, pensei que ele
estava a exagerar. Agora, j no estou to certo disso. Talvez
no devesse ter-vos trazido para aqui. Longe de tudo.
Amo-te  disse Wendy.  E Danny ama-te ainda mais,
se  que isso  possvel. Ele ficaria destroado se nos mandasses
embora, Jack.
No ponhas as coisas assim.
Se o mdico disser que h problema, procuro arranjar um
emprego em Sidewinder. Se no conseguir, eu e Danny vamos
para Boulder. No posso ir para casa da minha me, Jack. No
nestas circunstncias. No me peas uma coisa dessas... No...
No posso.        tfin
141
- Acho que compreendo. Anima-te. Talvez no seja nada.
- Talvez.
- A consulta  s duas?
.
Vamos deixar a porta do quarto aberta, Wendy.
Sim, mas creio que ele agora j est a dormir.
Mas no estava.
Pum... Pum... Pumpum... PUMPUM...
Danny seguia os rudos pesados, estrepitosos, ressonantes atravs de corredores cheios de curvas, como num labirinto, descalo, sobre uma selva espessa de azul e
negro. Cada vez que ouvia o mao de roque bater na parede algures atrs de si, apetecia-lhe gritar com quantas foras tinha. Mas no devia faz-lo. No devia. Um
grito denunciaria a sua presena e depois
(depois OINISSASSA).
(Vem aqui buscar o remdio, choramingas!)
Oh, Danny ouvia o dono daquela voz que se aproximava, atrs dele, galgando o corredor como um tigre numa selva azul e negra. Um tigre que comia pessoas.
(Vem c, filho da me!)
Se ele conseguisse chegar ao lano de escadas que davam acesso ao andar de baixo, se pudesse fugir deste terceiro andar, ficaria bem. Mesmo de elevador. Se conseguisse
lembrar-se... Mas estava escuro e, no meio do terror, perdera o sentido de orientao. Fora dar a um corredor, depois a outro, com o corao a bater com muita fora,
como se fosse sair-lhe pela boca, temendo dar de frente com o tigre humano que andava por estes corredores.
O barulho estava agora mesmo atrs dele, aqueles terrveis gritos roucos.
O silvo provocado pelo mao de roque ouviu-se a cortar o ar
{roque... pancada... roque... pancada... OINISSASSA) antes de ir espetar-se na parede. Um leve rudo de passos na passadeira-selva. O pnico na boca como um sumo
amargo.
(Lembrar-te-s do que esqueceste... Mas seria capaz? O que seria?)
Danny dobrou outra esquina e verificou, com um terror crescente, que se encontrava num beco. Havia trs portas fechadas, ameaadoras. A ala oeste. Danny estava
na ala oeste e ouvia l fora o rugido da tempestade, que parecia sufocada pela neve.
142
Danny encostou-se  parede, chorando de medo. O seu corao batia apressado como o de um coelho apanhado numa armadilha. Quando se encostou ao papel de seda azul-claro
que revestia a parede, as pernas cederam e ele caiu em cima da passadeira, de mos espalmadas sobre a selva de gavinhas e trepadeiras entrelaadas, a arfar.
Cada vez mais alto. Cada vez mais alto.
Havia um tigre no corredor, agora o tigre dobrava a esquina, soltando aquele grito estridente de fria petulante e luntica, e o mao de roque batia na parede porque
o tigre caminhava sobre duas patas apenas e...
Danny acordou de repente, a arfar, e sentou-se na cama, muito direito, de olhos arregalados no escuro e as mos cruzadas diante da cara.
Sentiu qualquer coisa na mo. Que trepava.
Vespas. Trs.
Picaram-no ao mesmo tempo, como se fosse trs agulhas, e foi ento que as imagens se desfizeram e desabaram sobre ele como uma torrente escura. Danny comeou a gritar
na escurido. As vespas no lhe largavam a mo esquerda e continuavam a pic-lo.
A luz acendeu-se e Danny viu o pai em cales, a olhar para ele. Atrs vinha a me, ensonada e assustada.
Tirem-nas daqui!  gritou Danny.
Oh, meu Deus!  exclamou Jack, que acabava de ver as
vespas.
Jack, o que se passa com ele? O que se passa?
Jack no respondeu. Correu para a cama, pegou na almofada de Danny e atirou-lha para cima da mo esquerda. Mais uma vez. E mais outra. Wendy, ensonada, viu uns insectos
a voar, zumbindo.
Pega numa revista!  gritou Jack.  Mata-as!
Vespas?  disse Wendy.
Por instantes pareceu ficar isolada do que a rodeava, com a mente embotada pela emoo.
        Vespas, oh, Jesus! Jack, tu disseste...
        Cala-te e mata-as!  rugiu Jack.  Faz o que te digo!
Uma das vespas pousou sobre a secretria de Danny. Wendy
pegou num livro de colorir e atirou-o para cima da vespa. Esta deitou um lquido viscoso, de cor castanha.
        Est outra no cortinado  disse Jack, correndo atrs de
Wendy com o filho ao colo.
143
Levou-o para o seu quarto e deitou-o na cama, do lado de Wendy, por cima do edredo.
        Fica a, Danny. No voltes at eu te avisar. Entendido?
Com o rosto inchado e cheio de lgrimas, Danny fez um sinal
afirmativo.
        O meu rapazinho corajoso.
Jack desatou a correr pelo corredor fora, na direco das escadas. Ouviu o livro de colorir bater duas vezes em qualquer coisa e, em seguida, um grito de dor da
mulher. No abrandou a marcha. Desceu os degraus dois a dois e entrou no trio, que estava s escuras. Pelo gabinete de Ullman, chegou  cozinha. Batera com a coxa
na esquina da secretria de madeira de carvalho de Ullman, mas quase nem deu por isso. Tropeava em tudo o que havia em cima das bancadas e correu para o lava--loua.
A loua do jantar ainda l estava, a escorrer. Jack pegou numa grande taa de pyrex pelo fundo. Um prato caiu no cho e partiu-se. Sem se importar, Jack voltou para
trs, atravessou o gabinete e galgou as escadas.
Wendy estava  porta do quarto de Danny, respirando com dificuldade. Estava branca como a cal da parede. Tinha os olhos brilhantes e o cabelo colara-se-lhe ao pescoo
com o suor.
        Apanhei-as todas  disse, aborrecida.  Mas uma pi
cou-me. Jack, tu disseste que elas estavam todas mortas.
E comeou a chorar.
Jack passou por ela sem dizer nada e voltou a taa sobre o ninho que estava junto da cama de Danny. No se via nada a mexer. Pelo menos do lado de fora.
        Anda.
Voltaram para o quarto deles.
Onde foi que ela te picou?  perguntou a Wendy.
No... No pulso.
Deixa ver.
Wendy estendeu-lhe o brao. Mesmo por cima das rugas que h entre o pulso e a palma da mo via-se um pequeno buraco de forma circular. A carne  volta estava a empolar.
Es alrgica s picadas?  perguntou Jack.  Pensa bem!
Se s, Danny tambm pode ser. Aquelas malditas picaram-no
cinco ou seis vezes.
No  respondeu Wendy, mais calma.  Odeio-as, 
tudo. Odeio-as.
Danny estava sentado aos ps da cama, segurando a mo
144
esquerda e olhando para eles. Os seus olhos, ainda marcados pela palidez do choque, fitaram Jack com ar de reprovao.
Pap, disse que as tinha matado todas. A mo... di-me.
Deixa ver, p... No, no lhe toco. Isso ainda te faria
doer mais. Deixa-me s ver.
Danny estendeu a mo e Wendy soltou um gemido.
        Oh, Danny... Oh, a tua pobre mozinha!
Mais tarde o mdico contou onze picadas. Agora tudo o que viam era uma mancha de pequenos orifcios, como se a palma e os dedos tivessem sido polvilhados de papelinhos
vermelhos. Estava muito inchada. Parecia sada de um daqueles filmes de desenhos animados em que Bugs Bunny ou Daffy Duck levavam com um martelo em cima.
        Wendy, vai buscar aquele spray que est na casa de banho
 disse Jack.
Wendy obedeceu e Jack sentou-se ao lado de Danny e passou-lhe a mo pelos ombros.
Depois de te tratarmos da mo , quero tirar-lhe umas fo
tografias, p. Depois dormes o resto da noite aqui ao p de ns,
est bem?
Est bem  respondeu Danny.  Mas porque vai tirar
as fotografias?
Para dificultar a vida a algumas pessoas.
Wendy voltou com um tubo de spray que parecia um pequeno extintor.
        Isto no di, querido  disse ela, tirando a tampa.
Danny estendeu a mo e Wendy pulverizou-lha dos dois la
dos at a pele ficar brilhante. Danny suspirou. Di?  perguntou Wendy.
No. Alivia.
Agora isto. Mastiga e engole.
Wendy estendeu-lhe cinco aspirinas infantis com sabor a laranja. Danny meteu-as na boca uma a uma.
No so aspirinas a mais?  perguntou Jack.        >
Foram muitas picadas  replicou Wendy, irritada. 
Vai deitar fora aquele ninho, Jack Torrance. J!
Espera.
Jack encaminhou-se para a cmoda e tirou a Polaroid da gaveta de cima. Remexeu no fundo da gaveta e tirou vrias lmpadas de flash.
145
Jack, o que vais fazer?  perguntou Wendy,  beira da
histeria.
Vai tirar fotografias  minha mo  explicou Danny com
ar grave.  E vai dificultar a vida a algumas pessoas, no ,
pap?
        Exactamente  respondeu Jack num tom severo.
Descobrira o fio de ligao do flash e ligou-o  mquina foto
grfica.
Estende a mo, filho. Calculo uns cinco mil dlares por
picada.
O que ests tu a dizer?  perguntou Wendy quase a gri
tar.
Vou dizer-te. Segui as instrues que vinham naquela
maldita bomba. Vamos process-los. Aquela porcaria estava es
tragada. Tinha de estar. Seno, como explicar o que aconte
ceu?
Oh!  respondeu Wendy num murmrio.
Jack tirou quatro fotografias e pediu a Wendy que anotasse as horas pelo relgio que trazia pendurado ao pescoo. Danny, fascinado com a ideia de que a mo picada
pudesse valer milhares e milhares de dlares, comeou a perder o medo e a mostrar-se interessado. A mo latejava com fora e doa-lhe um pouco a cabea.
Quando Jack largou a mquina fotogrfica e ps as fotografias a secar em cima do tampo da cmoda, Wendy disse:
No achas que devamos lev-lo ao mdico esta noite?
No, a menos que ele esteja aflito com dores  respon
deu Jack.  A alergia  picada das vespas manifesta-se num
espao de trinta segundos.
D dores. O que...
A pessoa entra em coma. Ou tem convulses.
Oh! Oh, meu Deus!
Wendy empalideceu e cruzou os braos com fora.
        Como te sentes, filho? Achas que consegues dormir?
Danny pestanejou. Na sua mente, o pesadelo parecia agora
distante, mas ele continuava assustado.
Se puder dormir com vocs.
Claro. Oh, querido! Desculpa.
No faz mal, mam.
Wendy comeou de novo a chorar e Jack ps-lhe as mos nos ombros.
        Wendy, juro-te que segui as instrues.
146
  Amanh de manh deitas aquilo fora? Por favor?   Claro que deito.
Deitaram-se os trs, e Jack preparava-se para apagar a luz quando fez uma pausa e puxou a roupa para trs.
Tambm quero uma fotografia do ninho.
Vem deitar-te.
J vou.
Dirigiu-se para a cmoda, retirou a mquina fotogrfica e a ltima lmpada de flash e, formando um crculo com o polegar e o indicador, olhou para Danny atravs
dele. Danny sorriu e fez o mesmo com os dedos da mo direita.
Mas que mido este, pensou, encaminhando-se para o quarto de Danny. H poucos como ele.
O candeeiro de cima continuava aceso. Jack sentou-se na escada do beliche e olhou para a mesa de cabeceira, e ficou com pele-de-galinha. Os poucos plos que tinha
no pescoo eriaram-se.
O ninho mal se via atravs da taa de pyrex. O interior do vidro estava repleto de vespas. No podia dizer quantas. Cinquenta, pelo menos. Talvez cem.
O corao comeou a bater-lhe no peito com fora. Tirou as fotografias e pousou a mquina,  espera da revelao. Limpou a boca com a palma da mo. Um pensamento
continuava a assalt-lo, fazendo eco com
(Perdeste a cabea. Perdeste a cabea. Perdeste a cabea.) um terror quase supersticioso. Elas tinham voltado. Matara as vespas, mas elas tinham voltado.
Recordou a cena em que gritara ao filho, assustado e lavado em lgrimas: No gaguejes!
Voltou a limpar a boca.
Dirigiu-se para a secretria de Danny, remexeu nas gavetas e
tirou um puzzle que tinha um tampo de aglomerado de madei
ra. Levou-o para junto da mesa-de-cabeceira, e, com todo o
cuidado, fez deslizar a taa e o ninho para cima do tampo. As
vespas zumbiram dentro da sua priso. Em seguida, Jack se
gurou a taa com a mo, para no escorregar, e foi para o corre
dor,        i
No vens para a cama, Jack?  perguntou Wendy.
No vem para a cama, pap?
Tenho de ir l abaixo num instante  disse, numa voz
que pretendia ser despreocupada.
Como acontecera aquilo? Como?
147
A bomba no era um logro. Vira o fumo branco e espesso quando puxara a argola.  quando voltara, duas horas depois, fora dar com uma srie de vespas mortas  entrada
do ninho.
Ento como fora? JUnta regenerao espontnea?
Que disparate. que ideia. Os insectos no ressuscitam. E mesmo que houvesse ovos e estes chocassem e deles nascessem insectos adultos num espao de doze horas no
era esta a poca em que a rainha punha ovos. Isso era em Abril ou Maio. No Outono era altura de elas morrerem.
Numa viva contradio, as vespas zumbiam furiosamente debaixo da taa.
Levou-as l para baixo, para a cozinha. Nas traseiras havia uma porta que dava l para fora. Um vento gelado fustigou o seu corpo quase nu e os ps ficaram dormentes
ao pousarem no cimento frio da plataforma em que se faziam as entregas do leite, quando o hotel estava a funcionar. Pousou o puzzle e a taa com mil cuidados e,
quando se levantou, olhou para o termmetro pendurado  porta, refresque-se com 7-up, lia-se no termmetro, em que o mercrio estava ao nvel dos quatro graus negativos.
Com o frio, estariam mortas de manh. Voltou para dentro e fechou a porta com fora. Pensando melhor, deu a volta  chave.
Voltou a atravessar a cozinha e apagou as luzes. Por momentos ficou s escuras, a pensar, desejoso de uma bebida. De repente o hotel pareceu-lhe cheio de sons
furtivos: estalidos, gemidos e o vento a soprar debaixo do beiral, onde era possvel que houvesse mais ninhos de vespas pendurados como se fossem frutos podres.
Elas tinham voltado.
E de repente descobriu que j no gostava tanto do Over-look, como se no tivessem sido as vespas a picar o filho  as vespas que tinham sobrevivido como que por
milagre ao ataque da bomba  mas o prprio hotel.
O seu ltimo pensamento antes de subir e ir juntar-se  mulher e ao filho
(A partir de agora vais manter a cabea firme. Acontea o que acontecer.) era seguro e determinado.
J no corredor, limpou a boca s costas da mo.
148
17 NO CONSULTRIO
Em cuecas, deitado na marquesa, Danny Torrance parecia muito pequeno. Observava o doutor (Trata-me por Bill.) Ed-monds, que arrastava uma grande mquina negra
para junto dele. Danny virou os olhos para v-la melhor.
No te assustes com isto, rapaz  disse Bill Edmonds. 
 um electroencefalgrafo e no faz doer.
Electro...
Chamamos-lhe EEG para abreviar. Vou ligar-te uma srie
de fios  cabea... No, no vou espet-los, apenas lig-los... E
estas canetas vo registar as tuas ondas cerebrais.
como em The Six MiUion Dlar Man?
Mais ou menos. Gostarias de ser como Steve Austin
quando fores crescido?
No  respondeu Danny no momento em que a enfer
meira comeava a ligar-lhe os fios a vrios pontos do couro
cabeludo cuidadosamente depilados.  O pap diz que ele um
dia vai ter um azar e depois vai parar ao... Vai parar  valeta.
Eu conheo bem essa valeta  disse o doutor Edmonds
amigavelmente  Tambm j l estive vrias vezes, sem bia.
Um EEG pode indicar-nos muitas coisas, Danny.
Que coisas?
Se tens epilepsia, por exemplo.  um pequeno problema
que...
Sim, eu sei o que  epilepsia.
Sabes mesmo?
Claro. Havia um mido na minha escola em Vermont (eu
andei na escola infantil quando era pequenino) que tinha. No
podia utilizar os projectores.
O que era isso, Danny?
O doutor Edmonds voltou-se para a mquina. Linhas finas comeavam a percorrer o papel do grfico.
Tinham aquelas luzes todas. Quando se ligavam, umas
cores apareciam e outras no. Tnhamos de contar as cores e se
carregssemos no boto certo podamos deslig-los. Brent no
Podia utiliz-lo.
Isso  porque os feixes de luz causam s vezes ataques
epilpticos.
149

        Quer dizer que os projectores podiam ter feito Brent dei
tar-se no cho aos saltinhos?
Edmonds e a enfermeira trocaram um olhar rpido e divertido.
Puseste a questo sem elegncia mas com preciso, Dan-
ny.
O qu?
Disse que tinhas razo, excepto que deverias ter dito ata
que e no saltinhos. No  bonito... Muito bem, agora fica
quieto como um rato.
Est bem.
Danny, quando tens esses... sejam l o que forem, lem
bras-te de ter visto luzes muito brilhantes antes?
No.
Barulhos esquisitos? Campainhas a tocar, como a de uma
porta?
No.
E um cheiro esquisito, a laranjas ou a serradura? Ou um
cheiro a podre?
No senhor.
s vezes no tens vontade de chorar antes de perderes a
noo do que te rodeia? Mesmo que no estejas triste?
De modo nenhum.
Muito bem.
Tenho epilepsia, doutor Bill?
No creio, Danny. Deixa-te estar quieto. Est quase.
A mquina trabalhou durante mais cinco minutos e depois o doutor Edmonds desligou-a.
J est, rapaz  disse o doutor Edmonds bruscamente.
 Deixa a Sally tirar-te esses elctrodos e depois vamos para a
sala ao lado. Quero ter uma conversazinha contigo. Est bem?
Claro.
Sally, v andando e faa-lhe o teste antes de comearmos.
Est bem.
Edmonds puxou o grande rolo de papel que a mquina tinha expelido e em seguida passou para a outra sala, a olhar para ele.
Vou dar-te uma picadinha no brao  disse a enfermeira
depois de Danny ter vestido as calas.   para termos a cer
teza de que no tens tuberculose.
Deram-me uma coisa dessas no ltimo ano em que estive
na escola  disse Danny sem grandes esperanas de que as
suas palavras surtissem efeito.
150
        Mas isso j foi h muito tempo e agora j s um rapaz
crescido, no ?  Acho que sim.
Danny suspirou e estendeu o brao, pronto para o sacrifcio.
Depois de vestir a camisa e calar os sapatos, atravessou a porta de correr e entrou no gabinete do doutor Edmonds. Este estava sentado na beira da secretria, a
balouar as pernas, com um ar pensativo.
Ol, Danny.
Ol.        <???        -
Como vai essa mo agora?         .        )     -'
Apontou para a mo esquerda de Danny, que estava envolta
numa pequena ligadura.
        Vai boa.        
Ainda bem. Estive a examinar o teu EEG e parece-me
bem. Vou envi-lo a um amigo meu em Denver que  especi-
lista destas coisas. Quero ter a certeza.
Sim, senhor.
        Fala-me de Tony, Dan.
Danny arrastou os ps.
         apenas um amigo invisvel. Fui eu que o inventei. Para
me fazer companhia.
Edmonds riu-se e pousou a mo nos ombros de Danny.
        Isso  o que dizem a tua mam e o teu pap. Mas isto fica
apenas entre ns. Sou o teu mdico. Diz-me a verdade e pro
meto que no lhes contarei nada, a menos que me ds licena
para isso.
Danny comeou a pensar. Olhou para Edmonds e depois, com um pequeno esforo de concentrao, tentou captar os seus pensamentos ou pelo menos a tonalidade do seu
temperamento. E de sbito na sua mente surgiu uma imagem reconfortante: ficheiros, com gavetas a deslizarem, umas atrs das outras e a fecharem-se com um clique.
Em pequenas placas ao centro de cada gaveta lia-se: A-C, confidencial; D-G, confidencial; e assim sucessivamente. Isto deixou Danny mais  vontade.
Cautelosamente, disse:No sei quem  Tony.
 da tua idade? -no, tem pelo menos onze anos. Talvez a ainda mais
velho. Nunca o vi de perto. J deve ter idade suficiente para
guiar um automvel.
151
S o viste de longe, hem?
Sim, senhor.
E aparece sempre antes de tu perderes a conscincia?
Bem, eu no perco a conscincia.  como se fosse com
ele. E ele mostra-me coisas.
Que espcie de coisas?
Bem...
Danny hesitou por instantes e depois contou a Edmonds a histria do ba do pap, com todos os escritos l dentro, e que afinal os homens da mudana no tinham extraviado
entre Vermont e o Colorado. Estivera sempre debaixo das escadas.
E o teu pap encontrou-o onde Tony disse que ele estava?
Oh, sim, senhor. Mas Tony no me disse. Mostrou-me.
Compreendo. Danny, o que te mostrou Tony esta noite?
Quando te fechaste na casa de banho?

No me lembro  respondeu Danny prontamente.
 Tens a certeza?
Tenho.

H pouco disse que tu te tinhas fechado na casa de banho.
Mas no foi assim, pois no? Tony  que fechou a porta.
No, senhor. Tony no podia ter fechado a porta porque
no  real. Ele quis que eu fizesse aquilo e eu fiz. Eu  que a
fechei.
Tony mostra-te sempre onde esto as coisas que se per
deram?
No, senhor. s vezes mostra-me coisas que vo aconte
cer.
A srio?
Claro. Uma vez Tony mostrou-me o parque de diverses
de animais selvagens de Great Barrington. Tony disse que o
pap me levaria l no dia dos anos. E levou-me.
        Que mais te mostra ele?
Danny franziu o sobrolho.
Sinais. Est sempre a mostrar-me sinais velhos e estpi
dos. E  raro eu conseguir l-los.
Porque achas que Tony faz isso, Danny?
No sei.
O rosto de Danny iluminou-se.
Mas a mam e o pap esto a ensinar-me a ler e eu estou a
fazer um grande esforo.
Para poderes ler os sinais de Tony.
152
Bem, quero mesmo aprender a ler. Mas tambm  por
isso.
Gostas de Tony, Danny?
Danny olhou para o mosaico do cho e no disse nada.     ?
Danny?
 difcil responder. Gostava. Costumava ficar  espera
que ele aparecesse, todos os dias, porque ele mostrava-me sem
pre coisas boas, especialmente desde que a mam e o pap j
no pensam em divrcio.
O doutor Edmonds apurou a vista, mas Danny no se apercebeu. Estava a olhar firmemente para o cho, concentrado em exprimir-se.
        Mas agora sempre que aparece  para me mostrar coisas
ms. Coisas horrveis. Como ontem  noite, na casa de banho.
As coisas que ele me mostra mordem-me como se fossem ves
pas. S que as coisas de Tony mordem-me aqui.
Bateu com o dedo na testa, com um ar grave. Um rapazinho que inconscientemente ridicularizava o suicdio.
Que coisas, Danny?
No consigo lembrar-me!  gritou Danny, atormentado.
 Dir-lhe-ia, se pudesse! No me lembro porque  to mau
que nem quero lembrar-me. S me lembro de OINISSASSA ao
acordar.
O que  isso, Danny?
No sei.
Danny?
Sim, senhor.
Podes fazer com que Tony venha agora?
No sei. Ele nem sempre vem. Nem sei mesmo se quero
que ele venha mais.
Tenta, Danny. Ele vir.
Danny olhou para Edmonds, duvidoso. Edmonds fez-lhe um sinal de encorajamento.
Danny suspirou e fez um sinal afirmativo.
Mas no sei se vai dar resultado. Nunca o fiz com outra
pessoa a olhar para mim. E, de qualquer modo, Tony nem
sempre vem.
Se no vier, no vem  disse Edmonds.  S quero que
tentes.
Est bem.
Danny baixou o olhar para as calas de Edmonds, que continuava a balouar as pernas, e transferiu a sua mente para a
153
mam e o pap. Estavam ali, algures... Precisamente do outro lado da parede onde estava o quadro, por sinal. Na sala de espera. Sentados lado a lado, sem falar.
A folhear revistas. Preocupados. Com ele.
Concentrou-se mais, de sobrolho carregado, tentando penetrar nos pensamentos da mam. Era sempre difcil quando as pessoas no estavam na mesma sala. Ento, comeou
a conseguir. A mam estava a pensar numa irm. Na irm dela. A irm morrera. A mam estava a pensar que o motivo principal pelo qual a me dela se tornara uma
(cadela?)
uma galinha velha fora a morte da irm. Quando era pequena foi
(atropelada por um automvel oh meu deus no posso suportar uma coisa como aquela outra vez como aileen mas e se ele est mesmo doente com cancro meningite leucemia
um tumor no crebro como o filho de john gunther ou com uma distrofia muscular oh os midos desta idade esto sempre a contrair leucemia tratamentos de cobalto e
quimioterapia no poderamos pagar nada disso mas  claro que no os podemos deixar morrer ao abandono no  verdade mas de qualquer modo ele est bem est bem est
bem e no devias pensar)
(Danny)
(em aileen e)
(Danny...)
Mas Tony no estava ali. Apenas a sua voz. E quando esta deixou de se ouvir Danny seguiu-a para a escurido, tropeando e caindo num buraco qualquer, mgico, entre
as pernas do doutor Bill. Depois seguiu-se um som forte, depois uma banheira com qualquer coisa horrvel pendurada na beira, depois um som que lembrava o dos sinos
de uma igreja a repicarem e depois um relgio numa redoma de vidro.
Em seguida, a escurido foi atravessada por um nico feixe de luz enfeitado de teias de aranha. O brilho dbil revelou um cho de pedra, hmido e de aspecto desagradvel.
No muito ao longe, ouvia-se o rudo de uma mquina, abafado, que no metia medo. Soporfico. Era aquilo que devia ser esquecido, pensou Danny, surpreendido, como
um sonho.
Assim que os seus olhos se adaptaram  luz, distinguiu Tony, mesmo  sua frente, uma silhueta. Tony olhou para qualquer coisa e Danny esforou-se por ver o que era.
(O teu pap. Vs o teu pap?)
Claro que via. Como poderia no o reconhecer mesmo  luz
154
fraca da cave! O pap estava de joelhos no cho e, com uma lanterna acesa na mo, rebuscava em velhas caixas de carto e caixotes de madeira. As caixas estavam velhas
e amachucadas, algumas delas estavam rasgadas e espalhavam papis pelo cho. Jornais, livros, pedaos de papel impresso, que pareciam facturas. O pap examinava-as,
muito interessado. Depois o pap olhou para cima e voltou a lanterna noutra direco. O raio de luz foi incidir noutro livro, grande, de capa branca com um friso
dourado. Parecia de couro. Era um lbum de recortes. De repente, Danny teve vontade de gritar ao pai que no mexesse no livro, que h livros que no se devem abrir.
Mas o pai j ia a subir para o agarrar.
O rudo da mquina que Danny reconhecia agora como sendo da caldeira do Overlook, que o pap verificava trs ou quatro vezes por dia, produzia um barulho horrvel,
compassado. Parecia o barulho de um martelo. E o cheiro a enxofre, a gua e a papel podre estava a modificar-se... Era um cheiro a Coisa M. Envolveu o pai como
se fosse vapor, no momento em que ele alcanou o livro... e lhe pegou.
Tony estava algures, no escuro.
(Este lugar desumano gera monstros humanos. Este lugar desumano)
Repetia aquela frase incompreensvel vezes sem conta.
(gera monstros humanos.)
Fez-se escuro de novo. O barulho forte e compassado j no era o da caldeira, mas o silvo de um mao que batia nas paredes forradas de papel acetinado, arrancando
pedaos de estuque. De ccoras, aflito, na selva azul e negra da passadeira
(Sai da)
(Este lugar desumano)        - -
(e toma o remdio!)         ?
(gera monstros humanos.)        ''
com um arfar que lhe ecoava na cabea, Danny deu um salto do escuro. Sentiu-se agarrado e, a princpio, encolheu-se, pensando que a escurido do mundo de Tony o
tinha perseguido at ao mundo real... Ouviu ento o doutor Edmonds dizer:
        Tu ests bem, Danny. Ests bem. No foi nada.
Danny reconheceu o mdico e depois o seu gabinete. Come
ou a tremer de aflio. Edmonds agarrou-o.
Quando a reaco comeou a desvanecer-se, Edmonds perguntou:
        Falaste em monstros, Danny... O que foi?
155

        Este lugar desumano  disse Danny  Tony disse-me...
Este lugar desumano... Gera... Gera...
Abanou a cabea.
No consigo lembrar-me.
Tenta!
No consigo.
Tony apareceu?
Apareceu.
O que te mostrou ele?
Escurido. Barulho. No me lembro.
Onde estiveste?
Deixe-me em paz! No me lembro! Deixe-me em paz!
Danny desatou a soluar, de medo e frustrao. Tudo desaparecera, tudo se dissolvera numa confuso viscosa, como um molho de papis molhados, a memria ilegvel.
Edmonds dirigiu-se ao bebedouro e trouxe-lhe um copo de gua. Danny bebeu-a e Edmonds foi buscar-lhe outro.
Ests melhor?
Estou.
Danny, no quero atormentar-te... Aborrecer-te com
isto. Mas no te lembras de nada antes de Tony aparecer?
A mam  respondeu Tony, devagar.  Est preocu
pada comigo.
As mes esto sempre preocupadas connosco.
No... Ela tinha uma irm que morreu quando ela era
pequena. Chamava-se Aileen. Ela estava a pensar em Aileen
quando foi atropelada por um carro e isso f-la preocupar-se
comigo. No me lembro de mais nada.
Edmonds olhava-o fixamente.
Agora mesmo ela estava a pensar nisso? L fora na sala?
Sim, senhor.
Danny, como poderias saber uma coisa dessas?
No sei  respondeu Danny com um ar lnguido.   o
brilho, acho eu.
O qu?
Danny abanou a cabea lentamente.
Estou muito cansado. No posso ir para o p da mam e
do pap? No quero responder a mais perguntas. Estou can
sado. E di-me o estmago.
Vais vomitar?
No, senhor. S quero ir para o p da mam e do pap.
Est bem, Dan.
156
Edmonds levantou-se.
Vai l fora v-los por um instante e depois manda-os en
trar, porque quero falar com eles. Est bem?
Est bem.
;   Tens a livros para ver. Gostas de livros, no gostas?
Gosto  respondeu Danny, hesitando.
s um belo rapaz, Danny.
Danny lanou-lhe um sorriso dbil.

No lhe encontro nada de mal  disse o doutor Edmonds
aos Torrance.  Nada fsico. Mentalmente,  brilhante e de
masiado imaginativo. Acontece. As crianas tm de dar largas 
imaginao. A de Danny  grande de mais para ele. J apura
ram o seu QI?
No acredito nisso  disse Jack.  Limita as expectati
vas tanto dos pais como dos professores.
Talvezconcordou o doutor Edmonds.  Alas se lhe fizer
testes creio que descobrir que ele ultrapassou a escala, tendo em
conta o seu grupo etrio. A sua capacidade de expresso, para um
mido que vai a caminho dos seis anos,  surpreendente.
No temos dificuldade em falar com ele  retorquiu Jack
com uma ponta de orgulho.
Duvido que alguma vez tenham tido problemas para se
fazerem compreender.
Edmonds fez uma pausa, brincando com a caneta.
        Ele entrou em transe enquanto estive com ele. A meu
pedido. Exactamente como o descreveram na casa de banho,
ontem  noite. Todos os msculos se relaxaram, o corpo ficou
inerte e os olhos rolaram nas rbitas. Um caso de auto-hipnose
tal como vem nos manuais. Fiquei admirado e ainda estou.
Os Torrance agitaram-se na cadeira.
        O que aconteceu?  perguntou Wendy, tensa.
Edmonds relatou cuidadosamente o transe de Danny, a frase
dita em surdina de que s captara as palavras monstros, escurido, barulho. As lgrimas subsequentes, a quase histeria e a dor de estmago de natureza nervosa.
        Outra vez Tony  disse Jack.
O que significa isso?  perguntou Wendy.  Tem al
guma ideia?
Algumas. Talvez no vos agradem.
Continue, de qualquer modo  pediu Jack.
Por aquilo que Danny me contou, o amigo invisvel foi
157
um amigo de verdade at os senhores se mudarem da Nova Inglaterra para c. Tony s se transformou numa personagem ameaadora desde essa mudana. Os interldios agradveis
transformaram-se em momentos de pesadelo, ainda mais assustadores porque o vosso filho no se lembra exactamente de que tratavam. Isto  muito vulgar. Todos nos
recordamos melhor dos sonhos agradveis do que dos que nos metem medo. Parece existir um amortecedor entre o consciente e o subconsciente. Esse censor s deixa passar
algumas coisas, e muitas vezes o que passa  apenas simblico. E uma excessiva simplificao da teoria de Freud, mas descreve muito bem o que sabemos da interaco
da mente consigo prpria.
Acha que a mudana afectou Danny de uma forma to
negativa?  perguntou Wendy.
 possvel, se essa mudana teve lugar em circunstncias
dramticas  respondeu Edmonds.  Foi o caso?
Wendy e Jack trocaram um olhar.
Eu estava a dar aulas numa escola preparatria  disse
Jack, falando devagar.  Perdi o emprego.
Compreendo  disse Edmonds, pousando a caneta com
que estivera a brincar.  Mas h mais, receio bem  acres
centou.  Poder ser doloroso para vs. O vosso filho parece
estar convencido de que ambos pensaram seriamente no divr
cio. Falou disso por acaso, mas apenas porque pensa que os
senhores j puseram a ideia de parte.
Jack ficou de boca aberta e Wendy encolheu-se, como se tivesse levado uma bofetada. O sangue fugiu-lhe da face.
Nunca discutimos isso sequer!  exclamou.  Nem na
presena dele nem a ss! Ns...
Acho que  prefervel que compreenda tudo, doutor 
disse Jack.  Pouco depois de Danny nascer, tornei-me alco
lico. J desde a faculdade que tinha problemas com a bebida,
que melhoraram um pouco depois de Wendy e eu nos conhe
cermos, e pioraram depois de Danny nascer. A minha activi
dade literria, que considero a principal, estava a correr mal.
Quando Danny tinha trs anos e meio, entornou cerveja em
cima de uns papis em que eu estava a trabalhar... e eu...
bem... oh, merda.
Jack no conseguiu continuar, mas no desviou o olhar.
        Parece to cruel dito desta maneira! Parti-lhe o brao
quando ia bater-lhe. Trs meses depois deixei de beber.
E desde ento nunca mais toquei no lcool.
158
        Compreendo  disse Edmonds num tom inspido.
        Sabia que ele tinha partido o brao. O gesso foi posto como
devia ser.
Afastou ligeiramente a cadeira da secretria e cruzou as pernas.
Se me permitem a franqueza,  bvio que desde ento no
voltou a ser maltratado. Para alm das picadas, no tem mais
nada a no ser ndoas negras e arranhes, vulgares em qual
quer criana.
Claro que no  atalhou Wendy com veemncia.  Jack
no queria...
No, Wendy  respondeu Jack.  Eu quis faz-lo.
Creio que algures dentro de mim havia uma fora que queria
faz-lo. Isso ou outra coisa ainda pior.
Jack voltou a olhar para o doutor Edmonds.
Sabe uma coisa, doutor?  a primeira vez que a palavra
divrcio  pronunciada entre ns. E alcoolismo tambm. E es
pancamento de crianas. Trs estreias em cinco minutos.
Isso pode estar na raiz do problema  disse Edmonds.
        No sou psiquiatra. Se querem levar Danny a um psiquia
tra, posso recomendar-lhes um bom que trabalha no Centro
Mdico de Boulder. Mas confio bastante no meu diagnstico.
Danny  inteligente, imaginativo, arguto. No creio que se te
nha preocupado tanto com os vossos problemas conjugais como
pensam. As crianas pequenas aceitam as coisas com muita fa
cilidade. No sabem o que  a vergonha ou a necessidade de
ocultarem as coisas.
Jack examinava as mos. Wendy pegou numa delas e apertou-a com fora.
Mas ele apercebeu-se daquilo que corria mal. Acima de
tudo, o principal no foi o brao partido, mas a quebra do lao
que vos unia. Ele falou-me do divrcio e no do brao partido.
Quando a minha enfermeira se referiu ao brao, ele limitou-se a
encolher os ombros. No era nada de importncia. J foi h
muito tempo, creio que foi o que ele disse.
Aquele mido! Ns no o merecemos.
Jack cerrou os dentes ao ponto de ficar com os msculos da face salientes.
        De qualquer modo,  o vosso filho  retorquiu Edmonds
com secura.  Ele retira-se para um mundo de fantasia de vez
em quando. No h nisto nada de invulgar. Muitas crianas o
fazem. Lembro-me de que eu prprio tive um amigo invisvel
159
quando tinha a idade de Danny, um galo chamado Chug-Chug, que falava.  claro que s eu  que via o Chug-Chug. Tinha dois irmos mais velhos que quase sempre me
punham de parte, e nessas alturas o Chug-Chug vinha mesmo a propsito. E  claro que os senhores tm de compreender por que motivo o amigo invisvel de Danny se
chama Tony e no Mike, Hal ou Dutch.
Claro  disse Wendy.
J lho fizeram notar?
No  respondeu Jack.  Devamos t-lo feito?
Para qu? Deix-lo imagin-lo  sua maneira, segundo a
sua prpria lgica. As fantasias de Danny so consideravel-
mente mais profundas que aquelas que so comuns  sndroma
do amigo invisvel, mas ele sentiu essa necessidade de Tony.
Tony apareceria e mostrar-lhe-ia coisas agradveis. Por vezes
coisas espantosas. Mas sempre coisas boas. Uma vez Tony
mostrou-lhe que o ba do pai, que este julgava perdido, es
tava... debaixo das escadas. Outra vez Tony revelou-lhe que a
me e o pai iam lev-lo a um parque de diverses no dia dos
anos...
Em Great Barrington! - exclamou Wendy.  Mas como
podia ele saber essas coisas?  um mistrio, as coisas com que
ele se sai s vezes. Quase como se...
Tivesse um sexto sentido?  perguntou o doutor Edmonds
a sorrir.
Ele nasceu com uma coisa  disse Wendy num tom
dbil.
O sorriso de Edmonds transformou-se numa estrondosa gargalhada. Jack e Wendy trocaram um olhar e sorriram tambm, ambos admirados com a facilidade da explicao.
Nunca tinham discutido muito sobre as premonies ocasionais de Danny.
        A seguir vo dizer-me que ele faz levitao  disse Ed
monds ainda a sorrir.  No, no, receio que no. No  nada
extra-sensorial um velho caso de boa percepo humana, que,
no caso de Danny,  invulgarmente aguda. Senhor Torrance,
ele sabia que o seu ba estava debaixo das escadas porque o
senhor o procurou por todo o lado. Um processo de elimina
o, percebe?  to simples que at d vontade de rir. Mais
tarde ou mais cedo, o senhor teria pensado nisso.  E no caso
do parque de diverses de Great Barrington, de quem foi a
ideia ao princpio? Sua ou dele?
160
Dele, claro  respondeu Wendy.  Faziam publicidade
em todos os programas da manh para crianas. Ele estava doi
do por ir. Mas a verdade, doutor,  que no tnhamos dinheiro
para lho proporcionar. E dissemos-lho.
Foi ento que uma revista  qual eu j vendera um conto
em mil novecentos e setenta e um mandou um cheque de cin
quenta dlares  disse Jack.  Iam reeditar o conto numa
edio anual, ou qualquer coisa parecida. Ento resolvemos
gastar esse dinheiro com Danny.
Edmonds encolheu os ombros.
A satisfao de um desejo aliada a uma feliz coincidncia.
Raios, creio que tem razo  disse Jack.
Edmonds esboou um sorriso.
        Foi o prprio Danny que me disse que era frequente
Tony mostrar-lhe coisas que nunca aconteciam. Vises basea
das numa falsa percepo, mais nada. Danny est a fazer, sub-
conscientemente, aquilo que os chamados msticos e leitores da
mente fazem conscientemente e com cinismo. Admiro-o por
isso. Se a vida no o obrigar a recolher as antenas, creio que
ser um homem notvel.
Wendy fez um sinal afirmativo   claro que pensava que Danny seria um homem notvel , mas a explicao do mdico soou-lhe a lisonja. Sabia-lhe mais a margarina
que a manteiga. Edmonds no vivia com eles. No estava l quando Danny descobria botes que se tinham perdido, lhe dizia que o TV Guide talvez estivesse debaixo
da cama, que era melhor levar as botas de borracha para a escola apesar de estar sol... e mais tarde vinha para casa debaixo de chuva. Edmonds desconhecia o modo
curioso como Danny adivinhava o que iam fazer. Ela resolvia de repente tomar uma chvena de ch, ia  cozinha e encontrava a sua chvena de ch l dentro. Ela lembrava-se
de que tinha de devolver os livros  biblioteca e ia dar com eles empilhados em cima da mesa da entrada, com o carto da biblioteca em cima. Ou Jack resolvia ir
encerar o Volkswagen e ia dar com Danny l ao p, sentado na beira do passeio, a ouvir msica na galena.
Wendy disse em voz alta:
Nesse caso, porqu os pesadelos agora? Porque lhe disse
Tony para fechar  chave a porta da casa de banho?
Creio que  porque Tony sobreviveu  sua utilidade 
respondeu Edmonds.  Ele nasceu (Tony, no Danny) numa
161
altura em que a senhora e o seu marido se esforavam por manter o casamento. O seu marido estava a beber de mais. Houve o incidente do brao partido. O silncio
terrvel entre os dois.
O silncio terrvel... Sim, era verdade, de qualquer modo. As refeies tensas e rgidas em que a conversa se limitava a passa-me a manteiga ou Danny, come o
resto das cenouras ou com licena, por favor. As noites em que Jack saa e ela, sem verter uma lgrima, se deitava no sof em que Danny estava a ver televiso.
As manhs em que ela e Jack embirravam um com o outro como dois gatos furiosos, com um rato trmulo e assustado entre eles. Tudo batia certo,
(Meu Deus, as velhas cicatrizes ainda doem?) terrivelmente, terrivelmente certo.
Edmonds prosseguiu:
        Mas as coisas modificaram-se. O comportamento esqui-
zide  muito vulgar nas crianas.  aceite porque todos ns,
adultos, concordamos tacitamente que as crianas so lunti
cas. Tm amigos invisveis. Podem sentar-se na casa de banho
quando esto deprimidas, separadas do resto do mundo. Atri
buem a importncia de um talism a um determinado cobertor,
a um urso ou a um tigre de pelcia. Chupam no dedo. Quando
os adultos vem coisas que no existem, achamos que esto
bons para ir para o mamicmio. Quando uma criana afirma
que viu um elctrico no quarto ou um vampiro do lado de fora
da janela, limitamo-nos a sorrir com um ar indulgente. Temos
uma s frase que explica toda essa gama de fenmenos nas cri
anas...
        H-de passar  disse Jack.
Edmonds pestanejou.
 exactamente o que eu digo. Sim. Agora eu diria que
Danny est numa boa situao para desenvolver uma psicose.
Vida infeliz em casa, uma grande imaginao, o amigo invis
vel, to real a seus olhos que quase se tornou real para vs. Em
vez de se libertar da sua esquizofrenia, podia muito bem ter-se
embrenhado nela.
E tornar-se autista?  perguntou Wendy.
Lera artigos sobre o autismo. O prprio termo a assustava. Conotava- com medo e silncio total.
Seria possvel mas no necessariamente. Podia apenas ter
penetrado um dia no mundo de Tony e nunca mais voltar qui
lo a que chama as coisas reais.
Meu Deus  disse Jack.
162
Mas agora a situao bsica sofreu uma alterao drstica.
O senhor Torrance j no bebe. Esto num stio novo, em que
as condies foraram os trs a unirem-se mais do que nunca.
Decerto mais do que a minha prpria famlia, uma vez que a
minha mulher e os meus filhos no me vem mais do que duas
ou trs horas por dia. Na minha opinio, esta  a teraputica
perfeita. E creio que o facto de ele conseguir distinguir com
tanta nitidez o mundo de Tony das coisas reais diz muito do
estado fundamentalmente saudvel da sua mente. Ele afirma
que os senhores j no pensam no divrcio. Isto corresponde 
verdade?
Sim  respondeu Wendy.
Jack apertou-lhe a mo com fora, quase a magoando. Wendy apertou-a tambm.
        De facto, ele j no precisa de Tony. Danny est a esca
par-se ao seu sistema. Tony j no lhe proporciona vises agra
dveis, mas sim pesadelos hostis, que so demasiado aterra
dores para que recorde apenas fragmentos. Danny interiorizou
Tony durante uma situao difcil, desesperada, e Tony no
desiste com facilidade. Mas vai desistir. O vosso filho est a
livrar-se do hbito.
Edmonds levantou-se e os Torrance imitaram-no.
Como j disse, no sou psiquiatra. Se os pesadelos conti
nuarem quando o seu trabalho acabar, na Primavera, senhor
Torrance; aconselho-o vivamente a lev-lo a este homem em
Boulder.
 o que farei.
Bem, vamos dizer-lhe que j pode ir para casa  disse
Edmonds.
Quero agradecer-lhe  disse Jack num tom doloroso.
 Sinto-me melhor com tudo isto como h muito no me
sentia.
Tambm eu  acrescentou Wendy.
A porta, Edmonds parou e olhou para Wendy.
        Tem ou teve uma irm, senhora Torrance? Chamada Ai-
leen?
Wendy olhou para ele, surpreendida.
Sim. Tive. Morreu  porta da nossa casa em Somers-
worth, New Hampshire, quando tinha seis anos e'eu dez. Ia a
correr atrs de uma bola, na rua, e foi atropelada por-uma carri
nha.
E Danny sabe disso?
163


No creio.
Ele disse que a senhora estava a pensar nela enquanto
esperava na sala de espera.
E estava  respondeu Wendy, devagar.  Pela primeira
vez na... Oh, j no sei h quanto tempo.
        A palavra oinissassa diz-vos alguma coisa?
Wendy abanou a cabea, mas Jack disse:
Ontem  noite ele pronunciou essa palavra antes de ador
mecer. Oinissassa.
Ea expresso o brilho tem algum significado para os
senhores?
Ambos abanaram a cabea.
? No interessa, creio eu  rematou Edmonds.
Abriu a porta que dava para a sala de espera.
- H aqui algum chamado Danny Torrance que gostasse de ir- para casa?
- Ol, pap! Ol, mam!
Danny levantou-se da mesinha em que estivera a folhear um exemplar de Where the Wild Things Are, pronunciando em voz alta as palavras que conhecia.
Correu para Jack, que lhe pegou ao colo. Wendy afagou-lhe os cabelos.
Edmonds olhou para ele.
- Se no gostas da mam e do pap, podes ficar com o velho BUI.
        No, senhor!  respondeu Danny com veemncia.
Passou um brao pelo pescoo de Jack e outro pelo de
Wendy, com uma expresso radiante e feliz.
Est bem  concordou Edmonds a sorrir. Olhou para
Wendy e disse:  Telefone se tiver algum problema.
Prometo.
- No me parece que v ter  disse Edmonds a sorrir.
18
o LBUM DE RECORTES
Jsack descobriu o lbum de recortes no primeiro dia de Novembro, enquanto a mulher e o filho passeavam pela estrada
164
velha e gasta que subia desde o campo de roque at a uma serrao abandonada, a duas milhas de distncia. O tempo continuava radioso e todos tinham j adquirido
um tom bronzeado que no era de esperar no Outono.
Jack fora  cave para diminuir a presso da caldeira e, num impulso, tirara a lanterna da prateleira onde estavam os esquemas das canalizaes e decidira dar uma
vista de olhos pelos papis velhos. Tambm andava  procura de locais apropriados para armar as ratoeiras, embora no tencionasse faz-lo seno da a um ms. Quero
que os ratos voltem todos de frias, dissera a Wendy.
Com a lanterna acesa  sua frente, passou pelo cabo do elevador (que, a pedido de Wendy, no utilizavam desde que tinham chegado ao hotel) e atravessou o pequeno
arco de pedra. Torceu o nariz com o cheiro a papel podre. Atrs dele, a caldeira deu um solavanco, com tal estrondo que o fez dar um salto.
Iluminou o espao  sua volta, assobiando entre dentes. Havia ali um verdadeiro armazm: dzias de caixas e caixotes ata-fulhados de papis, a maior parte deles
sem cor nem forma por causa do tempo e da humidade. Outros estavam rebentados e espalhavam folhas de papel amarelado pelo soalho de pedra. Havia fardos de papel
atados com junco. Algumas caixas tinham o que parecia ser papel pautado, e outras tinham facturas atadas com elsticos. Jack puxou uma destas e iluminou-a com a
lanterna.
ROCKY MOUNTAIN EXPRESS, INC. Para: HOTEL OVERLOOK
De: ARMAZNS SIDEY, 1210 16th Street, Denver, CO. Via: CANADIAN PACIFIC RR Contm: 400 caixas de papel higinico Delsey, 1 caixote
Assinatura: DEF Data: 14 Agosto, 19S4.
Sorrindo, Jack atirou o papel para dentro da caixa.
Levantou a lanterna e viu uma lmpada suspensa, quase sepultada em teias de aranha. No tinha corrente para puxar.
Ps-se em bicos de ps e tentou enrosc-la melhor. Esta deu uma luz fraca. Jack pegou outra vez na factura do papel higinico e utilizou-a para limpar algumas teias.
O brilho no aumentou muito.
165
Sempre de lanterna na mo, percorreu as caixas e os fardos de papel  procura de vestgios de ratos. Tinham passado por ali, mas h muito tempo... Talvez h anos.
Descobriu fezes cheias de p e vrios ninhos feitos de papel cuidadosamente rasgado, que estavam velhos e no tinham sido usados.
Jack puxou um jornal de um dos fardos e leu o seguinte ttulo:
JOHNSON PROMETE UMA TRANSIO ORDEIRA Afirma que o trabalho iniciado por JKF prosseguir no prximo ano
O jornal era o Rocky Mountains News, de 19 de Dezembro de 1963. Deixou-o cair de novo no fardo.
Sentia-se fascinado por aquele vulgar sentido da Histria que qualquer pessoa pode experimentar ao ler as notcias de h dez ou vinte anos atrs. Verificou que havia
lapsos de tempo nas pilhas de jornais. No havia nada entre 1937 e 1945, entre 1957 e.1960 e entre 1962 e 1963. Perodos em que o hotel estivera encerrado, concluiu.
Em que a sua posse fora disputada.
As explicaes de Ullman sobre a carreira acidentada do Overlook continuavam a no o convencer muito. Tudo indicava que a magnfica localizao do Overlook constituiria
por si s uma garantia de xito. Houvera sempre gente mundana1 na Amrica, ainda antes da inveno dos jactos, e Jack estava convencido de que o Overlook fora uma
das bases em que aterravam durante as suas migraes. Batia certo. O Waldorf em Maio, o Bar Harbor House em Junho e Julho, o Overlook em Agosto e princpios de
Setembro, antes da partida para as Ber-mudas, Havana, Rio, ou fosse l o que fosse. Jack descobriu uma pilha de velhos registos que confirmaram as suas suposies.
Nelson Rockefeller em 1950. Henry Ford e a famlia em 1927. Jean Harlow em 1930. Clark Gable e Carole Lombard. Em 1956, todo o ltimo andar fora alugado durante
uma semana a Darryl F. Zanuck & Companhia. O dinheiro devia ter rolado pelos corredores direito  caixa registadora. A gerncia devia ter sido estrondosamente m.
A Histria estava ali, sem dvida, e no apenas nos ttulos dos jornais. Estava sepultada entre estas linhas, os livros de contas e as notas do servio de quartos,
onde mal se via. Em
1 Jet-set no original. (N. da T.)
166
1922, Warren G. Harding encomendara um salmo s dez horas da noite e uma caixa de cervejas Coors. Mas com quem estivera a comer e a beber? Teria sido durante uma
partida de pquer? Uma sesso de estratgia? O qu?
Jack olhou para o relgio e ficou admirado por verificar que j se tinham passado quarenta minutos desde que descera  cave. Tinha as mos e os braos encardidos
e provavelmente cheirava mal. Resolveu ir para cima e tomar um duche antes de Wendy e Danny regressarem.
Caminhou lentamente por entre as montanhas de papel, antecipando hipteses com uma rapidez hilariante. H muitos anos que no se sentia assim. De repente, pareceu-lhe
que o livro que prometera a si prprio escrever, meio a srio meio a brincar, poderia vir a ser uma realidade. Poderia estar precisamente aqui, sepultado nestas
pilhas de papis desordenados. Poderia ser uma obra de fico, um trabalho histrico ou um misto de ambos  um grande livro explodindo daqui em todas as direces.
Ali,  luz coada pelas teias de aranha, tirou maquinalmente o leno de assoar da algibeira de trs e limpou a boca. E foi ento que reparou no lbum de recortes.
 sua esquerda havia uma pilha de cinco livros que parecia uma Torre de Pisa periclitante. O de cima estava atafulhado de facturas e papis pautados. Em cima destes,
num equilbrio precrio sabe-se l de h quantos anos, estava um lbum de recortes, espesso, de capa de cabedal branco, artisticamente atado com tiras de fio dourado.
Cheio de curiosidade, Jack inclinou-se e pegou-lhe. A parte de cima da capa tinha uma espessa camada de p. Levantou-o ao nvel da boca e soprou. Ao faz-lo, voou
um carto, que Jack apanhou no ar antes de ele cair no cho. Era requintado, num tom creme, encimado por uma gravura do Overlook com as luzes todas acesas. O relvado
e o parque infantil estavam enfeitados com lanternas japonesas acesas. Parecia quase real, o Hotel Overlook de h trinta anos.
        Horace M. Derwent solicita
is!        o prazer da presena de V. Exa.
-?        num baile de mscaras para comemorar
           a grande inaugurao do
-.         HOTEL OVERLOOK        o jantar ser servido s 20 horas.
167
 meia-noite tirar-se-o as mscaras e
        dar-se- incio ao baile.
29 de Agosto de 1945        r.s.f.f.
Jantar s oito horas! Tirar as mscaras  meia-noite!
Era como se Jack estivesse a v-los na sala de jantar, os homens mais ricos da Amrica e as suas mulheres. Smokings e vistosas camisas engomadas, vestidos de noite,
a orquestra a tocar, sapatos de verniz, de salto alto. O tilintar dos copos, o alegre estalido das rolhas das garrafas de champanhe a saltarem. A guerra estava
no fim, ou quase. O futuro estava  frente deles, lmpido, promissor. A Amrica era o colosso do mundo e, finalmente, sabia-o e aceitava-o.
E mais tarde,  meia-noite, Derwent exclamando:
 Tirar as mscaras! Tirar as mscaras!
As mscaras a carem e...
(A Morte Vermelha pairava sobre todos!)
jack franziu o sobrolho. De onde sara aquilo? De Poe, o Grande Poeta Americano. E decerto o Overlook  este Overlook resplandecente que figurava no convite que
tinha nas mos  era algo que estava longe de imaginar.
Jack ps de lado o convite e voltou a pgina. Um recorte colado de um dos jornais de Denver e por cima, escrevinhada, a data: 15 de Maio de 1947.
EXCELENTE UNIDADE HOTELEIRA NAS MONTANHAS REABRE TENDO COMO HSPEDES UM NAIPE DE CELEBRIDADES Derwent afirma que o Overlook ser a passarela do mundo
David Felton, articulista
Durante os seus trinta e oito anos de existncia, o Hotel Overlook abriu e reabriu vrias vezes, mas raramente com o estilo e o esplendor que promete Horace Derwent,
o misterioso milionrio californiano que  o mais recente proprietrio da unidade hoteleira.
Derwent, que no faz segredo de ter enterrado mais de um milho de dlares nesta sua mais recente aventura  e h quem diga que este nmero ronda os trs milhes
, afirma que o Overlook ser uma das passarelas do mundo, o tipo de hotel em que nos lembraremos de ter pernoitado trinta anos depois.
Quando Derwent  acerca de quem correm rumores de ser proprietrio de autnticos potentados em Las Vegas  foi interrogado sobre o facto de a compra e a nova decorao
do Overlook poderem constituir o
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incio de uma batalha para legalizar o jogo de casino no Colorado, o magnata dos avies, do cinema, das armas e dos navios negou... com um sorriso. A imagem do
Overlook s teria a perder com o jogo, afirmou, e no me parece que eu queira bater Las Vegas! J l tenho jogadores que me cheguem! No tenho interesse em fazer
presses com o objectivo de legalizar o jogo no Colorado. Seria cuspir para o ar.
Quando tiver lugar a inaugurao oficial do Overlook (h tempos, realizou-se uma festa retumbante por alturas do final dos trabalhos), os quartos, com a sua nova
decorao, de paredes revestidas de papel, sero ocupados por uma lista de celebridades que vo do estilista Corbat Stani, da Chie, ao...
Sorrindo, divertido, Jack voltou a pgina. Olhava agora para um anncio que ocupava toda uma pgina do suplemento de viagens do New York Sunday Times. Na pgina
seguinte, uma histria sobre o prprio Derwent, um homem calvo, cujo olhar parecia trespassar-nos, mesmo numa velha fotografia. Usava culos sem aros e um bigode
fino,  moda dos anos 40, que no o tornava nada parecido com Errol Flynn. O seu rosto era o de um contabilista. Eram os olhos que lhe modificavam a expresso e
o tornavam parecido com outra pessoa.
Jack passou os olhos pelo artigo. J sabia quase tudo de um artigo sobre Derwent que a Newsweek publicara no ano anterior. Nascera em St. Paul, de uma famlia pobre,
nunca acabara o liceu e alistara-se na Marinha. Subira rapidamente e depois sara, na sequncia de uma disputa por causa da patente de um novo tipo de hlice que
ele concebera. No decurso da guerra entre a Marinha e um jovem desconhecido chamado Horace Derwent, o Tio Sam era o previsvel vencedor. Mas o Tio Sam no conseguiu
obter outra patente, e houvera muitas outras.
No final dos anos 20 e no comeo dos anos 30, Derwent voltou-se para a aviao. Comprou uma empresa antiquada e  beira da falncia, p-la ao servio do correio
areo e prosperou. Muitas patentes se seguiram: um novo desenho de asa para um monoplano, um veculo para transporte de bombas utilizado nas fortalezas voadoras
que tinham feito fogo sobre Hamburgo, Dresda e Berlim, uma metralhadora com refrigerao por lcool, um prottipo de assento ejectvel mais tarde utilizado nos
avies a jacto dos Estados Unidos.
E, ao longo do tempo, o contabilista que partilhava a pele com o inventor ia amontoando investimentos. Uma rede insignificante de fbricas de munies em Nova Iorque
e Nova Jr-
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sia. Cinco fbricas de txteis na Nova Inglaterra. Fbricas de prdoutos qumicos no Sul falido e queixoso. No final da Depresso, a sua riqueza limitava-se a um
punhado de interesses, comprados a preos incrivelmente baixos e susceptveis de serem vendidos a preos ainda mais baixos. Derwent gabava-se mesmo de poder liquid-los
completamente e realizar o dinheiro necessrio para comprar um Chevrolet com trs anos.
Tinham corrido boatos  recordava-se Jack  de que alguns dos meios utilizados por Derwent para no se afundar eram menos do que duvidosos. Envolvimento em contrabando
de bebidas alcolicas. Prostituio no Midwest. Contrabando nas reas costeiras do sul, onde se localizavam as suas fbricas de fertilizantes. Por fim, uma associao
com os interesses nascentes no Oeste  roda do jogo clandestino.
Talvez o investimento mais famoso de Derwent fosse a compra dos Estdios Top Mark, ento a afundar-se, e que no tinham experimentado um nico xito desde que
a sua jovem estrela Margery Morris morrera com uma dose excessiva de herona em 1934. Tinha catorze anos. Margery, que se especializara em salvar casamentos e a
vida de ces injustamente acusados de matarem galinhas, tivera o maior funeral da histria de Hollywood, proporcionado pelos estdios Top Mark. A histria oficial
fora que a pequena Margery contrara uma doena incurvel durante um espectculo num orfanato de Nova Iorque, e alguns cnicos insinuaram que o estdio tinha
espalhado esta verso porque sabia que estava a afundar-se.
Derwent contratou um homem de negcios arguto, um tarado sexual devastador chamado Henry Finkel, para dirigir Top Mark, e nos dois anos que antecederam Pearl Harbour
o estdio produziu sessenta filmes, cinquenta e cinco dos quais desfilaram diante do gabinete de Hayes e lhe cuspiram na cara. Os outros cinco eram filmes de propaganda
ao Governo. Os filmes de longa metragem tiveram um sucesso enorme. Num deles, um costureiro annimo concebera um soutien sem alas com que a herona aparecia na
cena do Grande Baile, em que mostrava tudo, excepto talvez o sinal de nascena que tinha por baixo do buraco do traseiro. Derwent ganhou crdito com esta inveno
e a sua reputao  ou notoriedade  aumentou.
A guerra tornara-o rico e ele continuava a ser rico. Vivia em Chicago, raramente era visto, excepto nas reunies de alto nvel das empresas Derwent (que dirigia
com pulso de ferro), e dizia--se que ele era dono das United Air Lines, de Las Vegas (onde
170
era conhecido por controlar quatro hotis e casinos e estar envolvido pelo menos noutros seis), de Los Angeles e dos prprios Estados Unidos. Com fama de ser amigo
de reis, presidentes e grandes chefes do mundo da clandestinidade, era tido por muitos como o homem mais rico do mundo.
Mas no conseguira impulsionar o Overlook, pensou Jack. Pousou o lbum por instantes e pegou na pequena agenda e no lpis que trazia sempre na algibeira pequena.
Rabiscou H. Derwent, biblioteca de Sidewinder. Guardou a agenda e pegou de novo no lbum. Estava preocupado, distante. Estava constantemente a limpar a boca com
as mos enquanto ia voltando as pginas.
Passou os olhos pelo que se seguia, com o intuito de voltar quelas pginas mais tarde, para l-las com mais cuidado. Havia notas  imprensa coladas em muitas pginas.
Este e aquele eram esperados no Overlook na prxima semana, este e aquele actuariam no salo (que no tempo de Derwent se chamava o Salo do Olho Vermelho). Muitos
dos artistas eram celebridades de Las Vegas, e muitos dos hspedes eram executivos e estrelas dos Estdios Top Mark.
Depois, um recorte com data de 1 de Fevereiro de 1952: ;
MILIONRIO VENDE INVESTIMENTOS NO COLORADO i
Derwent revela negcio fechado com investidores        i
da Califrnia. Em causa, o Overlook e outros investimentos.
Rodney Conklin, analista financeiro
Num breve comunicado divulgado ontem pelos escritrios de Chicago das monolticas empresas Derwent, foi revelado que o milionrio (talvez bimilionrio) Horace Derwent
comeou a vender ao desbarato as suas propriedades do Colorado, num surpreendente golpe de teatro do poder financeiro que ser concludo no dia 1 de Outubro de 1954.
Os investimentos de Derwent incluem gs natural, carvo, energia hidroelctrica e uma companhia imobiliria chamada Colorado Sunshine, Inc., que detm mais de quinhentos
hectares de terreno.
A mais famosa empresa de Derwent, o Hotel Overlook, j foi vendido, revelou Derwent numa rara entrevista hoje concedida. O comprador foi um grupo de investidores
da Califrnia encabeado por Charles Grondin, um antigo director da Corporao Imobiliria da Califrnia. Enquanto Derwent se recusou a discutir o preo, fontes
geralmente bem informadas...
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Derwent vendera tudo ao desbarato, tudo. No fora apenas o Overlook. Mas, de qualquer modo... De qualquer modo...
Jack limpou a boca com a mo e teve vontade de beber qualquer coisa. Isto iria melhor com uma bebida. Continuou a folhear o lbum.
O grupo da Califrnia abrira o hotel por duas temporadas e depois vendera-o a um grupo do Colorado chamado Moun-tainview Resorts. O Mountainview fora  falncia
em 1957, entre acusaes de corrupo, negcios escuros e burlas aos accionistas. O presidente da companhia suicidou-se dois dias depois de ter sido citado para
comparecer diante de um grande jri.
O hotel mantivera-se encerrado at ao final da dcada. Havia uma nica histria sobre ele, um artigo de domingo intitulado
ANTIGO GRANDE HOTEL ENTRA EM DECADNCIA. As fotografias
que o acompanhavam comoveram Jack: o alpendre da frente com a tinta a cair, o relvado maltratado, as janelas partidas por tempestades e pedradas. Isto faria parte
do livro, se chegasse a escrev-lo  a Fnix descendo s cinzas para renascer. Prometeu a si mesmo que trataria muito bem do hotel, muito bem mesmo. Tinha a sensao
de que at ento nunca se compenetrara bem da sua responsabilidade no que dizia respeito ao Overlook. Era quase como se tivesse uma responsabilidade perante a Histria.
Em 1961, quatro escritores, dois deles vencedores do Prmio Pulitzer, tinham arrendado o Overlook, que reabrira como escola para escritores. Durou um ano. Um dos
alunos embebedou-se numa sala do terceiro andar, caiu da janela e veio despenhar-se no terrao de cimento c em baixo, encontrando a morte. O jornal insinuava
que poderia ter-se tratado de um caso de suicdio.
Todos os grandes hotis tm escndalos, dissera Watson, tal como todos os grandes hotis tm um fantasma. Porqu? Porque h sempre gente a entrar e a sair...
De repente pareceu-lhe que todo o peso do Overlook assentava sobre as suas costas, com os seus cento e dez quartos de hspedes, arrecadaes, cozinha, copa, cmara
frigorfica, salo, sala de baile, sala de jantar... (No quarto, as mulheres entram e saem) (... e a Morte Vermelha paira sobre todos.) Jack limpou a boca e mudou
de pgina. Ia agora na ltima parte desta, e pela primeira vez perguntou a si mesmo de quem
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seria este lbum, que algum deixara na cave, em cima de uma pilha de livros de registo. Um novo ttulo, desta vez com data de 10 de Abril de 1963.
GRUPO DE LAS VEGAS COMPRA HOTEL FAMOSO NO COLORADO
O pitoresco Overlook prestes a transformar-se em clube.
Robert T. Leffing, porta-voz da empresa que d pelo nome de High Country Investments, anunciou hoje em Las Vegas que a High Country negociou um contrato para o famoso
Hotel Overlook, uma unidade localizada no cimo das Montanhas Rochosas. Leffing recusou-se a mencionar os nomes dos investidores especficos mas afirmou que o hotel
iria ser transformado num clube privado. Disse ainda que o grupo que representa espera vender quotas de participao a executivos de alto nvel de empresas americanas
e estrangeiras.
A High Country  tambm proprietria de hotis em Montana, Wyo-ming e Utah.
O Overlook tornou-se mundialmente famoso entre os anos de 1946 e 1952, quando foi comprado por um ardiloso multmilionrio, Horace Derwent, que...
O artigo da pgina seguinte era uma mera crtica datada de Agosto desse mesmo ano. O Overlook abrira as suas portas sob a sua nova gerncia. Aparentemente, o jornal
no conseguira descobrir, ou no estivera interessado em saber, quem eram os principais accionistas, porque no eram mencionados nomes a no ser o da High Country
Investments  a empresa com o nome mais annimo que Jack conhecia, excepto o de uma cadeia de lojas de bicicletas e acessrios na zona ocidental da Nova Inglaterra
que dava pelo nome de Business, Inc.
Voltou a pgina e o seu olhar foi cair num recorte que ali estava colado.
MILIONRIO DERWENT REGRESSA AO COLORADO
PELA PORTA DAS TRASEIRAS? Soube-se que o executivo da High Country  Charles Grondin.
Rodney Conklin, analista financeiro
O Hotel Overlook, um palcio pitoresco situado na zona montanhosa do Colorado, e outrora o brinquedo privativo do milionrio Horace Derwent, est no centro de um
n financeiro que s agora comea a vir a lume. Em 10 de Abril do ano passado, o hotel foi comprado por uma fuma
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de Las Vegas, a High Country Investments, para ser transformado num clube de executivos abastados tanto nacionais como estrangeiros. Agora, fontes bem informadas
afirmam que a High Country  dirigida por Charles Grondin, de 53 anos, que foi presidente da Corporao Imobiliria da Califrnia at 1959, altura em que resignou
do cargo para ingressar na sede das empresas Derwent, em Chicago.
Isto deu origem a especulaes segundo as quais  possvel que a High Country Investments seja controlada por Derwent, que pode ter adquirido o Overlook pela segunda
vez, em circunstncias bastante peculiares.
v        Grondin, que foi acusado de evaso fiscal em 1960 e posteriormente
absolvido, no pde ser localizado para se pronunciar, e Horace Derwent, uma vez contactado pelo telefone, cioso do seu orgulho, no teceu comentrios. O representante
do Estado, Dick Bows of Golden, foi chamado a fazer uma investigao sobre...
Aquele recorte tinha data de 27 de Julho de 1964. O seguinte era uma coluna de um jornal de domingo de Setembro do mesmo ano. Era da autoria de Josh Branningar,
um investigador de casos de corrupo da tmpera de Jack Anderson. Jack recordava-se vagamente de que Brannigar morrera em 1968 ou 1969.
!        ZONA FRANCA DA MAFIA NO COLORADO?
Josh Brannigar
Tudo indica que o mais recente local de reunio dos chefes da organizao nos Estados Unidos se localiza num hotel afastado, enclavado no centro das Montanhas Rochosas.
O Hotel Overlook, um elefante branco que tem sido alvo de uma gesto ruinosa por cerca de uma dzia de diferentes grupos e indivduos desde que abriu as suas portas
pela primeira vez, em 1910,  actualmente explorado como clube privado, de alta segurana, aparentemente para homens de negcios. A questo  saber qual  verdadeiramente
o tipo de negcio dos accionistas do Overlook.
Os membros presentes durante a semana de 16 a 23 de Agosto podem dar-nos uma ideia. A lista foi obtida atravs de um antigo empregado da High Country Investments,
uma presumvel empresa-fantoche das empresas Derwent. Actualmente, tudo indica que os interesses de Derwent na High Country (se  que existe algum) tenham sido
ultrapassados por vrios bares do jogo clandestino de Las Vegas, que no passado estiveram ligados a chefes do mundo da clandestinidade, sobre quem
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recaam suspeitas e condenaes. Durante aquela semana soalheira de i Agosto, estiveram no Overlook:
Charles Grondin, presidente da High Country Investments. Quando em Julho deste ano se soube que ele presidia aos destinos da High Country, foi anunciado  com um
atraso considervel  que ele resignara previamente do seu cargo nas empresas Derwent. O velho Grondin, que se recusou a prestar declaraes ao nosso jornal, foi
em tempos julgado por acusaes de evaso fiscal, e absolvido (1960).
Charles Baby Charlie Battaglia, um empresrio de Las Vegas, de sessenta anos (que controla interesses em The Greenback e The Luck Bons on the Strip). Battaglia
 amigo pessoal e ntimo de Grondin. O seu cadastro remonta a 1932, altura em que foi julgado por alegada cumplicidade no assassnio do Jack Dutchy Morgan, tendo
sido absolvido. As autoridades federais suspeitam do seu envolvimento no trfico de droga, em prostituio e assassnio por contrato, mas Baby Charlie s foi
preso uma vez, por evaso fiscal, em 1955-56.
Richard Scame, o principal accionista da Fun Time Automatic Machines. A Fun Time produz mquinas de jogo a dinheiro e jukeboxes (Melody-Coin) para o resto do pas.
Em 1940 foi acusado de assalto com uma arma mortfera, em 1948 de ser portador de uma arma escondida e em 1961 de ser membro de uma conspirao para cometer fraudes
fiscais.
Peter Zeiss, um importador sediado em Miami, agora com perto de setenta anos. Nos ltimos cinco anos, Zeiss tem combatido a deportao como pessoa indesejvel. Foi
condenado por ter recebido e escondido bens roubados (1958) e por conspirao para cometer fraudes fiscais (1954). Insinuante, distinto e corts, Peter Zeiss  conhecido
por Pop-pa entre os amigos ntimos e tem sido julgado por casos de assassnio e cumplicidade. Grande accionista da companhia Fun Time, de Scame, detm igualmente
interesses em quatro casinos de Las Vegas.
Vittorio Gienelli, tambm conhecido por Vito, o Cortador, julgado duas vezes por assassnio, um deles o de Frank Scoffy, de Chicago, morto com um machado. Gienelli
foi acusado vinte e trs vezes, julgado catorze vezes e condenado apenas uma vez, por roubos em estabelecimentos, em 1940, Diz-se que nos ltimos anos se tornou
muito poderoso na ala ocidental da organizao, que tem o seu quartel-general em Las Vegas.
Cari Jimmy-Ricks Prashkin, um investidor de So Francisco, com fama de ser o herdeiro aparente do poder de que Gienelli agora desfruta. Prashkin possui grande
quantidade de aces nas empresas Derwent, na High Country Investments, na Fun Time Automatic Machines e em trs casinos de Las Vegas. Prashkin no tem cadastro
na Amrica, mas
175
foi acusado de fraude no Mxico. Estas acusaes foram abafadas trs semanas depois de terem sido tornadas pblicas. Admite-se que Prash-kin tenha em seu poder dinheiro
retirado dos casinos de Las Vegas e esteja a canaliz-lo para as actividades legtimas da organizao no Oeste. E essas actividades podem agora abranger o Hotel
Overlook, no Colorado. Outros visitantes durante a presente poca so...
Havia mais mas Jack s leu de relance, ao mesmo tempo que no parava de limpar a boca com as mos. Um banqueiro com ligaes em Las Vegas. Homens de Nova Iorque
que aparentemente estavam a fazer algo mais do que roupas no Departamento de Vesturio. Homens com fama de estarem envolvidos em casos de droga, roubo e assassnio.
Meu Deus, que histria! E todos tinham estado ali, mesmo por cima dele, naqueles quartos vazios. Na cama com prostitutas caras, talvez no terceiro andar. A beber
garrafas de champanhe. A fechar negcios que renderiam milhes e milhes de dlares, talvez na mesma suite em que tinham ficado alguns presidentes. Havia uma histria,
muito bem. Um diabo de uma histria. Um pouco frentico, Jack puxou da agenda e anotou os nomes de toda aquela gente para investigar na biblioteca de Denver, no
final do seu contrato com o Overlook. Todos os hotis tinham o seu fantasma? O Overlook tinha uma srie deles. Primeiro, suicdio; depois, a Mafia. O que iria seguir-se?
O recorte seguinte era uma furiosa refutao de Charles Grondin das acusaes de Brannigar. Jack sorriu, com um ar trocista.
O recorte da pgina seguinte era to grande que fora dobrado. Jack desdobrou-o e ficou sem flego. A fotografia que o acompanhava f-lo quase dar um salto: o papel
da parede fora mudado em Junho de 1966, mas reconheceu a janela e a vista com muita facilidade. Era a zona da Suite Presidencial voltada para poente. Seguia-se
um caso de assassnio. A parede da sala junto da porta que dava para o quarto estava cheia de sangue e do que pareciam ser pedaos de massa enceflica. Via-se um
polcia, lvido, inclinado sobre um cadver embrulhado num cobertor. Fascinado, Jack desviou o olhar para o ttulo.
CENA DE TIROS EM ESTILO GANGSTER NUM HOTEL DO
COLORADO
Clebre chefe do crime morto a tiro num clube das Montanhas Rochosas Trs mortos ao todo
176
Sidewinder, Colo (UPI).  A quarenta milhas desta cidade pachorrenta do Colorado, teve lugar uma execuo no corao das montanhas Rochosas. O Hotel Overlook, comprado
h trs anos por uma empresa de Las Vegas para nele instalar um clube privado, foi palco de uma carnificina de que resultaram trs mortos. Dois dos indivduos eram
os companheiros ou guarda-costas de Vittorio Gienelli, tambm conhecido por o Cortador, pelo seu envolvimento numa chacina que se deu em Boston, h vinte anos.
Foi Robert Norman, o gerente do hotel, quem chamou a polcia. Norman disse ter ouvido tiros e que alguns hspedes tinham visto dois homens com meias enfiadas na
cabea e empunhando armas escaparem--se pela escada de emergncia e fugirem numa carrinha convertvel de modelo recente.
O polcia federal Benjamin Moorer descobriu dois cadveres, mais tarde identificados como sendo de Victor T. Boorman e Roger Macassi, ambos de Las Vegas,  porta
da Suite Presidencial, onde dois presidentes dos Estados Unidos j haviam pernoitado. L dentro, Moorer descobriu o corpo de Gienelli deitado no cho. Aparentemente,
Gienelli fugia dos seus atacantes quando foi abatido. Moorer afirmou que Gienelli fora alvejado de muito perto com pistolas de grande calibre.
Charles Grondin, o representante da companhia que  a actual proprietria do Overlook, no pde ser localizado para...
Por baixo do recorte, algum escrevera em letras gordas, com um marcador: Levaram as balas com eles. Jack ficou a olhar para aquilo durante muito tempo. De quem
seria este livro?
Por fim, voltou a pgina, engolindo em seco. Outra coluna de Josh Brannigar, esta datada do princpio de 1967. S conseguiu ler o ttulo: famoso hotel  vendido
na sequncia do
ASSASSNIO DE UMA FIGURA DO MUNDO CLANDESTINO.
As folhas que se seguiam estavam em branco.
(Levaram as balas com eles.)
Jack voltou ao princpio,  procura de um nome ou de uma morada. Ou mesmo do nmero de um quarto. Porque tinha a certeza de que o dono deste pequeno livro de memrias
tinha ficado no hotel. Mas no havia nada.
Estava a preparar-se para reler os recortes, desta vez com mais ateno, quando ouviu uma voz nas escadas:
 Jack? Ests a?
EraWendy.
177
Jack deu um pulo, quase como se tivesse sido apanhado em falta, como se tivesse estado a beber s escondidas e Wendy tivesse cheirado o seu hlito. Que situao
ridcula. Limpou a boca com a mo e respondeu:
        Estou sim, querida. Ando a ver se encontro algum rato.
Wendy vinha a descer. Jack ouviu-a descer as escadas e depois atravessar a casa da caldeira.  pressa, sem pensar porque estava a faz-lo, meteu o livro debaixo
de uma pilha de contas e de facturas. Levantou-se no momento em que ela apareceu debaixo do arco.
        O que tens estado a fazer aqui em baixo? So quase trs
horas!
Jack sorriu.
         assim to tarde? Andei a vasculhar tudo isto. A tentar
descobrir onde esto enterrados os corpos.
Estas palavras produziram um estranho eco na sua mente.
Wendy aproximou-se, olhando para ele, e Jack, inconscientemente, recuou um passo. Sabia o que ela estava a fazer. Estava a tentar descobrir se ele cheirava a lcool.
Talvez nem se apercebesse disso, mas ele sabia-o e esse facto f-lo sentir culpado e irritado.
Tens sangue na boca  disse Wendy com estranha indi
ferena.
O qu?
Jack ps a mo nos lbios e assustou-se. O seu dedo indicador tinha sangue. O seu sentimento de culpa aumentou.
Estiveste outra vez a esfregar a boca  disse Wendy.
Jack baixou os olhos e disse:
Sim, creio que sim.
Tem sido difcil de suportar, no tem?
No, nem por isso.
Achas que est a tornar-se mais fcil?
Jack olhou para Wendy e fez um esforo para andar. Uma vez a andar, tudo era mais fcil. Aproximou-se da mulher e passou-lhe um brao pela cintura. Afastou-lhe uma
madeixa de cabelo louro e beijou-a no pescoo.
        Acho. Onde est Danny?
        Oh, anda por a. O cu est a comear a encher-se de
nuvens. Tens fome?
Jack fez deslizar a mo para as ndegas de Wendy, com falsa lascvia, e respondeu.
        Como um urso, madame.
178
Cuidado, preguioso. No comeces nada que no possas
acabar.
Teca-teca, madame}  perguntou Jack, sem tirar a mo.
 Fotografias porcas? Posies esquisitas?
Ao atravessarem o arco, Jack virou-se e lanou um ltimo olhar  caixa onde o lbum
(de quem?)
estava escondido. Depois de apagada a luz, era apenas uma sombra. Sentia-se aliviado por ter mantido Wendy afastada. A sua lascvia tornou-se menos afectada, mais
natural, quando se aproximaram das escadas.
        Talvez  disse ela.  Depois de comermos uma sandu
che... Ieeee!
Libertou-se dele, a rir.
Faz ccegas!
Jack Torrance gostaria de lhe fazer ccegas, madame.
Afasta-te, Jack. E que tal um bocado de presunto e de
queijo... para comear?
Subiram as escadas e Jack no voltou a olhar para trs. Mas pensou nas palavras de Watson: Todos os grandes hotis tm um fantasma. Porqu? Ora, porque as pessoas
entram e saem...
Em seguida, Wendy fechou a porta da cave atrs deles, devolvendo-a  escurido.
19  PORTA DO QUARTO 217
Danny recordava as palavras de mais algum que trabalhara no Overlook durante aquela temporada:
Ela disse que vira qualquer coisa num dos quartos em que... acontecera uma coisa m. Foi no quarto duzentos e dezassete e quero que me prometas que no entrars
l, Danny... Afasta-te...
Era uma porta perfeitamente vulgar, igual a todas as outras dos dois primeiros andares do hotel. Era cinzento-escura, ao meio de um corredor em ngulo recto que
desembocava no patamar do segundo andar. Os nmeros das portas no eram
179
diferentes dos do prdio de apartamentos de Boulder, onde viviam. Um 2, um 1 e um 7. Mesmo por baixo, havia um pequeno culo de vidro, para espreitar. Danny j
espreitara por vrios. Do interior tinha-se uma vista ampla do corredor. Do exterior, nem se se estivesse ali dias a fio, no se via nada. Uma boa partida.
(Porque ests aqui?)
Depois do passeio pelas traseiras de Overlook, ele e a mam tinham voltado e ela preparara-lhe o seu almoo predilecto: uma sanduche de queijo e de carne e sopa
de feijo Campbell. Comeram na cozinha de Dick enquanto iam conversando. O rdio estava ligado e transmitia msica barulhenta da estao de Estes Park. A cozinha
era o seu local favorito no hotel, e estava convencido de que a mam e o pap eram da mesma opinio, porque, depois de terem tentado comer na sala de jantar durante
trs dias, tinham comeado a comer na cozinha, por acordo mtuo, dispondo as cadeiras  roda da tbua de cozinha de Dick, que era quase to grande como a mesa de
jantar da casa de Stovington. A sala de jantar do Overlook era demasiado deprimente, mesmo com as luzes acesas e a msica que vinha do leitor de cassetes que havia
no escritrio. No passavam de trs pessoas sentadas a uma mesa rodeada de dezenas de outras mesas, vazias e cobertas com toalhas de plstico transparente para as
proteger do p. A mam dizia que era como se estivessem a jantar no meio de um romance de Horace Walpole, e o pap riu-se e concordou. Danny no fazia ideia de quem
seria Horace Walpole, mas sabia que a comida feita pela mam comeara a ser mais saborosa desde que comiam na cozinha. Continuava a descobrir pequenos traos da
personalidade de Dick Hallorann, que lhe davam uma sensao reconfortante.
A mam comera metade de uma sanduche e no tocara na sopa. Disse que o pap devia ter ido dar um passeio sozinho porque tanto o VW como o camio do hotel estavam
no parque de estacionamento. Disse que estava cansada e que talvez fosse deitar-se um bocado, se ele fosse brincar e no fizesse asneiras. Danny, com a boca cheia
de comida, prometeu-lhe que sim.
        Porque no vais para o parque infantil?  perguntou-lhe
ela.  Pensei que gostavas de ir para l. Tem um quadrado de
areia para brincares com os carrinhos e tudo.
Danny engoliu o que tinha na boca com dificuldade.
        Talvez v  respondeu, voltando-se para o rdio e brin
cando com ele.
180
E aqueles animais todos na sebe; so to engraados... 
disse Wendy, tirando-lhe o prato vazio da frente.  Qualquer
dia o pai tem de ir apar-los.
Pois tem  respondeu Danny.
(S coisas desagradveis... que em tempos tiveram a ver com aquelas malditas sebes, aparadas como se fossem animais...)
Se vires o pai antes de mim, diz-lhe que estou deitada.
Claro, mam.
Wendy meteu a loua suja dentro do lava-loua e voltou para junto do filho.
        Sentes-te feliz aqui, Danny?
Danny olhou para ela com um ar ingnuo, e um pequeno bigode de leite.
Sim.
Nunca mais tiveste sonhos maus?
No.
Tony viera ter com ele uma vez, numa noite em que estava deitado, e comeara a cham-lo em voz baixa, de longe. Danny cerrara os olhos com fora at Tony se ir embora.
        Tens a certeza?        >
Tenho, mam. Wendy mostrou-se satisfeita.
Como est a mo?
Danny estendeu-lha.
Cada vez melhor.
Jack tirara o ninho de baixo da taa de pyrex, cheio de vespas mortas, levara-o para o incinerador que havia nas traseiras da arrecadao e queimara-o. Desde ento
nunca mais tinham visto vespas. Ele escrevera a um advogado em Boulder, juntara as fotografias da mo de Danny e o advogado respondera-lhe dois dias depois, o que
deixara Jack mal disposto para o resto do dia. O advogado duvidava que a firma que tinha fabricado a bomba de insecticida pudesse ser processada com xito, porque
s Jack podia testemunhar que seguira as instrues impressas na embalagem. Jack perguntara-lhe se no poderiam comprar  mais embalagens e experimentar se tinham
o mesmo defeito.  Sim, dissera o advogado, mas os resultados seriam duvidosos mesmo que todas as bombas testadas funcionassem mal. Contou a Jack um caso que envolvia
um fabricante de escadas extensveis e um homem que partira as costas. Wendy mostrara--se pesarosa na presena de Jack, mas intimamente ficara satis-
181
feita por Danny e o marido se terem visto livres daquilo. Era melhor deixar os trmites legais para as pessoas que os percebiam, e em cujo nmero os Torrance no
estavam includos. Alm disso, nunca mais tinham visto vespas.
 Vai brincar, p. Diverte-te.
Mas Danny no se divertira. Vagueara sem rumo pelo hotel, espreitando os quartos das criadas e dos porteiros,  procura de qualquer coisa interessante, sem contudo
a encontrar. Uma criana percorrendo uma passadeira azul-escura com linhas negras entrelaadas. De vez em quando tentava abrir a porta de um ou outro quarto, mas
 claro que estavam todas fechadas  chave. A chave estava l em baixo no escritrio, pendurada. Ele sabia onde, mas o pai dissera-lhe que no lhe mexesse. E Danny
no queria desobedecer-lhe. Ou queria?
(Porque ests aqui?)
No havia nisto nada de fortuito, afinal. Danny fora atrado ao quarto 217 por uma curiosidade mrbida. Lembrava-se de uma histria que o pap lhe lera uma vez,
quando estava bbado. Fora h muito tempo, mas lembrava-se to bem dela como na altura em que o pai lha lera. A mam tinha ralhado com o pap e perguntara-lhe porque
fizera aquilo, porque lera uma histria to impressionante a uma criana de trs anos. A histria chamava-se Barba Azul. Lembrava-se ainda melhor porque ao princpio
pensara que o pap dissera Pssaro Azul, e no havia pssaros azuis nem qualquer espcie de pssaros na histria. Na realidade, a histria era sobre a mulher do
Barba Azul, uma senhora muito bonita de cabelos cor de milho como a mam. Depois de o Barba Azul ter casado com ela, viviam num castelo grande e horrvel, que no
era muito diferente do Overlook. E todos os dias o Barba Azul saa para o trabalho e recomendava  sua linda mulher que no entrasse num certo quarto, embora a chave
desse quarto estivesse pendurada num gancho, tal como a chave daquele quarto estava pendurada na parede do escritrio, l em baixo. O quarto fechado despertava cada
vez mais a curiosidade da mulher do Barba Azul. Tentou espreitar pelo buraco da fechadura tal como Danny tentara espreitar pelo culo do quarto 217, com resultados
semelhantes. At havia uma  gravura em que ela estava de joelhos, tentando espreitar por debaixo da porta, mas a fresta no era suficientemente grande. A porta abrira-se
de par em par e...
O velho livro de contos de fadas descrevia a sua descoberta
182
com pormenores horripilantes. A imagem ficara gravada na mente de Danny. As cabeas das sete esposas do Barba Azul estavam no quarto, cada uma em cima de um pedestal,
os olhos revirados e a boca aberta, como se tivessem acabado de dar um grito. Estavam assentes nos pescoos decepados por uma espada gigantesca e o sangue corria
ao longo dos pedestais.
Aterrorizada, voltara as costas quilo, disposta a fugir do quarto e do castelo, e vira o Barba Azul  porta, de olhar faiscante e terrvel. Eu disse-te que no
entrasses no quarto dissera o Barba Azul, desembainhando a espada. Em curiosidade s igual s outras sete, e, embora eu te amasse mais do que s outras, o teu
fim ser como o delas. Prepara-te para morrer, maldita mulher!
Danny tinha uma vaga ideia de que a histria tinha um fim feliz, mas isso era insignificante quando comparado com as duas imagens dominantes: a porta fechada, tentadora,
escondendo um grande segredo, e o prprio segredo, repetido mais de meia dzia de vezes. A porta fechada e, do outro lado, as cabeas, as cabeas decepadas.
Danny levou a mo ao puxador, num gesto quase furtivo. No fazia ideia de h quanto tempo estava ali, como que hipnotizado diante da porta cinzenta, fechada  chave.
(E talvez trs vezes tenha pensado que vi coisas... coisas... Coisas desagradveis.)
Mas o senhor Hallorann  Dick  tambm dissera estar convencido de que aquelas coisas no poderiam mago-lo. Eram como gravuras assustadoras, num livro, mais nada.
E talvez ele no visse nada. Por outro lado...
Meteu a mo esquerda na algibeira e tirou a chave. Sempre ali estivera, claro.
Pegou-lhe pela placa de metal quadrada, presa a uma das extremidades, onde se lia escritrio. F-la girar na corrente e ficou a v-la andar  roda. Passados alguns
minutos, meteu a chave na fechadura. A chave deslizou facilmente, sem qualquer rudo, como se sempre tivesse querido ali estar.
(Acho que vi coisas... Coisas desagradveis... Promete-me que no entras ali.)
(Prometo.)
E uma promessa era, evidentemente, muito importante. Mesmo assim, a curiosidade espicaava-o, enlouquecia-o, como se fosse hera envenenada trepando por uma parede
em que no pudssemos tocar. Mas era uma curiosidade horrvel,
183
 do gnero daquela que nos faz espreitar por entre os dedos quando estamos a ver um filme que nos mete medo. E o que estava do outro lado da porta no era um filme.
(No creio que aquelas coisas possam magoar-te...  como se fossem gravuras medonhas de um livro...)
De repente, estendeu a mo esquerda, ainda no certo do que iria fazer, tirou a chave da fechadura e meteu-a de novo na algibeira. Por instantes manteve-se de olhar
fixo na porta, de olhos escancarados, depois voltou-se rapidamente e desceu o corredor, na direco do patamar, que com ele formava um ngulo recto.
Qualquer coisa o fez parar ali, e por momentos no teve a certeza do que se tratava. Depois lembrou-se de que mesmo ao virar da esquina, a caminho das escadas, havia
um daqueles extintores de incndio pendurado na parede. Enrolado como se fosse uma cobra a dormir.
No eram extintores qumicos, explicara-lhe o pai, embora houvesse vrios desses na cozinha. Estes eram os precursores dos modernos sistemas de asperso. As longas
mangueiras de lona aplicavam-se directamente ao sistema de canalizaes do Overlook, e ao abrir uma torneira era possvel fazer as vezes de uma corporao de bombeiros.
O pap dissera que os extintores qumicos, que espalhavam espuma ou CO2, eram muito melhores. Os qumicos apagavam os fogos, consumiam o oxignio de que estes
necessitavam, enquanto um jacto forte se limitava a espalhar as chamas. O pap dissera que o senhor UUman devia substituir as velhas mangueiras e a velha grelha,
mas o mais certo era ele no fazer nada disso porque era um tipo mesquinho. Danny sabia que este era um dos piores nomes que o pap podia chamar a algum. Aplicava-se
a certos mdicos, dentistas, operrios que vinham fazer reparaes a casa e tambm ao chefe do Departamento de Ingls em Sto-vington, que travara algumas encomendas
de livros que o pap fizera e dissera que isso rebentaria com o oramento. Rebentaria com o oramento, diabos o levem!, dissera a Wendy, furioso. Danny ouvira
isto do quarto, onde eles pensavam que estava a dormir. Est a fazer tudo para ficar com os ltimos quinhentos dlares para ele, este tipo mesquinho.
Danny espreitou pela esquina.
L estava o extintor, uma mangueira espalmada dobrada em doze voltas e o reservatrio vermelho na parede. Em cima, dentro de uma caixa de vidro que parecia uma
vitrina de um mu-
184
seu, estava um machado. Sobre um fundo vermelho, lia-se, em letras brancas: em caso de emergncia, quebre o vidro. Danny conseguiu ler a palavra emergncia, que
era tambm o nome de uma das suas sries preferidas da televiso, mas no percebeu muito bem o resto. De qualquer modo, no lhe agradava o modo como a palavra era
usada, em associao com aquela grande mangueira espalmada, emergncia era fogo, exploses, choques de automveis, hospitais, e, s vezes, morte. E no gostava
da maneira como aquela mangueira estava pendurada na parede. Quando estava sozinho passava por estes extintores o mais depressa que podia. Sem motivo especial.
Sentia-se melhor assim. Sentia-se mais seguro.
Agora, com o corao a bater-lhe com fora no peito, voltou a esquina e olhou para o patamar que ficava entre o extintor e as escadas. A mam estava ali, a dormir.
E se o pap j tivesse voltado do passeio, era provvel que estivesse na cozinha, sentado, a comer uma sanduche e a ler um livro. Danny iria passar pelo velho
extintor e descer as escadas.
Comeou a encaminhar-se para ele, aproximando-se cada vez mais da parede em frente at tocar com o brao esquerdo no dispendioso papel acetinado. Vinte passos. Quinze.
Doze.
Quando estava apenas a dez passos, o aro de lato soltou-se de repente da presilha em que estava assente
(a dormir?)
e caiu na passadeira com um rudo seco. Ali ficou, de focinho apontado para Danny. Este parou imediatamente, de ombros curvados, apanhado de surpresa pelo susto.
Sentia o sangue a latejar nos ouvidos e nas tmporas. Tinha a boca seca e amarga, e as mos cerradas. Contudo, o suporte da mangueira estava ali no cho, o aro ostentando
o seu brilho dbil, umas quantas voltas de lona espalmada ligadas  moldura vermelha encaixada na parede.
Cara no cho, e depois? Era apenas um extintor de incndio, nada mais do que isso. Era estpido pensar que parecia uma cobra venenosa do Mundo Selvagem que o
ouvira e que acordara. Mesmo que a malha da lona se parecesse um pouco com escamas. Limitar-se-ia a saltar por cima, a descer o corredor na direco das escadas,
a andar um pouco mais depressa, talvez, para se certificar de que ela no o perseguiria nem se lhe enrolaria nos ps...
Limpou a boca com a mo esquerda, imitando inconscientemente o gesto do pai, e deu um passo em frente. A mangueira
185
no se mexeu. Outro passo. Nada. Ests a ver como s estpido? Arranjaste isto tudo a pensar naquele estpido quarto e naquela estpida histria do Barba Azul,
e aquela mangueira j estava para cair h cinco anos. Mais nada.
Danny olhou para a mangueira que estava no cho e lembrou-se das vespas.
Deu mais oito passos. O aro da mangueira brilhava pacificamente na passadeira, como se lhe dissesse: No te preocupes. Sou apenas uma mangueira, mais nada. E mesmo
que assim no fosse, o que pudesse fazer-te no seria pior que a picada de uma abelha. Ou de uma vespa. O que havia eu de querer fazer a um rapaz to simptico como
tu... A no ser morder... Morder... Morder?
Danny deu outro passo. Respirava com dificuldade. Estava agora  beira do pnico. Comeou a desejar que a mangueira se mexesse, pelo menos para saber, para ter a
certeza. Avanou mais um passo. Estava agora ao seu alcance. Mas ela no vai agredir-te, pensou, histrico. Como pode ela agredir-te, morder--te, se no passa de
uma mangueira?
Talvez esteja cheia de vespas.
O sangue gelou-se-lhe nas veias. Olhou para o orifcio no centro do aro, quase hipnotizado. Talvez estivesse cheio de vespas, de vespas escondidas, envenenadas,
to cheias do veneno do Outono que este lhes escorria dos ferres...
De repente, apercebeu-se de que estava quase gelado de terror; se no fizesse um esforo para andar, os seus ps ficariam pregados  passadeira e ele ficaria ali,
a olhar para o buraco negro no centro do aro de lato, como um pssaro a olhar para uma cobra. Ficaria ali at o pap o descobrir, e depois o que aconteceria?
Soltando um gemido, fez um esforo para correr. Quando chegou ao p da mangueira, pareceu-lhe que o aro estava a mexer-se, a revolver-se, disposto a agredi-lo. Danny
deu um salto por cima da mangueira. Em pnico, pareceu-lhe que as pernas o empurravam quase at ao tecto, que os seus cabelos eriados tinham roado o estuque do
tecto do corredor, embora mais tarde reconhecesse que isso no era possvel.
J do outro lado da mangueira, comeou a correr e, de repente, ouviu atrs de si, perseguindo-o, o silvo daquela cobra de cabea de lato, que parecia uma cascavel
a arrastar-se por um campo coberto de ervas secas. Vinha atrs dele, e de sbito as escadas pareceram-lhe muito longe; pareciam distanciar-se cada vez que ele dava
um passo em frente.
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Tentou gritar pelo pai, mas a garganta no lhe permitiu emitir um nico som. Estava sozinho. Atrs dele, o rudo tornava-se cada vez mais forte, o rudo da cobra
a deslizar rapidamente pela penugem seca da passadeira. Junto dos seus calcanhares, talvez a eriar-se, com o veneno a escorrer da boca de lato.
Danny alcanou as escadas e foi obrigado a levantar os braos para no cair. Por instantes teve a sensao de que iria galgar os degraus e s pararia ao fundo
da escada.
Olhou para trs, por cima do ombro.
A mangueira no se mexera. Estava onde sempre estivera, solta da armao, o aro de lato no cho do corredor, apontando desinteressadamente noutra direco. Ests
a ver, estpido?, censurou-se. Foste tu que inventaste tudo, medricas. Foi tudo imaginao tua, medricas, medricas.
Agarrou-se ao corrimo, com as pernas a tremer.
Ela nunca veio atrs de ti, disse-lhe a sua mente, que se concentrou naquele pensamento.
(Nunca veio atrs de ti, nunca veio atrs de ti, nunca veio, nunca veio.)
No tinha motivos para estar assustado. Ora, voltaria atrs, e poria aquela mangueira em cima da armao, se lhe apetecesse. Podia faz-lo, mas achava que no o
faria. E se ela tivesse ido atrs dele e tivesse voltado para trs ao ver que no conseguia... apanh-lo?
A mangueira ficou em cima da passadeira. Quase parecia perguntar-lhe se ele quereria voltar atrs e tentar de novo.
Ofegante, Danny desceu as escadas a correr.
20
A CONVERSA COM O SENHOR UMJVIAN   <>
A Biblioteca Pblica de Sidewinder ficava situada num pequeno edifcio retirado, um bloco abaixo da zona comercial da cidade. Era um prdio modesto, coberto de
trepadeiras, e ao longo do muro largo de cimento que ia at  porta amontoavam-se os cadveres das ltimas flores do Vero. Na relva havia uma grande esttua de
bronze de um general da Guerra Civil,
187

de quem Jack nunca ouvira falar, embora nos seus tempos de adolescente tivesse sido um f da Guerra Civil.
Os arquivos dos jornais estavam instalados no andar de baixo. Eram constitudos pela Gazette, de Sidewinder, que fora  falncia em 1963, o dirio de Estes Park
e o Comera, de Boul-der. No havia jornais de Denver.
Suspirando, Danny decidiu-se pelo Comera.
A partir de 1965, os jornais eram substitudos por bobinas de microfilmes (Uma doao do Governo Federal, explicara-lhe o bibliotecrio, radiante. Esperamos microfilmar
o perodo entre 1958 e 1964 quando vier o cheque, mas eles so to vagarosos, no so? Vai ter cuidado, no vai? Sinto que vai. Chame-me, se precisar de mim.)
O nico visor existente tinha uma lente que estava um pouco desfocada, e quarenta e cinco minutos depois de Jack ter comeado a examinar os jornais mais antigos,
quando Wendy lhe ps a mo no ombro, ele tinha uma terrvel dor de cabea.
Danny est no parque  disse Wendy.  Mas no quero
que ele ande l fora muito tempo. Quanto tempo achas que vais
demorar-te?
Dez minutos  respondeu Jack.
De facto, j tinha delineado a ltima fase da fascinante histria do Overlook  os anos decorridos entre a cena de tiros e a entrada da Stuart Ullman & Co. em aco.
Mas sentiu de novo a mesma relutncia em contar tudo a Wendy.
        O que andas tu a fazer, afinal?  perguntou ela.
Ao dizer isto, afagou-lhe o cabelo, sem contudo se mostrar muito insistente.
 procura de uma velha histria do Overlook  respon
deu Jack.
Por algum motivo especial?
No.
(E porque diabo ests to interessada?)
Descobriste alguma coisa interessante?
Nem por isso  respondeu, fazendo um esforo para que
o seu tom fosse agradvel.
Wendy andava a vigi-lo, tal como sempre fizera, desde os tempos de Stovington, em que Danny era ainda beb. Onde vais, Jack? Quando voltas? Quanto dinheiro tens
contigo? Vais levar o carro? Al vai contigo? Um de vocs vai manter-se sbrio? Etc, etc. Ela  que o levara  perdoe-se o exagero  a beber. Talvez no fosse essa
a nica razo, mas, por Deus!,
188
tinha de se dizer a verdade e admitir-se que era uma delas. E isto e aquilo, at ter vontade de a calar  fora e interromper
(Onde? Onde? Como? Ests? Vais?) aquela infindvel torrente de perguntas. Fazia mesmo
(Dor de cabea? Ressaca?)
dor de cabea. O visor. O maldito visor com a lente desfocada. Era por isso que tinha aquela maldita dor de cabea.
        Jack, sentes-te bem? Ests plido...
Jack afastou a cabea dos dedos dela. Estou bem! Ao ver o seu olhar irritado, Wendy encolheu-se e esboou um sorriso
        Bem... Se vais... Eu vou l para fora e espero no parque,
com Danny...
Afastou-se. O sorriso dera agora lugar a uma expresso de ressentimento. Jack chamou-a:
        Wendy!
J ao fundo das escadas, Wendy voltou-se para trs.
        O que , Jack?
Jack levantou-se e foi ao seu encontro.
Desculpa, querida. Acho que no me sinto muito bem.
Aquela mquina... A lente est desfocada. Apanhei mesmo
uma dor de cabea valente. Tens uma aspirina?
Claro.
Wendy procurou na carteira e tirou uma embalagem de Ana-cin. Jack pegou na embalagem.
        No tens Excedrin?
Viu o seu gesto de retraco e compreendeu. Ao princpio fora motivo de brincadeira entre ambos, antes de o problema da bebida se ter tornado demasiado grave para
brincarem. Jack sustentava que o Excedrin era o nico medicamento que conseguia curar uma ressaca. O nico. Comeara a pensar isso na manh em que tivera a dor
de cabea Vat 69, que curara com Excedrin.
No tenho Excedrin. Desculpa  disse Wendy.
Est bem, estes servem  respondeu Jack.        >
Mas  claro que no serviam, e ela tinha obrigao de sab-
-lo. s vezes era a coisa mais estpida...
        Queres gua?  perguntou Wendy, com vivacidade.
(No, s quero QUE TE PONHAS A ANDAR DAQUI
PARA FORA!)
189
Passo pelo bebedouro quando subir. Obrigado.
Est bem. Estarei no parque.
Wendy comeou a subir as escadas. As suas belas pernas moviam-se com graciosidade debaixo de uma saia de l.
        Est bem.
Distrado, Jack meteu a embalagem de Anacin na algibeira, voltou-se de novo para o visor e desligou-o. Quando teve a certeza de que ela se fora embora, subiu as
escadas. Meu Deus, que dor de cabea horrvel. Se vais sofrer assim, devia pelo menos ser-te permitido o prazer de beberes uns copos para equilibrar.
Tentou afastar aquele pensamento, mais mal-humorado do que nunca. Dirigiu-se  secretria principal, com uma agenda na mo, em cuja capa se via um nmero de telefone.
Minha senhora, h aqui algum telefone pblico?
No, senhor, mas pode servir-se do meu se for uma cha
mada local.
Obrigado, mas  uma chamada para fora.
Bem, nesse caso,  melhor ir ao armazm, que tem uma
cabina.
Obrigado.
Saiu e desceu o passeio em frente do general annimo da Guerra Civil. Comeou a encaminhar-se para a zona comercial, de mos enfiadas nos bolsos e a cabea a latejar,
pesada como chumbo. O cu tambm estava plmbeo. Estava-se a 7 de Novembro e o tempo comeara a tornar-se ameaador. J tinham cado alguns flocos de neve. Tambm
nevara em Outubro, mas a neve j derretera. Os recentes flocos tinham ficado, cobrindo tudo de gelo, que brilhava ao sol como se fosse um cristal fino. Mas naquele
dia no havia sol, e quando Jack chegou ao armazm comeou a nevar.
A cabina telefnica ficava nas traseiras do edifcio. Fazendo tilintar as moedas na algibeira, Jack aproximou-se de uma vitrina com medicamentos e os seus olhos
caram nas caixas brancas com letras verdes. Tirou uma, que pagou na caixa, e encaminhou-se para a cabina. Fechou a porta, pousou as moedas e a agenda em cima do
telefone e marcou zero.
Para onde deseja falar, por favor?
Para Fort Lauderdale, minha senhora.
Deu-lhe o nmero para onde queria falar e o nmero da cabina. Quando ela lhe disse que os primeiros trs minutos custariam um dlar e noventa, deixou cair oito
moedas de vinte e
190
cinco cntimos na ranhura, estremecendo  medida que as ouvia cair.
Depois, distrado, ouvindo apenas os rudos distantes da ligao a fazer-se, tirou o frasco verde de Excedrin da caixa, de-senroscou a tampa branca e atirou o pedao
de algodo para o cho. Segurando o telefone entre o ouvido e o ombro, tirou trs comprimidos brancos e alinhou-os em cima do telefone, ao lado das moedas. Tornou
a fechar o frasco e meteu-o na algibeira.
Do outro lado, ouviu o primeiro toque.
Hotel Surf-Sand, o que deseja?  perguntou uma voz
petulante de mulher.
Queria falar com o gerente, por favor.J
Refere-se ao senhor Trent ou a...        
Refiro-me ao senhor Ullman.
Suponho que o senhor Ullman est ocupado, mas se qui
ser que eu verifique...
Quero. Diga-lhe que  Jack Torrance. Estou a telefonar
do Colorado.
        Um momento, por favor.
A telefonista saiu da linha.
A antipatia que Jack sentia por aquele homenzinho insignificante que se dava ares de grande importncia veio de novo ao de cima. Jack pegou num Excedrin, ficou
a olh-lo por instantes, depois meteu-o na boca e comeou a mastig-lo devagar, deliciado. Aquele sabor accionava a memria, era um misto de prazer e de dor. Um
sabor seco, amargo, mas tentador. Jack engoliu o comprimido, fazendo uma careta. O hbito de mastigar aspirinas vinha-lhe do tempo em que bebia; desde ento nunca
mais o fizera. Mas quando a dor de cabea era muito forte, quer fosse provocada por uma ressaca ou no, a soluo era mastig-los. Lera em qualquer lado que mastigar
aspirinas poderia tornar-se um vcio. Onde fora? Franzindo o sobrolho, fez um esforo para pensar. E foi ento que Ullman apareceu na linha.
        Torrance? Qual  o problema?
No h problema nenhum  respondeu Jack.  A cal
deira est bem e ainda no comecei a pensar em matar a minha
mulher. Estou a guardar-me para depois das frias, quando a
vida se tornar mais montona.
Que gracinha. Porque est a telefonar? Sou um homem...
Um homem ocupado. Compreendo. Estou a telefonar-lhe
Por causa de algumas coisas que voc omitiu ao contar-me a
191
longa e venervel histria do Overlook. Por exemplo, como Horace Derwent o vendeu a um grupo de espertalhes de Las Vegas, que o geriram atravs de tantas empresas-fantoches
que nem mesmo o IRS sabia quem era o dono; como eles esperaram pela altura ideal e depois o transformaram num parque infantil para os chefes da Mafia e como o fecharam,
em mil novecentos e sessenta e seis, quando um deles foi morto. Juntamente com os guarda-costas, que estavam  porta da Suite Presidencial. Que stio imponente,
a Suite Presidencial do Overlook. Wilson, Harding, Roosevelt, Nixon e Vito, o Cortador, no  verdade?
Do outro lado da linha seguiu-se um momento de silncio e de surpresa. Depois, Ullman respondeu tranquilamente:
No percebo o que tem isso a ver com o seu trabalho,
senhor Torrance.
Mas o melhor aconteceu quando Gienelli levou um tiro,
no acha? Mais duas reviravoltas, e de repente o Overlook 
comprado por um particular, uma mulher chamada Sylvia
Hunter... Que por acaso foi Sylvia Hunter Derwent entre mil
novecentos e quarenta e dois e mil novecentos e quarenta e
oito.
Os seus trs minutos j passaram  disse a telefonista. 
Vai ouvir o sinal.
Meu caro senhor Torrance, tudo isso  do conhecimento
pblico...  uma velha histria.
No fazia parte dos meus conhecimentos  retorquiu
Jack.  Duvido que muitas outras pessoas o saibam tambm.
Lembram-se da morte de Gienelli, talvez, mas duvido que al
gum tenha presente todas as reviravoltas estranhas que o
Overlook sofreu desde mil novecentos e quarenta e cinco.
E parece que era sempre Derwent ou um scio de Derwent
quem aparecia  porta. O que estava ali a fazer Sylvia Hunter
entre sessenta e sete e sessenta e oito, senhor Ullman? Aquilo
era um bordel, no era?
Torrance!
O seu grito escandalizado percorreu as duas mil milhas de cabo telefnico sem perder a intensidade.
Sorrindo, Jack meteu outro Excedrin na boca e comeou a mastig-lo.
        Ela vendeu-o depois de um clebre senador americano l
ter morrido com um ataque de corao. Correram boatos de
que ele fora encontrado nu,  parte as meias pretas de nylon, o
192
cinto de ligas e os sapatos de salto alto. Sapatos de cabedal, por sinal.
Isso  uma mentira infame!  berrou UUman.
?  perguntou Jack.
Estava a comear a sentir-se melhor. A dor de cabea estava a desaparecer. Meteu na boca o ltimo Excedrin e mastigou-o, saboreando o gosto amargo e pastoso do comprimido,
 medida que este se lhe desfazia na boca.
Foi um acontecimento infeliz  disse UUman.  E de
pois, Torrance? Se est a pensar em escrever algum artigo
sujo... Se isso  alguma estpida ideia de chantagem...
Nada disso  respondeu Jack.  Telefonei-lhe porque nun
ca pensei que voc estivesse a jogar xadrez comigo. E porque...
A jogar xadrez?  exclamou Ullman.  Meu Deus, voc
est convencido de que eu iria lavar um monte de roupa suja
com o vigilante do hotel? Quem  que voc pensa que ? E em
que  que essas velhas histrias o afectam? Ou pensa que h
fantasmas nos corredores da ala oeste, cobertos por um lenol,
a meterem medo s pessoas?
No, no penso que haja fantasmas. Mas voc andou a
remexer na minha histria pessoal antes de me dar o emprego.
Fez-me rastejar, experimentou-me acerca da minha capacidade
para tomar conta do seu hotel, como se eu fosse um mido em
frente do professor, a quem este ralhava por ter urinado no
bengaleiro. Voc rebaixou-me.
Eu no posso acreditar no seu descaramento, na sua mal
dita impertinncia  disse Ullman com a voz estrangulada.
 Gostaria de despedi-lo. E talvez o faa.
Acho que Al Shockley iria opor-se. Veementemente.
E eu acho que talvez tenha sobrestimado o compromisso
que o senhor Shockley assumiu consigo, senhor Torrance.
Por instantes, a dor de cabea de Jack voltou em toda a sua glria. Jack fechou os olhos para se sentir aliviado. Como que de longe, ouviu-se perguntar:
Quem  agora o dono do Overlook? Ainda so as empre
sas Derwent? Ou voc  insignificante de mais para saber?
Creio que isso chega, senhor Torrance. O senhor  um
empregado do hotel como um qualquer paquete ou ajudante de
cozinha. No tenciono...
Est bem, vou escrever a Al  disse Jack.  Ele sabe.
Afinal, ele faz parte da direco. E talvez acrescente um peque
no post scriptum para...
193


Derwent no  o proprietrio.
O qu? No posso acreditar nisso.
J disse que Derwent no  o proprietrio. Os accionistas
so gente do Leste. O seu amigo Shockley detm a maior parte
das aces, mais de trinta e cinco por cento. Voc saberia me
lhor do que eu se ele estivesse ligado a Derwent.
Quem mais?
No tenciono divulgar-lhe os nomes dos outros accionis
tas, senhor Torrance. Tenciono apresentar este caso a...
Mais uma pergunta.
No sou obrigado a obedecer-lhe.
A maior parte da histria do Overlook (tanto a parte pi
toresca como a outra) descobri-a num lbum de recortes que
estava na cave. Um livro grande de capa de couro branco. Com
um filete dourado. Tem alguma ideia de quem pudesse ser esse
lbum?
Nenhuma.
E possvel que tenha pertencido a Grady, o vigilante que
se suicidou?
Senhor Torrance  respondeu Ullman com a mais pro
funda frieza , nem sequer tenho a certeza de que o senhor
Grady soubesse ler. No me faa perder mais tempo com essas
porcarias.
Tenho estado a pensar em escrever um livro sobre o Ho
tel Overlook. Lembrei-me que, se de facto conseguir faz-lo, o
dono do lbum gostaria de ver uma referncia ao seu nome na
primeira pgina.
Acho que a ideia de escrever um livro sobre o Overlook
seria muito insensata  retorquiu Ullman.  Especialmente
um livro escrito segundo... o seu ponto de vista.
A sua opinio no me surpreende.
A dor de cabea desaparecera agora. Jack tivera um acesso de dor, e mais nada. Sentia-se lcido e preciso, ao nvel do pormenor. Em geral era assim que se sentia
quando a sua escrita estava a correr extremamente bem ou ento quando tinha trs copos no bucho. Era outra coisa que esquecera acerca do Excedrin. No sabia o que
se passava com as outras pessoas, mas ele, depois de mastigar trs comprimidos, ficava nas nuvens.
Prosseguiu:
        Do que voc gostaria era de uma espcie de guia para
oferecer aos hspedes  medida que chegassem  recepo.
194
Qualquer coisa com uma srie de fotografias vistosas com o nascer e o pr do Sol nas montanhas e um texto adocicado a condizer. E tambm uma seco com as pessoas
clebres que tinham ficado aqui, excepto, evidentemente, as que eram verdadeiramente pitorescas, como Gienelli e os amigos.
        Se soubesse que podia despedi-lo e ficar cem por cento
certo que no perderia o meu emprego  respondeu Ullman,
com a voz estrangulada , punha-o j na rua, mesmo pelo
telefone. Mas, como no tenho a certeza absoluta, tenciono
telefonar ao senhor Shockley assim que voc desligar... O que
espero que acontea depressa, sinceramente.
Jack continuou:
        No vai aparecer nada no livro que no seja verdade, per
cebe? No  preciso inventar nada.
(Porque ests a atorment-lo? Queres ser despedido?)
No quero saber se o quinto captulo  sobre o papa de
Roma a montar a sombra da Virgem Maria  disse Ullman,
comeando a levantar a voz.  Quero-o fora do meu hotel!
O hotel no  seu!  berrou Jack, desligando o telefone
com fora.
Sentou-se no banco, ofegante, um pouco assustado,
(um pouco? Diabos, muito!)
perguntando a si prprio em honra de que santo resolvera telefonar a Ullman em primeiro lugar.
(Voltaste a perder a cabea, Jack.)
Sim. Sim, era verdade. Era absurdo tentar neg-lo. E o diabo  que no fazia ideia de qual era o grau de influncia que o homenzinho abjecto tinha sobre Al, assim
como no sabia at que ponto Al lhe perdoaria em nome dos velhos tempos. Se Ullman fosse to bom como dizia e fizesse a Al um ultimato do gnero ou-ele-ou-eu, no
seria Al obrigado a optar por ele? Fechou os olhos e tentou imaginar-se a contar tudo a Wendy. Adivinha o que aconteceu, querida... Perdi outra vez o emprego.
Desta vez tive de percorrer duas mil milhas de linha telefnica para encontrar algum a quem esmurrar, mas consegui.
Jack abriu os olhos e limpou a boca ao leno de assoar. Queria uma bebida. Com os diabos, precisava de uma bebida. Havia um caf mesmo ao fim da rua. De certeza
que teria tempo de tomar uma cerveja a caminho do parque, s para acalmar...
195
Desesperado, cerrou os punhos
A pergunta repetia-se: porque telefonara a Ullman em primeiro lugar? O nmero do telefone do Surf-Sand, em Lauder-dale, estava escrito num pequeno bloco-notas junto
do telefone, do rdio, no escritrio, junto dos nmeros de canalizadores, carpinteiros, vidraceiros, electricistas e outros. Jack copiara-o para a capa da agenda
pouco depois de se levantar, de repente entusiasmado com a ideia de telefonar a Ullman. Mas com que objectivo? Uma vez, na fase em que andava a beber, Wendy acusara-o
de desejar a sua prpria destruio mas de no possuir a necessria fibra moral para ter um desejo de morte repentino. Ento, arquitectava maneiras de os outros
o fazerem, sacrificando-se a ele mesmo e  famlia. Seria verdade? Recearia intimamente que o Overlook fosse exactamente aquilo de que precisava para acabar a sua
pea? Estaria a prejudicar-se? Por favor, Deus, no permitas que seja assim. Por favor.
Fechou os olhos e logo surgiu uma imagem no ecr escuro das suas plpebras cerradas: o momento em que meteu a mo no buraco das telhas para retirar a que estava
partida, a picada sbita, o seu grito de surpresa e de dor na atmosfera leve e calma: Oh, filha da me!
Confrontou-a com outra imagem de h dois anos: ele mesmo a entrar em casa, aos tombos, s trs horas da manh, bbado, caindo em cima da mesa e indo estatelar-se
no cho, a praguejar. Acordara Wendy, que estava a dormir no sof. Wendy acendera a luz, reparara no seu fato rasgado e sujo em resultado de um briga qualquer no
parque de estacionamento escuro de alguma espelunca prxima da fronteira de New Hampshire, horas antes. Tinha sangue seco no nariz e olhara para a mulher com um
ar estpido, pestanejando por causa da luz. E Wendy dissera: Acordaste Danny, malvado! Se no queres saber de ti, no podes ao menos preocupar-te um pouco connosco?
Ora, mas porque hei-de estar a perder o meu tempo a falar contigo?
O telefone comeou a tocar e f-lo dar um salto. Tirou o auscultador do descanso, com a certeza absurda de que era Ullman ou Al Schockley.
Est?  rugiu.
Tem de pagar o excesso, senhor. So trs dlares e cin
quenta cntimos.
        Tenho de ir trocar dinheiro. Espere a  disse.
Pousou o auscultador, meteu na ranhura as suas ltimas seis
196
moedas de vinte e cinco cntimos, e depois foi  caixa buscar mais. Trocou o dinheiro maquinalmente. A sua mente descrevia um crculo fechado como um esquilo a
brincar numa roda.
Porque telefonara a Ullman?
Porque Ullman o rebaixara? J fora rebaixado antes, e por verdadeiros mestres  o maior dos quais fora,  claro, ele mesmo. Simplesmente para irritar o homem, para
denunciar a sua hipocrisia? Jack no achava que ele fosse assim to mau. Tentava agarrar-se ao facto de ter descoberto o lbum, mas era um engano. As possibilidades
de Ullman saber quem era o dono eram escassas. Durante a entrevista, referira-se  cave como se fosse um outro mundo, um mundo desagradvel e subdesenvolvido. Se
estivesse mesmo interessado em saber, teria telefonado a Watsori, cujo nmero de telefone durante o Inverno estava tambm no bloco-notas do escritrio. Nem mesmo
Watson devia saber nada ao certo, mas era prefervel a Ullman.
E falar-lhe na ideia do livro fora outro acto de estupidez. De uma estupidez incrvel. Alm de pr em risco o emprego, podia estar a fechar amplos canais de informao,
pois Ullman iria telefonar s pessoas a avis-las de que tivessem cuidado com algum da Nova Inglaterra que andava a fazer perguntas sobre o Hotel Overlook. Jack
podia fazer tranquilamente as suas investigaes, enviar algumas cartas de cortesia, talvez mesmo marcar algumas intrevistas na Primavera... e depois rir-se da
fria de Ullman quando o livro sasse e ele estivese a salvo  O Autor Mascarado Ataca de Novo. Em vez disso, fizera aquele telefonema absurdo, perdera a cabea,
afrontara Ullmam e trouxera  superfcie todas as tendncias de pequeno csar do gerente do hotel. Porqu? Se isto no era uma tentativa para ser posto fora do emprego
que Al lhe conseguira, o que era ento?
Meteu o resto do dinheiro na ranhura e desligou o telefone. Este era de facto o tipo de acto absurdo que poderia ter cometido se estivesse bbado. Mas estava sbrio,
indubitavelmente sbrio.
Ao sair do armazm, reteve na boca outro Excedrin e fez uma careta, ainda que aquele sabor amargo lhe agradasse.
Wendy e Danny estavam no passeio.
        Vnhamos mesmo  tua procura  disse Wendy.  Est
a nevar, no sabias?
Jack olhou para o cu.
        E verdade. 197
Estava a nevar bastante. A rua principal de Sidewinder j estava coberta de neve. Danny erguera a cabea para o cu, de boca aberta e com a lngua de fora, para
apanhar os flocos que iam caindo.
        Achas que  desta?  perguntou Wendy.
Jack encolheu os ombros.
        No sei. Estava com esperanas de que tivssemos mais
uma semana ou duas de sorte. Talvez ainda tenhamos.
Sorte, era o termo.
(Desculpa, Al. Tem piedade. D-me mais uma oportunidade. Lamento muito...)
Quantas vezes, h quantos anos, andava ele  um homem feito  a pedir, por piedade, outra oportunidade? De repente teve nojo de si prprio, sentiu uma revolta to
grande que teve vontade de gritar.
        Como vai a tua dor de cabea?  perguntou Wendy, exa
minando-o com ateno.
Jack abraou-a com fora.
        Melhor. Vamos para casa enquanto podemos.
Voltaram para junto do camio, que estava estacionado em
cima do passeio. Jack ia no meio, com o brao esquerdo por cima do ombro de Wendy e de mo dada com Danny. Para bem ou para mal, era a primeira vez que chamava casa
ao Over-look.
J ao volante, ocorreu-lhe que, embora se sentisse fascinado pelo Overlook, no gostava muito dele. No tinha a certeza se seria bom para a mulher, para o filho
ou para ele prprio. Talvez fosse por isso que telefonara a Ullman.
Para que o despedissem enquanto era tempo.
Ps o camio em andamento, saiu da cidade e encaminhou-se
para as montanhas.    .,        .....
199
Stu diz que ests a preparar-te para lavares roupa suja.
Stu  uma besta!  rugiu Jack.  Eu disse-lhe que ten
cionava escrever sobre o Overlook,  verdade que sim. Acho
que este local  um repositrio da mentalidade americana do
ps-guerra. Isto parece uma coisa muito grave, posta assim to
a nu... Eu sei que sim... Mas est tudo aqui, Al! Meu Deus,
poderia ser um grande livro. Mas isso leva muito tempo, asse
guro-te. Tenho mais olhos que barriga, e...
Jack, no gosto nada disto.
Jack deu consigo sem conseguir falar, sem acreditar no que estava a ouvir.
O qu? Al, disseste que...
Disse o que disse. Daqui a quanto tempo, Jack? Para ti
talvez sejam dois ou cinco. Para mim, sero trinta ou quarenta,
porque espero continuar ligado ao Overlook por muito tempo.
Lembrar-me de que podes estar a emporcalhar o nome do meu
hotel e a transform-lo num belo naco de prosa americana enoja-me.
Jack ficou sem fala.
Tentei ajudar-te, p. Andmos na mesma luta, e achei
que devia ajudar-te de algum modo. Lembras-te dessa luta?
Lembro-me  respondeu Jack entre dentes.
O ressentimento comeava a rond-lo. Primeiro UUman, depois Wendy, agora Al. O que era isto? A Semana Nacional de Jack Torrance? Cerrou os lbios com mais fora,
pegou nos cigarros e atirou-os para o cho. Alguma vez gostara deste tipo desprezvel que lhe falava do seu gabinete revestido de bano em Vermont? Verdadeiramente?
Antes de agredires aquele mido, o Hatfield  prosse
guiu Al , eu tinha falado  direco para te deixarem ficar e
aventaram a hiptese de virem a contratar-te. Estragaste tudo.
Arranjei-te isto do hotel, um stio sossegado e agradvel para te
recompores, acabares a pea e esperares que Harry Effinger e
eu consegussemos convencer o resto dos tipos de que tinham
cometido um erro crasso. Agora parece que me queres atingir e
arranjar um aborrecimento ainda maior.  assim que agradeces
aos amigos, Jack?
No  respondeu Jack em voz baixa.
No se atrevia a dizer mais nada. Tinha a cabea a latejar com as palavras violentas e cidas que teimavam em sair. Tentou desesperadamente pensar em Danny e em
Wendy, que dependiam dele, e que estavam calmamente sentados l em baixo,
200
junto da lareira, a fazerem exerccios de leitura na cartilha da segunda classe, convencidos de que tudo estava a correr bem. E se ele perdesse o emprego, o que
aconteceria? Teriam de voltar para a Califrnia no velho VW com a bomba da gasolina a desintegrar-se como se fossem uma famlia de vagabundos? Disse a si prprio
que se poria de joelhos diante de Al antes que isto acontecesse, mas as palavras teimavam em no sair e no conseguia dominar a sua fria.
O qu?  perguntou Al com dureza.
No  respondeu Jack.  No  assim que trato os meus
amigos. E tu sabe-lo.
Como  que eu sei? Infelizmente ests a preparar-te para
dar cabo do meu hotel e desenterrar cadveres que j tinham
sido sepultados com decncia h anos. Por outro lado, telefo
naste ao gerente do meu hotel, que  um homem temperamen
tal mas competente, e deste-lhe cabo do juzo por causa de... de
uma brincadeira de crianas.
 mais do que isso, Al. Para ti  fcil. No tens de aceitar
a caridade de um amigo rico. No precisas de um amigo na
corte porque s a corte. O facto de teres estado  beira do
abismo por causa da bebida no  para referir, no  verdade?
Acho que tens razo  respondeu Al.
A sua voz baixara de tom e parecia agora cansada.
Mas, Jack... No posso impedi-lo. No posso alterar isso.
Eu sei  respondeu Jack, desconsolado.  Estou despe
dido? Acho que  prefervel dizeres-me a verdade.
No, se me fizeres duas coisas.
Est bem.
No achas que  melhor saberes quais so as condies
antes de as aceitares?
No. Diz-me quais so, que eu cumpro. Tenho de pensar
em Wendy e em Danny. Fao tudo o que quiseres.
Tens a certeza de que a autocompaixo  um luxo a que te
podes dar, Jack?
Jack fechara os olhos e metera um Excedrin na boca seca.
        Nas actuais circunstncias, sinto que  o nico a que me
posso dar. Continua... Sem jogos de palavras.
Al manteve-se calado por instantes. Depois disse:
        Em primeiro lugar, no voltes a telefonar a UUman. Nem
mesmo que haja um incndio no hotel. Se isso acontecer, cha
ma o empregado da manuteno, esse que est sempre a fazer
juras, sabes a quem me refiro...        u,
201
Watson.
Exactamente.
Est bem.        -
Em segundo lugar, promete-me, Jack. D-me a tua pala
vra de honra de que no vais escrever nenhum livro a contar a
histria de um famoso hotel nas montanhas do Colorado.
Por momentos Jack sentiu uma raiva to grande que nem conseguiu falar. O sangue latejava-lhe nos ouvidos. Era como se tivesse recebido um telefonema de algum prncipe
Mediei do sculo xx... Nada de retratos da minha famlia com as verrugas  vista, ou vais outra vez para a valeta. No subsidio quaisquer quadros, mas apenas quadros
bonitos. Quando pintares a filha do meu scio e amigo, no lhe ponhas aquele sinal de nascena, ou vais parar  valeta.  claro que somos amigos... Ambos somos
pessoas civilizadas, no  verdade? J partilhmos o tecto e os copos. Seremos sempre amigos, a coleira que te pus ser sempre ignorada por consentimento mtuo e
tomarei sempre bem conta de ti. Em troca, s peo a tua alma. Um pequeno pormenor. Podemos mesmo ignorar que ma entregaste, tal como ignoramos a coleira. Lembra-te,
meu amigo cheio de talentos, de que andam Migueis ngelos a pedir em todo lado pelas ruas de Roma...
        Jack? Ests a?
Jack respondeu numa voz estrangulada o que parecia ser um sim. Al retorquiu com firmeza e muito seguro de si:
Na verdade, acho que no estou a pedir-te assim tanto. E
h mais livros. No podes ficar  espera que eu te subsidie
enquanto tu...
Est bem, concordo.
No quero que penses que estou a tentar controlar a tua
vida artstica, Jack. Suponho que me conheces. S que...
Al...
O que ?
Derwent ainda tem alguma coisa a ver com o Overlook?
No percebo em que  que isso te possa dizer respeito,
Jack.
No  respondeu Jack, distante.  Acho que no. Ou
ve, Al, parece-me que Wendy est a chamar. Voltarei a telefo
nar-te.
Claro, meu rapaz. Teremos uma grande conversa. Como
vo as coisas? Em seco?
202
(agora que j tens o teu bocado de carne fresca, no podes deixar-me em paz?)
Como um osso.
Por aqui, tambm. De facto, estou mesmo a comear a
gostar de andar sbrio. Se...
Eu volto a telefonar-te, Al. Wendy...
Com certeza. Est bem.
Desligara e fora ento que tinham vindo as clicas, s ferroadas, obrigando-o a torcer-se diante do telefone como um penitente, de mos na barriga e a cabea a
latejar como se fosse um balo monstruoso.
A vespa, morde e vai-se embora...
Passado pouco tempo, Wendy subiu as escadas e perguntou--lhe quem telefonara.
Al  respondeu Jack.  Telefonou para saber como iam
as coisas. Eu disse-lhe que iam bem.
Jack, ests com um ar horrvel. Sentes-te doente?
A dor de cabea voltou. Vou para a cama cedo. No vale a
pena tentar escrever.

Queres que te arranje leite quente?
Jack sorriu debilmente.
Pode ser.
E agora estava deitado ao lado dela, sentindo o seu calor e o seu sono profundo. Ao pensar na conversa que tivera com Al, no modo como se rebaixara, sentiu suores
frios. Mas o dia do ajuste de contas havia de chegar. Algum dia apareceria um livro, no o livro suave e sensato em que pensara a princpio, mas uma obra de arte
de investigao, com fotografias e tudo, onde poria a nu toda a histria srdida do Overlook, os negcios incestuosos dos proprietrios e tudo. Havia de estatel-lo
diante do leitor como se fosse um peixe dissecado. E se Al Shockley tivesse ligaes com o imprio de Derwent, que Deus tivesse compaixo dele.
Tenso como uma corda de piano, ali ficou s escuras, sabendo que ainda faltava muito tempo para adormecer.
Wendy Torrance estava deitada de costas, de olhos fechados, escutando o sono leve do marido  a longa inspirao, uma breve pausa e a expirao levemente gutural.
Perguntou a si prpria por onde andaria ele enquanto dormia. Nalgum parque de diverses, nalgum Great Barrington do mundo dos sonhos em que todos os cavaleiros eram
livres, em que no havia mu-
203
lheres-mes a dizerem-lhes que j tinham comido muitos cachorros ou que era melhor irem andando para casa antes que fosse noite? Ou nalgum bar fantasmagrico em
que no se parava de beber, as portas estavam sempre abertas e todos os velhos companheiros estavam reunidos  volta do hquei electrnico, de culos na mo, e
de onde sobressaa Al Shockley, de gravata solta e camisa desabotoada? Um stio de onde tanto ela como Danny estavam excludos e onde a msica no parava de tocar?
Wendy estava preocupada com ele, a velha e desesperada preocupao que ela tivera esperanas de deixar para trs em Vermont, como se fosse qualquer coisa que no
atravessasse as fronteiras entre os estados. No lhe agradava o que o Overlook parecia estar a fazer a Jack e a Danny.
O facto mais assustador, mais nebuloso, e que era omitido, talvez por no ser possvel o contrrio, era que todos aqueles sintomas caractersticos da bebida em Jack
tinham voltado, um por um, excepto a prpria bebida. O constante limpar a boca com o leno, como se quisesse ver-se livre do excesso de saliva. Longos intervalos
quando estava a escrever  mquina, mais papis amachucados no cesto. Esta noite Wendy vira um frasco de Excedrin em cima da mesa do telefone depois de Al ter telefonado,
mas no vira nenhum copo. Jack andava a mastig-los outra vez. Cada vez se irritava mais por pequenas coisas. Inconscientemente, tamborilava com os dedos, nervoso,
quando o silncio comeava a ser demasiado. Cada vez praguejava mais. Wendy tambm comeara a preocupar-se com o seu humor. Seria quase um alvio se ele perdesse
a cabea, deixasse sair o vapor, da mesma maneira que a primeira coisa que fazia de manh e a ltima que fazia  noite era ir  cave verificar a presso da caldeira.
Quase seria bom para ele praguejar e dar um pontap numa cadeira que estivesse no caminho ou bater com uma porta. Mas estas coisas, que sempre tinham feito parte
do seu temperamento, haviam praticamente acabado. Todavia, Wendy tinha a sensao de que Jack estava cada vez mais irritado com ela e com Danny, embora se recusasse
a deix-lo transparecer. A caldeira tinha uma vlvula de presso, velha, estafada, cheia de leo, mas que ainda trabalhava. Jack no tinha nenhuma. Wendy nunca conseguira
entend-lo muito bem. Danny conseguia, mas falava cada vez menos.
E o telefonema de Al. Quase ao mesmo tempo, Danny desinteressou-se da histria que estavam a ler. Afastou-se e foi sen-
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tar-se ao p da lareira, em frente da secretria onde Jack construra uma estrada para os seus carrinhos e camies. O Violento Volkswagen Violeta estava ali e Danny
comeou a empurr-lo de um lado para o outro. Fingindo que estava a ler, mas na verdade espreitando Danny por cima do livro, Wendy observara a estranha semelhana
que havia com o modo como ela e Jack exprimiram ansiedade. O limpar da boca. O passar das mos pelo cabelo, com nervosismo, como ela fazia enquanto esperava que
Jack voltasse da sua ronda pelos bares. No podia acreditar que Al tivesse telefonado para perguntar como iam as coisas. Se quisessem alguma coisa, que lhe telefonassem
a ele. Quando era Al a falar era porque o caso era srio.
Mais tarde, quando viera para baixo, fora dar com Danny enroscado junto da lareira, com o pai, ambos embrenhados na leitura das aventuras de Joe e Rachel no circo,
na cartilha da segunda classe. A distraco desaparecera por completo. Ao v-lo, assaltara-a de novo a certeza sinistra de que Danny sabia e compreendia coisas que
estavam para alm da filosofia do doutor (Trata-me por Bill) Edmonds.
So horas de ires para a cama, p  dissera Wendy.
Est bem.
Danny ps uma marca no livro e levantou-se.
Vai arranjar-te e lavar os dentes.
Est bem.        
No te esqueas de usar a escova.
No.
Por instantes ficaram um ao lado do outro, a olhar para o fogo. O trio estava frio e desconfortvel, mas o crculo  roda da lareira estava surpreendentemente quente,
e custava a sair dali.
Era o tio Al ao telefone  disse Wendy casualmente.
Ah, sim?  respondeu Danny, sem manifestar qualquer
surpresa.
Muito gostava de saber se o tio Al estava zangado com o
pap  disse Wendy, fingindo de novo um ar casual.
Sim, claro que estava  respondeu Danny, olhando para
o fogo.  No queria que o pap escrevesse o livro.
Que livro, Danny?
O livro sobre o hotel.
A pergunta que ficou suspensa era a mesma que ela e Jack tinham feito a Danny mil vezes: Como sabes? No lhe perguntou nada. No queria aborrec-lo antes de ir
para a cama ou
205
dar-lhe a entender que estavam a discutir o conhecimento que
ele tinha de coisas que no podia saber de maneira nenhuma.
E, no entanto, ele sabia-as, estava convencida disso. A conver
sa do doutor Edmonds acerca da razo indutiva e da lgica do
subconsciente era isso mesmo: conversa. A irm... Como adivi
nhara Danny que ela, no outro dia, estava a pensar em Aileen
quando estava na sala de espera? E
(Sonhei que o pap teve um desastre.)        (
Wendy abanou a cabea como que para desanuviar.
Vai lavar-te, p.
Est bem.
Danny subiu as escadas a correr, direito ao quarto. Franzindo o sobrolho, Wendy fora para a cozinha, para aquecer o leite de Jack numa caarola.
E agora estava deitada na cama, sem dormir, ouvindo a respirao do marido e o vento l fora (por milagre tinham cado alguns flocos naquela tarde; os neves ainda
no tinham chegado). Deixou que o esprito a levasse ao seu filho adorvel, que lhe dava tantas preocupaes, e que nascera com uma coifa na cara, um simples pedao
de membrana que os mdicos viam talvez uma vez em cada setecentos nascimentos e que as histrias das velhas comadres diziam conferir um segundo sentido.
Wendy achou que era altura de falar com Danny sobre o Overlook... e mais que tempo de levar Danny a falar com ela. No dia seguinte. De certeza. Iriam os dois  Biblioteca
Pblica de Sidewinder ver se conseguiam uma extenso da requisio da cartilha da segunda classe, para o Inverno, e nessa altura Wendy falaria com ele. Abertamente.
Ao pensar nisto, sentiu--se um pouco mais aliviada, e por fim adormeceu.
Danny estava no quarto, acordado, de olhos abertos, com o brao esquerdo agarrado ao velho e estafado Pooh (o Pooh j no tinha um olho, que era um boto de
sapato, e estava a largar o recheio em meia dzia de stios diferentes), escutando os pais a dormir no quarto deles. Era como se estivesse de viglia, a guard-los,
contra a sua vontade. As noites eram o pior de tudo. Detestava as noites e o uivo constante do vento na parte do hotel virada ao poente.
A prancha estava por cima da sua cabea, presa por um fio. Em cima da secretria, o VW, que trouxera da estrada l de baixo, espalhava um brilho fluorescente cor
de violeta. Um
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lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar, dissera a mam. Assim sabes sempre onde est o que queres. Mas agora as coisas andavam trocadas. Havia coisas
que tinham desaparecido. Pior do que isso, havia coisas que tinham aparecido, coisas que no se conseguiam ver, como numa daquelas gravuras que diziam consegues
ver os ndios? E se nos esforssemos vamos alguns  aquilo que  primeira vista parecia um cacto era na verdade um bravo com uma faca nos dentes, e havia outros
escondidos nas rochas, e via-se mesmo a cara de um deles, prfida, impiedosa, a espreitar por entre a roda de uma carruagem. Mas aqueles que nunca se viam  que
metiam medo. Porque eram os que no se viam que viriam por trs de ns, com um machado numa mo e uma faca de escalpe na outra...
Danny remexeu-se na cama. Os seus olhos procuraram o brilho reconfortante da lua. Aqui as coisas eram piores. Tinha a certeza disso. A princpio, no tinham sido
to ms, mas a pouco e pouco... o pap comeara a pensar em beber. s vezes zangava-se com a mam sem saber porqu. Limpava a boca ao leno e o seu olhar era distante
e enevoado. A mam andava preocupada com ele e tambm com Danny. No precisava de recorrer ao brilho para o saber; bastara ver o ar ansioso com que o interrogara
no dia em que a mangueira parecera transformar-se numa cobra. O senhor Hallorann dissera estar convencido de que todas as mes brilham um pouco, e naquele dia
ela adivinhara que qualquer coisa acontecera, mas no soubera o qu.
Danny estivera quase a contar-lhe, mas vrias coisas o tinham feito mudar de ideias. Sabia que o mdico de Sidewinder mandara Tony embora, assim como as coisas
que Tony lhe mostrava como se fossem perfeitamente
(bem quase)
normais. A me talvez no acreditasse se ele lhe contasse o caso da mangueira. Pior do que isso, podia perceb-lo mal, podia pensar que ele tinha pirado da cuca.
Danny percebia qualquer coisa sobre pirar da cuca, no tanto como arranjar um beb, que a mam lhe explicara h um ano, com poucos pormenores.
Uma vez, na escola infantil, o seu amigo Scotty apontara-lhe um rapaz chamado Robin Stenger, que andava  roda dos balouos com uma cara que metia medo. O pai de
Robin era professor de Aritmtica na escola do pap e o pai de Scotty era
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professor de Histria nesta escola. A maioria das crianas da escola infantil estavam ligadas  Preparatria de Stovington ou  pequena fbrica da IBM que havia
mesmo  sada da cidade. As crianas da preparatria constituam um grupo e as da IBM outro.  claro que havia amigos comuns em ambos, mas isso era natural em midos
cujos pais andavam sempre juntos. Quando rebentava um escndalo de adultos num grupo, era quase sempre filtrado para as crianas, com mais ou menos alteraes, mas
era raro perpassar para o outro grupo.
Danny e Scotty estavam sentados na nave espacial do parque infantil, quando Scotty estendeu o polegar na direco de Ro-bin e disse:
Conheces aquele mido?
Conheo  respondeu Danny.
Scotty inclinou-se para ele.
O pai dele pirou da cuca esta noite. Levaram-no de casa.
Ah, sim? S por ter pirado da cuca?
Scotty fez um ar triste.
Enlouqueceu, percebes?
Scotty trocou os olhos, ps a lngua de fora e empurrou as orelhas com os dedos.
Levaram-no para o manicmio.
Livra! E quando o deixam vir-se embora?
Nunca, nunca, nunca mais  respondeu Scotty com um
ar sombrio.
Durante aquele dia e nos seguintes, Danny soube que:
o senhor Stenger tentara matar a famlia toda, incluindo
Robin, com uma pistola de recordao da Segunda Guerra
Mundial;
o senhor Stenger escavacara a casa toda no meio da sua
fria:
o senhor Stenger fora descoberto a comer insectos mortos
e erva numa tigela como se fosse leite com cereais, e a chorar ao
mesmo tempo;
o senhor Stenger tentara estrangular a mulher com uma
meia quando o Red Sox perdera um jogo importante.
Por fim, demasiado perturbado com o assunto para o guardar s para si, Danny fizera perguntas ao pap sobre o senhor Stenger. O pap pegara-lhe ao colo e explicara-lhe
que o senhor Stenger estivera sob uma grande tenso, em parte por causa da famlia, em parte por causa do emprego, alm de outras coisas que s os mdicos podiam
entender. Tivera crises de choro, e
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h trs noites que no parava de chorar, e partira uma srie de coisas em casa. No se dizia pirar da cuca, mas sim ter um esgotamento, explicou o pap, e o senhor
Stenger no estava num manicmio, mas sim num sani-trio. Contudo, apesar das explicaes cuidadosas do pap, Danny ficara assustado. No lhe parecia haver grande
diferena entre pirar da cuca e ter um esgotamento, e quer lhe chamssemos manicmio ou sani-trio havia sempre grades nas janelas e no deixavam as pessoas sair
quando elas queriam. Alm disso, o pai, na sua inocncia, confirmara outra das frases de Scotty, uma que enchera Danny de um medo vago e inexplicvel. No local
onde o senhor Stenger vivia agora estavam os homens de bata branca. Vinham buscar as pessoas numa carrinha sem janelas, uma carrinha do mesmo tom de cinzento dos
tmulos. Parava em frente da casa das pessoas, os homens de bata branca saam, roubavam a pessoa  famlia e obrigavam-na a viver num quarto, fechada entre quatro
paredes. E se esta quisesse escrever para casa tinha de usar estratagemas.
Quando  que o deixam voltar?  perguntara Danny ao
pai.
Quando ele estiver melhor, p.
Mas quando ser isso?  insistira Danny.        ,
ningum sabe, Dan  respondeu Jack.
E isso era o pior de tudo. Era outra maneira de dizer nunca, nunca, nunca mais. Um ms depois, a me de Robin tirara-o da escola infantil e mudara-se de Stovington
sem o senhor Stenger.
Isto passara-se h um ano, depois de o pap ter deixado de tomar a Coisa M mas antes de perder o emprego. Danny ainda pensava nisso com muita frequncia. s vezes,
quando caa, batia com a cabea nalgum stio ou tinha uma dor de barriga, comeava a chorar, lembrava-se daquilo e ficava com medo de no conseguir parar de chorar,
at que o pai pegasse no telefone, marcasse um nmero e dissesse: Est? Daqui fala Jack Torrance, de cento e quarenta e nove Mapleline Way. O meu filho no consegue
deixar de chorar. Por favor mandem os homens de bata branca e levem-no para o sani-trio. Exactamente, pirou da cuca. Obrigado. E a carrinha cinzenta sem janelas
pararia  porta da sua casa, eles obrig-lo-iam a entrar, no meio de um choro histrico e lev-lo-iam. Quando voltaria a ver a mam e o pap? ningum sabe.
Era este medo que o mantinha calado. Agora, passado um
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ano, tinha a certeza que o pap e a mam no deixariam que o levassem por ele pensar que uma mangueira era uma cobra, a sua costela racional estava certa disso,
mas mesmo assim, quando pensava em contar-lhes o que se passara, era como se tivesse uma pedra na boca que bloqueasse a sada das palavras. No era como Tony. Tony
sempre lhe parecera perfeitamente natural (at virem os sonhos maus, claro), e os pais pareciam tambm aceitar Tony como um fenmeno mais ou menos natural. Coisas
como Tony provinham do facto de ele ser inteligente, e os pais assumiam que ele o era (tal como assumiam que eles prprios eram inteligentes), mas uma mangueira
que se transformava numa cobra, ou ver sangue e miolos na parede da Suite Presidencial quando mais ningum via, nada disso seria considerado natural. J o tinham
levado ao mdico. No era razovel concluir que se seguiriam os homens de bata
BRANCA?
Mesmo assim, poderia ter-lhes contado, excepto que tinha a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, eles quereriam tir-lo do hotel. E Danny desejava ardentemente
ir-se embora do Overlook. Mas tambm sabia que esta era a ltima oportunidade do pap, que ele estava no Overlook para fazer algo mais do que tomar conta do hotel.
Estava a trabalhar nos seus papis. A tentar ultrapassar o facto de ter perdido o emprego na escola. Por amor  mam Wendy. E at h muito pouco tempo parecia que
tudo isso estava a acontecer. S recentemente  que o pap comeara a ter problemas. Desde que encontrara aqueles papis.
(Este lugar desumano gera monstros.)
O que significava aquilo? Danny rezara a Deus, mas Deus no lhe explicara nada. E o que faria o pap se deixasse de trabalhar ali? Danny tentara ler a mente do pap,
e cada vez estava mais convencido de que ele no sabia de nada, A maior prova tivera-a ele naquela noite, quando o tio Al telefonara ao pap e lhe dissera coisas
desagradveis, e o pap no se atrevera a dizer nada porque o tio Al podia despedi-lo tal como o senhor Crommert, o director da escola de Stovington, e os membros
da direco o tinham despedido do seu lugar de professor. E Danny tinha um medo horrvel disso, por ele, pela mam e por si prprio.
Por isso no disse nada. Tudo o que podia fazer era ficar a olhar, impotente, e ter esperana que no houvesse ndios ne-nhuns, ou se houvesse que se contentassem
em esperar por
melhores vtimas e deixassem passar o pequeno comboio de trs carruagens, sem o molestarem.
Mas Danny no acreditava nisso, por mais que tentasse.
A neve estava a chegar e, quando isso acontecesse, quaisquer hipteses, por mais modestas que fossem, seriam anuladas. E depois de a neve chegar, que aconteceria?
Que aconteceria quando ficassem ali fechados  merc do que quer que at agora se limitara a brincar com eles?
(Vem c e toma o remdio!)
O que aconteceria ento? OINISSASSA.
Danny sentiu um arrepio e voltou-se outra vez. Agora j sabia ler melhor. Talvez tentasse chamar Tony no dia seguinte e o fizesse mostrar-lhe o que era exactamente
OINISSASSA, e se havia alguma maneira de o evitar. Arriscar-se-ia aos pesadelos. Tinha de saber.
Danny continuou acordado muito depois de o falso sono dos pais se ter tornado realidade. Rolou na cama, torcendo os lenis, s voltas com um problema demasiado
complicado para a sua idade, acordado em plena noite como se fosse uma sentinela de servio. E s depois da meia-noite adormeceu tambm. Ento, s o vento ficou
de viglia, espreitando o hotel e assobiando nos beirais, sob o brilho cintilante das estrelas. See on the way.
'? o'??>:?.????       I see earthquakes and lightniri'.        :*                 '>
I see bad times today.        ::                  r
Don't go 'round tonight,
Ifs bound to take your life,        '
There's a bad moon on the rise. *
 Bad Moon Rising, de J. C. Fogerty, 1969, Jondora Music, Berkeley, Califrnia. Utilizado com permisso. Reservados todos os direitos. Traduo do poema: /Est
uma m lua esta noite./Vejo escolhos no caminho./Vejo sismos e relmpagos./Tenho maus pressgios./No saias esta noite./Que ela vai roubar-te a vida./Est uma m
lua esta noite./
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Algum instalara o rdio de um Buick muito antigo no tablier do camio do hotel, e agora, metlico e abafado, o som caracterstico da cano de John Fogerty pelos
Creedence Clearwa-ter Revival saa do altifalante. Wendy e Danny iam a caminho de Sidewinder. O dia estava claro e luminoso. Danny voltava nas mos o carto cor
de laranja da biblioteca, que era de Jack. Parecia muito satisfeito, mas Wendy achou-o abatido e cansado, como se no tivesse dormido o suficiente e s os nervos
estivessem a aguent-lo.
A cano acabou e o locutor apareceu ao microfone. Sim, so os Creedence. E por falar em m lua, parece que ela est a nascer h muito na zona de difuso da KMTX,
embora isso seja difcil de acreditar com o tempo maravilhoso e primaveril que temos tido na ltima semana. O Destemido Locutor da KMTX anuncia que, por volta da
uma hora da tarde, a presso atmosfrica vai descer repentinamente na rea da KMTX, aqui em cima, onde o ar est rarefeito. As temperaturas descero de repente e
a precipitao comear antes de escurecer. As zonas situadas a mais de dois mil metros, como a zona de Denver, podem contar com neve e granizo, talvez gelo nalgumas
estradas, e aqui em cima s neve. Esperamos que ela atinja de trs a oito centmetros nas regies abaixo dos dois mil metros e de quinze a vinte e cinco centmetros
na zona centro do Colorado e na vertente. O Servio de Vigilncia das Estradas avisa-o de que, se est a pensar ir dar uma volta pelas montanhas na tarde ou na noite
de hoje, dever no esquecer que h zonas delimitadas. E no v, a menos que seja obrigado a isso. Lembre-se, acrescentou o locutor num tom jocoso, que foi assim
que o grupo dos Donner se meteu em apuros. No estavam to perto do Setecentos e Onze mais prximo como imaginavam.
Seguiu-se um anncio do Clairol e Wendy estendeu o brao e desligou o rdio.
No te importas?
Est bem.
Danny olhou l para fora, para o cu azul.
No acha que o pap tem o dia ideal para aparar os ani
mais da sebe?
Acho que sim  respondeu Wendy.
No parece l muito que vai nevar - acrescentou Danny,
cheio de esperanas.
Tens os ps frios?  perguntou Wendy.
212
Ainda estava a pensar na piada que o locutor dissera acerca do grupo dos Donner.
        No, acho que no.
Bem, pensou Wendy,  esta a altura. Se vais levantar o assunto, f-lo agora, ou nunca mais ters sossego.
        Danny, sentir-te-ias mais feliz se nos fssemos embora do
Overlook? Se no passssemos c o Inverno?
Danny olhou para as mos.
Acho que sim  respondeu Danny.  Mas  o emprego
do pap.
As vezes  prosseguiu Wendy, cautelosa  tenho a im
presso de que o pap tambm se sentiria mais feliz se se afas
tasse do Overlook.
Passaram por uma tabuleta que dizia sidewinder is milhas. Em seguida, Wendy contornou cuidadosamente uma curva fechada e virou para uma segunda curva. No se arriscava
nestes declives. Assustavam-na muito.
Acha que sim?  perguntou Danny. Olhou para a me
com um ar interessado e depois abanou a cabea.  No, eu
no acho.
Porque dizes isso?
Porque ele anda preocupado connosco  respondeu
Danny, tendo o cuidado de escolher as palavras.
Era difcil explicar. Ele prprio sabia to pouco do assunto... Deu consigo a recordar um incidente que relatara ao senhor Hallorann, sobre o rapaz no armazm, a
olhar para os televisores e com vontade de roubar um. Tambm essa situao fora aflitiva, mas pelo menos Danny percebera o que estava a acontecer, embora na altura
fosse ainda muito pequeno. Mas os adultos estavam sempre inquietos, todos os seus actos eram ensombrados pelo receio das consequncias, por dvidas acerca de si
prprios, pela sua prpria imagem, por sentimentos de amor e de responsabilidade. Todas as possibilidades pareciam ter inconvenientes, e por vezes Danny no entendia
porque  que os inconvenientes eram inconvenientes. Era muito difcil.
        Ele acha...  comeou a dizer Danny, e depois olhou
para a me de repente.
Wendy observava a estrada, sem olhar para ele, e Danny sentiu que podia continuar.
        Ele acha que talvez nos sintamos ss, por isso est con
vencido de que gosta disto e que se trata de um bom lugar para
213
ns. Ele ama-nos e no quer que estejamos ss... Ou tristes... Mas acha que, mesmo que nos sintamos assim, isso pode ser bom a longo prazo. Sabe o que  longo prazo?
Sim, querido, sei.
Ele est preocupado porque pensa que se nos fssemos
embora ele no conseguiria arranjar outro emprego. Que tera
mos de andar a pedir esmola, ou coisa assim.
Mais nada?
No, mas o resto est todo misturado. Porque ele agora
anda diferente.
        Pois anda  respondeu Wendy, evitando um suspiro.
O declive tornou-se um pouco mais suave e Wendy passou
para a terceira.
        No estou a inventar isto, mam. Palavra.
Eu sei  respondeu Wendy, sorrindo.  Foi Tony que
te disse?
No. Eu  que sei. Aquele mdico no acredita em Tony,
pois no?
No te preocupes com o mdico  disse Wendy.  Eu
acredito em Tony. No sei o que ele  ou quem ele , se  uma
parte de ti ou se vem de... de fora, mas acredito nele, Danny. E
se tu... Ele... acha que devemos ir, iremos. Partiremos os dois
e iremos ter com o pap na Primavera.
Danny olhou para a me, esperanado.
Para onde? Para um motel?
No, no poderamos pagar um motel. Tnhamos de ir
para casa da minha me.
A esperana morreu no rosto de Danny.
Eu sei...  respondeu, calando-se em seguida.
O que ?
Nada  respondeu Danny, num murmrio.
Wendy meteu a segunda, no momento em que a inclinao se tornou de novo mais pronunciada.
No, p, por favor no fales assim. J devamos ter tido
esta conversa h algumas semanas, creio eu. Por favor. O que 
que sabes? Eu no fico zangada. No posso ficar zangada, por
que isto  demasiado importante. Fala francamente.
Eu sei o que sente por ela  disse Danny, suspirando.
O que  que eu sinto?
Sente-se mal  disse Danny com uma voz montona,
que a assustava.  Mal. Triste. Zangada.  como se ela no
fosse a sua mam. Como se ela quisesse com-la.
214
Danny olhou para a me, assustado.
        E eu no gosto de estar l. Ela est sempre a pensar como
 que h-de ser melhor para mim. E como  que me pode afas
tar de si. Mam, no quero ir para l. Prefiro estar no Overlook
a estar l.
Wendy ficou abalada. As coisas eram assim to ms entre ela e a me? Meu Deus, que inferno seria para o mido se assim era e se ele podia de facto ler os pensamentos
de ambas! De repente sentiu-se mais nua do que se no tivesse roupa, como se tivesse sido apanhada a cometer um acto obsceno.
Est bem. Est bem, Danny  respondeu.
Ficou zangada comigo  disse Danny  beira das lgri
mas.
No, no fiquei. Palavra. Estou apenas um pouco aba
lada.
Passaram por uma placa onde se lia sidewinder 15 milhas e Wendy sentiu-se um pouco aliviada. A partir daqui a estrada j era melhor.
Quero fazer-te mais uma pergunta, Danny. Quero que
me respondas o mais sinceramente possvel. Prometes que o
fazes?
Sim, mam  respondeu Danny em voz baixa.
O pap anda a beber outra vez?
No  respondeu Danny, sustendo as duas palavras
que lhe assomaram os lbios depois daquela simples negativa:
Ainda no.
Wendy sentiu um certo alvio. Pousou a mo na perna de Danny e apertou-a.
        O teu pap tem-se esforado muito  disse com doura.
 Porque gosta muito de ns. E ns gostamos muito dele, no
 verdade?
Danny fez um sinal afirmativo, com um ar solene. Como se falasse consigo prpria, Wendy continuou:
Ele no  perfeito, mas tem tentado... Danny, ele tem
tentado tanto! Quando ele... Parou... Sofreu horrores. Esse
sofrimento ainda no acabou. Acho que se no fssemos
ns ele teria continuado. Quero fazer o que estiver certo.
E no sei como. Devemos partir? Ficar?  uma escolha muito
difcil.
Eu sei.
Fazes-me uma coisa, p? Tenta que Tony aparea. Agora
mesmo. Pergunta-lhe se estamos em segurana no Overlook.
215
J tentei  respondeu Danny lentamente.  Esta ma
nh.
O que aconteceu? O que disse ele?  perguntou Wendy.
No veio. Tony no veio  respondeu Danny, desatando
a chorar.
Danny  disse Wendy, alarmada  querido, no faas
isso. Por favor...
O camio galgou o duplo trao amarelo e Wendy desviou-o, assustada.
No me leve para casa da av  pediu Danny, no meio
do choro.  Por favor, mam, eu no quero ir para l, quero
ficar com o pap...\
Est bem  disse Wendy com ternura.  Est bem, va
mos fazer isso.
Tirou um Kleenex do bolso da blusa e estendeu-o a Danny.
        Ns ficamos. E tudo vai correr bem. Muito bem.
23
NO PARQUE INFANTIL
Jack veio para o alpendre, puxando o fecho do bluso at ao pescoo e pestanejando com a claridade do ar. Na mo esquerda trazia um podo a pilhas. Tirou um leno
lavado da algibeira de trs com a mo direita, limpou a boca com ele e voltou a guard-lo. Neve, tinham anunciado na rdio. Era difcil de acreditar, apesar das
nuvens que se acumulavam ao longe.
Comeou a descer o caminho que ia dar ao topirio, passando o podo para a outra mo. No demoraria muito tempo a fazer aquele trabalho, pensou. Uma pequena aparadela
seria suficiente. O frio da noite decerto abrandara o crescimento do bucho. As orelhas dos coelhos pareciam um pouco felpudas e os ossos das pernas dos ces tinham-se
tornado proeminentes, mas os lees e o bfalo estavam bem. Apenas um corte no plo, e depois a neve podia vir.
O caminho de cimento acabava to abruptamente como uma prancha de saltos. Jack passou pelo lago seco, na direco do caminho de gravilha que contornava as esculturas
de bucho e ia
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dar ao parque infantil. Aproximou-se do coelho e carregou no boto do cabo do podo. Este comeou a trabalhar com um leve zumbido.
 Ol, irmo coelho  disse Jack.  Como vais hoje? Um cortezinho em cima e nas orelhas, no  verdade? Muito bem. Sabes aquela histria do caixeiro viajante e da
velha do cozinho?
A sua voz pareceu-lhe artificial e estpida. Calou-se. Lembrou-se de que no se importava muito com estes animais da sebe. Sempre lhe parecera um pouco perverso
cortar e torturar uma simples sebe para transform-la em qualquer coisa que ela no era. Numa das estradas de Vermont havia uma sebe num planalto que fora aproveitada
para fazer publicidade a uma marca de gelados qualquer. No estava certo obrigar a natureza a vender gelados. Era ridculo.
(No foste contratado para filosofar, Torrance.)
Ah, isso era verdade. Sem dvida. Jack aparou as orelhas do coelho, deixando cair gravetos e rebentos para a relva. O podo zumbia, produzindo aquele som fraco,
metlico e desagradvel que parece ser caracterstico de todos os aparelhos que trabalham a pilhas. O dia estava soalheiro mas no havia calor, e agora no era
to difcil acreditar que a neve estava a chegar.
Jack trabalhava depressa, sabendo que parar para pensar, neste tipo de tarefa, equivalia a fazer asneiras. Jack aparou a cara do coelho (assim de to perto nem
parecia uma cara mas Jack sabia que a uma distncia de vinte passos ou mais a luz e a sombra sugeririam uma; alm da imaginao do espectador) e depois passou-lhe
o podo pela barriga.
Quando acabou, desligou o podo, afastou-se na direco do parque infantil e depois voltou-se de repente para apreciar o coelho. Sim, estava bem. Bom, a seguir seria
o co.
Mas se o hotel fosse meu, daria cabo de vocs, pensou.
E era verdade. Arrasaria tudo, voltaria a plantar relva naquele stio e poria meia dzia de pequenas mesas metlicas com chapus de sol de cores alegres. Durante
o Vero, as pessoas poderiam tomar os seus cocktails no relvado do Overlook. Gin Fizz, Margarita, Pink Lady, e todas essas bebidas adocicadas para turistas. Rum
com gua tnica, talvez. Jack tirou o leno de assoar da algibeira e limpou a boca devagar.
Anda l, anda l, disse para si prprio.
No tinha nada que pensar naquilo.
217
Quando se preparava para voltar ao trabalho, um impulso f-lo mudar de ideias e encaminhar-se para o parque infantil. Era curioso que os adultos nunca conheciam
totalmente as crianas, pensou. Ele e Wendy esperavam que Danny ficasse encantado com o parque infantil, que tinha tudo o que uma criana poderia desejar. Mas
Jack achava que o filho nem uma dzia de vezes l tinha ido. Talvez se tivesse outro mido para brincar fosse diferente.
A cancela chiou ligeiramente quando Jack entrou e em seguida a gravilha comeou a estalar-lhe debaixo dos ps. Em primeiro lugar dirigiu-se  casa em miniatura,
o modelo  escala exacta do Overlook. Dava-lhe pela parte inferior das coxas; ficava mesmo  altura de Danny quando este estava de p. Jack baixou-se e espreitou
pelas janelas do terceiro andar.
E veio o gigante para apanhar-vos na cama e comer-vos. Digam adeus  vida, murmurou num tom lgubre. Mas isto no teve graa. Para abrir a porta bastava pux-la
 girava sobre uma dobradia escondida. O interior era um desapontamento. As paredes estavam pintadas, mas as divises estavam vazias. Mas  claro que tinha de
ser assim. De outro modo, como poderiam as crianas brincar l dentro? Quaisquer peas de mobilirio que tivesse havido ali tinham desaparecido, e provavelmente
estavam empacotadas na arrecadao. Jack fechou a porta e ouviu o clique do trinco.
Encaminhou-se para o escorrega, pousou o podo, e depois de olhar para trs, para a estrada, para se certificar de que Wendy e Danny no tinham voltado, subiu e
sentou-se l em cima. Este escorrega era o dos midos mais crescidos, mas mesmo assim o assento era desconfortvel para o seu traseiro de adulto. H quanto tempo
no andava de escorrega? H vinte anos? No lhe parecia que pudesse ser h tanto tempo, sentia que no podia ser, mas tinha de ser, at h mais. Lembrou-se dos tempos
em que o pai o levava ao parque, em Berlin, quando ele tinha a idade de Danny e andava em tudo  escorrega, balouos, cavalinhos, tudo. Ele e o velho levavam cachorros
para o almoo e depois compravam amendoins ao homem do carrinho. Sentavam-se num banco a com-los, e bandos cerrados de pombos vinham juntar-se-lhes aos ps.
 Malditos pssaros estes! So uns vira-latas! No lhes ds de comer, Jack!  dizia o pai.
Mas acabavam por dar-lhes de comer e riam do modo como eles corriam atrs dos amendoins, do seu ar guloso. Jack estava
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convencido de que o velho nunca levara os seus irmos ao parque. Jack era o filho predilecto, e mesmo assim Jack voltava--lhe as costas quando o velho se embriagava,
o que acontecia com frequncia. Mas Jack estimara-o sempre, muito depois de o resto da famlia no sentir por ele seno, dio e medo.
Jack deu um impulso com as mos e escorregou at ao fundo, mas a viagem no o satisfez. O escorrega, que no era usado j h tempo, provocava demasiada frico e
no permitia atingir grande velocidade. Alm disso, o traseiro de Jack era demasiado grande. Os seus ps de adulto foram bater no pequeno fosso em que milhares
de crianas tinham aterrado antes dele. Levantou-se, esfregou a parte de trs das calas e olhou para o podo. Mas em vez de pegar-lhe encaminhou-se para os balouos,
onde teve outra desiluso. As correntes tinham ganho ferrugem desde o fim da temporada e chiavam dolorosamente. Jack prometeu a si mesmo que as olearia na Primavera.
O melhor  parares, disse com os seus botes. J no s uma criana. No precisas que seja este stio a dizer-to.
Mas encaminhou-se para os aros de cimento  eram demasiado pequenos para ele, e passou  frente  e depois para o muro que marcava o limite dos terrenos pertencentes
ao hotel. Enfiou os dedos nos anis de metal e espreitou por entre eles. O sol projectou linhas de sombra no seu rosto, como se fosse um preso atrs das grades.
Jack reconheceu a semelhana da situao, abanou a vedao e, com uma expresso demolidora, disse em voz baixa:
 Tirem-me daqui! Tirem-me daqui!
Mas  terceira vez no achou graa. Era altura de voltar ao trabalho.
Foi ento que ouviu o som atrs de si.
Voltou-se rapidamente, de sobrolho franzido, embaraado,
perguntando a si mesmo se algum o vira a fazer disparates
naquele mundo reservado s crianas. Os seus olhos percorre
ram os escorregas, os ngulos opostos dos balances, os balou
os, onde apenas o vento estava sentado. Para alm disso, at 
cancela e  vedao baixa que separava o parque infantil do
relvado e do topirio, os lees agrupavam-se com um ar protec
tor junto do caminho, o coelho inclinava-se como se estivesse a
comer erva, o bfalo parecia pronto a investir e o co estava
agachado. Do outro lado, o relvado e o hotel. Daqui, Jack avis
tava a faixa mais alta do campo de roque, que ficava junto da ala
oeste do Overlook.        ....-,-.
219
Estava tudo na mesma. Ento, porque tinha sentido um formigueiro na pele da cara e das mos e porque se lhe havia eriado o cabelo na nuca, como se a carne se
tivesse retesado de repente naquele stio?
Olhou de novo para o hotel, mas no encontrou resposta. Estava ali, pura e simplesmente, as janelas s escuras, um pequeno rolo de fumo elevando-se da chamin,
vindo da lareira do trio.
(O melhor  ires andando, seno eles voltam e no percebem o que tens estado a fazer todo este tempo.)
Claro, ia andando. Porque a neve estava a chegar e ele tinha de aparar as malditas sebes. Fazia parte do contrato. Alm disso, eles no se atreveriam...
(Quem no se atreveria? A que no se atreveria? No se atreveria a qu?)
Jack comeou a andar na direco do podo, que estava junto do escorrega dos midos mais crescidos, e o som dos seus ps a pisar a gravilha pareceu-lhe invulgarmente
forte. Ento, a pele dos testculos comeou tambm a encrespar-se, e as ndegas a endurecer, pesadas como pedras.
(Jesus, o que  isto?)
Parou junto do podo, mas no fez qualquer movimento para apanh-lo. Sim, havia qualquer coisa de diferente. No to-pirio. E era to simples, to fcil de ver, que
ele nem reparara. Anda, recriminou-se, acabaste de aparar o maldito coelho, portanto o que...
( isso)
Susteve a respirao.
O coelho estava assente nas quatro patas, a comer erva. A barriga tocava no cho. Mas dez minutos antes estava de p nas patas traseiras, claro que estava, porque
Jack tinha-lhe aparado as orelhas... e a barriga.
Os olhos de Jack saltaram para o co. Quando chegara, este estava sentado, como se pedisse uma guloseima. Agora estava agachado, de cabea baixa, a boca ligeiramente
aberta como se rosnasse baixinho. E os lees...
(Oh, no, oh, no, no  possvel!)
os lees estavam mais prximos do caminho. Os dois  sua direita tinham mudado ligeiramente de posio, estavam mais perto. A cauda de um dos que estavam do lado
esquerdo estava agora tombada sobre o caminho. Quando Jack se aproximara deles e entrara na cancela, aquele leo estava do lado
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direito e Jack tinha a certeza absoluta de que ele tinha a cauda enrolada.
J no estavam a proteger o caminho, estavam a bloque-lo.
Jack ps de repente a mo nos olhos e depois retirou-a. O cenrio no se alterou. Deu um suspiro, que poderia ter sido um gemido. Nos tempos em que bebia, sempre
receara que lhe acontecesse alguma coisa deste gnero. Mas quando se bebe muito tm-se vises, tal como o velho Ray Milland refere em Farrapo Humano, ao ver insectos
a sair da parede.
O que se chama a isto quando se est completamente sbrio?
A pergunta pretendia ser retrica, mas a sua mente respondeu-lhe
(Chama-se loucura.) mesmo assim.
Ao observar os animais da sebe, Jack verificou que qualquer coisa se alterara enquanto tivera a mo em cima dos olhos. O co aproximara-se mais. J no estava agachado,
parecia ir a correr, de ancas flectidas, uma perna dianteira  frente e a outra atrs. Tinha a boca mais aberta, e os gravetos aparados pareciam pontiagudos e incertos.
E agora Jack imaginava que via olhos nos intervalos da verdura. A observ-lo.
Porque ho-de ser aparados? Esto impecveis, pensou, histrico.
Outro som fraco. Involuntariamente, Jack recuou um passo ao olhar para os lees. Um dos dois que estavam  direita parecia ter avanado ligeiramente em relao
ao outro. Estava de cabea baixa. Uma das patas estava quase em cima da vedao. Meu Deus, o que se seguiria?
Era como aquele jogo a que brincavam quando eram crianas, o jogo das esttuas. Um voltava-se de costas e contava at dez enquanto os outros iam avanando. Quando
acabava de contar, voltava-se e, se apanhasse algum a mexer-se, esses saam do jogo. Os outros ficavam imveis, como esttuas, em pose, at ele se voltar de novo
e recomear a contar. Iam-se aproximando cada vez mais e, por fim, tocavam-lhe nas costas...
A gravilha rangeu no caminho.
Jack voltou a cabea para olhar para o co, e l estava ele, a meio caminho, agora mesmo atrs dos lees, de boca escancarada. Antes, no passava de um pedao de
bucho aparado com a forma de um co, algo cujos contornos se desvaneciam quando algum se aproximava. Mas agora Jack reparava que ele parecia um pastor-alemo, e
os pastores-alemes podiam tornar-se
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perigosos. Os pastores-alemes podiam ser treinados para matar.
Um som fraco e roagante.
O leo do lado esquerdo avanara agora at  cancela; o focinho tocava nas tbuas. Parecia estar a rir-se para Jack, que recuou dois passos. Tinha a cabea a latejar
com fora e sentia o seu bafo seco na garganta. Agora o bfalo mexera-se e descrevera um crculo para o lado direito, contornando o coelho. Estava de cabea baixa,
com os chifres verdes apontados para Jack. A verdade  que no podia olhar para todos ao mesmo tempo.
Jack soltou um gemido, de tal modo concentrado que no se apercebeu de que no emitiu qualquer som. Os seus olhos voavam como flechas de um animal para outro, tentanto
v-los mexerem-se. O vento soprou, provocando um rudo vido nos ramos cerrados. E que som se ouviria se eles o apanhassem? Um baque, o som de qualquer coisa a
rasgar-se e a partir-se. Seria...
(No, no, NO, NO, NO ACREDITO NISTO. NO ACREDITO!)
Levou as mos aos olhos, agarrando os cabelos, a testa e as tmporas a latejar. E ali ficou durante muito tempo, aterrado, imvel, at no aguentar mais e deixar
cair as mos com um grito.
O co estava sentado junto do relvado, como se pedisse uma festa. O bfalo olhava, desinteressado, para o campo de roque, tal como no momento em que Jack aparecera
com o podo. O coelho estava de p nas patas traseiras, de orelhas  escuta do mais leve som, com a barriga aparada de novo. Os lees estavam junto do caminho,
no mesmo stio.
Jack ficou ali muito tempo, gelado. A pouco e pouco, o aperto da garganta foi abrandando. Pegou nos cigarros e deixou cair quatro na gravilha. Baixou-se e apanhou-os,
tacteando, sem tirar os olhos do topirio, com medo de que os animais recomeassem a mexer-se. Enfiou trs cigarros dentro do mao e acendeu o quarto. Depois de
duas baforadas, atirou-o para o cho e esmagou-o. Aproximou-se do podo e apanhou-o.
        Estou muito cansado  disse, agora falando em voz alta.
J tudo lhe parecia normal.
        Tenho estado sob uma grande tenso. As vespas...
A pea... Aquele telefonema do Al. Mas est bem.
Iniciou uma marcha penosa de regresso ao hotel. Uma parte
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da sua mente atormentava-o, tentando obrig-lo a desviar-se dos animais da sebe, mas Jack subiu o caminho de gravilha, passando por entre eles. Uma brisa suave fazia-os
agora estremecer, nada mais. Ele imaginara tudo. Tinha apanhado um grande susto mas j passara.
Na cozinha do Overlook fez uma pausa para tomar dois Ex-
cedrin e depois foi l para baixo examinar os papis, at ouvir o
rudo distante do camio na estrada. Achou que no valia a
pena contar-lhe a sua alucinao. Tinha apanhado um grande
susto mas j passara.
Estava escuro.
Ficaram no alpendre  luz do crepsculo, Jack no meio, com o brao esquerdo por cima dos ombros de Danny e o direito  roda da cintura de Wendy. Em conjunto, viveram
o momento em que a deciso fugia das suas mos.
Depois das duas e meia, o cu ficara completamente coberto de nuvens e uma hora mais tarde comeara a nevar. Desta vez no era preciso nenhum meteorologista dizer
que se tratava de neve a srio, que os flocos no iam derreter-se nem ser arrastados quando o vento da noite comeasse a soprar. A princpio cara na vertical,
formando uma camada que cobrira tudo de modo uniforme, mas agora, uma hora depois de ter recomeado, o vento comeara a soprar de nordeste e a neve comeara a fustigar
o alpendre e as bermas da estrada que ia dar ao Overlook. Para l dos limites da propriedade, a estrada principal desaparecera debaixo de um tapete branco. Os animais
da sebe tambm tinham desaparecido, mas, quando Wendy e Danny chegaram a casa, Wendy felicitara-o pelo bom trabalho que fizera. Achas?, perguntara Jack, sem dizer
mais nada. Agora as sebes estavam sepultadas sob capas brancas, sem forma.
Curiosamente, todos eles estavam a pensar em coisas diferentes mas sentiam o mesmo: alvio. Tinham atravessado a ponte.
 Alguma vez chegar a Primavera?  murmurou Wendy.
Jack apertou-a com fora.
223
        Antes que ds por isso. E que achas se fssemos jantar?
Est frio aqui fora.
Wendy sorriu. Durante toda a tarde Jack lhe parecera distante e... bem, esquisito. Agora, parecia ter voltado  normalidade.
Concordo. E tu, Danny?
Claro.
E entraram juntos, deixando que o vento soltasse o seu uivo fraco que duraria toda a noite  um som que iam habituar-se a conhecer bem. Os flocos de neve rodopiavam
e danavam no alpendre. O Overlook enfrentava-a, tal como fazia j h quase trs quartos de sculo. As suas janelas s escuras estavam agora orladas de neve, indiferentes
ao facto de ele estar separado do mundo. Ou ento talvez lhe agradasse a perspectiva. L dentro da sua concha, os trs prosseguiam na sua rotina diria que antecedia
a noite, como micrbios apanhados nos intestinos de um monstro.
25
NO INTERIOR DO 217
Dez dias depois, uma camada branca, quebradia e plana, de sessenta centmetros de altura, cobria os terrenos do Hotel Overlook. Os animais da sebe estavam enterrados
at aos quadris; o coelho, com as patas traseiras geladas, parecia emergir de um lago branco. Alguns dos montes formados pela neve chegavam a atingir mais de metro
e meio de altura. O vento estava constantemente a modific-los, dando-lhes formas sinuosas que lembravam dunas. Por duas vezes Jack tivera de . calar os esquis
e fora  arrecadao buscar a p para desobs-  truir o alpendre. A terceira vez, encolhera os ombros e limi-  tara-se a abrir um trilho atravs do monte enorme que
se formara junto da porta, e Danny divertira-se a escorregar  direita-e  esquerda do trilho. Montes de neve verdadeiramente grandes tinham-se formado do lado
do Overlook voltado ao poente. Alguns chegavam a atingir seis metros de altura, e para l deles o vento varria constantemente a relva, desnudando-a. As janelas
do primeiro andar estavam tapadas, e a vista da sala de
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jantar, que Jack tanto gostava de desfrutar ao fim do dia, no era agora mais excitante do que um ecr branco. Estavam sem telefone h oito dias e o rdio no gabinete
de Ullman era agora o seu nico meio de comunicao com o exterior.
Nevava todos os dias, umas vezes apenas alguns flocos que polvilhavam a crosta de neve coruscante, outras vezes com fora, e nessa altura o assobio do vento culminava
numa espcie de grito de mulher que fazia o velho hotel abanar e gemer no seu fundo bero de neve. De noite, a temperatura no ia alm dos dez graus negativos,
e embora o termmetro que havia  entrada da cozinha subisse por vezes aos trs graus, ao princpio da tarde, era desconfortvel sair sem uma mscara de proteco,
por causa do vento cortante. Mas nos dias de sol saam, em geral com duas camadas de roupa e luvas compridas. Sair era quase obrigatrio;  volta do hotel via-se
um crculo duplo formado pela prancha flexvel de Danny. As variantes eram quase infinitas: Danny deslizava enquanto os pais o puxavam; o pap deslizava e ria-se
enquanto Wendy e Danny tentavam pux-lo (conseguiam pux-lo quando havia uma crosta gelada de neve e era impossvel pux-lo quando esta estava coberta por uma
poalha); Danny e a mam deslizavam; Wendy deslizava sozinha enquanto os seus dois homens levantavam uma nuvem branca como se fossem cavalos, fingindo que ela era
mais pesada do que era na realidade. Riam-se muito durante estas excurses  volta do edifcio, mas a voz lgubre e impessoal do vento, imensa e sincera, dava aos
seus risos um tom metlico e forado.
Tinham visto rastos de caribus na neve, e um dia chegaram mesmo a avistar um grupo de cinco caribus, imveis, junto da cerca. Todos tinham pegado nos binculos de
Jack para os verem melhor. Ao observ-los, Wendy tivera uma sensao estranha e irreal: ali estavam, com as suas longas pernas enterradas na neve que cobria a
estrada principal, e ocorreu a Wendy que at ao degelo, na Primavera, a estrada pertencia mais aos caribus do que a eles. Agora, as coisas que os homens tinham
construdo estavam neutralizadas. Wendy estava convencida de que os caribus entendiam isso. Pousara os binculos e falara em irem almoar. Na cozinha chorara um
pouco, tentando libertar-se daquela sensao horrvel de angstia que s vezes caa sobre ela, como se fosse uma mo enorme a apertar-lhe o corao. Lembrou-se
dos caribus e das vespas que Jack pusera  entrada da plataforma de servio, debaixo da tigela de pyrex, a gelar.
225
A arrecadao estava cheia de esquis pendurados e Jack escolheu um par que lhe ficava bem. Os de Danny estavam-lhe um pouco grandes de mais. Jack adaptou-se bem
a eles. Embora no esquiasse desde a sua infncia em Berlin, New Hampshire, reaprendera depressa. Wendy no lhes dava grande importncia  quinze minutos depois
de cal-los, ficava com umas dores horrveis nas pernas e nos tornozelos , mas Danny ficava intrigado e esforava-se por ganhar destreza. Ainda caa muito, mas
Jack estava satisfeito com os seus progressos. Garantia mesmo que em Fevereiro Danny j seria capaz de descrever crculos  volta deles.
O dia estava desolado, e por volta do meio-dia j o cu comeara a cuspir neve. A rdio prometia outra camada de vinte a vinte e cinco centmetros e cantava hossanas
 Precipitao, essa grande deusa dos esquiadores do Colorado. Wendy, sentada no quarto a tricotar um cachecol, pensava que sabia exactamente o que os esquiadores
fariam com toda aquela neve. Sabia exactamente onde poderiam p-la.
Jack estava na cave. Fora verificar a fornalha e a caldeira  estas rondas tinham-se transformado num ritual desde que a neve os fechara em casa  e, depois de se
certificar de que estava tudo em ordem, atravessava o arco, acendia a lmpada e sentava-se numa cadeira de lona velha e cheia de teias de aranha que descobrira.
Folheava os registos e os papis velhos, constantemente a limpar a boca com o leno. Esta recluso fizera desaparecer o seu tom bronzeado do Outono, e quando se
sentava, inclinado sobre aquelas folhas de papel amareladas e estaladias, o cabelo louro-arruivado caindo-lhe sobre a testa, dava-lhe um ar ligeiramente luntico.
Descobrira alguns objectos estranhos metidos entre as facturas, as contas e os recibos. Objectos inquietantes. Uma tira de lenol ensanguentada. Um urso de pelcia
desmembrado que parecia ter sido escavacado. Uma folha amachucada de uma agenda de senhora, de cor violeta, ainda a cheirar a perfume, apesar dos anos, um apontamento
escrito a tinta azul-desmaiada, que algum comeara a escrever e no acabara: Querido Tommy, aqui em cima no consigo pensar to bem como esperava. Refiro-me a
ns, claro. A quem mais havia de ser? Ah, ah. As coisas continuam na mesma. Tenho sonhado com coisas estranhas, que fazem barulho de noite, acreditas, e que...
E mais nada. O apontamento tinha a data de vinte e sete de Junho de mil novecentos e trinta e quatro. Descobriu
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um fantoche que parecia representar uma bruxa ou um feiticeiro... com uns grandes dentes e um chapu pontiagudo. Estava metido entre um molho de recibos de gs
e um molho de recibos de gua de Vichy. E outra coisa que parecia ser um poema, escrevinhado no verso de uma ementa, a lpis: Medoc/ests a? Tive novos acessos
de sonambulismo, meu querido. As plantas mexem-se debaixo da carpeta. No tinha data, nem o nome do poema, se  que era um poema. Inslito mas fascinante. Todas
estas coisas lhe pareciam peas de uma mquina, coisas que eventualmente encaixariam umas nas outras se ele conseguisse descobrir os verdadeiros elos de ligao.
E continuou a olhar para os papis, saltando e limpando a boca cada vez que a fornalha rugia atrs de si.
Danny estava outra vez  porta do quarto 217.
Tinha a chave no bolso. Olhava para a porta com uma espcie de avidez embriagada, e a parte superior do seu corpo estremecia por baixo da camisa de flanela. Cantarolava
em voz baixa, num tom desafinado.
No quisera voltar aqui depois do que se passara com a mangueira. Ficara assustado. Estava assustado por ter voltado a tirar a chave, por ter desobedecido ao pai.
Quisera vir aqui. A curiosidade
(podia ser perigosa)
era um espinho constante na sua mente, uma espcie de sirena a tocar que ningum conseguia calar. E o senhor Hallorann no lhe dissera: No creio que essas coisas
possam magoar-te?
(Prometeste)
(As promessas fizeram-se para serem quebradas.)
Ficara sobressaltado ao pensar nisto. Era como se aquele pensamento tivesse vindo de fora, para o atormentar, para o lisonjear um pouco.
(As promessas fizeram-se para serem quebradas, meu querido oinissassa, para serem quebradas, desfeitas, escavacadas, a martelo, para a frente!)
O seu cantarolar nervoso transformou-se numa cano em voz baixa, desafinada:
 Lou, Lou, anda ter comigo, Lou, meu querido...
No era verdade que o senhor Hallorann tinha razo? No
fora por isso, no fim, que ele se mantivera calado e deixara que
a neve os enclausurasse?        ~ '
227
Fecha os olhos, e ele vai-se embora.
O que ele vira na suite presidencial desaparecera. E a cobra no passava de uma mangueira de incndio que cara na passadeira. Sim, mesmo o sangue na suite presidencial
era inofensivo, antigo, algo que acontecera muito antes de ele nascer ou ser concebido, algo que acabara. Como um filme a que nos limitamos a assistir. No havia
nada, mas mesmo nada, neste hotel que pudesse mago-lo, e se tivesse de entrar neste quarto para prov-lo, porque no havia de faz-lo?
        Lou, Lou, anda ter comigo, Lou...
(A curiosidade matou o gato, meu querido oinissassa, a satisfao trouxe-o de volta so e salvo, dos ps  cabea; da cabea at aos ps ele voltou so e salvo.
Ele sabia que essas coisas)
(so como gravuras medonhas, que no podem magoar-te, mas oh meu Deus)
(que grandes dentes que tu tens avozinha e aquilo  um lobo vestido de barba azul vestido de lobo e eu estou to)
(contente por teres perguntado, porque a curiosidade matou aquele gato e foi a esperana que o trouxe de volta.)
Subira o corredor, devagarinho, sobre a relva de plantas emaranhadas da passadeira azul. Parara junto do extintor, pendurara o aro de lato na armadura e depois
batera-lhe repetidas vezes com o dedo, com o corao aos pulos, dizendo em surdina: Anda e bate-me. Anda e bate-me, maldita. Podes faz--lo, no podes? Hem? No
passas de uma reles mangueira. No podes sair da. Anda, anda! Ficou louco de raiva. E no acontecera nada. Afinal aquilo era apenas uma mangueira, de lona e lato,
que ele podia fazer em pedaos e que nunca se queixaria, que no se contorceria nem daria saltos nem espalharia na passadeira um muco verde como se estivesse a
sangrar, porque era apenas uma mangueira, no uma roseira nem uma cobra na lazeira... e ele fugira, fugira porque era
(Estou atrasado, estou atrasado, disse o coelho branco.) o coelho branco. Sim. Agora havia um coelho branco l fora, junto do parque infantil; dantes era verde,
mas agora era branco, como se qualquer coisa o tivesse assustado repetidas vezes nas noites de neve e de vento e ele tivesse envelhecido...
Danny tirou a chave da algibeira e enfiou-a na fechadura.
        Lou, Lou...
(O coelho branco fora para uma partida de croquet, a partida de croquet da Rainha Vermelha, em que as cegonhas faziam de maos e os ourios de bolas.)
228
Danny pegou na chave e acariciou-a. Sentia a cabea oca. Deu uma volta  chave e a fechadura cedeu.
{cortem-lhe a cabea! cortem-lhe a cabea! cortem--lhe a cabea!)
(Este jogo no  croquet, embora os maos sejam demasiado curtos este jogo ...
(pum-pum! Mesmo no alvo)
{cortem-lhe a cabeeeeeeea...)
Danny empurrou a porta e abriu-a. Esta deslizou suavemente, sem um rudo. Encontrou-se numa diviso ampla, um misto de quarto e sala de estar. Embora a neve ainda
no tivesse chegado to acima  os montes mais altos estavam um pouco abaixo das janelas do segundo andar , o aposento estava escuro porque o pap fechara todas
as portadas da ala oeste h duas semanas.
Danny ficou  entrada, tacteou a parede com a mo direita e descobriu o interruptor. Abriu-se a luz num candeeiro de vidro com duas lmpadas. Danny avanou e olhou
 roda. A carpete era felpuda e macia, de um tom rosa-plido. Apaziguador. Havia uma cama de casal com uma coberta branca. Uma secretria
(Diz-me por favor: porque  que um corvo se parece com uma secretria?)
junto de uma janela grande, com as portas fechadas. Durante o perodo de funcionamento do hotel, um escritor persistente
(Sentir-se-ia muito bem, quem me dera que tivesses medo.)
desfrutaria uma bela vista das montanhas que poderia descrever s pessoas quando regressasse.
Danny avanou. No havia nada ali dentro, absolutamente nada. Apenas um quarto vazio e frio, porque hoje era dia do pap aquecer a ala leste. Uma cmoda. Um roupeiro
de porta aberta que deixava ver alguns cabides de hotel (daqueles que no se podiam roubar). Uma Bblia em cima de uma mesa.  sua esquerda ficava a porta da casa
de banho, com um espelho a todo o comprimento, que reflectiu o rosto lvido de Danny. Essa porta estava aberta de par em par e...
Danny viu o seu duplo virar a cabea lentamente.
Sim, o que quer que era estava aqui. Na casa de banho. O seu duplo avanou como se quisesse fugir do espelho. Estendeu os braos, que vieram tocar nos seus. Em seguida,
espreitou pela porta da casa de banho. Olhou l para dentro.
Era uma diviso ampla e antiquada, como um Pullman. O
229
cho era revestido de pequenos mosaicos brancos de forma he-xagonal. Do outro lado, haviauma sanita com a tampa levantada.  direita, um lavatrio com um espelho
por cima, do tipo daqueles que tm por trs um armrio para os medicamentos.  esquerda, uma banheira branca, enorme, com ps e uma cortina corrida. Danny entrou
na casa de banho e encaminhou--se para a banheira, como que em sonhos, como se algum estivesse a empurr-lo do lado de fora, como se tudo isto fosse um dos sonhos
de Tony, na esperana de ver uma coisa agradvel quando puxasse a cortina da banheira, qualquer coisa de que o pap se tivesse esquecido ou que a me tivesse perdido,
alguma coisa que lhes desse satisfao...
Ento arredou a cortina.
A mulher que estava dentro da banheira estava morta h muito tempo. Estava inchada e roxa, a barriga cheia de ar emergia da gua fria e estava orlada de gelo como
se fosse uma ilha de carne. Os olhos, vtreos e escancarados, como belin-dres, fixavam-se em Danny. Estava a rir-se, com os lbios roxos arrepanhados num esgar.
Tinha os seios pendentes. Os plos do pbis flutuavam. As mos geladas pendiam da orla arredondada da banheira como patas de caranguejo.
Danny deu um grito. Mas da sua boca no saiu qualquer som. Para trs e para diante, perdeu-se nas profundezas de Danny como uma pedra num poo. Danny avanou um
passo, ouvindo o rudo dos sapatos nos mosaicos brancos e, ao mesmo tempo, comeou a urinar, sem qualquer esforo.
A mulher estava sentada.
Continuava a rir-se, de olhar fixo nele, sentada. As palmas das mos inertes batiam na porcelana. Os seios balouavam como se fossem velhas almofadas de boxe. Ouvia-se
apenas o som do gelo a quebrar-se. A mulher no respirava. Era um cadver, j com muitos anos.
Danny voltou-lhe as costas e desatou a correr. Saiu da casa de banho com os olhos fora das rbitas, e os cabelos eriados como os plos de um ourio pronto a tornar-se
uma
(de croquet, ou de roque})
bola sacrificial, de boca aberta e emudecida. Correu para a porta do quarto, que estava agora fechada. Comeou a dar murros na porta, longe de pensar que no estava
fechada  chave e que lhe bastava apenas rodar o puxador. Soltava gritos ensurdecidos, que estavam para alm da capacidade de audio de qualquer ser humano. Continuava
a bater na porta e ouvia a
230
mulher morta aproximar-se dele, de barriga inchada, cabelos secos e mos crispadas  qualquer coisa que estava naquela banheira talvez h anos, embalsamada como
que por artes mgicas.
A porta no iria abrir-se, no iria abrir-se.
E depois ouviu a voz de Dick Hallorann, to sbita e inesperada, to calma, que as suas cordas vocais libertaram-se e ele comeou a gritar debilmente, no de medo
mas de alvio.
(No creio que possam magoar-te... So como gravuras de um livro... Fecha os olhos e elas desaparecero.)
Fechou os olhos. Cerrou os punhos. Arqueou os ombros com o esforo da concentrao.
(Ali no h nada ali no h nada nada ali no h nadaI)
O tempo passou. E Danny comeava a descontrair-se, comeava a imaginar que a porta no devia estar fechada  chave e que poderia sair, quando as mos hmidas de
h muitos anos, entumecidas, a cheirar a peixe, se lhe fecharam  volta da garganta. Danny voltou-se de repente para ver aquele rosto arroxeado de morta.
IV PARTE ISOLADOS PELA NEVE

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NO PAS DOS SONHOS
Tricotar fazia-lhe sono. Hoje, at Bartok lhe faria sono, e no pequeno gira-discos no se ouvia msica de Bartok mas sim de Bach. Os movimentos das mos tornavam-se
cada vez mais lentos, e no momento em que o filho tomava conhecimento com a residente de h muitos anos do quarto 217 Wendy estava a dormir com a malha no regao.
O novelo e as agulhas moviam--se ao ritmo lento da sua respirao. O seu sono era profundo, sem sonhos.
Jack Torrance tambm adormecera, mas o seu sono era leve e inquieto, povoado de sonhos que pareciam demasiado vivos para serem sonhos  os mais vivos que j tivera.
Comeara a ficar com as plpebras pesadas  medida que ia folheando pacotes de facturas de leite que, todas juntas, lhe pareciam dezenas de milhar. Todavia, lanava
a cada uma um olhar rpido, com receio de falhar exactamente o pormenor de que precisava para estabelecer a ligao mstica que estava convencido existir em qualquer
lado. Sentia-se como se fosse um homem com um fio elctrico na mo,  procura de uma tomada num quarto desconhecido, s escuras. Se a descobrisse, seria recompensado
com uma viso de maravilhas.
Ficara com os nervos em franja com o telefonema de Al Shockley e com o seu pedido; a estranha experincia que tivera no parque infantil tambm contribura para isso.
Estava demasiado prximo de um esgotamento nervoso, e estava convencido de que isso fora o resultado da sua revolta contra o maldito pedido de Al para que abandonasse
o projecto do livro. Talvez tivesse sido um sinal dos limites at aos quais podia chegar o respeito por si prprio antes de se desintegrar completamente. Iria escrever
o livro. Se isso significasse o fim da sua ligao
235
com Al Shockley, pacincia. Escreveria a biografia do hotel, desde o princpio, e a introduo seria a alucinao que os animais do topirio lhe tinham provocado.
O ttulo, embora desprovido de inspirao, seria sugestivo: Um Estranho Local  A Histria do Hotel Overlook. Desde o princpio, sim, mas no o escreveria com esprito
de vingana, com o objectivo de atingir Al, Stuart Ullman, George Hatfield ou o prprio pai (o bbado miservel e medonho que ele fora) ou qualquer outra pessoa.
Escrev-lo-ia porque o Overlook o fascinara. Que outra explicao poderia ser to simples ou to sincera? Escrev-lo-ia pela mesma razo que eram escritas todas
as grandes obras de literatura, de fico ou no: a verdade vinha sempre ao de cima. Escrev-lo-ia porque tambm sentia assim.
Quinhentos litros de leite completo. Cem litros de leite desnatado. Pago. Contabilizado. Cento e cinquenta litros de sumo de laranja. Pago.
Deslizou na cadeira, ainda com um monte de recibos na mo, mas j sem ler o que estava l escrito. Tinham perdido os contornos. Sentia as plpebras pesadas. A sua
mente passara do Overlook para o pai, que fora enfermeiro do Hospital Comunitrio de Berlin. Um grande homem. Um homem gordo, com um metro e oitenta e cinco de
altura, mais alto do que Jack, que media um metro e oitenta. Pigmeu, dizia ele, dando um murro a Jack, com ternura, e rindo-se. Havia outros dois irmos, mais
altos do que o pai, e Becky, que aos cinco anos e dez meses era apenas cinco centmetros mais baixo do que Jack e que, ainda em criana, o ultrapassara em altura.
A sua relao com o pai assemelhara-se ao desabrochar de uma flor de grande beleza que, uma vez completamente aberta, comea a secar por dentro. At aos sete anos
amara aquele homem alto e barrigudo, sem crticas e com vigor, apesar das tareias, das ndoas roxas e de um olho negro de vez em quando.
Lembrava-se das noites amenas de Vero, com a casa silenciosa. Brett, o irmo mais velho, sara com a namorada; Mike, o do meio, estava a estudar; Becky e a me
estavam na sala a ver qualquer coisa no velho televisor. Jack sentava-se no corredor, s com o casaco do pijama leve, a brincar ostensivalnente com os carrinhos,
 espera do momento em que o silncio seria quebrado pelo abrir da porta com estrondo, pela saudao do pai ao ver que Jack estava  espera dele, do seu prprio
guincho de satisfao em resposta quele homem grande que vinha pelo
236
corredor, de cabea calva e rosada a brilhar  luz do candeeiro. quela luz, com a sua bata branca, ele parecia sempre um fantasma gigantesco, com a camisa sempre
desabotoada (e por vezes ensanguentada) e as dobras das calas cadas sobre os sapatos pretos.
O pai pegava-lhe ao colo e Jacky, delirante, sentia-se levantado no ar, com tal rapidez que sentia a presso do ar na cabea, como se tivesse um capacete de chumbo.
Ambos gritavam: Elevador! Elevador! E houvera noites em que o pai, perdido de bbado, no tinha parado o elevador a tempo e Jack voava por cima da cabea dele
como se fosse um projctil humano e vinha despenhar-se no soalho do corredor, atrs do pai. Mas havia outras noites em que o pai se limitava a pegar-lhe ao colo
e a balou-lo at ele atingir o xtase do riso, atravessando a zona da atmosfera, em que o bafo a cerveja vindo da boca do pai se assemelhava a uma nuvem de chuva.
Depois de muitas voltas no ar como se fosse um farrapo, era finalmente posto no cho, aos soluos.
Os recibos escorregaram-lhe da mo inerte, ziguezaguearam no ar e foram cair indolentemente no cho; as plpebras de Jack, que se tinham cerrado com a imagem do
pai, gravada no interior como se fossem imagens impressas, abriram-se um pouco e depois voltaram a fechar-se. O corpo de Jack sofreu uma ligeira contraco. Tal
como os recibos e as folhas dos choupos no Outono, tambm a conscincia ziguezagueou e se apaziguou em seguida.
Aquela fora a primeira fase do seu relacionamento com o pai e,  medida que esta se encaminhava para o fim, Jack apercebera-se de que Becky e os irmos, todos eles
mais velhos, odiavam o pai e a me, uma mulher indescritvel que raramente falava acima do murmrio e que s o suportava porque a sua formao catlica lhe ordenava
que o fizesse. Naquela poca, Jack no achava estranho que o pai sasse vencedor das suas brigas com os filhos pela fora dos punhos, nem que o amor que lhe tinha
caminhasse a par do medo: medo do jogo do elevador, que podia acabar num trambolho numa noite qualquer; medo de que o bom humor do pai mudasse de sbito e Jack
sentisse o peso da sua bela mo direita; e s vezes, recordava, receava at que a sombra do pai casse sobre ele quando estavam a brincar. Foi quase no final
desta fase que comeou a reparar que Brett nunca levava l a casa as suas namoradas nem Mike ou Becky os seus amigos ntimos.
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O seu afecto comeou a esmorecer quando a me foi parar ao hospital por causa de uma tareia que o pai lhe deu com a bengala. Comeara a andar de bengala h um ano,
depois de um acidente de automvel que o deixara a coxear. Depois disso, nunca mais deixou de us-la. Era comprida e grossa, preta e de casto dourado. Agora, a
dormir, o corpo de Jack estremeceu ao lembrar-se do silvo que ela fazia no ar, um silvo assassino, e do seu estrondo na parede... ou no corpo de algum. Ele batera
na me sem qualquer motivo, de repente e sem avisar. Estavam  mesa, a jantar. A bengala estava encostada  cadeira do pai. Era uma noite de domingo, o final de
um fim-de-semana de trs dias para o pai, um fim-de-semana em que ele se embriagara no seu estilo habitual e inigualvel. Frango assado. Ervilhas. Pur de batata.
O pai no topo da mesa, de olhos enterrados no fundo das rbitas com um brilho estpido, maldoso e petulante. Percorreram todos os membros da famlia, um a um, e
depois a veia da testa tornou-se saliente, o que era sempre mau sinal. Uma das suas mos enormes e sardentas deslizara para o casto dourado da bengala, acariciando-o.
O pai falou em caf  at este momento Jack tinha a certeza de que o pai falara em caf. A me abriu a boca para responder, e fora ento que a bengala se elevara
no ar e a atingira na cara. O sangue jorrou-lhe do nariz. Becky deu um grito. Os culos da me caram no prato. A bengala voltou para trs e tornou a cair, desta
vez no alto da cabea da me, partindo-a. A me caiu no cho. O pai levantara-se da cadeira e dera a volta  mesa para ver onde ela cara, brandindo a bengala, manejando-a
com a rapidez e a agilidade grotescas de um homem gordo, com os olhos a faiscar e o queixo a tremer, dirigindo-se a ela tal como se dirigia aos filhos no meio dos
acessos de fria. Agora. Agora, por Deus. Agora vais tomar o remdio. Maldito fantoche. Dez ris de gente. Anda tomar o remdio. A bengala cara sobre ela mais
sete vezes, antes de Brett e Mike o agarrarem, o arrastarem para longe dela e lhe tirarem a bengala da mo,  fora. Jack
(o mesmo Jack que estava agora a dormir numa cadeira de lona cheia de teias de aranha enquanto a fornalha rugia atrs dele)
sabia exactamente quantas haviam sido as pancadas porque o som da bengala a bater no corpo da me ficara-lhe na memria, tal como o silvo irracional de um cinzel
num bloco de pedra. Sete vezes. Nem mais nem menos. Ele e Becky desataram a
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chorar, incrdulos, ao ver os culos da me em cima do pur de batata e uma das lentes partida e besuntada de molho. Brett gritava com o pai do fundo do corredor
e dizia-lhe que o mataria se ele se mexesse. E o pai dizia, sem parar: Maldito fantoche. Dez ris de gente. D-me a bengala, pigmeu. D-ma! Brett brandindo a
bengala, histrico, dizendo: Sim, sim, dou--lha, mexa-se sequer e dou-lhe tudo o que quiser e ainda mais. Dou-lhe que chegue. A me levantou-se devagar, atordoada,
a cara inchada como se fosse um pneu velho com ar a mais, a sangrar em quatro ou cinco stios diferentes, e dissera uma coisa terrvel, talvez a nica frase que
a me pronunciara e de que Jack se lembrava, palavra por palavra: Onde est o jornal? O vosso pai quer ler as anedotas. Ainda est a chover? E depois caiu de joelhos,
com os cabelos pendendo-lhe sobre o rosto ensanguentado. Mike fora chamar o mdico, gaguejando ao telefone. Podia vir imediatamente? Era a me. No, no sabia
dizer o que acontecera, ao telefone no, no podia. Que viesse, mais nada. O mdico chegou e levou a me para o hospital onde o pai trabalhara toda a sua vida.
O pai, um pouco mais sbrio (ou talvez com a esperteza saloia do animal que se v em apuros), dissera ao mdico que ela cara nas escadas. A toalha tinha sangue
porque ela tentara limpar a cara com ela. E os culos voaram pela sala e foram aterrar no pur de batata e no molho?, perguntara o mdico com um sorriso terrivelmente
sarcstico. Foi isso que aconteceu, Mark? J ouvi falar de pessoas que conseguem engolir uma estao de rdio e j vi um homem levar um tiro no meio dos olhos
e sobreviver para cont-lo, mas essa  nova para mim. O pai limitara-se a abanar a cabea e a dizer que no sabia. Deviam ter-lhe cado da cara quando ele a trouxera
para a sala de jantar. Os quatro filhos ficaram em silncio, petrificados com a calma bestialidade da mentira. Quatro dias depois, Brett deixou o emprego e alistou--se
no exrcito. Jack sempre se sentira chocado, no apenas com a agresso sbita e irracional que tivera lugar  mesa mas tambm com o facto de, no hospital, a me
ter corroborado a histria do pai ao mesmo tempo que segurava a mo do padre da parquia. Revoltado, Brett sara de casa. Fora morto na provncia de Dong Ho em
1965, no ano em que Jack Torrance, ento na faculdade, se juntara aos activos movimentos estudantis que lutavam pelo fim da guerra. Agitara a camisa ensanguentada
do irmo em comcios que eram cada vez mais concorridos, mas no era o rosto de Brett que via diante dos olhos
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quando falava; era o rosto atordoado e confuso da me, a perguntar: Quem tem o jornal?
Mike fugira de casa trs anos mais tarde, quando Jack tinha doze anos  fora para a Universidade de New Hampshire com uma bolsa de estudo ganha merc da sua aplicao
na escola. Um ano depois, o pai morrera, acometido de uma trombose sbita e fulminante quando estava a preparar um doente para a operao. Sucumbira com a sua bata
branca de hospital, morto possivelmente antes de cair nos mosaicos vermelhos e brancos do cho. E trs dias depois o homem que dominara a vida de Jack, o irracional
deus-fantasma vestido de branco, estava debaixo da terra.
Na lpide lia-se Mark Anthony Torrance, nosso estimado pai, a que Jack acrescentou uma linha: Que sabia jogar aos elevadores.
Tinham recebido uma grande soma do seguro. H pessoas que coleccionam seguros com o mesmo sentido de obrigatoriedade com que outros coleccionam moedas e selos,
e Mark Torrance pertencera a esse nmero. O dinheiro do seguro chegou ao mesmo tempo que cessaram os pagamentos mensais  polcia e as contas de bebidas alcolicas.
Durante cinco anos, tinham sido ricos. Quase ricos...
No meio do sono leve e inquieto, Jack viu a sua prpria cara como que atravs de um copo, os olhos grandes e a boca ingnua de um rapazinho sentado no corredor,
a brincar com os seus carrinhos,  espera do pai,  espera do deus-fantasma branco,  espera que o elevador subisse a uma velocidade estonteante atravs do bafo
das tabernas, talvez  espera que ele se despenhasse, soltando velhas molas de relgio, enquanto o pai morria de riso e
(se transformasse no rosto de Danny, to parecido com o seu dessa altura. Os seus olhos eram azul-claros, enquanto os de Danny eram cinzento-escuros, mas os lbios
eram levemente arqueados e a pele era clara; Danny no seu escritrio, de calas de treino, todos os seus papis encharcados e o cheiro da cerveja... a fermento,
a levedura, o bafo das tabernas... O osso a estalar... A sua prpria voz entaramelada Danny, ests bem, p? Oh meu Deus oh meu Deus pobre bracinho... e o seu rosto
transformara-se num)
(o rosto atordoado da me levantando-se do cho, magoado e a sangrar, e a me a dizer)
(... do vosso pai. Repito, uma comunicao muito impor-
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tante do vosso pai. Por favor fiquem onde esto ou sintonizem j a frequncia de Jack, o Folio. Repito, sintonizem j a frequncia de Hora Feliz. Repito...)
Uma mudana lenta e gradual. Vozes sem corpo chegavam at ele como se viessem de um corredor escuro, sem fim.
(As coisas continuam na mesma, querido Tommy...)
(Medoc, ests a? Tive novos acessos de sonambulismo, meu querido. So os monstros no humanos que eu temo...)
(Desculpe, senhor Ullman, mas este no  o...) o escritrio, com os seus ficheiros, a grande secretria de Ullman, um livro de reservas em branco, talvez j preparado
para o ano seguinte  no lhe escapa nada, a esse Ullman , as chaves todas penduradas nos ganchos
(falta uma, qual, que chave... chave, chave, quem tem a chave? Se formos l acima talvez vejamos) e o grande aparelho de rdio, de duas frequncias, em cima da
prateleira.
Jack ligou-o. As transmisses sucediam-se, curtas, rpidas. Mudou de posto e ouviu msica, notcias, um padre a pregar a uma congregao lamurienta, o boletim meteorolgico.
E uma outra voz. Era a voz do pai.
... mat-lo. Tens de mat-lo a ele, Jack, e a ela tambm. Porque um verdadeiro artista tem de sofrer. Porque todos os homens matam aquilo que amam. Porque eles
esto sempre a conspirar contra ti, tentando deter-te e arrastar-te para o abismo. Neste preciso momento aquele teu filho est num stio onde no devia estar. A
prevaricar.  o que ele est a fazer. E um verdadeiro diabo. D-lhe com a bengala, d-lhe com a bengala. Bebe um copo, Jacky, e vamos jogar aos elevadores. Depois
vou contigo e tu ds-me este remdio. Sei que podes faz--lo, claro que podes. Tens de mat-lo, Jack, e a ela tambm. Porque um verdadeiro artista tem de sofrer.
Porque todos os homens...
A voz do pai, aos altos e baixos, algo que o enlouquecia, que no era humano, estridente, petulante e enlouquecedor, a voz do deus-fantasma, o deus-porco, morto,
a sair do rdio, e a vir ao seu encontro e...
 No!  gritou.  Tu ests morto, ests no tmulo, no ests dentro de mim!
Porque ele expulsara o pai de dentro dele e no estava certo que ele voltasse, trepando pelas paredes deste hotel a trs mil quilmetros da Nova Inglaterra, onde
o pai vivera e morrera.
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Jack pegou no rdio e deixou-o cair. Este fez-se em pedaos, espalhando no cho velhas molas e tubos, como se fosse um elevador desvairado, abafando a voz do pai
e deixando apenas a sua, a voz de Jack, a voz de Jacky, cantando no ambiente frio do gabinete:
        ... morto, ests morto, ests morto!
E o rudo dos passos de Wendy fazendo eco na sua cabea e a voz admirada e assustada de Wendy a chamar:
        Jack? Jac*/
Jack ficou ali a olhar para o cho, para o rdio espatifado. Agora o limpa-neves que estava na arrecadao era o nico elo de ligao que tinham com o mundo exterior.
Ps as mos nos olhos e apertou as tmporas. Estava com uma dor de cabea.
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CATATNICO
Sem calar os sapatos, Wendy desatou a correr pelo corredor e desceu a dois e dois os degraus das escadas que iam ter ao trio. No olhou para o patamar do segundo
andar porque, se o tivesse feito, teria visto Danny, de p, imvel e silencioso, de olhar no vazio, a chuchar no dedo e com a camisa hmida nos ombros e no colarinho.
Tinha feridas empoladas no pescoo e debaixo do queixo.
Os gritos de Jack haviam cessado, mas isso no apaziguara Wendy. Arrebatada ao sono pela voz do marido, naquele velho tom fanfarro que conhecia to bem, parecia-lhe
que estava ainda a sonhar, mas havia uma parte de si que estava acordada, o que ainda a aterrorizava mais. Em parte estava  espera de entrar no gabinete e ir dar
com ele bbado e confuso junto do corpo estendido de Danny.
Empurrou a porta e l estava Jack, de p, a esfregar as tmporas com as mos. Estava branco como um fantasma. A seus ps, o rdio de duas frequncias feito em pedaos.
 Wendy?  perguntou Jack, hesitante.  Wendy?...
A confuso parecia ter aumentado e, por instantes, Wendy viu o seu verdadeiro rosto, aquele que em geral ele escondia to
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bem e que deixava transparecer uma enorme infelicidade e desespero, o rosto de um animal apanhado numa armadilha sem possibilidade de a decifrar ou neutralizar.
Em seguida, os msculos comearam a funcionar, a mexer-se debaixo da pele, a boca comeou a tremer e a ma-de-ado a andar para baixo e para cima.
A confuso e  surpresa de Wendy sobreps-se o choque: Jack estava  beira das lgrimas. J o vira chorar anteriomente, mas nunca desde que ele deixara de beber...
e mesmo assim s quando estava muito embriagado e cheio de remorsos patticos. Era um homem firme como uma rocha, e o facto de ele perder o autodomnio assustava-a
sempre.
Jack veio ao seu encontro, agora com os olhos marejados de lgrimas e a cabea a abanar involuntariamente, como que num esforo infrutfero para afastar esta tempestade
emocional. Deixou escapar um soluo devastador. Estava de pantufas e tropeou nos bocados do rdio. Caiu nos braos de Wendy e o seu peso f-la vacilar. No seu hlito
no havia vestgios de lcool. Claro que no. Ali no havia lcool.
        O que se passa? Jack, o que se passa?  perguntou
Wendy, segurando-o o melhor que podia.
Jack desatou a soluar, de tal modo agarrado a ela que quase a sufocava, com a cabea no seu ombro, num tremor desesperado, como se estivese na defensiva. Soluava
violentamente. Todo o seu corpo estremecia sob as jeans e a camisa de xadrez.
        Jack? O que foi? Conta-me o que se passa.
Por fim, os soluos foram dando lugar s palavras, incoerentes a princpio, mas mais claras  medida que as lgrimas se iam gastando.
... sonho, acho que foi um sonho, mas era to real, eu...
era a minha me a dizer que o pap ia aparecer na rdio e eu...
ele estava... ele estava a dizer-me para... No sei. Ele estava a
gritar comigo... e foi por isso que escavaquei o rdio... para o
calar. Para o calar. O meu pai est morto. No quero nem so
nhar com ele. Est morto. Meu Deus, Wendy, meu Deus.
Nunca tive um pesadelo assim. Nem quero voltar a ter. Meu
Deus! Foi horrvel!
Adormeceste aqui no gabinete?
No... Aqui no. L em baixo.
Jack comeou a endireitar-se, a alivi-la, e o movimento de vaivm da cabea comeou a abrandar at que parou.
        Estava a remexer nestes papis velhos. Sentei-me. Reci-
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bos do leite. Coisas sem interesse. E acho que adormeci. Foi ento que comecei a sonhar. Devo ter vindo para aqui a dormir.
Jack deu uma gargalhada convulsiva que fez estremecer o pescoo de Wendy.
Mais uma estreia.
Onde est Danny, Jack?
No sei... No est ao p de ti?        ;
Ele no estava l em baixo contigo?
Jack olhou por cima do ombro e o seu rosto crispou-se ao ver a expresso de Wendy.
Nunca permitirs que eu me esquea disso, pois no,
Wendy?
Jack...
Quando eu estiver a morrer, chegas ao p de mim e dizes:
Bem feito. Lembras-te quando partiste o brao a Danny?
Jack!
Jack, o qu?  respondeu ele num tom violento, endirei
tando-se de repente.  Negas que  o que ests a pensar? Que
eu o magoei? Que o magoei uma vez e que poderia voltar a
faz-lo?
Quero saber onde ele est, mais nada!
        V, continua a gritar, que isso resolve tudo, no ?
Wendy voltou-lhe as costas e saiu do gabinete.
Jack viu-a sair e por instantes ficou gelado, com um mata--borro cheio de pedaos de vidro numa das mos. Depois, atirou-o para o cesto dos papis, foi atrs dela
e apanhou-a no trio, junto do balco da recepo. Ps-lhe as mos nos ombros e voltou-a para si. Wendy tinha uma expresso rgida.
Wendy, desculpa. Foi o sonho. Fiquei perturbado. Per
doas-me?
Claro.
A sua expresso no se alterou. As mos de Jack escorregaram ao longo dos seus ombros rgidos. Chegou ao meio do trio e gritou:
        Onde ests, p?
Silncio. Wendy encaminhou-se para a porta dupla do trio, abriu uma metade e saiu. O trilho que Jack abrira com a p assemelhava-se mais a uma vala; a neve que
se acumulara entretanto chegava-lhe aos ombros. Wendy chamou de novo o filho, respirando com dificuldade. Ao voltar para dentro parecia assustada.
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Dominando a irritao que comeava a apoderar-se dele, Jack perguntou:
Tens a certeza de que ele no est a dormir no quarto?
J te disse que ele andava a brincar no sei onde, en
quanto eu estava a tricotar. Ouvi-o l em baixo.
Adormeceste?
O que tem isso a ver com aquilo de que estamos a falar?
Adormeci. Danny!
Procuraste no quarto dele agora, antes de vires para bai
xo?
Jack comeou a subir as escadas sem esperar por ela. Wendy foi atrs, mas Jack subiu os degraus a dois e dois. Quase chocou com ele, que parara de repente no patamar
do primeiro andar. Ficou imvel, a olhar para cima, de olhos esbugalhados.
        O qu...
Wendy seguiu o seu olhar.
Danny estava ali, de p, de olhar vago, com o dedo na boca. As marcas do pescoo eram bem visveis  luz dos candeeiros do corredor.
        Danny!  gritou Wendy.
O seu grito quebrou a paralisia de Jack e ambos correram ao encontro do filho. Wendy ajoelhou-se a seu lado e puxou-o para si. Danny deixou-se agarrar mas no a
abraou. Era como se Wendy estivesse a abraar um pau. Ficou aterrorizada. Danny continuava a chuchar no dedo e olhava com indiferena para o fosso da escada.
Danny, o que aconteceu?  perguntou Jack.
Fez meno de lhe tocar nas feridas do pescoo.
Quem te fez...?
No lhe toques!  gritou Wendy.
Agarrou em Danny, pegou-lhe ao colo e comeou a descer as escadas antes que Jack, confuso, pudesse fazer outra coisa que no fosse levantar-se.
O qu? Wendy, que diabo ests a...?
No lhe toques! Se voltares a pr-lhe as mos em cima
mato-te!
Wendy...
Malvado!
Wendy voltou-lhe as costas e desceu as escadas at ao primeiro andar. A cabea de Danny balouava enquanto ela corria. O dedo continuava na boca e o olhar enevoado.
Ao fim das escadas, Wendy voltou  direita. A porta do quarto deles fechou-se
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com estrondo. A chave rodou na fechadura. Fez-se um breve silncio. Depois ouviram-se palavras ditas em surdina. Era ela a sosseg-lo.
Jack ficou paralisado com o que acontecera em to curto espao de tempo. No acordara totalmente do seu sonho e a sombra do fantstico pairava ainda sobre ele.
Era como se tivesse acabado de sair de um transe de mescalina. Teria magoado Danny, tal como Wendy imaginava? Teria tentado estrangular o filho a pedido do pai?
Nunca faria mal a Danny.
(Ele caiu das escadas, senhor doutor.).
Agora no seria capaz de fazer mal a Danny.
(Como podia eu adivinhar que a bomba do insecticida tinha defeito?)
Nunca cometera nenhum acto de malvadez quando estava sbrio.
(Excepto na altura em que quase ias matando George Hat-field.)
 No!  gritou Jack, batendo nas pernas com os punhos cerrados, sem parar.
Wendy sentou-se na poltrona junto da janela com Danny ao colo, agarrada a ele, cantarolando a lengalenga do costume, aquela de que nunca mais nos lembramos depois
de tudo ter acabado. Danny enroscou-se no seu regao, sem denotar alegria ou desagrado, e no desviou o olhar quando Jack gritou algures no corredor.
Wendy sentia-se um pouco menos confusa, mas, em contrapartida, foi acometida de algo ainda pior: o pnico.
Jack fora o autor da proeza, no tinha dvidas. O facto de ele o ter negado no tinha qualquer significado para ela. Considerava perfeitamente possvel que Jack
tivesse tentado estrangular Danny enquanto dormia, tal como espatifara o rdio. Jack estava com um esgotamento qualquer. Mas o que havia ela de fazer? No podia
ficar ali fechada para sempre. Tinham de comer.
Havia, de facto, uma nica pergunta a fazer. Wendy f-la, com a frieza e o pragmatismo que caracterizam a maternidade, num tom frio e desapaixonado, uma vez que
ela no era dirigida ao crculo formado por me e filho mas a Jack. Num tom em que a defesa do filho precedia a autopreservao:
(At que ponto  que ele  perigoso?)
Jack negara ter feito aquilo. Ficara horrorizado com as feri-
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das, com a postura ausente e implacvel de Danny. Se ele o tivesse feito, seria outra parte dele a responsvel. O facto de ter feito aquilo quando estava a dormir
era  terrivelmente, estranhamente  encorajador. No seria possvel confiar nele e sarem dali? Irem-se embora. E depois...
Mas s pensava em chegar com Danny, sos e salvos, ao-consultrio do doutor Edmonds, em Sidewinder. No precisava de ver para alm disso. A presente crise era mais
do que suficiente para mant-la ocupada.
Embalou Danny, cantarolando em voz baixa. Ao pousar a mo no seu ombro verificara que a camisa estava hmida, mas no raciocinara para alm disso. Se o tivesse feito,
ter-se-ia recordado que as mos de Jack, quando este se agarrara a ela no gabinete e chorara no seu ombro, estavam secas. Isso t-la-ia sossegado. Mas a sua mente
estava ocupada com outras coisas. A deciso tinha de ser tomada  deveria ou no aproximar-se de Jack?
Na verdade, no se tratava de uma grande deciso. No poderia fazer nada sozinha, nem mesmo levar Danny para o gabinete e pedir auxlio atravs do rdio. Danny
sofrera um grande choque. Tinha de ser levado dali para fora antes que sofresse danos irreparveis. Wendy recusava-se a aceitar que isso j acontecera.
E, contudo, atrmentava-se, em busca de uma alternativa. No queria que Danny ficasse ao alcance de Jack. Sabia agora que tomara uma deciso errada ao contrariar
os seus sentimentos (e os de Danny) e permitir que a neve os tivesse isolado ali... por causa de Jack. Ter afastado a ideia do divrcio fora outra deciso errada.
Agora estava quase paralisada com a possibilidade de vir a cometer outro erro, um erro de que pudesse vir a arrepender-se para o resto da sua vida.
No hotel no havia nenhuma arma. Na cozinha havia facas penduradas em suportes magnticos, mas Jack estava entre elas e eles.
No seu esforo para tomar a deciso acertada, para descobrir a alternativa, no lhe ocorreu um aspecto que se revestia de uma amarga ironia: h uma hora, estava
a dormir, firmemente convencida de que as coisas estavam bem e de que em breve viriam a estar ainda melhor; agora, considerava a hiptese de usar uma faca de cozinha
para se defender do marido, se ele tentasse interferir com ela e o filho.
Por fim levantou-se, com Danny ao colo. Tinha as pernas a
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tremer. No havia outra maneira. Teria de assumir que Jack, quando estava acordado, gozava de perfeito juzo e que a ajudaria a levar Danny a Sidewinder, ao consultrio
do doutor Edmonds. E se Jack tentasse qualquer coisa que no fosse ajud-la, que Deus o ajudasse a ele.
Encaminhou-se para a porta e abriu-a. Saiu para o trio com Danny ao colo.
 Jack!  chamou nervosa.
No obteve resposta.
Cada vez mais depressa, encaminhou-se para as escadas, mas
Jack no estava ali. E quando chegou ao patamar, perguntando
a si mesma o que havia de fazer a seguir, ouviu o cantarolar
irritado, amargo e trocista que vinha l de baixo:        ..  ,
Roll me over
In the clo-ho-ver
Roll me over, lay me down and do it again.           '\
Aquele tom de voz assustou-a ainda mais do que o silncio^ mas no tinha alternativa. Comeou a descer as escadas.
28   '
FOI ELA!
,'C
Jack estivera nas escadas, a escutar a voz de Wendy, que acalmava o filho, a qual se ouvia atravs da porta fechada, e a pouco e pouco a sua confuso foi dando lugar
 irritao. As coisas nunca tinham mudado verdadeiramente no que dizia respeito a Wendy. Ele podia ter deixado de beber h vinte anos que, sempre que chegava a
casa  noite, ela vinha  porta, abraava-o, e ele via-lhe aquela ligeira dilatao das narinas, tentando detectar-lhe no hlito vestgios de usque ou de gim.
Wendy iria sempre assumir o pior; se ele e Danny tivessem um acidente de automvel com um homem cego e bbado que tivesse um ataque cardaco precisamente antes
da coliso, ela culp-lo-ia em silncio dos ferimentos de Danny.
O rosto dela ao arrebatar-lhe Danny, Jack reviu-o, e de repente teve vontade de dar largas ao seu dio com o punho cerrado.
Ela no tinha o direito de fazer uma coisa daquelas!
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Sim, a princpio talvez. Ele fora um devasso, fizera coisas terrveis. Partir o brao a Danny fora uma coisa terrvel. Mas se uma pessoa se regenera, no merece
que a sua regenerao seja reconhecida mais cedo ou mais tarde? E se isso no acontece, no tem essa pessoa o direito de ter o proveito j que tem a fama? Se um
pai est constantemente a acusar a filha virgem de se deitar com todos os rapazes que conhece, ela no acabar por se cansar e de ser merecedora das suas censuras?
E se uma mulher, em segredo  e no s em segredo  continua a acreditar que o marido abstmio  um bbado...
Jack levantou-se, encaminhou-se lentamente para o patamar do primeiro andar e parou por instantes. Tirou o leno de assoar da algibeira de trs, limpou a boca com
ele e pensou em ir bater  porta do quarto, exigindo que lhe deixassem ver o filho. Ela no tinha o direito de se mostrar to arrogante.
Bem, mais cedo ou mais tarde ela havia de sair, a menos que estivesse a planear qualquer remdio radical para ambos. Ao pensar nisto, riu-se de uma forma desagradvel.
Ela que viesse ter com ele. Havia de vir.
Desceu ao rs-do-cho, ficou por instantes no trio sem saber o que fazer, e depois voltou  direita. Entrou na sala de jantar e parou  porta. As mesas vazias,
com as suas toalhas de tecido branco impecavelmente limpas e cobertas de plstico transparente, brilhavam. Naquele momento estava tudo deserto mas
(O jantar ser servido s oito horas. Tirar as mscaras e incio do baile  meia-noite.) Jack passou por entre as mesas, esquecendo-se por momentos da mulher e
do filho, que estavam l em cima, esquecendo-se do sonho, do rdio feito em pedaos, das feridas. Passou os dedos pelo plstico escorregadio, tentando imaginar como
teria sido o ambiente naquele noite quente de Agosto, em 1945, no momento da vitria, em que o futuro, novo e variado, se estendia  frente das pessoas como se
fosse um mundo de sonhos. As lanternas japonesas brilhantes e multicores suspensas em crculo, a luz amarelo-dourada saindo daquelas janelas enormes que agora estavam
cobertas de neve. Homens e mulheres de fatos de noite, aqui uma princesa flamejante, ali um cavaleiro de botas altas, cheio de jias e de esprito, o baile, bebidas
 descrio, primeiro vinho e depois cocktails, a conversa a subir de tom, cada vez mais, at se ouvir o grito alegre vindo do estrado do maestro: Tirem as mscaras!
Tirem as mscaras!
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(E a Morte Vermelha pairava...)
Deu consigo do outro lado da sala de jantar, ao p das portas de batente estilizadas que comunicavam com o Salo Colorado, onde, naquela noite de 1945, todas as
bebidas teriam sido oferecidas.
(Abre caminho at ao bar, p, as bebidas esto l dentro.)
Atravessou as portas de batente e entrou nas profundezas do bar. E aconteceu uma coisa estranha. J ali estivera uma vez, para verificar a folha do inventrio que
UUman lhe entregara, e sabia que aquele local fora esvaziado de tudo. As prateleiras ficaram totalmente vazias. Mas agora,  luz filtrada que vinha da sala de jantar
(pois a neve bloqueava as janelas), Jack imaginou ver filas e filas de garrafas a brilhar do outro lado do bar, e sifes, e mesmo cerveja a escorrer dos bocais
de trs torneiras impecavelmente areadas. Sim, at sentia o cheiro da cerveja, aquele odor fresco a fermento e a levedura, semelhante ao que o rosto do pai exalava
todas as noites, ao chegar ao trabalho.
De olhos escancarados, Jack procurou o interruptor, e a luz fraca e ntima do bar acendeu-se no cimo de trs rodas de carruagem adaptadas a candeeiros.
As prateleiras estavam todas vazias. Nem sequer tinham ainda ganho uma boa camada de p. As torneiras da cerveja estavam secas, tal como os escoadouros cromados
que havia por baixo delas. A direita e  esquerda, as cabinas forradas de veludo pareciam homens altos, de costas, cada uma delas concebida para proporcionar o
mximo de privacidade ao casal que estava l dentro. Mesmo em frente, atravessando a alcatifa vermelha, viam-se quarenta bancos  volta de um bar em forma de ferradura.
Todos os bancos eram forrados de couro, onde estavam gravados ferros de gado: Circle H, Bar D Bar (este vinha a propsito), Rocking W, Lazy B.
Jack aproximou-se, abanando ligeiramente a cabea, incrdulo. Era como naquele dia no parque infantil, quando... mas no fazia sentido pensar nisso. Mesmo assim,
juraria que tinha visto aquelas garrafas, vagamente,  verdade, tal como se vem as silhuetas dos mveis numa sala em que os cortinados esto corridos. O brilho
do vidro. A nica coisa que ficara era o cheiro da cerveja, e Jack sabia que aquele cheiro se entranhava na madeira de todos os bares, ao fim de algum tempo, e
que ainda no fora inventado nenhum produto de limpeza capaz de o tirar. Contudo, o cheiro aqui era penetrante... quase fresco.
Jack sentou-se num dos bancos e apoiou os cotovelos na bei-
250
ra do bar.  sua esquerda havia uma taa de amendoins  que agora estava vazia,  claro. De h dezanove meses para c era o primeiro bar em que entrava, e no havia
nada para beber  era esta a sua sorte. De qualquer modo, sentiu-se varrido por uma onda de nostalgia, e o desejo fsico de beber fez-se sentir desde a barriga at
 boca e ao nariz, crispando os tecidos, fazendo-os gritar por qualquer coisa hmida e fresca.
Olhou para as prateleiras com uma esperana salvagem e irracional, mas estas estavam to vazias como antes. Sorriu de dor e frustrao. Foi cerrando os punhos,
lentamente, e fez pequenos arranhes no couro da beira do balco.
        Ol, Lloyd. Isto est um pouco parado esta noite, no
est?
Lloyd concordou e perguntou-lhe o que ia tomar.
        Estou satisfeito por me teres perguntado isso  respon
deu Jack.  Estou mesmo satisfeito. Por acaso tenho duas no
tas de vinte e outras duas de dez na carteira e estava com receio
que ficassem l a apodrecer at  Primavera. Aqui no h ne
nhum Setencentos e Onze, acreditas? E eu pensava que havia
Setencentos e Onze at na Lua.
Lloyd mostrou-se compreensivo.
        Aqui vai  disse Jack.  Arranja-me vinte martinis.
Vinte, isso mesmo, p. Um por cada ms que tenho estado na
carruagem e um para continuar. Podes fazer-me isso, no po
des? No ests muito ocupado?
Lloyd disse que no estava muito ocupado.
        Es bom tipo. Alinha-me esses marcianos ao longo do bal
co que eu vou tom-los, um por um.  o fardo do branco,
Lloyd, meu rapaz.
Lloyd voltou-se para fazer o que ele pedira. Jack meteu a mo no bolso  procura da carteira e em vez dela tirou um frasco de Excedrin. A carteira ficara na cmoda
do quarto e,  claro, a magrizela da mulher tinha-se fechado por dentro. Muito bem, Wendy. Filha da me.
        Neste momento parece-me que estou teso  disse Jack.
 Como vai o meu crdito?
Lloyd respondeu que o crdito dele ia bem.
        ptimo. Gosto de ti, Lloyd. Sempre foste.o melhor de
todos. O melhor empregado de bar entre Barre e Portland, no
Maine. Portland, no Oregon, neste caso.
Lloyd agradeceu-lhe o comentrio.
Jack abriu o frasco de Excedrin, tirou dois comprimi-
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dos e meteu-os na boca. Sentiu o gosto cido que lhe era familiar.
De repente, teve a sensao de que as pessoas estavam a olhar para ele, com curiosidade e uma ponta de desprezo. As cabinas atrs de si estavam cheias  havia homens
grisalhos, de ar distinto, e jovens belas, todos eles de fato de noite, divertindo-se com este triste exerccio de arte dramtica.
Jack rodou o banco.
As cabinas estavam todas vazias e estendiam-se desde a porta do salo, para a direita e para a esquerda. A esquerda, contornavam a curvatura do bar e prolongavam-se
pela largura da sala. Tanto as costas como os assentos eram revestidos de couro. Mesas de frmica de cor escura, com um cinzeiro em cada uma, uma carteira de fsforos
em cada cinzeiro, e as palavras So Colorado gravadas a ouro por baixo do logotipo que representava a porta de batentes.
Jack voltou-se para a frente e engoliu o resto do Excedrin com um esgar.
        Lloyd, s uma maravilha  disse.  A tua rapidez s 
superada pela beleza profunda dos teus olhos de napolitano.
Salud.
Jack contemplou as vinte bebidas imaginrias, os copos de martini cheios de gotas de condensao, cada um com um palito espetado numa azeitona verde e carnuda.
Quase sentia o cheiro do gim.
        A carruagem  disse.  J conheceste algum que tenha
subido para a carruagem?
Lloyd respondeu que j conhecera alguns deles.
        E j voltaste a falar com esses homens depois de terem
descido da carruagem?
Para falar com franqueza, Lloyd no se lembrava.
        Ento  porque no  disse Jack.
Pegou no primeiro copo, levando o punho fechado  boca, que estava aberta, e voltou a mo para cima. Engoliu e depois atirou o copo imaginrio por cima do ombro.
L estavam outra vez as pessoas atrs dele, nos seus fatos de noite, a mir-lo, a rir s escondidas. Jack sentia-as. Se ao fundo do bar houvesse um espelho em vez
daquelas estpidas prateleiras vazias, ele t-las--ia visto. Que olhassem. Que fossem para o diabo. Quem quisesse que olhasse.
        No, nunca o fizeste  disse a Lloyd.  Poucos regres
sam da carruagem lendria, mas os que voltam tm sempre uma
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histria aterradora para contar. Quando saltas l para dentro, a carruagem parece-te a mais bonita e a mais limpa que j viste, com o fundo trs metros acima da
valeta onde jazem todos os bbados, com os seus sacos castanhos e as suas garrafas de Bourbon. Ests longe de todas as pessoas que te lanam olhares desagradveis
e que te dizem para te lavares ou para ires para outro lado. Vista da valeta, a carruagem  a mais bonita que j viste, Lloyd, meu rapaz. Cheia de bandeiras, com
um corrimo em frente e trs majorettes de cada lado, movendo os seus bastes e mostrando as cuecas. Homem, devias ir naquela carruagem, longe dos vagabundos que
comem carne enlatada, cheiram os prprios vmitos e vasculham na valeta  procura de pontas de cigarro que pouco mais tm que o filtro.
Jack esvaziou mais dois copos imaginrios e atirou-os por cima do ombro. Quase os ouvia a estilhaarem-se no cho. E raios o partissem se no estava a comear a
sentir-se nas nuvens. Era do Excedrin.
        Ento sobes  disse a Lloyd  e sentes-te satisfeito l
dentro. Meu Deus,  verdade. Essa carruagem  a maior e a
melhor do cortejo, e toda a gente est  beira dos passeios a
bater palmas, a aplaudir e a acenar para vocs. Excepto para os
vagabundos que esto cados na valeta. Antigamente esses tipos
eram vossos amigos, mas agora isso j l vai.
Jack levou a mo vazia  boca e engoliu outro martini  o quarto, e ainda faltavam dezasseis. Estava a fazer grandes progressos. Balanou um pouco no banco. Deix-los
olhar, se se divertem assim. Tirem uma fotografia, rapazes, que isto est para durar.
        Depois, comeas a ver coisas, Lloyd, meu rapaz. Coisas
que no viste quando estavas na valeta. Que o cho da carrua
gem  feito de tbuas de pinho, to verde que ainda escorre
resina, e se tirares os sapatos dars um trambolho. Que o
nico mobilirio da carruagem  constitudo por esses longos
bancos de costas altas e sem almofadas, e que de facto no so
seno bancos de igreja com um livro de cnticos aqui e ali. Que
as pessoas sentadas nos bancos so aquelas aves raras de seios
lisos, vestidos compridos e pequenas golas de renda, com o
cabelo apanhado atrs, de tal modo esticado que quase as ouvi
mos gritar de dor. E que todos os rostos so incaractersticos,
plidos e gordurosos, e que todos cantam: Juntar-nos-emos no
riiiiio, no belo riiiiio. E em frente est aquela filha da me,
loura e desagradvel, a tocar rgo e a incit-los a cantar cada
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vez mais alto. E algum te atira com um livro de cnticos para as mos e diz: Canta, irmo. Se ests  espera de ficar nesta carruagem, tens de cantar de manh,
 tarde e  noite. Especialmente  noite. E  ento que te apercebes verdadeiramente do que  a carruagem, Lloyd.  uma igreja com grades nas janelas, uma igreja
para as mulheres e uma priso para ti.
Jack calou-se. Lloyd fora-se embora. Pior ainda, nunca ali estivera. Nunca houvera ali bebidas. S as pessoas nas cabinas, as pessoas em fato de noite. Ouvia o seu
riso abafado ao levarem a mo  boca e apontarem para ele com um brilho cruel no olhar.
Jack voltou-se de novo.        i
        Deixem-me...        u
(Sozinho?)
Todas as cabinas estavam vazias. O som do riso desvanecera--se como o murmrio das folhas de Outono. Durante algum tempo Jack ficou a olhar para o salo vazio, com
um ar sombrio. Sentia distintamente uma veia a latejar no meio da testa. No seu ntimo nascia uma fria certeza  estava a perder o juzo. Teve vontade de pegar
no banco do lado, volt-lo de pernas para o ar e devastar aquele stio como se fosse um furaco. Em vez disso, voltou-se para o bar e comeou a cantarolar: Roll
me over In the clo-ho-ver, Roll me over, lay me down and do it again.
Na sua mente surgiu a imagem do rosto de Danny, no o seu rosto normal, vivo e atento, de olhos brilhantes e observadores, mas o rosto de um morto-vivo, de um estranho,
de olhar bao, de dedo na boca como se fosse um beb. O que estava ele a fazer ali sentado, a falar sozinho como se fosse um adolescente de mau humor, quando o filho
estava algures l em cima, agindo como um recluso, como Wally Hollis dissera que Vic Stenger se portara diante dos homens de bata branca que tinham vindo busc-lo?
(Mas eu nunca lhe pus a mo! Deus sabe que no o fiz!)
        Jack?
A voz era tmida e hesitante. Jack ficou to admirado que quase caiu ao voltar-se no banco. Wendy estava junto da porta de batentes. Trazia ao colo Danny, que parecia
um boneco de cera de um filme de terror. Os trs formavam um quadro de que Jack se apercebeu com muita nitidez: era o momento antes de cair o pano sobre o segundo
acto de uma pea antiga que
254
apelava  abstinncia, uma pea montada com to fracos recursos que o cengrafo se esquecera de encher as prateleiras do Antro da Iniquidade.
Nem lhe toquei  disse Jack.  Nunca mais lhe toquei
desde a noite em que lhe parti o brao. Nem sequer lhe bati.
Jack, isso no interessa agora. O que interessa...
Ai isso  que interessa!  gritou Jack.  Interessa, que
diabo, interessa!
E deu um murro no balco com fora suficiente para fazer saltar as taas de amendoins.
        Jack, temos de lev-lo daqui para fora. Ele...
Danny comeou a mexer-se no colo de Wendy. A sua expresso frouxa e vazia comeara a quebrar-se como um pedao de gelo numa superfcie adormecida. Torceu a boca
como se estivesse a sentir um gosto esquisito. Abriu muito os olhos. Levantou as mos como se fosse tap-los e depois deixou-as cair.
De repente, endireitou-se no colo da me. O corpo arqueou--se-lhe de tal modo que Wendy cambaleou. E de repente comeou a gritar, como se tivesse enlouquecido.
O rudo dos seus gritos parecia encher as escadas e voltar para cima, ao encontro deles, como se fosse um esprito mau. Parecia haver muitos Danny a gritar ao mesmo
tempo.
        Jack!  gritou Wendy aterrada.  Oh, meu Deus, o que
se passa com ele?
Jack desceu do banco, como se fosse um autmato. Nunca estivera to assustado na sua vida. Em que buraco estivera o seu filho? Em que ninho escuro? E o que o picara?
        Danny! Danny!  berrou.
Danny viu-o. Libertou-se da me com um puxo e Wendy nem teve tempo de segur-lo. Tropeou num dos bancos e por pouco no caiu.
        Pap!  gritou, correndo para Jack, de olhos muito aber
tos e assustados.  Oh, pap, foi ela! Ela! Ela! Oh, papaaaaa-
aa...
Precipitou-se para os braos de Jack como se fosse uma seta. Jack cambaleou. Danny agarrou-se furiosamente a ele. A princpio parecia estar a soc-lo, mas depois
agarrou-se-lhe ao cinto e comeou a soluar encostado  camisa do pai. Jack sentiu o rosto quente do filho na barriga.
Pap, foi ela.
Lentamente, Jack olhou para o rosto de Wendy. Os seus olhos lembravam duas pequenas moedas de prata.
I        255
        Wendy? Wendy, o que lhe fizeste?
A sua voz era calma, quase terna.
Wendy olhou para ele, plida e incrdula. Abanou a cabea.
        Oh, Jack, tens obrigao de saber...
L fora comeara outra vez a nevar.
29
A CONVERSA NA COZINHA
Jack levou Danny para a cozinha. O mido continuava a soluar convulsivamente, recusando-se a tirar a cara do peito do pai. J na cozinha, Jack deu Danny a Wendy,
que parecia ainda surpreendida e incrdula.
Jack, no sei do que est ele a falar. Por favor, tens de
acreditar nisto.
Eu acredito  respondeu Jack, embora tivesse de admitir
para si prprio que lhe dava uma certa satisfao verificar que a
situao se tinha invertido com uma rapidez espantosa e ines
perada. Mas a sua fria contra Wendy fora apenas passageira.
No ntimo sabia que Wendy mais depressa despejaria uma lata
de gasolina em cima de si prpria e lhe chegaria um fsforo do
que faria mal a Danny.
A chaleira estava em cima do fogo, com um lume baixo. Jack ps uma carteira de ch dentro da sua grande chvena de porcelana e encheu-a de gua quente at ao meio.
Tens xerez aqui na cozinha, no tens?  perguntou a
Wendy.
O qu? Ah, claro. H para a duas ou trs garrafas.
Em que armrio?
Wendy apontou e Jack tirou uma das garrafas para baixo. Deitou um gole na chvena, guardou o xerez e acabou de encher a chvena de leite. Depois acrescentou trs
pequenas colheres de acar e mexeu. Estendeu a chvena a Danny, que deixara de soluar e se tinha engasgado. Mas continuava a tremer e tinha os olhos esbugalhados
e fixos.
        Bebe isto, p  disse Jack.  Vai saber-te mal, mas sen
tir-te-s melhor. Bebes isto pelo pap.
Danny fez um sinal afirmativo e pegou na chvena. Bebeu
256
um gole, fez uma careta e olhou para Jack com um ar interroga-dor. Jack fez-lhe sinal para que bebesse mais e Danny bebeu outro gole. Wendy sentiu uma ponta de cime
que j lhe era familiar, pois sabia que o filho no faria aquilo se ela lhe pedisse.
A este pensamento seguiu-se outro, desagradvel, assustador mesmo: gostaria mesmo que Danny tivesse acusado Jack? Era assim to ciumenta? Era assim que a me teria
reagido se soubesse o que tinha acontecido. Wendy lembrava-se de um domingo em que o pai a levara ao jardim, ela cara no parque infantil e aleijara-se nos joelhos.
Quando o pai a levou para casa, a me gritou com ele: Que lhe fizeste? Porque no tomaste conta dela? Que espcie de pai s tu?
(A me hostilizou-o at  morte; quando o pai se divorciou dela, j era demasiado tarde.)
Wendy nunca concedera a Jack o benefcio da dvida. Nem uma nfima parte. Wendy sentiu-se corar, embora soubesse que se a situao se repetisse ela voltaria a sentir
o mesmo, como se fosse algo de inevitvel. Herdara da me certas facetas de carcter, para bem ou para mal.
        Jack...
No tinha a certeza se ia pedir desculpa ou justificar-se. De qualquer modo, sabia que seria em vo.
        Agora no  disse Jack.
Danny levou um quarto de hora a beber meia chvena, e depois ficou visivelmente mais calmo. Os tremores j quase tinham desaparecido.
Jack ps as mos nos ombros do filho, com um ar solene.
        Danny, achas que consegues contar-nos exactamente o
que te aconteceu?  muito importante.
Danny olhou para Jack, depois para Wendy e em seguida para Jack. Naquele intervalo de silncio tiveram conscincia da sua situao: o uivo do vento l fora, puxando
a neve de nordeste, o estalido e o gemido do hotel, como se estivesse a ser varrido por outra tempestade. O isolamento dos Torrance apanhou Wendy de surpresa,
como acontecia de vez em quando, como se fosse uma pontada no corao.
        Eu quero... contar tudo  disse Danny.  Quem me
dera t-lo feito antes.
Pegou na chvena e manteve-se com ela na mo, como se o calor o confortasse.
        Porque no o fizeste, filho?
257
Jack passou a mo pelo cabelo revolto e suado de Danny, afastando-o da testa.
        Porque o tio Al lhe tinha arranjado o emprego. E eu no
conseguia perceber que ficar aqui era para si bom e mau ao
mesmo tempo. Era...
Danny olhou para ambos,  espera de ajuda. No lhe vinha  ideia a palavra exacta.
        Um dilema?  perguntou Wendy com doura. 
Quando nenhuma das alternativas nos parece boa?
        Sim, isso mesmo  concordou Danny, aliviado.
Wendy disse:
        No dia em que foste aparar as sebes, Danny e eu tivemos
uma conversa no camio. No dia em que comeou a nevar a
srio. Lembras-te?
Jack fez um sinal afirmativo. Lembrava-se muito bem do dia em que aparara as sebes. Wendy suspirou.
        Acho que no conversmos o suficiente, pois no, p?
Danny, a imagem da angstia, abanou a cabea.
Do que falaram exactamente?  perguntou Jack.  No
sei at que ponto gosto que a minha mulher e o meu filho...
... falem de quanto gostam de ti? *
Seja o que for,  uma coisa que eu no percebo.  como se
tivesse chegado ao cinema depois do intervalo do filme.
Estivemos a falar de ti  prosseguiu Wendy, tranquila
mente.  Talvez no o tenhamos dito por palavras, mas ambos
sabamos que era de ti que falvamos. Eu porque sou tua mu
lher e Danny porque... compreende as coisas.
Jack manteve-se calado.
Danny ps a questo de uma forma correcta. O stio pare
cia bom para ti. Estavas longe das presses que te tinham feito
sofrer tanto em Stovington. Eras patro de ti mesmo, trabalha
vas com as mos e poupavas o crebro (inteiramente) para os
teus livros. Depois... No sei exactamente quando... este stio
comeou a parecer mau para ti. Passavas o tempo na cave, a
rebuscar naqueles papis velhos, naquela velha histria. Come
aste a falar enquanto dormias...
Enquanto dormia?  perguntou Jack com um ar sur
preendido e cauteloso.  Eu falo quando estou a dormir?
A maior parte das vezes no se percebe o que dizes. Uma
vez levantei-me para ir  casa de banho e tu estavas a dizer:
Para o diabo com isso, nunca ningum soube e nunca nin-
258
gum h-de saber. Noutra altura acordaste-me, praticamente a gritar: Tirem as mscaras, tirem as mscaras, tirem as mscaras.
Meu Deus  disse Jack, passando a mo pela cara, com
um ar adoentado.
E tambm os velhos hbitos do tempo em que bebias.
Mastigar Excedrin, estares sempre a limpar a boca. O mau hu
mor da manh. E ainda no conseguiste acabar a pea, pois
no?
No, ainda no, mas  apenas uma questo de tempo.
Tenho andado a pensar noutra coisa... num projecto novo...
O hotel. O projecto que levou Al a telefonar-te. Aquele
que ele queria que abandonasses.
Como sabes?  perguntou Jack, irritado.  Estiveste a
escutar? Tu...
No  respondeu Wendy.  No poderia ter escutado,
mesmo que quisesse, e chegas a essa concluso se pensares com
calma. Nessa noite, Danny e eu estvamos l em baixo. A cen
tral est desligada. O telefone l de cima  o nico que funciona
no hotel, porque tem uma linha directa para o exterior. Foste
tu que mo disseste.
Ento como souberam o que me disse Al?
Foi Danny que me contou. Da mesma maneira que s
vezes ele descobre onde esto coisas que se perderam, ou sabe
que as pessoas esto a pensar em divorciar-se.
O mdico disse...
Wendy abanou a cabea, impaciente.
        O mdico s disse tretas e ns sabemo-lo. Sempre o sou
bemos. Lembras-te quando Danny disse que queria ir ver os
carros dos bombeiros? No era a fingir. Era um beb. Ele sabe
coisas. E agora receio...
Wendy olhou para as feridas que Danny tinha no pescoo.
        Soubeste mesmo que o tio Al me tinha telefonado, Dan
ny?
Danny fez um sinal afirmativo.
Ele estava mesmo zangado, pap. Porque o pap telefo
nou ao senhor UUman e o senhor UUman telefonou-lhe a se
guir. O tio Al no queria que o pap escrevesse nada sobre o
hotel.
Meu Deus!  disse Jack.  As feridas, Danny. Quem
tentou estrangular-te?
O rosto de Danny ensombrou-se.
259
        Ela  respondeu.  A mulher que est naquele quarto.
No duzentos e dezassete. A mulher morta.
A boca recomeou a tremer-lhe. Danny pegou na chvena e bebeu um gole.
Jack e Wendy trocaram um olhar assustado enquanto ele estava de cabea baixa.
Sabes alguma coisa disto?  perguntou Jack  mulher.
Wendy abanou a cabea.
Sobre isto no.
Danny...
Com a mo, Jack levantou o rosto assustado do filho.
Tenta, filho. Ns estamos aqui.
Eu sabia que havia qualquer coisa m l dentro  disse
Danny em voz baixa.  Mesmo quando ainda estvamos em
Boulder. Porque Tony me mostrou isso em sonhos.
Que sonhos?
No me lembro de tudo. Ele mostrou-me o Overlook 
noite, com uma caveira e uns ossos cruzados  frente. E havia
barulho. Qualquer coisa... no me lembro o qu... a correr
atrs de mim. Um monstro. Tony mostrou-me o Oinissassa.
        O que  isso, p?  perguntou Wendy.
Danny abanou a cabea.
No sei. Depois viemos para aqui e o senhor Hallorann
teve uma conversa comigo no carro. Porque ele tambm tem
brilho.
Brilho?
...
Danny fez um gesto amplo com as mos.
 ser capaz de compreender coisas. Saber coisas. s vezes
ns vemos coisas. Por exemplo, eu saber que o tio Al tinha
telefonado. E o senhor Hallorann saber que vocs me tratam
por p. O senhor Hallorann estava a descascar batatas na tropa
quando soube que o irmo morrera num desastre de comboios.
 quando chegou a casa, era verdade.
Meu Deus  suspirou Jack.  Ests a inventar tudo,
no ests, Dan?
Danny abanou a cabea violentamente.
        No, juro que no.
Depois, com uma ponta de orgulho, acrescentou:
        O senhor Hallorann disse que eu brilhava mais do que
outra pessoa qualquer que ele conhecesse. Podamos falar um
com o outro quase sem abrir a boca.
260
Os pais voltaram a trocar um olhar que denotava uma sincera admirao.
O senhor Hallorann quis ficar comigo a ss porque estava
preocupado  prosseguiu Danny.  Ele disse que este stio
era mau para as pessoas que brilhavam. Disse-me que vira coi
sas. Eu tambm vi qualquer coisa. Logo a seguir  nossa con
versa. Quando o senhor UUman andava a mostrar-nos o hotel.
O que foi?  perguntou Jack.
Na Suite Presidencial. Na parede, junto da porta da casa
de banho. Muito sangue e outra coisa. Qualquer coisa que es
pirrara para a parede. Acho... que eram miolos.
Oh, meu Deus!  disse Jack.
Wendy estava agora muito plida, com os lbios quase roxos.
Este stio...  disse Jack.  Aconteceram aqui coisas
muito ms no passado. Com pessoas de uma organizao de
Las Vegas.
Criminosos?  perguntou Danny.
        Sim, criminosos.
Jack olhou para Wendy.
Em 1966, um grande criminoso chamado Vittorio Gienel-
li foi morto aqui, juntamente com os seus dois guarda-costas.
Veio uma fotografia no jornal. Danny acabou precisamente de
descrever essa fotografia.
O senhor Hallorann disse que viu outras coisas  conti
nuou Danny.  Uma vez, no parque infantil. Doutra vez foi
qualquer coisa m no quarto duzentos e dezassete. Uma criada
 que viu e perdeu o emprego por ter falado nisso. Ento o
senhor Hallorann foi l acima e viu tambm. Mas no falou
nisso porque no queria perder o emprego. Mas disse-me que
nunca fosse l. Mas eu fui. Porque acreditei nele quando me
disse que as coisas que vemos no podem magoar-nos.
As ltimas palavras de Danny foram quase sussurradas. Danny levou a mo ao pescoo e tocou nas feridas.
O que h com o parque infantil?  perguntou Jack com
uma voz estranha, fingindo um tom casual.
No sei. S falou do parque infantil. E dos animais da
sebe.
Jack deu um salto e Wendy olhou para ele com um ar de curiosidade.
        Viste alguma coisa l, Jack?
        No. Nada  respondeu Jack.        p
Danny estava a observ-lo.                             -j>k,           ?-')
261
        Nada  repetiu Jack, j mais calmo.
E era verdade. Fora vtima de uma alucinao. Mais nada.
        Danny, tens de falar-nos da mulher  disse Wendy com
ternura.
Ento Danny contou-lhes o que se passara, mas as palavras saam-lhe em catadupas cclicas; por vezes limitavam-se a um balbuciar quase incompreensvel, na sua pressa
de desabafar e se ver livre daquilo. Agarrava-se cada vez mais ao peito da me enquanto falava.
        Eu entrei. Tirei a chave e entrei. Era como se no pudesse
deixar de o fazer. Tinha de saber. E ela... a senhora... estava na
banheira. Estava morta. Toda inchada. Estava nu... nu... no
tinha roupa.
Danny olhou para a me com um ar angustiado.
        E comeou a levantar-se e a vir atrs de mim. Eu sei por
que a sentia. Ela no estava a pensar, como a mam e o pap
pensam. Era s para fazer mal... como... como as vespas na
quela noite, no meu quarto! S queria fazer mal. Como as ves
pas.
Danny engoliu em seco e fez-se um silncio por instantes, enquanto todos reviviam o episdio das vespas.
        Ento, desatei a correr  disse Danny.  Corri para a
porta, que estava fechada. Nem me lembrei de abri-la para
sair. Estava assustado. Por isso... encostei-me  porta, fechei os
olhos e lembrei-me que o senhor Hallorann me dissera que
aquelas coisas eram como gravuras de um livro e que, se eu
continuasse a dizer para mim mesmo... no ests aqui, vai-te
embora, no ests aqui..., ela ir-se-ia embora. Mas isso no
deu resultado.
A voz de Danny comeou a subir histericamente de tom.
Ela agarrou-me... Voltou-me para ela... E eu vi-lhe os
olhos... vi como eram os olhos dela... E ela comeou a estran
gular-me... Eu senti-lhe o cheiro... Eu senti que ela estava
morta...
Agora cala-te, chiu  disse Wendy, alarmada.  Cala-
-te, Danny. Est tudo bem. E...
Wendy preparou-se para o consolar. Wendy Torrance, a consoladora em todas as circunstncias. Festinhas, cuidados.
Deixa-o acabar  disse Jack com rudeza.
No h mais nada  disse Danny.  Desmaiei. Ou por
que ela estava a sufocar-me ou porque eu estava assustado.
Quando voltei a mim, estava a sonhar que o pap e a mam
I
262
estavam a brigar por minha causa e queriam fazer outra vez a Coisa Feia, pap. Ento, tive a certeza de que no fora um sonho... E que eu estava acordado... e...
fiz chichi nas calas. Fiz chichi nas calas como se fosse um beb.
Danny deixou cair a cabea sobre o peito de Wendy e come
ou a chorar, com o corpo inerte.        <
Jack levantou-se.        t
Toma conta dele.        j
O que vais fazer?  perguntou Wendy, aterrada.        , >
Vou l acima quele quarto. O que pensavas que eu i
fazer? Beber um caf?        
No! Jack, no faas isso, por favor!        > t
Wendy, se h mais algum no hotel temos de saber.    , \
No te atrevas a deixar-nos sozinhos!  gritou Wendy $
cuspindo saliva com a fora dos gritos.
Jack disse:
        Mas que notvel imitao da tua me, Wendy!
Ento Wendy desatou a chorar, sem poder esconder a cara, porque Danny estava ao seu colo.
        Desculpa  disse Jack.  Mas tenho de ir, percebes?
Sou o vigilante.  para isso que me pagam.
Wendy limitou-se a chorar ainda mais. Jack deixou-a assim, saiu da cozinha a limpar a boca ao leno e fechou a porta atrs de si.
        No se preocupe, mam. No vai acontecer-lhe nada. Ele
no brilha. Ningum aqui pode fazer-lhe mal  disse Danny.
No meio das lgrimas, Wendy respondeu:
        Est bem, acredito que sim.
 30 O 217 REVISITADO
Jack puxou o elevador para cima, o que era estranho porque nenhum deles o utilizara desde que chegara. Rodou o puxador de lato e o elevador comeou a subir ao longo
do cabo, estremecendo e fazendo um rudo desagradvel. Jack sabia que Wendy tinha um medo verdadeiramente claustrofbico do aparelho. Imaginava os trs presos entre
dois andares enquanto
263
a tempestade rugia l fora. Via-os a ficarem cada vez mais magros at morrerem de fome. Ou talvez a comerem-se uns aos outros, tal como acontecera aos jogadores
de rguebi. Jack lembrava-se de um cartaz que vira em Boulder: jogadores de rguebi comem a sua prpria carne. E lembrava-se de outros. voc  o que come. Ou de
pratos de ementas. Bem-vindos  sala de jantar do Overlook, orgulho das Montanhas; Coma em pleno esplendor no Tecto do Mundo; Pernas humanas no churrasco, Ia
spcialit de Ia maison. Jack sorriu de desprezo. Quando o nmero dois apareceu na parede, Jack ps o puxador de lato na sua posio inicial e o elevador chiou
e parou. Jack tirou o frasco de Excedrin da algibeira, deixou cair trs comprimidos e abriu a porta do elevador. No havia nada no Overlook que lhe metesse medo.
Sentia que havia entre ambos uma boa relao.
Enquanto caminhava, fazia saltar na boca o Excedrin e mastigava um por um. Voltou a esquina que separava um pequeno corredor do corredor principal. A porta do 217
estava aberta de par em par, e a chave, com o seu rtulo branco, estava na fechadura.
Jack franziu o sobrolho, sentindo uma onda de irritao e de verdadeira raiva. O que quer que se tivesse passado, o mido prevaricara. Tinham-lhe dito e redito que
no deveria ir a certas zonas do hotel:  arrecadao,  cave e aos quartos de hspedes. Assim que Danny estivesse refeito do susto falaria com ele. Com calma
mas com firmeza. Havia muitos pais que fariam mais do que isso. Ter-lhe-iam dado uma boa tareia, e talvez fosse disso que Danny estava a precisar. Se apanhara um
susto, no fora pelo menos por sua prpria culpa?
Jack aproximou-se da porta, tirou a chave da fechadura, meteu-a no bolso e entrou. A luz do candeeiro de cima estava acesa. Olhou para a cama e viu que no estava
amachucada, e depois encaminhou-se para a casa de banho. Curiosamente, tinha a certeza de uma coisa. Embora Watson no tivesse mencionado nomes nem nmeros de
quartos, Jack tinha a certeza de que este era o quarto que a mulher do advogado e o amante tinham partilhado, que esta era a casa de banho onde ela fora encontrada
morta, cheia de barbitricos e de lcool do Salo Colorado.
Empurrou a porta da casa de banho, que tinha um espelho do lado de dentro, e entrou. A luz estava apagada. Jack acendeu-a e observou a vasta diviso, que lembrava
um Pullman,
264
decorada  maneira caracterstica dos princpios do sculo xix e remodelada nos anos 20. Esta decorao era comum a todas as casas de banho do Overlook, com excepo
do terceiro andar  estas eram verdadeiramente luxuosas, preparadas para receber reis, polticos, estrelas de cinema e militares, que ali tinham ficado hospedados
ao longo dos anos.
A cortina da banheira, de um tom rosa-plido, estava corrida ao longo da grande banheira de ps curvos.
(No entanto estes mexiam-se.)
E pela primeira vez experimentou esta nova sensao de segurana (quase de arrogncia) que j tivera no momento em que Danny correra para ele a gritar Foi ela!
Foi ela!. Sentiu um dedo gelado ao fundo da espinha, que o arrefeceu por completo. Seguiram-se outros, que de repente comearam a percorr-lo de cima para baixo,
como se a sua espinha fosse um instrumento primitivo.
A fria que sentia por Danny evaporou-se, e quando deu um passo em frente e arredou a cortina da banheira, ficou com a boca seca e sentiu compaixo pelo filho.
A banheira estava seca e vazia.
Um misto de alvio e de irritao fez com que Jack deixasse escapar um sbito Ah!, como se fosse uma pequena exploso. A banheira fora limpa no fim da temporada:
 parte a mancha de ferrugem que havia debaixo das torneiras, estava a brilhar. Havia um cheiro fraco mas reconhecvel a detergente, do gnero daqueles que nos;irritam
o nariz durante semanas e mesmo meses depois de terem sido utilizados.
Jack inclinou-se e passou os dedos pelo fundo da banheira. Estava seca como um osso. Nem vestgios de humidade. O mido ou tivera uma alucinao ou mentira descaradamente.
Voltou a sentir-se irritado. Foi ento que o tapete de banho lhe chamou a ateno. Jack franziu o sobrolho. O que estava ali a fazer um tapete de banho? Devia estar
l em baixo, no armrio da roupa, ao fundo, junto dos lenis, das toalhas e das fronhas. Toda a roupa estava l. Nos quartos de hspedes nem mesmo as camas estava
feitas; os colches tinha sido enfiados numas bolsas de plstico e depois cobertos com as colchas. Estava convencido de que Danny fora l abaixo busc-lo, e que
a chave teria aberto o armrio; mas porqu? Passou os dedos pelo tapete vrias vezes. Estava completamente seco.
Encaminhou-se para a porta e parou. Estava tudo em ordem. O rapaz tivera um sonho. No havia um objecto fora do lugar.
265
Reconhecia que a questo do tapete era um pouco estranha, mas a explicao lgica era que alguma criada, com as pressas do ltimo dia, se esquecera de o apanhar.
A parte disso, tudo estava...
As narinas dilataram-se-lhe um pouco. Aquele cheiro a desinfectante e a limpo. E...
A sabonete?
Claro que no. Mas uma vez identificado o cheiro, era difcil neg-lo. A sabonete. E no era um desses pedaos de Ivoty, de tamanho de um bilhete-postal, que davam
nos hotis, nos motis, etc. Este cheiro era suave e perfumado, um sabonete de senhora. Tinha um aroma adocicado. Era Camay ou Lowila, as marcas que Wendy sempre
usara quando viviam em Stovington.
(No  nada. E a tua imaginao.)
(Sim, como as sebes, no entanto elas mexeram-se.)
(Elas no se mexeram.)
Esgueirou-se para a porta que dava para o corredor, sentindo nas tmporas o bater irregular de uma dor de cabea. Naquele dia tinham acontecido coisas de mais. No
iria dar uma tareia no filho nem ralhar com ele, apenas falar-lhe, mas por Deus que ele no fosse acrescentar o quarto 217  lista dos seus problemas. No na base
de um tapete de banho seco e num cheiro suave a sabonete Lowila. Ele...
Em seguida, controlou-se um pouco, apesar de tudo. Largou o puxador da porta e voltou-se devagarinho. As suas articulaes estalaram. Comeou a encaminhar-se de
novo para a casa de banho, lentamente, pesadamente.
A cortina da banheira, que ele arredara para ver o que estava l dentro, estava agora corrida. O som metlico, que lhe parecera um rudo de ossos numa cripta, fora
provocado pelos aros da cortina deslizando ao longo do varo. Jack observou a cortina. O seu rosto parecia coberto de uma espessa camada de cera; completamente
inerte por fora e vivo, tomado pelo medo, por dentro. Fora assim que se sentira no parque infantil.
Havia qualquer coisa atrs da cortina de plstico cor-de-rosa. Havia qualquer coisa dentro da banheira.
Atravs do plstico, Jack via uma coisa quase amorfa, de
contornos mal definidos. Podia ser uma iluso de ptica.
A sombra do chuveio. Uma mulher morta h muito tempo e
reclinada na banheira, com um sabonete Lowila numa das
mos hirtas enquanto aguardava pacientemente a chegada de
um amante.        
266
I
Jack disse a si mesmo que ia ter a coragem de avanar e de arredar a cortina. De se expor ao que quer que houvesse ali. Em ve2 disso, voltou-se desajeitadamente,
com um gesto de fantoche, e voltou para o quarto-sala com o corao a bater-lhe com fora no peito.
A porta que dava para o corredor estava fechada.
Por instantes ficou a olhar para ela, imvel. Apercebia-se agora do seu prprio terror. Alojara-se-lhe na parte de trs da garganta sob a forma de um gosto a cerejas.
Dirigiu-se para a porta com os mesmos gestos desajeitados e forou os dedos a rodarem o puxador.
(No vai abrir.)
Mas abriu.
Jack apagou a luz com um gesto desastrado, saiu para o corredor e puxou a porta sem olhar para trs. L dentro, pareceu ouvir um som esquisito, distante, como se
qualquer coisa tivesse sado da banheira, para cumprimentar um visitante, se tivesse apercebido de que o visitante se ia embora antes de cumprir todas as formalidades
sociais e corresse agora para a porta, arroxeada e a sorrir, para convidar o visitante a entrar de novo. Talvez para sempre...
Eram passos a aproximarem-se ou apenas as palpitaes nos ouvidos?
Jack levou a mo  chave. Pareceu-lhe ferrugenta, com dificuldade em rodar na fechadura. Jack fez mais fora. O ferrolho cedeu de repente e Jack recuou at  parede
oposta, deixando escapar um suspiro de alvio. Fechou os olhos e todas as velhas frases comearam a desfilar na sua mente... pareciam ser s centenas;
(tresloucando no era a brincar com um monte de belindres o tipo foi desvairado subiu e desceu pelo lado mais alto perdeu o desafio de futebol e ficou doido) tudo
isto significava o mesmo: perder o juzo.
 No  lamuriou, sem saber exactamente aquilo a que estava reduzido, choramingando de olhos fechados, como uma criana.  Oh, no, meu Deus! Por favor, meu Deus,
no!
Mas no meio do caos dos seus pensamentos, no meio do bater forte do seu corao, ouviu o rudo fraco e insignificante do puxador da porta a girar, como se qualquer
coisa l dentro tentasse desesperadamente sair, qualquer coisa que queria vir ao seu encontro, que queria ser apresentada  sua famlia como se a tempestade rugisse
 volta deles e a luz clara do dia se trans-
267
formasse em noite escura. Se ele abrisse os olhos e visse o puxador a mexer, enlouqueceria. Por isso manteve-os fechados, e depois de um perodo de tempo incalculvel
fez-se silncio.
Jack forou-se a abrir os olhos, meio convencido de que ao faz-lo ela estaria na sua frente. Mas o corredor estava vazio.
Mesmo assim, continuava a sentir-se observado.
Olhou para o ralo que havia no meio da porta e perguntou a si prprio o que acontecria se se aproximasse e espreitasse por ele. Que olho encontraria do outro lado?
Os seus ps mexeram-se (No me falhem agora.)
sem que se apercebesse disso. Afastou-se da porta e comeou a andar pelo corredor, mal pisando a passadeira azul e negra. Parou a meio das escadas e olhou para o
extintor. Pareceu-lhe que as pregas da lona estavam dispostas de maneira um pouco diferente. E tinha quase a certeza de que a roldana de lato estava voltada para
o elevador quando subira. Agora estava voltada para o outro lado.
 Nem sequer reparei naquilo  disse Jack Torrance com voz audvel.
O seu rosto estava plido e desfigurado e a boca forava-se a sorrir.
Mas no apanhou o elevador para descer. Parecia-se demasiado com uma boca aberta. Demasiado. Foi pelas escadas.
31
0 VEREDICTO
Jack entrou na cozinha e olhou para eles, balouando a chave na mo esquerda, fazendo tilintar a corrente no rtulo de metal branco e depois apanhando-a de novo.
Danny estava plido e exausto. Wendy estivera a chorar, apercebeu-se disso; tinha os olhos vermelhos e com olheiras. Jack sentiu uma sbita satisfao. No estava
a sofrer sozinho, de certeza absoluta.
Olhou para eles sem dizer nada.
 Nada h nada l em cima  disse, admirado com o tom vigoroso da sua voz.  Absolutamente nada.
Balouou a chave na mo, sorrindo para eles com um ar con-
268
fante, vendo o alvio voltar-lhes ao rosto e pensou que nunca na vida desejara tanto uma bebida como naquele momento.
32
0 QUARTO
Ao fim da tarde, Jack foi buscar um div ao quarto de arrumaes do primeiro andar e p-lo a um canto do quarto onde ele e Wendy dormiam. Wendy esperava que o filho
levasse muito tempo a adormecer, mas Danny comeou a cabecear antes de a srie Os Waltons acabar, e um quarto de hora depois de o terem deitado estava a dormir,
imvel, com uma das mos debaixo da face. Wendy sentou-se ao p dele a observ-lo marcando com o dedo a pgina do livro que estava a ler, uma edio de bolso de
Cashelmara. Jack sentou-se  secretria, olhando para a sua pea.
        Oh, merda!  disse.
Wendy desviou a sua ateno de Danny.        ?   i ..1
O qu?        ?'-'??-*?'?
Nada.
Jack voltou a olhar para a pea com uma irritao crescente. Como podia ter pensado que a pea era boa? Que infantilidade! J fora feita e refeita um cento de vezes.
Pior do que isso, no fazia ideia como iria acab-la. Em tempos parecera-lhe simples. Denker, num acesso de fria, pega no atiador que est junto da lareira e espanca
Gary at  morte. Depois, de p junto do corpo, com o atiador ensanguentado na mo, grita para a assistncia: Est aqui, em qualquer lado, e hei-de descobri-lo!
Em seguida, quando as luzes se apagam e o pano desce lentamente, o pblico v o corpo de Gary por terra enquanto Denker vasculha na estante e comea a tirar os
livros das prateleiras, com frenesim, a olhar para eles e a p-los de lado. Jack pensara que se tratava de algo suficientemente antigo para parecer novo, uma pea
cuja novidade s por si seria suficiente para provocar uma onda de xitos ^a Broadway: uma tragdia em cinco actos.
Mas, a juntar ao seu interesse repentino pela histria do Overlook, acontecera outra coisa. Comeara a experientar sentimentos opostos pelas suas personagens. Em
geral gostava de
269
todas elas, das boas e das ms. E isso dava-lhe satisfao. Permitia-lhe tentar ver todas as suas facetas e compreender melhor as suas motivaes. O seu conto favorito,
que vendera a uma pequena revista do Sul do Maine chamada Contraband for Copies, tinha o ttulo de The Monkey is Here, Paul Delong. Contava a histria de um molestador
de crianas  beira de se suicidar no seu quarto. O molestador de crianas chamava-se Paul Delong, Monkey para os amigos. Jack simpatizara com as necessidades extravagantes
de Monkey, sabendo que ele no era o nico responsvel pelas trs violaes seguidas de assassnio do seu passado. Tivera um mau ambiente familiar. O pai gostava
de bater, tal como o seu, e a me, tal como a sua, era uma mulher fraca que sofria em silncio. Houvera uma experincia homossexual na escola primria. A humilhao
pblica. Experincias ainda piores no liceu e na faculdade. Fora preso e metido numa casa de correco depois de ter sido apanhado num acto de exibicionismo perante
duas rapariguinhas que vinham a descer do autocarro da escola. Pior do que tudo, fora mandado embora da casa de correco e atirado para a rua porque o responsvel
pela instituio decidira que ele j estava curado. Este homem chamava-se Grimmer. Grimmer sabia que Monkey Delong apresentava sintomas de desvios, mas redigira
o relatrio favorvel e esperanoso que o pusera em liberdade. Jack tambm gostava de Grimmer e simpatizava com ele. Grimmer tinha de dirigir uma instituio com
pouco pessoal e com fundos escassos e de tentar aguentar tudo aquilo com os fracos recursos advindos de uma legislatura estatal que tinha de enfrentar os eleitores.
Grimmer sabia que Monkey poderia interferir com outras pessoas, que no iria sujar as mos nem tentar apunhalar os seus companheiros com uma tesoura. No estava
convencido de que era Napoleo. O psiquiatra encarregado do caso de Monkey pensava que havia muitas possibilidades de Monkey actuar na rua, e ambos sabiam que
quanto mais tempo um homem est internado mais necessidade vem a sentir daquele ambiente de clausura, como um animal precisa do chicote. E, entretanto, havia gente
a deitar as portas abaixo. Paranicos, esquizides, ciclides, semicatatnicos, homens que afirmavam ter ido ao cu em discos voadores, mulheres que tinham queimado
os rgos sexuais dos filhos com isqueiros Bic, alcolicos, piromanacos, cleptomanacos, maniacodepres-sivos, suicidas. Que mundo co! Se no nos segurarmos com
fora, andaremos aos tombos e morreremos antes dos trinta.
270
Jack entendia o problema de Grimmer. Entendia os pais das vtimas de assassnio. E simpatizava com as prprias crianas assassinadas, evidentemente. E com Monkey
Delong. Deixava ao leitor a tarefa das acusaes. Naquela altura no queria ser juiz. No lhe assentava bem a capa de moralista.
Comeara a escrever The Little School com a mesma veia optimista. Mas ultimamente comeara a tomar partido e, pior ainda, comeara a odiar o seu heri, Gary Benson.
Originariamente concebido como um rapaz brilhante, que queria acima de tudo conseguir boas notas para poder entrar numa boa universidade,  custa do seu mrito
e no apenas por o pai ter movido influncias, tornara-se para Jack um indivduo afectado, um postulante diante do altar do conhecimento mais do que um aclito
sincero, um pregador das virtudes do escutismo, cnico, cuja inteligncia aparente (tal como fora inicialmente concebida) no passava de esperteza saloia. Durante
toda a pea, tratava sempre Denker por senhor, tal como Jack ensinara o filho a tratar os mais velhos e as autoridades por senhor. Estava convencido de que Danny
usava a palavra com sinceridade, tal como acontecera com Gary Benson ao princpio, mas, ao comear o quinto acto, apercebera-se de que Gary utilizava a palavra satiricamente,
com uma aparncia frontal enquanto no seu ntimo escarnecia de Denker. Denker, que nunca tivera nada daquilo a que Gary tivera acesso. Denker, que tivera de trabalhar
a vida inteira para ser um simples director de uma pequena escola. Que estava agora confrontado com a runa por causa deste rapaz bem parecido, rico, de ar inocente,
que inquinara o seu Trabalho Final e que depois, matreiro, apagara todos os vestgios dos seus actos. Jack encarara Denker, o professor, de uma maneira no muito
diferente dos pequenos csares afectados da Amrica do Sul, nas suas repblicas das bananas, encostando os dissidentes  parede do campo de squash ou de handebol
que estivesse mais  mo, um superfantico de uma causa comparativamente mais pequena, um homem que faz de um capricho uma cruzada. Ao princpio, quisera utilizar
a sua pea como um microcosmo para dissertar sobre o abuso do poder. Agora, tendia cada vez mais a ver Denker como uma figura do tipo do senhor Chips, e a tragdia
no era a runa intelectual de Gary Benson, mas a destruio de um velho professor e director de escola, incapaz de se aperceber do cinismo deste monstro mascarado
de rapazinho.
271
No conseguira acabar a pea.
Agora estava ali sentado a olhar para ela, com um ar carrancudo, perguntando a si mesmo se havia alguma maneira de salvar a situao. No acreditava que houvesse.
Comeara a escrever uma pea que acabara por transformar-se noutra. Que diabo! Fora concebida para uma coisa. E agora era um monte de merda. E porque estava a
perder a pacincia com isso esta noite? Depois do dia que tivera, no era de admirar que no conseguisse pensar.
        ... lev-lo l abaixo?
Jack levantou o olhar, tentando afastar as teias de aranha.
O qu?
Perguntei como vamos lev-lo l abaixo. Temos de tir-lo
daqui, Jack.
Jack estava to distrado que, por instantes, nem teve a noo do que Wendy estava a dizer. Depois percebeu e soltou uma risada curta e sonora.
Falas disso como se fosse uma coisa muito fcil.
Eu no quis dizer...
No h problema, Wendy. Vou mudar de roupa naquela
cabina telefnica que h no trio e levo-o a Denver a voar, s
minhas costas. O Super-Homem Jack Torrance, era como me
chamavam nos meus tempos de mocidade.
Wendy ficou ligeiramente sentida.
Eu compreendo o problema, Jack. O rdio est partido.
A neve... mas tambm tens de compreender o problema de
Danny. Meu Deus, no percebes? Ele ficou quase catatnico,
Jack! E se ele no tivesse recuperado?
Mas recuperou  respondeu Jack, com uma certa se
cura.
Ficara assustado ao ver o olhar vago de Danny, a sua palidez, claro que ficara. A princpio. Mas quanto mais pensava nisso mais se interrogava se o filho no estivera
a representar para fugir ao castigo. Afinal, ele tinha prevaricado.
        Mesmo assim  respondeu Wendy.
Aproximou-se dele e sentou-se na beira da cama, junto da
secretria. O seu rosto denotava surpresa e preocupao.
Jack, as feridas no pescoo! Alguma coisa lhe provocou
aquilo! E eu quero afast-lo disso!
No grites  disse Jack.  Lembra-te das minhas dores
de cabea, Wendy. Estou to preocupado com isto como tu.
Por isso, por favor... no... grites.
272
I
Est bem  respondeu Wendy, baixando a voz.  No
grito, mas no te percebo, Jack. Est aqui algum connosco.
E quem quer que  no  muito simptico. Temos de ir a Side-
winder, no apenas por Danny mas por todos ns. E depressa.
E tu ests a sentado a ler a tua pea!
Temos de ir l abaixo, temos de ir l abaixo, no te calas
com isso. Deves estar convencida de que eu sou mesmo o Su-
per-Homem.
Acho que s o meu marido  disse Wendy com calma,
olhando para as mos.
Jack perdeu a pacincia. Fechou o manuscrito com fora, amarrotando as ltimas folhas.
        J  tempo de te aperceberes das realidades que fazem
parte da tua vida, Wendy. No pareces t-las interiorizado,
como dizem os socilogos. Elas andam  solta na tua cabea
como uma srie de bolas de bilhar perdidas. Tens de arrum-
-las. Tens de compreender que estamos isolados pela neve.
De repente, Danny mexeu-se na cama. Mesmo a dormir, comeara a torcer-se e a virar-se. Como  costume quando estamos a discutir, pensou Wendy, desconsolada. E
estamos a discutir outra vez.
        No o acordes, Jack, por favor.
Jack olhou de relance para Danny e o seu rosto perdeu parte da cor.
Est bem. Desculpa se te pareo irritado, Wendy. Mas
no  contigo. Eu parti o rdio. Se algum teve culpa fui eu.
Esse era o nosso elo de ligao com o exterior. Por favor venha
buscar-nos, senhor guarda. No estamos a aguentar isto.
No faas isso  disse Wendy, pondo-lhe a mo no om
bro.
Jack encostou a cabea  sua mo e Wendy afagou-lhe o cabelo com a outra.
Acho que tens esse direito, depois do que te acusei. s
vezes pareo-me com a minha me. Consigo ser m. Mas tens
de compreender que algumas coisas... so difceis de suportar.
Tens de entender isso.
Referes-te ao brao de Danny?
Sim  respondeu Wendy.  Mas no  s por tua causa.
Fico preocupada quando ele vai l para fora brincar. Preocupo-
-me por ele querermma bicicleta para o ano, mesmo que seja
uma de quatro rodas. Preocupo-me com os dentes, com os
olhos dele e com aquilo a que ele chama brilho. Preocupo-me.
273

Porque ele  pequeno e parece ser muito frgil e porque... porque qualquer coisa neste hotel parece quer-lo. E se for preciso passar por cima de ns para chegar
at ele. E por isso que temos de tir-lo daqui, Jack. Eu sei! Eu sinto! Temos de tir-lo daqui!
No meio da sua agitao, Wendy apertou o ombro de Jack, mas.este no se afastou. Uma das mos de Jack encontrou o peso firme do seio esquerdo de Wendy e comeou
a acarici-lo atravs da blusa.
        Wendy  disse Jack, calando-se em seguida.
Wendy esperou que ele continuasse. A mo forte de Jack no seu seio estava a saber-lhe bem, tinha um efeito reconfortante.
        Talvez pudesse calar-lhe os esquis e lev-lo l abaixo.
Ele poderia andar durante uma parte do caminho, mas eu
teria de lev-lo ao colo durante a maior parte. Isso significaria
que teramos de acampar uma, duas, talvez trs noites. Isso
significaria que teria de construir um tren para transportar
vveres e os sacos-camas. Temos o rdio AM/FM e poderamos
aproveitar um dia em que os meteorologistas previssem trs
dias de bom tempo. Mas se as previses sassem erradas, creio
que poderamos morrer.
Jack pronunciou as ltimas palavras num tom suave e comedido.
Wendy empalidecera. Parecia um fantasma. Jack continou a acariciar-lhe o seio, esfregando o mamilo com a ponta do dedo.
Wendy suspirou  se era na sequncia do que ele dissera ou em reaco s suas carcias, Jack no sabia dizer. Levantou a mo e desabotoou-lhe o primeiro boto da
blusa. Wendy abriu ligeiramente as pernas. De repente, asjeans pareceram-lhe demasiado apertadas, um pouco irritantes mas de uma forma agradvel.
        Isso significaria deixar-te sozinha porque no sabes es
quiar. Seriam trs dias em que no saberamos uns dos outros.
E isso que queres?
A sua mo deslizou at ao segundo boto. Desabotoou-o e uma parte do peito de Wendy ficou desnudado.
        No  disse Wendy, com a voz ligeiramente arrastada.
Lanou um olhar a Danny. Tinha deixado de se torcer e de
dar voltas na cama. Tinha o dedo na boca. Por isso estava tudo bem. Mas Jack estava a esquecer-se de qualquer coisa. Era demasiado desconsolador. Havia mais qualquer
coisa... O qu?
        Se ficarmos aqui  continuou Jack, desabotoando o ter-
274
ceiro e o quarto botes com a mesma lentido deliberada , um guarda do parque vir aqui ver o que estamos a fazer. Nessa altura dizemos-lhe pura e simplesmente
que queremos ir l abaixo. Ele tratar disso.
Jack fez deslizar os seios de Wendy para a abertura da blusa, inclinou-se e pousou os lbios num dos mamilos. Estava duro e erecto. Comeou a lamb-lo, de um lado
para o outro. Sabia que ela gostava. Wendy gemeu e arqueou as costas.
(Qualquer coisa de que me esqueci?)
        Querido...
Segurava-lhe a nuca com as mos. Quando Jack lhe respondeu foi com uma voz abafada, pois tinha a cara apertada contra o seu peito.
        E como  que o guarda nos levava daqui para fora?
Jack levantou ligeiramente a cabea para responder e depois
ps a boca no outro mamilo.
        Se o helicptero estivesse avariado, creio que teramos de
ir no limpa-neves.
(!!!)
        Mas ns temos um! Ullman disse que havia um!
A boca de Jack gelou no peito de Wendy. Depois, sentou-se. Wendy estava ligeiramente corada e tinha os olhos muito brilhantes. A expresso de Jack era calma, como
se tivesse estado a ler um livro enfadonho e no envolvido nos preliminares de um jogo ertico com a mulher.
Se h um limpa-neves no h problema  disse ela, entu
siasmada.  Podemos ir os trs.
Wendy, nunca conduzi um limpa-neves na minha vida.
No deve ser assim to difcil de aprender. Quando est
vamos em Vermont vamos midos de dez anos a conduzi-los,
no campo... embora ignore o que os pais pensavam disso. E tu
tinhas uma moto quando nos conhecemos.
Era verdade, ele tinha uma Honda de trezentos e cinquenta centmetros cbicos. Passado pouco tempo, trocara-a por um Saab, quando ele e Wendy comearam a viver juntos.
        Creio que seria capaz  respondeu Jack lentamente. 
Mas no sei se est em condies. Ullman e Watson... tomam
conta disto de Maio a Outubro. Pensam em termos de Vero.
Sei que no tem gasolina. Tambm no deve haver cabos nem
bateria. No quero criar-te esperanas vs, Wendy.
Wendy estava agora completamente excitada, debruada sobre ele, com os seios fora da blusa. De sbito Jack teve vontade
275
de lhe agarrar um seio e de torc-lo at ela gritar. Talvez isso a fizesse calar-se.
A gasolina no  problema  respondeu Wendy.  O
VWe o camio do hotel esto cheios dela. L em baixo tambm
h gasolina no gerador de emergncia. E na arrecadao deve
haver um contentor onde poderemos ir buscar mais.
Pois.  verdade  respondeu Jack.
Na verdade, havia at trs contentores, dois de quinze e um de dez litros.
Aposto que os cabos e a bateria tambm esto por a. Nin
gum iria pr o limpa-neves num stio e os cabos e a bateria
noutro, no achas?
No parece muito provvel, pois no?
Jack levantou-se e aproximou-se do div onde Danny estava a dormir. O mido tinha uma madeixa de cabelo cada sobre a testa e Jack afastou-a com suavidade. Danny
no se mexeu.
        E se conseguires p-lo a trabalhar levas-nos daqui para
fora?  perguntou Wendy atrs dele.  No primeiro dia em
que o rdio anunciar que haver bom tempo?
Por instantes, Jack no lhe deu resposta. Ficou a olhar para o filho e os seus mltiplos sentimentos dissolveram-se numa onda de amor. Era exactamente o que Wendy
dissera  Danny era frgil, vulnervel. As marcas que tinha no pescoo eram muito ntidas.
Sim  respondeu Jack.  Ponho-o a trabalhar e samos
daqui o mais depressa que pudermos.
Graas a Deus!
Jack voltou-se para ela. Wendy tirara a blusa e estava deitada em cima da cama, de ventre chato, com os seios apontando para o tecto. Brincava com eles, com um ar
indolente, acariciando os mamilos.
        Despache-se, senhor. So horas  disse com ternura.
Mais tarde, sem outra luz no quarto a no ser a lmpada de viglia que Danny trouxera do seu quarto, Wendy jazia nos braos de Jack, sentindo uma maravilhosa tranquilidade.
Custava-lhe a acreditar que estivessem a partilhar o Overlook com um assassino furtivo.
Jack?
Hum?
O que o feriu?
Jack no lhe respondeu directamente.
276
1

Ele tem qualquer coisa. Qualquer dom que ns no te
mos. A maior parte de ns, peo desculpa. E talvez o Overlook
tenha qualquer coisa tambm.
Fantasmas?
No sei. Nada no sentido de Algernon Blackwood, isso
de certeza. Algo mais parecido com os resduos de sentimentos
experimentados pelas pessoas que estiveram aqui. Coisas boas
e coisas ms. Nesse sentido, suponho que todos os grandes ho
tis tm os seus fantasmas. Especialmente os antigos.
Mas a mulher morta na banheira... Jack, ele no est a
enlouquecer, pois no?
Jack apertou-a ligeiramente.
Ns sabemos que ele tem... bem, transes,  falta de um
termo melhor... de vez em quando. Sabemos que nessas alturas
ele s vezes... v... coisas que no entende. Se  possvel
haver transes premonitrios, eles so possivelmente fenmenos
do subconsciente. Freud dizia que o subconsciente nunca nos
fala numa linguagem literal. S atravs de smbolos. Se sonhas
com uma padaria em que ningum fala ingls, podes estar pre
ocupada com a capacidade de sustentares a famlia. Ou talvez
preocupada com o facto de ningum te entender. J li que os
pesadelos constituem uma forma comum de exteriorizar senti
mentos de insegurana. Jogos, pequenos jogos. O consciente
de um lado da rede, o subconsciente do outro, ao servio de
qualquer imagem obsessiva. A mesma doena mental, com
pressentimentos e tudo isso. Porque havia a premonio de ser
diferente? Talvez Danny veja mesmo sangue nas paredes da
Suite Presidencial. Para um mido da sua idade, a imagem do
sangue e o conceito de morte so quase intermutveis. Para as
crianas, a linguagem  sempre mais acessvel do que o concei
to. William Carlos Williams sabia-o, ele que era pediatra.
A medida que vamos crescendo, os conceitos vo-se tornando
mais acessveis e deixamos as imagens para os poetas... e estou
apenas a divagar.
Gosto de te ouvir divagar.
Foi ela que o disse, foi ela que o disse. Todos vocs ou
viram.
As marcas no pescoo dele, Jack. Essas so verdadeiras.
So.
Durante muito tempo, Jack no disse mais nada. Wendy co
meava a pensar que ele adormecera, e estava a comear a dor
mitar tambm quando ele disse:    -        - ~
277
Estou a pensar em duas explicaes para isso. E nenhuma
delas envolve uma quarta pessoa aqui no hotel.
O que ?  perguntou Wendy, apoiando-se num coto
velo.
Estigmas, talvez  disse Jack.
Estigmas? Isso no  quando as pessoas sangram na Sex-
ta-Feira Santa ou coisa assim?
E. s vezes as pessoas que acreditam profundamente na
divindade de Cristo exibem marcas sangrentas nas mos e nos
ps durante a Semana Santa. Era mais vulgar na Idade Mdia
do que agora. Nessa poca as pessoas consideravam-se aben
oadas por Deus. No creio que a Igreja Catlica proclamasse
tais fenmenos como milagres, o que era uma esperteza da sua
parte. Os estigmas no so muito diferentes de algumas coisas
que os praticantes de ioga fazem. S que estas ltimas so mais
fceis de compreender, mais nada. As pessoas que percebem a
interaco que existe entre o corpo e o esprito (que a estudam,
quero eu dizer, pois ningum a compreende) acreditam que
ns temos mais controlo sobre as funes involuntrias do que
estvamos habituados a imaginar. Podemos retardar o bater do
corao se nos concentrarmos nisso. Podemos acelerar o nosso
metabolismo. Obrigarmo-nos a suar mais. Ou obrigarmo-nos a
sangrar.
Achas que Danny pensou aquelas feridas no pescoo?
Jack, no posso acreditar numa coisas dessas.
Acredito que seja possvel, embora tambm me parea
improvvel. O que me parece mais provvel  que tenha sido
ele a faz-las.
A si prprio?
No passado, ele teve esses transes e feriu-se a si prprio.
Lembras-te daquela vez quando estvamos a jantar? Foi h
dois anos, suponho. Ns os dois estvamos muito irritados um
com o outro. Ningum falava. Ento, de repente, os olhos rola
ram-lhe nas rbitas, Danny deixou cair a cabea em cima do
prato e depois caiu ao cho. Lembras-te?
Lembro-me, claro que me lembro. Pensei que ele teve
uma convulso.
Doutra vez, estvamos no parque  continuou Jack. 
S eu e Danny. Num sbado  tarde. Ele andava a andar de
balouo. Desmaiou e caiu para o cho. Era como se tivesse sido
fulminado. Corri para ele, peguei-lhe ao colo e ele veio imedia
tamente a si. Piscou-me o olho e disse: Aleijei-me na barriga.
278
Diga a mam que feche as janelas dos quartos se chover! E nessa noite choveu a cntaros.
Sim, mas...        ,    !
E anda sempre com golpes e com os cotovelos esfolados.
As canelas dele parecem um campo de batalha. E se lhe per
guntam como  que arranjou aquilo, responde apenas: Oh,
estava a brincar, e mais nada.
Jack, todos os midos caem e se aleijam. Com os midos
 sempre assim, desde que comeam a andar at aos doze ou
treze anos.
E tenho a certeza de que Danny tem a sua conta  res
pondeu Jack.   uma criana muito viva. Mas lembro-me
daquele dia no parque e daquela noite ao jantar. E no sei se as
esfoladelas e as feridas do nosso filho no sero dos desmaios.
Aquele doutor Edmonds disse que Danny entrara em transe no
prprio consultrio, pelo amor de Deus!
De acordo. Mas estas feridas so de dedos. Juraria que
so. Ele no fez aquilo ao cair.
Ele entrou em transe  disse Jack.  Talvez ele veja
qualquer coisa que se passou naquele quarto. Uma briga. Tal
vez um suicdio. Emoes violentas. No  a mesma coisa que
ir ao cinema; ele  muito sugestionvel. Ele tem razo. Talvez o
seu subconsciente visualize o que se passou, de forma simbli
ca. .. sob a forma de uma mulher morta, que ressuscita com se
fosse uma morta-viva.
Ests a fazer-me arrepios  disse Wendy com voz grossa.
Tambm eu estou com arrepios. No sou psiquiatra, mas
parece-me ser uma explicao plausvel. A mulher morta a an
dar, como smbolo das pulses da morte, mortos-vivos que no
desistem e que no se vo embora... mas porque ela  uma
figura do subconsciente, ela e ele so um s. No meio de um
transe, o consciente de Danny fica submerso. O subconsciente
 que comanda. Por isso Danny ps as mos  roda do prprio
pescoo e...
Cala-te  disse Wendy.  J percebi. Creio que isso 
mais assustador do que ter um estranho a trepar pelas paredes,
Jack. Podemos afastar-nos de um estranho mas no de ns
mesmos. Estamos a falar de esquizofrenia.
De um tipo muito especfico  disse Jack pouco  von
tade.  E de uma natureza muito especial. Porque ele parece
conseguir ler os pensamentos das pessoas e ter lampejos premo
nitrios de vez em quando. No posso encarar isso como uma
279
doena mental por mais que tente. Todos ns temos substratos esquizides, de qualquer modo. Estou convencido de que,  medida que for crescendo, Danny conseguir
controlar a coisa.
Se ests dentro da razo, ento impe-se que o tiremos
daqui para fora. Seja o que for que ele tenha, este hotel est a
piorar as coisas.
Eu no diria isso  objectou Jack.  Se ele tivesse feito o
que lhe tnhamos dito, nunca teria subido quele quarto. E isto
nunca teria acontecido.
Meu Deus, Jack! Ests a querer dizer que o facto de ele
ter sido quase estrangulado constituiu um castigo exemplar,
por ele ter ultrapassado os limites?
No... No. Claro que no. Mas...
No h mas  respondeu Wendy, abanando a cabea
com fria.  A verdade  que estamos a especular. No sabe
mos quando  que ele poder voltar a esquina e protagonizar
um desses filmes de terror, ou l o que so. Temos de tir-lo
daqui.  Wendy soltou uma risada no escuro.  Qualquer dia
estamos todos a ver coisas.
No digas disparates  respondeu Jack.
E na escurido do quarto viu os lees da sebe agrupados no caminho, j no a lade-lo mas a guard-lo, lees esfomeados em Novembro. A testa encheu-se-lhe de suores
frios.
        No viste mesmo nada, pois no?  perguntou Wendy.
 Quando foste l acima quele quarto. No viste nada?
Os lees desapareceram. Agora Jack via uma cortina de tom rosa-plido com um vulto escuro atrs. A porta fechada. Aquele rudo abafado e sons que poderiam ser de
passos de algum a correr. As palpitaes horrveis quando tentava dar a volta  chave.
        Nada  respondeu.
E era verdade. Fora enganado, no tivera a certeza do que estava a acontecer. No tivera oportunidade de procurar uma explicao plausvel para as feridas no pescoo
do filho. E andava muito sugestionvel. Por vezes, as alucinaes podem tornar-se fascinantes.
        E no mudaste de ideias? Acerca do limpa-neves?
De repente, Jack cerrou os punhos
(Pra de me chatear!)
Eu disse que ia, no disse? E vou. Agora, vai dormir. Foi
um dia longo e difcil.
E de que maneira...  respondeu Wendy.
280
Ouviu-se o roar da roupa da cama quando ela se voltou para ele e o beijou no ombro.
Amo-te, Jack.
Tambm eu  disse Jack.
Mas eram s palavras. Continuava de punhos cerrados. Pareciam rochas ao fundo dos braos. Tinha a testa a latejar. Wendy no dissera uma nica palavra sobre o que
iria aconte-cer-lhes quando sassem dali, quando a festa acabasse. Nem uma palavra. Danny isto, Danny aquilo. Jack, estou to assustada. Oh, sim, estava assustada
com fantasmas de armrio e sombras andantes, muito assustada. Mas no eram poucos os motivos verdadeiros para estar assustada. Quando fossem para  Sidewinder levariam
sessenta dlares no bolso e a roupa que tinham no corpo. Nem sequer tinham um carro. Mesmo que em Sidewinder houvesse uma casa de penhores, e no havia, no tinham
nada para empenhar a no ser o anel de noivado de Wendy, que custara noventa dlares, e o rdio AM/FM Sony. Um penhorista dar-lhes-ia vinte dlares. Um penhorista
simptico. No haveria trabalho, nem sequer a tempo parcial ou sazonal, excepto talvez andar a abrir estradas por trs dlares dirios. A fotografia de Jack Torrance,
com trinta anos de idade, que em tempos publicara obras suas no Esquire e que construra sonhos  que em sua opinio eram razoveis ,  beira de tornar-se o maior
escritor americano da prxima dcada, com uma p ao ombro, a tocar as campainhas das portas... De repente Jack viu aquela imagem com mais nitidez do que vira os
lees da sebe e cerrou os punhos, sentindo as unhas cravarem--se-lhe nas palmas das mos at o sangue escorrer de golpes em forma de quartos de lua. Jack Torrance,
na bicha para trocar os seus sessenta dlares por senhas de alimentao, na bicha  porta da Igreja Metodista de Sidewinder para receber coisas de primeira necessidade
sob os olhares nojentos dos naturais da terra. Jack Torrance a explicar a Al que tinham de se ir embora, que tinha de desligar a caldeira, que tinha de deixar o
Overlook e tudo o que havia l dentro  merc de vndalos ou de ladres em limpa-neves porque, percebes Al, attendez-vous, Al, l em cima h fantasmas que querem
o meu mido. Adeus, Al. Pensamentos do Quarto Captulo, a Primavera Chega para Jack Torrance. E depois? O que aconteceria depois? Era possvel que conseguissem
chegar  costa ocidental no VW, supunha. Com uma bomba de gasolina nova. Percorridas cinquenta milhas a oeste daqui, era tudo a descer, podia pr o carro em
281
ponto morto e ir at Utah. At  soalheira Califrnia, terra de laranjas e de oportunidades. Um homem com o seu recorde de alcoolismo, de agresso a alunos e de
perseguies por fantasmas conseguiria sem dvida fazer a sua vida. Como quisesse. Como mecnico, nos autocarros Greyound. No ramo automvel, a lavar carros, de
fato de borracha. Nas artes culinrias, talvez, a lavar pratos num restaurante. Ou talvez numa posio mais respeitvel, como empregado numa estao de combustvel.
Um lugar destes tinha at o estmulo intelectual de fazer trocos e preencher os bilhetes dos cartes de crdito. Posso pagar-lhe o ordenado mnimo por vinte e cinco
horas por semana. Seria ptimo da a um ano, pois cada po custava sessenta cntimos.
O sangue comeou a cair-lhe das palmas das mos. Como se fossem estigmas, oh, sim. Jack apertou as mos com mais fora, aumentado a dor. A mulher estava a dormir
a seu lado, porque no? No havia problemas. Ele acedera em lev-la a ela e a Danny para longe do papo e no havia problemas. Percebes, Al, achei que o melhor
seria...
(mat-la.
O pensamento nasceu do nada, sem adornos. A nsia de atir-la da cama abaixo, nua, confusa, comeando a acordar; bater-lhe, pegar-lhe no pescoo com se fosse o rebento
verde de um jovem choupo e sufoc-la, os polegares nas cartidas e os outros dedos a fazerem presso no cimo da espinha, sacudindo--lhe a cabea e batendo com ela
nas tbuas do soalho, vezes sem conta, batendo, esmagando, partindo. Forte e feio, querida. A abanar, a chocalhar, a rolar. Obrig-la-ia a tomar o remdio. Gota
a gota. A ltima gota amarga.
Jack apercebeu-se vagamente de um rudo abafado algures no exterior do seu universo ntimo, quente e trepidante. Ao olhar para o quarto, verificou que Danny estava
de novo inquieto, a torcer-se na cama e a amarrotar os cobertores. O rapazinho gemia num tom fraco e abafado. Que pesadelo seria? Uma mulher roxa, morta h muito
tempo, perseguindo-o, a cambalear atravs dos corredores cheios de curvas do hotel? No lhe parecia. Qualquer outra coisa perseguia Danny em sonhos. Qualquer coisa
pior.
O fio amargo das suas emoes quebrou-se. Levantou-se da cama e aproximou-se do filho, sentindo-se mal e envergonhado. Era em Danny que tinha de pensar, no em
Wendy nem em si mesmo. Apenas em Danny. E fosse qual fosse a interpre-
282
taco que desse aos factos, no ntimo sabia que Danny tinha de sair dali. Endireitou os cobertores da cama do filho e entalou a colcha aos ps da cama. Danny estava
agora mais calmo. Jack tocou-lhe na testa
(Que monstros andariam a brincar por trs daquele osso?) e verificou que estava quente, embora no demasiado. E estava a dormir tranquilamente outra vez. Estranho.
Voltou para a cama e tentou dormir. Estava intrigado.
Era injusto que as coisas tivessem tomado aquele rumo  a pouca sorte parecia persegui-los. Nem o facto de terem vindo para ali tinha conseguido afast-la. Quando
chegassem a Side-winder, na tarde do dia seguinte, a oportunidade dourada ter--se-ia evaporado, ter-se-ia ido com o vento, como um velho companheiro de quarto costumava
dizer. Imaginem a diferena se eles no pudessem descer, se eles tivessem de aguentar. Jack acabaria a pea. De uma maneira ou de outra arranjaria um final para
ela. A sua prpria incerteza acerca das personagens poderia acrescentar um toque de ambiguidade interessante ao fim inicial. Talvez lhe desse mesmo algum dinheiro,
no era impossvel. A falta disso, talvez Al conseguisse convencer a direco de Stovington a contrat-lo de novo. Seria um contrato precrio,  claro, que talvez
fosse at trs anos, mas se se mantivesse sbrio e continuasse a escrever poderia no ter de ficar em Stovington durante trs anos.  claro que anteriormente no
se importara muito com Stovington, sentira-se amarrado, sepultado vivo, mas tratara-se de uma reaco imatura. Alm disso, como poderia uma pessoa gostar de ensinar
quando de dois em dois ou de trs em trs dias dava as trs primeiras aulas sob os efeitos de uma ressaca? Isso no voltaria a acontecer. Ele conseguiria assumir
as suas responsabilidades muito melhor. Tinha a certeza disso.
Algures no meio deste pensamento, as coisas comearam a fragmentar-se e Jack foi arrastado pelo sono. O seu ltimo pensamento perseguiu-o como se fosse uma campainha
a tocar:
Parecia-lhe que poderia encontrar aqui a paz. Finalmente. Se o deixassem.
Quando acordou, estava outra vez na casa de banho do quarto 217.
(Tive outro ataque de sonambulismo... Porqu?... Aqui no h rdios para partir.)
A luz da casa de banho estava acesa, e o quarto s escuras.
283
A cortina estava corrida ao longo da grande banheira de ps curvos. O tapete estava amarrotado e molhado.
Jack comeou a sentir-se assustado, mas o seu medo parecia vindo do mundo dos sonhos, no ser real. Todavia, no podia deixar de senti-lo. Tantas coisas que aconteciam
no Overlook se assemelhavam a sonhos...
Encaminhou-se para a banheira, lutando contra a vontade de recuar.
Abriu a cortina.
Deitado na banheira, nu, quase a boiar na gua, estava George Hatfield, com uma faca espetada no peito. A gua tinha um tom rosado. George tinha os olhos fechados.
O seu pnis flutuava na gua, como se fosse uma alga marinha.
        George...  disse Jack, sem dar por isso.
Ao ouvi-lo, George abriu os olhos. Eram olhos cor de prata, no eram olhos humanos. As mos de George, brancas como um peixe, tactearam os lados da banheira e ele
conseguiu sentar-se. A faca estava espetada mesmo ao meio do peito, equidistante dos mamilos.
O senhor adiantou o cronometro  disse-lhe o George de
olhos cor de prata.
No, George, no adiantei. Eu...
Eu no gaguejo.
George estava agora de p e continuava a fit-lo com aquele olhar metlico e desumano, mas a boca abria-se-lhe num sorriso de morto que mais parecia um esgar. Ps
uma perna fora da banheira de porcelana. Um p lvido e engelhado pousou no tapete.
        Em primeiro lugar, o senhor tentou atropelar-me quando
eu ia de bicicleta e depois adiantou o cronometro e tentou apu
nhalar-me, mas eu no gaguejo.
George aproximava-se dele, com as mos levantadas e os dedos levemente encaracolados. Cheirava a mofo e a humidade, como as folhas depois da chuva.
Foi para teu bem  disse Jack, recuando.  Adiantei-o
para teu bem. Alm disso, vim a saber que copiaste o teste final.
Eu no copio... E no gaguejo.
As mos de George tocaram-lhe no pescoo. Jack voltou-se e comeou a correr, com a lentido e a leveza que so to vulgares nos sonhos.
        Copiaste! Copiaste, sim senhor!  gritou, de fria e de
medo, correndo pelo quarto s escuras.  E vou prov-lo!
284
As mos de George estavam de novo no seu pescoo. O corao de Jack estava dilatado de medo, e parecia prestes a rebentar. E depois, por fim, a mo enrolou-se-lhe
 volta do puxador da porta. Este rodou e a porta abriu-se. Jack entrou de rompante no no corredor do segundo andar, mas no compartimento da cave, por baixo do
arco. A lmpada, envolta em teias de aranha, estava acesa. A cadeira de lona, rgida e de formas geomtricas, continuava l. E  volta havia uma pequena montanha
de caixas, caixotes e maos de folhas de registo e facturas e sabe-se l mais o qu. Jack sentiu-se aliviado.
        Hei-de descobri-lo!  gritou.
Pegou numa caixa de carto hmida e a cheirar a mofo. Esta rasgou-se-lhe nas mos, espalhando uma torrente de pedaos de papel.
        Ests aqui algures! Hei-de descobri-lo\
Meteu as mos na pilha de papis e tirou um ninho de vespas seco e um cronometro. O cronometro estava a fazer tiquetaque. Por trs tinha um fio elctrico e na outra
extremidade do fio estava um mao de rolos de dinamite.
        Aqui est!  gritou.  Aqui, toma!
O alvio transformou-se em triunfo absoluto. Fizera algo mais do que escapar a George, vencera. Com estes objectos talismnicos nas mos, George nunca mais lhe tocaria.
George fugiria aterrorizado.
Comeou a voltar-se para se confrontar com George, e foi ento que este lhe agarrou o pescoo e comeou a apert-lo, a sufoc-lo, a cortar-lhe a respirao.
        Eu no gaguejo!  segredava George atrs dele.
Jack deixou cair o ninho, de onde irrompeu um enxame de vespas furiosas, amarelas e castanhas. Os seus pulmes estavam em fogo. Quando o seu olhar turvo pousou
no cronometro, voltou-lhe a sensao de triunfo,  mistura com uma crescente onda de raiva. Em vez de ligar o cronometro  dinamite, o fio elctrico estava agora
atado ao casto dourado de uma grande bengala como aquela que o pai passara a usar depois do acidente com o camio do leite.
Jack agarrou-o e o fio partiu-se. A bengala caiu em peso nas suas mos. Jack atirou-a para trs das costas. Ao faz-lo, a bengala bateu no fio da lmpada, que comeou
a balouar, projectando sombras horrendas no cho e nas paredes. No caminho, a bengala atingiu qualquer coisa muito mais dura. George deu um grito e largou o pescoo
de Jack.
285
Jack libertou-se de George e voltou-se. George estava de joelhos, com a cabea tombada e as mos entrelaadas em cima dela. O sangue escorria-lhe pelos dedos.
Por favor  sussurrou George, com um ar humilde. 
Pare, senhor Torrance.
Agora vais tomar o remdio  grunhiu Jack.  Ai isso
vais. Seu fantoche. Seu merda. Agora vais tom-lo. Gota a
gota!
Enquanto a lmpada balouava e as sombras danavam, Jack comeou a agitar a bengala, para baixo e para cima como se o seu brao fosse uma mquina. George deixou
cair as mos ensanguentadas e Jack continuou a bater-lhe no pescoo, nos ombros, nas costas e nos braos. S que a bengala j no era uma bengala, parecia ser
um mao de cabo brilhante. Um mao com uma extremidade rija e outra mole. Estava cheio de sangue e de cabelos. E o som ntido e forte do mao a bater na carne fora
substitudo por um estrondo surdo. A prpria voz de Jack tinha agora a mesma caracterstica, um tom estranho, como se estivesse separada do corpo. E, no entanto,
paradoxalmente, parecia mais fraca, arrastada, petulante... como se ele estivesse bbado.
O vulto ajoelhado levantou lentamente a cabea, como que numa splica. No era precisamente um rosto, era uma mscara de sangue no meio da qual espreitava um par
de olhos. Jack ergueu o mao para a estocada final e aplicou-a antes de se aperceber de que o rosto suplicante no era o de George mas o de Danny. Era o rosto do
seu filho.
        Pap!...
E o mao caiu, atingindo Danny no meio dos olhos, fechando-os para sempre. E ouviu-se um riso algures... (No!)
Quando acordou, estava junto da cama de Danny, nu, de mos vazias e com. o corpo encharcado em suor. O grito final no passara de imaginao sua. Deu-lhe voz, desta
vez num sussurro.
        No, no, Danny. Nunca.
Voltou para a cama. As suas pernas pareciam feitas de borracha. Wendy dormia profundamente. O relgio da mesa-de--cabeceira indicava que faltava um quarto para
as cinco. No conseguiu dormir at s sete, altura em que Danny comeou a
286
mexer-se. Depois, saltou da cama e comeou a vestir-se. Era altura de descer para verificar a caldeira.
33
O LIMPA-NEVES
Pouco depois da meia-noite, enquanto todos dormiam um sono inquieto, a neve deixou de cair, depois de ter acrescentado vinte centmetros  antiga camada. As nuvens
tinham-se dispersado, varridas por um vento fresco, e Jack estava agora na arrecadao, iluminado por um raio de luz poeirenta que entrava pela janela voltada
para nascente.
A arrecadao no era mais comprida nem mais alta do que uma carruagem. Cheirava a gordura, a leo e a gasolina, alm de que exalava um aroma suave e nostlgico
a erva adocicada. Ao longo da parede voltada ao sul viam-se quatro mquinas elctricas de cortar relva, alinhadas como soldados. Duas delas pareciam pequenos tractores.
 esquerda havia sachos, ps arredondadas para tratar da relva, uma serra, o podo elctrico e um varo de ao longo e delgado com uma bandeira vermelha na ponta.
Gaddy, vai apanhar-me a bola em dez segundos e dou-te uma moeda. Sim, senhor.
Junto da parede voltada para nascente, onde o sol da manh batia com mais fora, havia trs mesas de pingue-pongue encostadas umas s outras como se fossem um castelo
de cartas. Algum retirara as redes e as atirara para a prateleira de cima. Ao canto, via-se uma pilha de discos de madeira e os apetrechos de roque  os pauzinhos
atados com arame, as bolas pintadas de cores vivas arrumadas num carto para ovos (mas que estranhas galinhas que voc aqui tem, Watson... sim, e devia ver os bichos
que h l em baixo, no relvado da frente, ah, ah) e os maos, duas sries deles, enfiados nos suportes.
Jack encaminhou-se para eles, tropeando na bateria de oito segmentos (que em tempos estivera debaixo da capota do camio do hotel, sem dvida), num carregador
de baterias e num par de cabos enrolados entre eles. Retirou um dos maos de cabo curto e ergueu-o  sua frente como se fosse um cavaleiro preparado para a batalha
saudando o seu rei.
287
Voltavam-lhe agora  memria fragmentos do sonho, qualquer coisa sobre George Hatfield e a bengala do pai, que era suficiente para deix-lo inquieto e  coisa absurda
 com um sentimento de culpa por ter nas mos um mao de roque. No era que o roque fosse ainda um jogo vulgar; o seu primo mais novo, o croquet, era agora muito
mais popular... e uma verso infantil do jogo em si. O roque, todavia... devia ter sido um jogo e pras. Jack descobrira na cave um livro de instrues cheio de
verdete, utilizado para um torneio de roque que se realizara no Overlook, no princpio dos anos 20. Um jogo e pras.
(esquizide)
Jack franziu ligeiramente o sobrolho e depois sorriu. Sim, era um jogo que tinha algo de esquizofrnico. O mao exprimia perfeitamente essa caracterstica. Uma extremidade
mole e outra dura. Um jogo de requinte e preciso, e um jogo de fora bruta, ameaadora.
Jack agitou o mao no ar... Uuupa. Sorriu ao ouvir o assobio forte que provocava. Em seguida, tornou a coloc-lo no suporte e voltou-se para a esquerda. E o que
viu f-lo franzir o sobrolho outra vez.
O limpa-neves estava quase ao meio da arrecadao. Era novo e Jack no perdeu muito tempo a observ-lo. Na capota, em letras negras, estava escrito Bombardier Skidoo.
As letras estavam inclinadas para trs, presumivelmente para sugerirem velocidade. Os esquis protuberantes eram tambm negros. Havia tubos negros  direita e a
esquerda da capota, aquilo a que se chamaria tubos de escape turbo num carro de desporto. Mas a pintura actual era de um amarelo-vivo, quase trocista, e era isso
que no lhe agradava. Ah,  luz do sol da manh, com o seu corpo amarelo, tubos negros, esquis negros e a cabina aberta estofada de negro, parecia uma gigantesca
vespa mecnica. Quando estava a trabalhar tambm devia zumbir. Pronta a picar. Mas, com que havia de parecer-se? Pelo menos no voava, apesar daquelas cores enganadoras,
porque, depois de fazer o seu trabalho, eles ficariam muito doridos. Todos eles. Na Primavera, a famlia Torrance estaria to dorida que o que aquelas vespas tinham
feito  mo de Danny pareceria uma coisa sem importncia.
Jack tirou o leno de assoar da algibeira de trs, limpou a boca e encaminhou-se para o Skidoo. Ficou ali a observ-lo, agora de sobrolho franzido, e voltou a meter
o leno na algibeira. L fora, uma rajada de vento veio bater na arrecadao, que
288
abanou e rangeu. Jack espreitou pela janela e viu o temporal arrastando uma nuvem de cristais de neve contra as traseiras do hotel e fazendo-os rodopiar na direco
do cu azul.
O vento parou e Jack voltou-se outra vez para a mquina. Era um objecto desagradvel, na verdade. Pouco faltava para ter um longo ferro na parte de trs. Sempre
embirrara com os. malditos limpa-neves. Eles faziam estremecer a catedral de silncio que era o Inverno, produzindo mil e um rudos. Espantavam os animais selvagens.
Libertavam nuvens de fumo de leo, enormes, azuladas e poluidoras  tossiam, engasgavam-se, sufocavam as pessoas. Eram talvez o brinquedo grotesco e terminal da
idade dos fsseis dos combustveis, que se dava aos midos de dez anos no Natal.
Jack lembrou-se de um artigo de jornal que lera em Stoving-ton, uma histria passada algures no Maine. Uma criana ia num limpa-neves, por uma estrada que no conhecia,
a trinta milhas  hora. Com os faris apagados, havia uma pesada corrente amarrada a dois postes, com uma tabuleta pendurada ao meio onde se lia sentido proibido.
Era provvel que a criana nem a tivesse visto. A Lua devia estar atrs de alguma nuvem. A corrente decapitara a criana. Ao ler a histria, Jack ficara quase satisfeito
e agora, ao olhar para esta mquina, a mesma histria vinha-lhe  memria.
(Se no fosse por causa de Danny, dar-lhe-ia muito prazer pegar num daqueles maos, abrir o capote e comear a bater at...)
Deixou escapar um longo suspiro. Wendy tinha razo. Dissessem o que dissessem, Wendy tinha razo. Espancar esta mquina at  morte seria o paroxismo da loucura,
por muito agradvel que a situao fosse. Era quase o mesmo que espancar o filho at  morte.
 Maldita  disse Jack em voz alta.
Encaminhou-se para as traseiras da mquina e desenroscou o tampo do combustvel. Descobriu uma vara numa das prateleiras e meteu-a l dentro. A extremidade saiu
molhada. No muito, mas o suficiente para Jack se aperceber de que aquela maldita mquina poderia andar. Mais tarde poderia bombear mais gasolina do Volkswagen e
do camio do hotel. ?
Voltou a enroscar o tampo e abriu a capota. No viu velas de ignio nem bateria. Aproximou-se da prateleira e comeou a vasculhar, afastando chaves de parafusos
e chaves-inglesas, um carburador de uma mquina de cortar relva e caixas de
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plstico com parafusos, pregos e cavilhas. A prateleira tinha uma camada de leo negra e espessa, j de h muito tempo, e a poeira acumulada ao longo dos anos agarrara-se
a ela como se fosse pele. Jack no quis tocar-lhe.
Descobriu uma caixa pequena, manchada de leo, com a abreviatura Skid. laconicamente escrita a lpis. Abanou-a e qualquer coisa chocalhou l dentro. Velas. Pegou
numa e viu-a  luz, para ver o tamanho do orifcio sem ter de procurar a ferramenta adequada. Bolas, pensou, ressentido, deixando cair a vela dentro da caixa.
Se o buraco no for deste tamanho, estamos mal.
Havia um banco atrs da porta. Jack puxou-o, sentou-se e enroscou as quatro velas. Em seguida, colocou um pequeno tampo de borracha em cada uma. Quando acabou,
passou a mo pelo magneto. Eles riram-se quando me sentei ao piano.
Voltou s prateleiras. Desta vez, no conseguiu descobrir o que queria, uma pequena bateria. De trs ou quatro segmentos. Havia chaves-inglesas, uma caixa cheia
de brocas, pacotes de fertilizante para a relva e Vigoro para as flores, mas no uma bateria para o limpa-neves. No se preocupou. A verdade  que at ficou satisfeito.
Aliviado. Fiz o possvel, capito, mas no consegui. Est bem, filho. Vou condecorar-te com a Estrela de Prata e com o Limpa-Neves de Prpura. s uma honra para
o regimento. Obrigado, senhor. Eu tentei.
Comeou a assobiar Red River Valley, ao mesmo tempo que procurava nas prateleiras. As notas saam-lhe em pequenas baforadas de fumo. Procurou em todo o lado e no
descobriu a bateria. Algum a tirara. Watson, talvez. Riu-se em voz alta. O velho truque dos escritrios de bebidas de contrabando. Uns clips, duas resmas de papel,
ningum vai perder esta toalha ou este cenrio de Golden Regai... e que tal esta bateria para limpa-neves? Procurem no saco. Crime de casaca, querida. Toda a gente
tem as mos sujas.
Voltou para junto do limpa-neves e deu-lhe um valente pontap de lado. Bem, era o fim. Teria de dizer a Wendy, desculpa, querida, mas...
Havia uma caixa ao canto, junto da porta. Mesmo por baixo do banco. Em cima, a lpis, estava escrito Skid. Afinal parece que os teus sinais de fumo deram resultado.
No era justo.
Bolas, no era justo.
Qualquer coisa  a sorte, o destino, a providncia  tentara
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salv-lo. Um golpe de sorte. E no ltimo instante a velha m sorte de Jack Torrance voltara. O vil jogo de cartas ainda no acabara.
Invadiu-o uma onda de ressentimento. Sentiu um n na garganta. Cerrou os punhos.
(No  justo, bolas, no  justo!)
Porque no havia de ter olhado para outro lado? Para outro lado qualquer! Porque no tivera uma cibra no pescoo, comicho no nariz ou uma coisa num olho? Uma
dessas coisas sem importncia. Nunca a teria visto.
Bem, no a vira. Mais nada. Fora uma alucinao, em tudo igual  que tivera no dia anterior, naquele quarto do segundo andar ou no maldito topirio. Uma presso
momentnea, mais nada. Imagina que me convenci de que tinha visto uma bateria para o limpa-neves quele canto. Agora no havia ali nada.  do cansao, suponho, senhor.
Desculpe. Tem coragem, filho. Acontece a todos ns, mais tarde ou mais cedo.
Jack abriu a porta com uma fora capaz de fazer saltar os gonzos e puxou os esquis para dentro. Estavam cobertos de neve e, ao sacudi-los, provocou uma nuvem  sua
volta. Enfiou o p esquerdo no esqui... e parou.
Danny estava l fora, junto da plataforma do leite. Estava a tentar fazer um boneco de neve, ao que parecia. No estava com muita sorte. A neve estava demasiado
rija para colar. Mesmo assim, Danny dava-lhe o velho jeito aprendido na escola, ali  luz da manh, o vulto de um rapazinho enroupado, entre o brilho da neve e
o brilho do cu. Tinha o chapu puxado para trs como Carlton Fiske.
(Em que diabo ests a pensar?)
A resposta no se fez esperar.        :
(Em mim. Estava a pensar em mim.)
De repente lembrou-se da noite anterior, quando estava deitado na cama e de repente assistira ao assassnio da mulher.
Naquele instante, ali de ccoras, tudo se tornou claro para ele. No era apenas sobre Danny que o Overlook actuava. Era tambm sobre ele prprio. No era Danny o
ponto fraco, mas sim ele. Ele era o elemento vulnervel, aquele que poderia ser forado at estalar.
(at ir para a cama e dormir... e quando o fizer se o fizer)
Olhou para o parapeito das janelas, mas o sol, atravessando os vidros, quase o cegava. Continuou a olhar. Pela primeira vez apercebeu-se de que os vidros eram como
olhos. Reflectiam o
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sol e arrastavam a sua prpria escurido l para dentro. No era para Danny que estavam a olhar. Era para ele.
Naqueles breves instantes compreendeu tudo. Havia um certo quadro preto e branco que se recordava de ver quando era criana, nas aulas de catequese. A freira mostrara-o
s crianas em cima de um cavalete e chamara-lhe um milagre de Deus. A classe olhara para ele com um ar vago, e no vira nada seno uma confuso de brancos e negros,
sem sentido e sem forma. Ento, uma das crianas da terceira fila dissera, ofegante:  Jesus! E aquela criana voltara para casa com um volume do Novo Testamento
e com um calendrio porque fora a primeira a responder. Os outros levaram mais tempo, e no meio deles estava Jack Torrance. Uma a uma, as outras crianas tiveram
uma reaco semelhante e uma rapariguinha  beira do xtase gritou com voz estridente: Estou a v-lo! Estou a v-lo! Tambm fora recompensada com um volume do
Novo Testamento. Por fim, todos tinham visto o rosto de Jesus na confuso de brancos e negros excepto Jacky. Esforara-se cada vez mais, ento j assustado, em parte
pensando com cinismo que todos os outros estavam simplesmente a representar para agradar  irm Beatrice e, por outro lado, secretamente convencido de que ele no
estava a ver porque Deus achava que ele era o maior pecador da aula. No ests a ver, Jacky?, perguntara a irm Beatrice com o seu modo triste e meigo. Estou
a ver as tuas mamas, pensara, desesperado. Comeara a abanar a cabea, e depois dissera muito excitado: Sim, estou a ver! Livra!  Jesus! E todos na aula se
tinham rido e o tinham aplaudido, fazendo-o sentir-se triunfante, envergonhado e assustado. Mais tarde, quando todos tinham sado da cave da igreja e estavam j
na rua, Jack ficara para trs, a olhar para a confuso de brancos e negros sem sentido que a irm Beatrice deixara em cima do cavalete. Odiava aquilo. Todos tinham
estado a fingir, at a irm Beatrice. Era uma grande fraude. Merda, fogo do Inferno, merda, dissera em surdina, e quando se voltara vira o rosto de Jesus pelo
canto do olho, triste e srio. Voltou-se para o outro lado, com um n na garganta. De repente, tudo batia certo. Jack olhara para o quadro com um misto de surpresa
e de receio, sem querer acreditar que falhara. Os olhos, o ziguezague de sombra no sobrolho preocupado, o nariz fino, os lbios piedosos. A olhar para Jacky Torrance.
Aquilo que fora apenas uma mancha sem sentido transformara-se de sbito num esboo a preto e branco do rosto de Nosso Senhor Jesus
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Cristo. A surpresa e o receio deram lugar ao terror. Ele blasfemara na presena de um retrato de Jesus. Seria condenado. Iria para o Inferno com os outros pecadores.
O rosto de Jesus Cristo estava no quadro.
Agora, de ccoras ao sol, a ver o filho a brincar  sombra do hotel, sabia que tudo era verdade. O hotel queria Danny, talvez todos eles. Mas Danny, isso de certeza.
As sebes tinham mesmo andado. Havia uma mulher morta no quarto 217, uma mulher que talvez fosse apenas um esprito e no fizesse mal a ningum, mas uma mulher que
representava agora um perigo real. Como qualquer mecanismo malvolo a que tivessem dado corda e que se pusesse em movimento graas  mente estranha de Danny... e
 sua prpria mente. Fora Watson que lhe contara que um homem cara morto com uma sncope no campo de roque? Ou fora Ullman? No interessava. Houvera um assassnio
no terceiro andar. Quantas velhas brigas? Quantos suicdios? Quantas sncopes? Estaria Grady escondido algures na ala ocidental, com o seu machado,  espera de
Danny para o assustar?
As feridas  volta do pescoo de Danny.
As garrafas a tilintar no salo deserto.
O rdio.
Os sonhos.
O lbum de recortes que encontrara na cave.
(Medoc, ests a? Ando outra vez com acessos de sonambulismo, meu querido...)
Jack levantou-se de repente, atirando os esquis pela porta fora. Estava todo a tremer. Bateu com a porta e pegou na caixa da bateria. Esta escorregou-lhe da mos
(Oh meu Deus, e se eu a parto?)
e caiu de lado. Jack afastou as badanas de carto e tirou a bateria, sem se importar com o cido que poderia escorrer se ela estivesse partida. Mas no. Estava
inteira. Soltou um leve suspiro.
Pegou nela, levou-a para junto do Skidoo e colocou-a na sua plataforma, na parte da frente do motor. Descobriu uma pequena chave-inglesa numa das prateleiras e
apertou os cabos da bateria depressa e sem qualquer dificuldade. A bateria estava em boas condies, no precisava de ser carregada. Ouviu-se um pequeno rudo provocado
pela electricidade e sentiu-se um cheiro leve a ozono quando Jack ligou o cabo positivo ao terminal. Uma vez o trabalho feito, afastou-se, limpando as mos ao
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bluso desbotado, com nervosismo. Ali estava. Devia trabalhar. No havia razo para no trabalhar. No havia razo a no ser pelo facto de fazer parte do Overlook
e o Overlook no querer que eles sassem de l. No queria mesmo. O Overlook estava a divertir-se  grande. Havia um rapazinho para aterrorizar, um homem e uma
mulher para voltar um contra o outro, e, se desse bem as cartas, poderiam mesmo acabar a voar atravs das paredes como se fossem sombras sem substncia de um romance
de Shirley Jackson. O que quer que andava em Hill House andava sozinho, mas eles no estariam ss no Overlook, oh no, estariam muito acompanhados. Mas no havia
razo para que o limpa-neves no funcionasse. A menos que,
(a menos que ele no quisesse partir) sim, a menos que fosse por isso.
Jack ficou a olhar para o Skidoo. O bafo da sua respirao saa em pequenas partculas brancas e geladas. Queria que ele ficasse como estava. Quando chegara ali
no tinha dvidas. Naquela altura sabia que ir l abaixo seria uma deciso errada. Wendy estava apenas assustada com o fantasma invocado por um rapazinho histrico.
Agora, de repente, via as coisas pelo lado dela. Era como a sua pea, a sua maldita pea. J no sabia de que lado estava, ou qual iria ser o rumo dos acontecimentos.
Quando vemos o rosto de um deus numa confuso de brancos e negros, no h nada a fazer  nunca mais deixamos de o ver. Os outros podem rir-se e dizer que no  nada,
apenas uma srie de manchas sem significado, mas ns vemos sempre o rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo a olhar para ns. J o tnhamos visto, o consciente e o inconsciente
fundindo-se num instante de entendimento. V-lo-amos sempre. Estaramos sempre condenados a v-lo.
(Ando outra vez com acessos de sonambulismo, meu querido...)
Estava tudo bem at Jack avistar Danny a brincar na neve. Era culpa de Danny. Tudo fora culpa de Danny. Ele  que tinha o brilho, ou l o que era. No era um brilho,
era uma praga. Se ele e Wendy estivessem ali sozinhos, poderiam passar um Inverno muito agradvel. Sem aflies, sem presses.
(No quero ir-me embora? No podemos ficar?)
O Overlook no queria que eles partissem e ele tambm no queria. Nem mesmo Danny. Talvez ele agora j fizesse parte daquilo. Talvez o Overlook, o grande e devastador
Samuel Johnson que ele era, o tivesse arrebatado para o transformar no
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seu Boswell. Dizes que o novo vigilante escreve? Muito bem, contrata-o. A sorte est do nosso lado. No entanto, vamos primeiro ver-nos livres da mulher e do filho
intrometido. No quero que ele esteja distrado. No...
Jack estava junto da cabina do limpa-neves. A cabea recomeara a doer-lhe. O que havia de fazer? Ir ou ficar. Era muito simples. Vamos ou ficamos?
Se vamos, quanto tempo iremos levar a descobrir um buraco em Sidewinder?, perguntou-lhe uma voz no seu ntimo. O stio escuro onde homens desempregados, com a barba
por fazer, passavam o dia a ver televiso a cores? Onde a casa de banho dos homens tinha um cheiro de duzentos anos e havia sempre uma ponta de cigarro Cantei a
boiar na sanita? Onde a cerveja  a trinta cntimos o copo e se lhe mistura sal? Onde a jukebox est cheia de velhas canes country?
Quanto tempo? Oh, tinha tanto medo de que no houvesse tempo!
 No posso venc-lo  disse muito baixinho.
Era isso. Era como se estivesse a jogar sozinho com um baralho de cartas onde faltasse um s.
De repente, inclinou-se sobre o compartimento do motor do Skidoo e tirou o magneto. Este saiu com uma facilidade doentia. Ficou a observ-lo por instantes, depois
encaminhou-se para a porta que havia nas traseiras da arrecadao e abriu-a.
Dali viam-se as montanhas, sem qualquer obstculo de permeio. Era um cenrio maravilhoso, digno de um postal ilustrado,  luz difusa da manh. Um imenso campo
de neve subia at aos primeiros pinheiros a uma milha de distncia. Jack atirou o magneto o mais longe que pde. Ao cair, o objecto levantou uma pequena nuvem de
neve. A brisa suave transportou os grnulos de neve para outros stios. Dispersem, j disse. No h nada para ver. Acabou tudo. Dispersem.
Jack sentiu-se em paz.
Durante muito tempo ficou na soleira da porta, respirando o
bom ar das montanhas. Depois fechou-a com firmeza e saiu
pela outra porta, disposto a dizer a Wendy que ficariam. No
caminho, parou para uma batalha de bolas de neve com
Danny.        .....:.
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AS SEBES
Estava-se no dia vinte e nove de Novembro, trs dias depois do dia de Aco de Graas. A ltima semana fora agradvel, e o jantar de Aco de Graas o melhor que
tinham passado em famlia. Wendy assara no espeto o peru de Dick Hallorann e todos tinham comido at se fartarem sem conseguirem arrasar a simptica ave. Jack resmungou
que iriam comer peru o resto do Inverno  creme de peru, sanduches de peru, peru com massa, peru surpresa.
No, dissera-lhe Wendy, sorrindo. S at ao Natal. Depois tinham o capo.
Jack e Danny resmungaram em conjunto.
As feridas no pescoo de Danny tinham-se desvanecido e, com elas, os receios. Na tarde do dia de Aco de Graas, Wendy andara a puxar o tren de Danny, enquanto
Jack trabalhava na pea, que estava quase no fim.
Ainda tens medo, p?  perguntou, sem saber como ha
via de pr a questo.
Sim. Mas agora ando por lugares seguros  respondeu
Danny com simplicidade.
O pap diz que mais cedo ou mais tarde os guardas-
-florestais ficaro admirados por no os chamarmos atravs do
rdio e viro ver se se passa alguma coisa. Nessa altura podere
mos ir para baixo. Tu e eu. E deixamos o pap aqui at acabar o
Inverno. Ele tem boas razes para querer ficar. De certo modo,
p... Eu sei que tens dificuldade em compreender isto... mas
estamos encostados  parede.
Sim  respondeu Danny com indiferena.
Naquela manh radiosa, Jack e Wendy foram l para cima e Danny soube que tinham estado a fazer amor. Agora estavam a dormir. Sabia que estavam felizes. A me estava
ainda um pouco assustada, mas a atitude do pai era estranha. Era como seele tivesse feito qialquer coisa muito difcil e tivesse sido bem sucedido. Mas Danny
no sabia exactamente do que se tratava. O pai guardava o segredo com muito cuidado, mesmo na sua prpria mente. Danny interrogava-se se seria possvel que algum
estivesse contente por ter feito uma coisa e ao mesmo tempo se sentisse to envergonhado que nem queria pensar nisso. A pergunta era perturbante. No achava que
tal coisa fosse poss-
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vel... numa mente normal. As suas tentativas mais tenazes tinham-se limitado a traer at ele a imagem difusa de uma coisa que parecia um polvo contorcendo-se num
cu azul-escuro. E em ambas as ocasies em que se concentrara muito, o pap comeara de sbito a olhar para ele com um ar assustador, como se soubesse o que Danny
estava a fazer.
Agora estava no trio, a preparar-se para sair. Saa muito, com o tren ou com os esquis. Gostava de sair do hotel. Quando estava l fora, ao sol, parecia que um
peso lhe saa dos ombros.
Puxou uma cadeira, ps-se em cima dela, tirou o bluso e as calas para a neve do armrio do salo de baile e depois sentou--se na cadeira a arranjar-se. Calou
as botas, com a lngua de fora ao canto da boca, concentrado, enquanto as apertava e dava vrios ns ao atacador. Calou as luvas, ps a mscara de esquiar e ficou
pronto.
Atravessou a cozinha na direco da porta das traseiras e depois parou. Estava cansado de brincar do lado de trs, e a esta hora do dia a sombra do hotel projectava-se
na zona para onde costumava ir. No gostava de estar  sombra do Overlook. Em vez disso, resolveu calar os esquis e ir para o parque infantil. Dick Hallorann recomendara-lhe
que se mantivesse afastado do topirio, mas pensar nos animais da sebe no o incomodava muito. Estavam agora sepultados na neve e s se viam umas pontinhas que eram
a cabea do coelho e as caudas dos lees. Assim espetadas na neve, as caudas pareciam mais ridculas do que assustadoras.
Danny abriu a porta das traseiras e tirou os esquis da plataforma do leite. Cinco minutos depois, estava a at-los aos ps debaixo do alpendre. O pap dissera-lhe
que ele (Danny) apanhara o jeito dos esquis  a passada indolente, arrastada, o torcer do tornozelo que sacudia a neve dos atacadores no preciso momento em que
a bota voltava para baixo  e que lhe restava formar os msculos necessrios nas coxas, nas canelas e nos tornozelos. Danny descobriu que era nos tornozelo que
em primeiro lugar sentia o cansao. Andar de esqui era quase to duro para os tornozelos como patinar, porque era preciso estar sempre a afastar os atacadores. De
cinco em cinco minutos tinha de parar, de pernas afastadas, com os esquis assentes na neve, para descansar.
Mas para ir para o parque infantil no era preciso descansar porque era a descer. Menos de dez minutos depois de ter feito
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um esforo enorme para galgar o monstruoso monte de neve que se formara no alpendre do Overlook, Danny estava no escorrega. Nem sequer estava cansado.
O parque infantil tinha um aspecto mais agradvel assim coberto de neve do que durante o Outono. Parecia uma escultura de um pas de fadas. Os balouos tinham gelado
em posies estranhas, e os assentos dos balouos dos mais crescidos estavam rentes  neve. As barras de ferro pareciam uma selva de gelo guardada por dentes pontiagudos.
S as chamins da miniatura do Overlook emergiam da neve
(Quem dera que o outro estivesse sepultado ali, mas s depois de ns sairmos)
e o topo dos aros de cimento formavam duas salincias que pareciam iglus de esquims. Danny saltou para cima deles, ps-se de ccoras e comeou a escavar. Levou
muito tempo a descobrir a boca escura de um deles e escorregou para o tnel gelado. Na sua mente, era Patrick McGoohan, o agente secreto (tinham repetido a srie
no canal Burlington e o pap nunca falhara um episdio; faltara a uma festa para ficar em casa a ver o Agente Secreto ou Os Vingadores e Danny ficara sempre com
ele, a ver tambm), a fugir dos agentes do KGB nas montanhas da Sua. Houvera avalanchas na zona e o clebre agente Slob-bo, do KGB, matara a namorada com uma flecha
envenenada, mas a mquina russa antigravidade estava perto. Talvez ao fundo deste tnel. Danny puxou da automtica e continuou a andar, alerta, de olhos bem abertos,
a ofegar.
A outra extremidade do aro de cimento estava bloqueada pela neve. Danny tentou cavar um buraco e ficou admirado (e um pouco inquieto) ao ver como a neve estava slida,
quase transformada em gelo, por causa do frio e do peso das sucessivas camadas que se iam acumulando.
O jogo do faz-de-conta acabou e Danny apercebeu-se de repente de que estava enclausurado e extremamente nervoso neste exguo tnel de cimento. Ouvia a sua prpria
respirao; estava acelerada e tinha um som cavo. Estava debaixo da neve e pouca era a luz que entrava pelo buraco que ele cavara para entrar. De sbito desejou
mais do que nunca estar  luz do Sol e lembrou-se de que a mam e o pap estavam a dormir e no sabiam onde ele estava. Se o buraco se fechasse, ele ficaria ali
preso, e o Overlook no gostava dele.
Danny voltou-se com uma certa dificuldade e arrastou-se ao longo do tnel de cimento, com os esquis a baterem um no
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outro atrs de si e as palmas das mos assentes nas folhas de choupo do ltimo Outono. Tinha acabado de chegar ao fim, por onde entrava um raio de luz fria, quando
a neve cedeu, em pouca quantidade, mas o suficiente para lhe salpicar a cara, tapar a abertura que ele cavara e o deixar na escurido.
Por instantes, Danny ficou em pnico, incapaz de pensar. Depois, como se fosse de longe, ouviu o pai recomendar-lhe que nunca brincasse na lixeira de Stovington,
porque s vezes havia gente estpida que atirava para l frigorficos velhos sem retirar as portas, e se ele entrasse l para dentro e a porta se fechasse no poderia
sair de l. Morreria no escuro.
(No querias que te acontecesse uma coisa dessas, pois no, p?)
(No, pap.)
Mas acontecera, dizia-lhe a sua mente gelada, acontecera, ele estava no escuro, estava enclausurado, e ali dentro estava frio como num frigorfico. E...
(Est aqui qualquer coisa ao p de mim.)
Susteve a respirao. Um terror quase inerte instalou-se-lhe nas veias. Sim. Sim. Estava qualquer coisa ali ao p dele, qualquer coisa terrvel que o Overlook guardara
para uma ocasio como esta. Talvez fosse uma aranha grande que se metera debaixo das folhas secas, ou um rato... ou talvez o cadver de alguma criana que morrera
no parque infantil. Isso acontecera alguma vez? Sim, estava convencido que sim. Lembrou-se da mulher na banheira. Do sangue e dos miolos na parede da Suite Presidencial.
De uma criana com a cabea partida por ter cado das barras ou de um balouo, rastejando atrs dele no escuro, a sorrir,  procura de um companheiro de brincadeiras
para o seu parque infantil. Para sempre. Dentro de momentos ouvi-lo-ia aproximar-se.
Na outra extremidade do tnel de cimento Danny ouviu o restolhar ntido das folhas mortas, como se qualquer coisa se encaminhasse para ele, da gatas. Em qualquer
momento sentiria a sua mo fria no tornozelo...
Este pensamento quebrou a sua paralisia. Comeou a cavar a neve que se alojara na extremidade do tnel, atirando-a para trs, por entre as pernas, em nuvens de poeira,
como se fosse um co  procura de um osso. A luz filtrada penetrou no tnel e Danny atirou-se para cima como se fosse um mergulhador emergindo das profundezas do
mar. Arranhou as costas na borda do aro de cimento. Um dos esquis embateu no outro. A
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neve espirrou do interior da sua mscara e entrou pela gola do bluso. Danny cavava na neve, com fora. Parecia que aquela coisa invisvel, que fizera mexer as folhas,
tentava agarr-lo, sug-lo para baixo, lev-lo para o fundo do tnel de cimento e prend-lo ali. Para sempre.
Depois, conseguiu sair, de rosto voltado para o sol, rastejando na neve, fugindo do tnel de cimento semienterrado, ofegante, com a cara salpicada de neve, o que
lhe dava um aspecto cmico  a mscara viva do medo. Saltou por cima das barras de ferro e sentou-se para ajeitar os esquis e recuperar o flego. Enquanto apertava
as correias, no tirou os olhos do buraco que havia na extremidade do tnel. Esperou a ver se saa alguma coisa l de dentro. No saiu nada, e trs ou quatro minutos
depois a respirao de Danny comeou a abrandar. O que quer que era no podia suportar a luz do Sol. Estava escondido l em baixo, e talvez s sasse quando escurecesse...
ou quando as duas extremidades da sua priso circular estivessem tapadas pela neve.
(Mas agora estou a salvo, estou salvo e vou-me embora porque agora estou.)
Qualquer coisa fez um barulho no muito forte atrs dele.
Danny voltou-se para o hotel e olhou. Mas ainda antes de olhar
(Consegues ver os ndios nesta gravura?) soube o que iria ver, porque sabia o que provocara aquele barulho. Fora o rudo de um grande monte de neve a cair, tal
como acontecia quando a neve resvalava pelo telhado do hotel e caa ao cho.
(Consegues ver...?)
Sim. Conseguia. A neve cara do co da sebe. Quando Danny viera para baixo, o co no passava de um monte de neve inofensivo do lado de fora do parque infantil.
Agora estava  mostra, uma mancha de verde incongruente no meio de toda aquela brancura. Estava sentado, como que a pedir ou uma guloseima ou uma festa.
Mas desta vez Danny no iria enervar-se, no iria perder o sangue-frio, porque, pelo menos, no estava enclausurado num buraco escuro. Estava  luz do Sol. E aquilo
era apenas um co. Hoje est um dia quente, pensou, satisfeiro. Talvez o sol tivesse derretido a neve e o resto tivesse cado. Talvez fosse s isso.
(No te aproximes daquele stio... Mantm-te afastado.)
As correias dos esquis estavam bem apertadas. Danny levan-
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tou-se e olhou para o tnel de cimento, quase submerso na neve, e o que viu no buraco por onde sara gelou-lhe o corao. Havia uma mancha escura de forma circular,
uma zona de sombra que delimitava o buraco que ele cavara para sair. Agora, em vez da neve, Danny julgou ver ali qualquer coisa. Qualquer coisa a mexer-se. Uma
mo. A mo de uma criana tremendamente infeliz, a acenar, uma mo suplicante.
(Salva-me. Oh, por favor salva-me. Se no podes salvar-me ao menos vem brincar comigo... Para sempre. Para sempre. Para sempre.)
 No  disse Danny em voz baixa e rouca.
A palavra saiu-lhe seca da boca orlada de saliva. Sentia o seu esprito a pairar, a tentar afastar-se como acontecera com a mulher do quarto... No, era prefervel
no pensar nisso.
Danny agarrou-se  realidade. Tinha de sair dali. Concentra--te nisso. Mostra-te frio. S como o agente secreto. Patrick McGoohan desataria a chorar e a fazer chichi
nas calas como se fosse um beb?
-        E o pap?
Isto acalmou-o um pouco.
-        Ouviu de novo o barulho da neve a cair atrs de si. Voltou-se
e viu que a cabea de um dos lees da sebe estava fora da neve e
rosnava para ele. Estava mais prxima do que devia, quase ao
p da cancela do parque infantil.
O terror tentou apoderar-se dele, mas Danny resistiu. Era o agente secreto e ia escapar.
Preparou-se para sair do parque infantil, fazendo o mesmo percurso que o pai fizera no dia em que comeara a nevar. Concentrou-se nos esquis. Passadas lentas, com
os ps bem assentes no cho. No levantes demasiado os ps seno perdes o equilbrio. D um jeito ao tornozelo para sacudires a neve dos atacadores. Parecia estar
a abrandar. Danny aproximou-se da esquina do parque infantil. Havia ali uma grande altura de neve que lhe permitiu passar por cima da cerca. Estava quase a transp-la
quando um dos esquis se prendeu num dos postes da cerca. Inclinou-se para alm do limite da gravidade, agitando os braos, pois sabia como seria difcil levantar-se
se casse.
Da direita veio de novo aquele barulho suave, de neve a cair. Olhou e viu os outros dois lees, agora sem neve, apoiados nas patas da frente, lado a lado, a cerca
de sessenta passos dele. Os buracos verdes que eram os olhos estavam fixos nele. O co voltara a cabea para o outro lado.
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(Isso s acontece quando no ests a olhar.)        s
 Oh!Ai...
Os esquis engancharam-se um no outro e Danny caiu de borco na neve, agitando os braos inutilmente. Entrou-lhe mais neve para o gorro, para o pescoo e para o interior
das botas. Danny tentou pr os esquis debaixo do corpo, com o corao a bater como um louco
(Agente secreto, lembra-te que s os agente secreto.) e caiu para trs. Por instantes ficou ali deitado, a olhar para o cu e a pensar que seria mais simples desistir.
Depois lembrou-se da coisa no tnel de cimento e mudou de ideias. Ps-se de p e percorreu o topirio com o olhar. Os trs lees estavam agora uns ao p dos outros,
no a mais de quarenta passos. O co esgueirara-se para a direita, como se quisesse bloquear o caminho a Danny. No tinham agora neve em cima, com excepo de alguns
salpicos  volta do pescoo e no focinho. Estavam todos a olhar para ele.
A respirao de Danny comeou a acelerar-se e o pnico contorcia-se como se fosse um rato dentro da sua cabea. Conseguiu combat-lo e dominou os esquis.
(A voz do pap: No, no lutes com eles, p. Caminha sobre eles como se fossem os teus prprios ps. Caminha com eles.)
(Sim, pap.)
Danny recomeou a andar, tentando recuperar o ritmo fcil que treinara com o pai. A pouco e pouco foi conseguindo, mas o ritmo permitiu-lhe aperceber-se de como
estava cansado, como o medo o exaurira. Os tendes das coxas, das canelas e dos tornozelos estavam quentes e a tremer. A sua frente estava o Overlook, a uma distncia
ridcula, parecendo olhar para ele atravs das suas mltiplas janelas, como se assistisse a uma espcie de festival em que no estava muito interessado.
Danny espreitou por cima do ombro e perdeu o flego, para depois o recuperar a um ritmo agora mais acelerado. O leo mais prximo estava agora apenas a 6 metros,
arrastando-se na neve como um co a chapinhar numa poa de gua. Os outros dois caminhavam a seu lado, um  direita e outro  esquerda. Lembravam uma patrulha do
exrcito, com o co ainda mais  esquerda a fazer de escuteiro. O leo mais prximo tinha a cabea baixa. Os ombros erguiam-se-lhe poderosamente acima do pescoo.
A cauda estava levantada, como se antes de Danny se voltar para trs estivesse a abanar, para trs e para diante.
302
Danny pensou que ele parecia um grande gato a brincar com um rato antes de mat-lo.
(...a cair...)
No, se casse, estaria morto. Eles nunca o deixariam levantar-se. Cairiam sobre ele. Agitou os braos com desespero, conseguiu equilibrar-se e comeou a andar
mais depresssa, olhando de vez em quando por cima do ombro. O ar assobiava ao entrar e sair da sua garganta seca.
O mundo confinava-se  neve coruscante, s sebes verdes e ao som surdo dos esquis. E a qualquer coisa mais. A um rudo abafado e suave. Danny tentou estugar o passo
mas no conseguiu. Seguia agora pelo caminho coberto de neve, um rapazinho de rosto quase enterrado no capuz do bluso. A tarde estava calma e luminosa.
Quando voltou a olhar para trs, o leo da ponta estava apenas a metro e meio de distncia. Tinha a boca aberta e os quadris retesados como se fossem molas de
relgio. Atrs dele e dos outros, Danny viu o coelho, com a cabea fora da neve, muito verde, como se tivesse modificado a cor do focinho para observar a presa.
Agora, j no relvado em frente do Overlook, entre a faixa circular e o alpendre, Danny deu largas ao medo e desatou a correr o melhor que os esquis lho permitiam,
no se atrevendo a olhar para trs, com os braos estendidos  frente do corpo como se fosse um cego a tactear os obstculos. O capuz caiu--lhe, revelando uma palidez
que dava lugar a manchas avermelhadas na face. Os olhos estavam esbugalhados, tal era o terror. O alpendre estava agora muito perto.
Atrs de si ouviu o ranger sbito da neve como se alguma coisa tivesse saltado.
Caiu nos degraus do alpendre, gritando, sem no entanto emitir qualquer som, e arrastando-se de joelhos, com os esquis chocalhando atrs de si.
Ouviu-se o som de qualquer coisa a rasgar-se e Danny teve uma dor sbita na perna. O som de tecido a rasgar-se. Mais alguma coisa que ele imaginara.
Um rugido ameaador, furioso.
Um cheiro a sangue e a sempre-viva.
Danny estatelou-se no alpendre, soluando violentamente, com o sabor metlico do cobre na boca. O corao batia-lhe com fora no peito. Um fio de sangue escorria-lhe
do nariz.
No fazia ideia h quanto tempo estava ali deitado, quando
303 portas do trio se abriram e Jack saiu a correr, dejeans e de pantufas. Wendy vinha atrs dele.
Danny!  gritou Wendy.
Danny, pelo amor de Deus! O que se passa? O que acon
teceu?
O pap ajudou-o a levantar-se. As calas tinham um rasgo por baixo do joelho. Por dentro, a meia tambm estava rota e a canela levemente esfolada... como se Danny
tivesse tentado abrir caminho por uma sebe densa de sempre-viva e os ramos o agarrasem.
Danny espreitou por cima do ombro. L em baixo, para l do relvado, havia uma srie de montes de neve. Eram os animais da sebe. Entre eles e o parque infantil.
Entre eles e a estrada.
As suas pernas perderam a fora. Jack deitou-lhe a mo. Danny desatou a chorar.
35
o TRIO
Danny contara tudo aos pais excepto o que lhe acontecera quando a neve bloqueara a entrada no tnel de cimento. No conseguia repetir aquela histria. E no sabia
que palavras empregar para descrever a sensao crescente de terror e de lassido que tivera ao ouvir as folhas mortas a estalar furtivamente na escurido gelada.
Mas falou-lhes do rudo da neve a cair. Do leo de cabea e ombros levantados abrindo caminho na neve para o perseguir. Contou-lhes mesmo como o coelho voltara a
cabea no final.
Estavam os trs no trio. Jack acendera uma boa fogueira. Danny estava enrolado num cobertor, no mesmo sof onde h um milho de anos tinham estado sentadas trs
freiras, a rir como se fossem rapariguinhas,  espera que a bicha da recepo diminusse. Estava a beber sopa de massa quente por uma tigela. Wendy estava sentada
a seu lado, afagando-lhe o cabelo. Jack sentara-se no cho, e o seu rosto parecia acalmar-se  medida que Danny ia contando a sua histria. Por duas vezes tirou
o leno de assoar da algibeira de trs e limpou os lbios doridos com ele.
304
        Ento eles vieram atrs de mim  concluiu Danny.
Jack levantou-se e aproximou-se da janela, de costas para
ambos. Danny olhou para a me.
        Vieram atrs de mim at ao alpendre.
Fazia um esforo para falar com voz calma, porque se se mostrasse calmo talvez os pais acreditassem nele. O senhor Stenger no mantivera a calma. Comeara a chorar
e no conseguira parar; por isso os homens de bata branca tinham vindo busc-lo, porque quando no conseguimos deixar de chorar isso significa que piramos da cuca.
E quando voltaremos? Ningum sabe. O bluso, as calas e os esquis estavam agora em cima da carpeta, do lado de dentro da grande porta dupla.
(No vou chorar, no quero chorar.)
E convenceu-se de que poderia faz-lo, embora no conseguisse deixar de tremer. Olhou para o fogo e esperou que o pai dissesse alguma coisa. Grandes labaredas amareladas
danavam na lareira de pedra escura. Um tronco de pinheiro estalou e as falhas subiram pela chamin.
        Danny, chega aqui  disse Jack, voltando-se.
O seu rosto ostentava aquela expresso atormentada, mortfera. Danny no gostava de olhar para ele nestas alturas.
Jack...
S quero que o mido chegue aqui por um instante.
Danny levantou-se e aproximou-se do pai.
Lindo menino. E agora, o que vs?
Danny sabia o que iria ver ainda antes de se aproximar da janela. Abaixo do rasto das botas, do tren e dos esquis, que assinalava a sua rea habitual de exerccio,
o manto de neve que cobria os relvados do Overlook descia at ao topirio e ao parque infantil. Tinha duas espcies de sulcos: um em linha recta, que ia do alpendre
ao parque infantil, e o outro uma linha curva, que voltava para cima.
S vejo o meu rasto, pap. Mas...
E as sebes, Danny?
Os lbios de Danny comearam a tremer. Estava quase a chorar. E se no conseguisse parar?
(No vou chorar, no vou chorar, no vou chorar, no vou.)
Est tudo coberto de neve  disse em voz baixa.  Mas,
pap...
O qu? No ouvi o que disseste!
305

Jack, ests a interrog-lo! No percebes que ele est al
terado, que est...
Cala-te! Ento, Danny?
Eles arranharam-me pap. Na perna...
Deves ter-te cortado numa crosta de neve.
Ento Wendy interps-se entre eles, plida e com um ar furioso.
        O que ests a obrig-lo a fazer? A confessar um assass
nio? O que se passa contigo?
O ar estranho de Jack pareceu quebrar-se nessa altura.
        Estou a tentar ajud-lo a perceber a diferena que existe
entre uma coisa que  real e outra que no passa de uma aluci
nao, mais nada.
Aproximou-se de Danny de modo a ficar cara a cara com ele, e depois abraou-o com fora.
Danny, isso no aconteceu. Est bem? Foi como um des
ses transes que tens de vez em quando. Mais nada.
Pap...
O que , Dan?
Eu no esfolei a perna numa crosta de neve. No h
crosta nenhuma. A neve est toda em p. Nem sequer d para
fazer bolas. Lembra-se que tentmos fazer uma batalha de
bolas de neve e no conseguimos?
Danny sentiu que o pai estava de novo irritado com ele.
        Ento foi no degrau do alpendre.
Danny afastou-se. De repente percebeu. Viera-lhe  ideia de repente, como acontecia s vezes, tal como sucedera com a mulher que queria estar dentro das calas
do homem. Olhou para o pai com os olhos muito abertos.
Sabe que estou a dizer a verdade  disse em voz baixa,
chocado.
Danny...
O rosto de Jack comeou a crispar-se.
        O pap sabe porque viu...
A mo espalmada de Jack, caindo sobre o rosto de Danny, produziu um som seco, mas no dramtico. A cabea do mido rolou para trs. A bochecha ficou vermelha como
um tio.
Wendy soltou um gemido.
Por instantes ficaram os trs em silncio. Em seguida, Jack agarrou o filho e disse:
Danny, desculpa. Ests bem, p?
Bateste-lhe, patife! Patife!  gritou Wendy.
306
Wendy pegou no outro brao de Danny. Por instantes cada
um puxava Danny para seu lado.        >
        Oh, por favor, deixem-me  gritou Danny.
E havia tal agonia na sua voz que ambos o largaram. Ento as lgrimas vieram e Danny soobrou, chorando, entre o sof e a janela. Os pais olhavam para ele sem saber
o que fazer, tal como uma criana olharia para um brinquedo partido durante uma luta furiosa. Na lareira estalou outro toro de pinheiro, como se fosse uma granada,
fazendo-os dar um salto.
Wendy deu-lhe uma aspirina infantil, e Jack foi meter Danny na cama sem que ele protestasse. Pouco depois estava a dormir, com o dedo na boca.
        No gosto disto.  um retrocesso  disse Wendy.
Jack no respondeu.
Wendy olhou para ele com doura, sem ira mas tambm sem um sorriso.
Queres que te pea desculpa por ter-te chamado patife?
Est bem, peo desculpa. Mas no devias ter-lhe batido.
Eu sei  respondeu Jack entre dentes.  Eu sei. Mas
no sei o que me deu.
Tu prometeste que nunca mais lhe baterias.
Jack olhou para ela, furioso, e em seguida a fria dissipou--se. De repente, com um misto de piedade e de horror, Wendy viu que Jack parecia um velho. Nunca o vira
assim.
(Assim como?)
Derrotado, disse para si prpria. Tem um ar derrotado.
Jack disse:
        Sempre pensei que conseguiria cumprir as minhas pro
messas.
Wendy aproximou-se dele e pousou-lhe a mo no brao.
Est bem, j passou. E quando o guarda-florestal vier sa
ber o que nos aconteceu, dizemos-lhe que queremos ir para
baixo. Est bem?
Est bem  disse Jack.
E naquele momento estava a ser sincero. Tal como acontecu nas manhs seguintes ao ver o seu rosto plido e atormentado no espelho da casa de banho. Vou parar, vou
cortar o mal pela raiz. Mas  manh seguiu-se a tarde e de tarde sentiu-se um pouco melhor. E  tarde seguiu-se a noite. Como teria afirmado qualquer grande pensador
do sculo xx, a noite tem de cair.
Deu consigo a desejar que Wendy lhe fizesse perguntas so-
307
bre as sebes, lhe perguntasse o que Danny quisera dizer com o pap sabe porque viu... Se ela o fizesse, contar-lhe-ia tudo. Tudo. Sobre as sebes, a mulher na banheira,
mesmo sobre a mangueira que parecia ter mudado de posio. Mas at onde iria a confisso? Poderia dizer-lhe que tinha deitado fora o mag-neto, e que poderiam estar
a esta hora em Sidewinder se no tivesse feito aquilo?
Queres ch?  perguntou Wendy.
Sim, uma chvena de ch.  uma boa ideia.
Wendy encaminhou-se para a porta e parou, coando o brao por cima da camisola.
A culpa tambm  minha. O que estvamos ns a fazer
quando ele estava a passar por aquele... sonho, ou l o que ?
Wendy...
Estvamos a dormir  disse ela.  A dormir como dois
adolescentes, refastelados.
Cala-te. J acabou  disse Jack.
No  respondeu Wendy com um sorriso estranho e que
denotava inquietao.  No acabou.
Foi fazer o ch e deixou-o a velar o filho.
36
0 ELEVADOR
Jack acordou de um sono leve e inquieto, em que formas imensas e indefinidas o perseguiam atravs de campos de neve sem fim na direco do que  primeira vista parecia
ser outro sonho: escurido e uma sbita confuso de rudos mecnicos.
Foi ento que Wendy se sentou a seu lado e Jack percebeu que no era um sonho.
 O que  isto?
A sua mo, fria como o mrmore, pegou-lhe no pulso.Jack reprimiu-se para no a afastar  por que diabo havia ele de saber o que era aquilo? O relgio iluminado
que estava em cima da mesa de cabeceira indicava que era meia-noite menos cinco.
Outra vez o mesmo zumbido. Alto e forte, sempre no mesmo tom. Seguiu-se um estrpido e o zumbido parou. Um estrondo. Depois o zumbido recomeou.
308
T; Era o elevador.         ,--.,;;
ti Danny estava sentado.        '      ?
i Pap? Pap?        ,-   5
a A voz ensonada denotava medo.
  Estou aqui, p  disse Jack.  Anda para aqui. A mam
tambm est acordada. Ouviu-se o rudo da roupa quando Danny se meteu na cama
entre eles.
         o elevador  disse em voz baixa.  Exactamente  disse Jack.   apenas o elevador. i  O que queres dizer com apenas?  inquiriu Wendy.
Havia uma nota de histeria na sua voz. :      de noite. Quem est l dentro?
De novo o mesmo barulho. Agora por cima da cabea deles. O barulho da porta a abrir-se como se fosse um acordeo, o rudo das portas interiores a abrirem-se e a
fecharem-se. Depois, de novo o zumbido do motor e o chiar dos cabos.
Danny comeou a tremer.
Jack saltou da cama.        .,,;-
Deve ser um curto-circuito. Vou ver.No te atrevas a sair deste quarto!        :
No sejas estpida  disse Jack, vestindo o roupo.  
o meu trabalho.
Momentos depois, Wendy levantou-se tambm, arrastando Danny.
Vamos tambm.
Wendy...
O que ? O que se passa, pap?  perguntou Danny com
um ar sombrio.
Em vez de responder, Jack voltou-lhe as costas com um ar irritado. J perto da porta, atou o cinto do roupo, abriu-a e entrou no corredor s escuras.
Wendy hesitou por momentos, e depois foi Danny que comeou a mexer-se em primeiro lugar. Wendy apanhou-o rapidamente e saram juntos.
Jack no se incomodara a acender as luzes. Wendy tacteou  procura do interruptor dos quatro candeeiros do pequeno corredor que ia dar ao corredor principal. Jack
ia j a voltar a esquina. Desta vez Danny descobriu o interruptor e acendeu as luzes. O corredor que conduzia s escadas e ao fosso do elevador iluminou-se.
Jack estava junto da porta que dava para o fosso, que estava
309
ladeada de bancos e de cinzeiros. Estava imvel. Com o seu roupo de xadrez desbotado e de pantufas de couro castanhas com as solas gastas, o cabelo emaranhado,
o marido pareceu--lhe um Hamlet do sculo xx, grotesco, uma figura hesitante to hipnotizada pela tragdia iminente que no conseguia alterar o seu curso.
(Meu Deus, deixa de imaginar tolices...)
Danny agarrara-se-lhe com fora  mo. Olhava para ela com uma expresso atormentada e ansiosa. Wendy apercebeu-se de que ele estivera a captar os seus pensamentos.
At que ponto o conseguira era impossvel dizer, mas corou como se tivesse sido apanhada em pleno acto de masturbao.
 Anda.
E desceram o corredor ao encontro de Jack.
Naquele stio os rudos eram mais fortes, desconexos, aterradores. Jack olhava para a porta fechada com uma intensidade febril. Atravs da janela em forma de diamante
que havia ao meio da porta do elevador, Wendy julgou ver os cabos ligeiramente franjados. O elevador parou com estrondo no rs-do--cho, junto do trio. Ouviram
a porta a abrir-se. E...
(festa)
Porque pensara numa festa? A palavra viera-lhe  ideia sem qualquer motivo. O silncio no Overlook era total e intenso, com excepo dos rudos estranhos que vinham
do fosso do elevador.
(deve ter sido c uma festa)
(??? QUE FESTA???)
Por instantes aquela imagem to real pareceu-lhe uma recordao... no uma recordao qualquer, mas uma daquelas que se guardam como se fossem tesouros, que reservamos
para ocasies muito especiais e de que raramente falamos. Luzes e cores, o estalido das rolhas das garrafas de champanhe, uma orquestra de quarenta elementos a
tocar In the Mood, de Glenn Miller. Mas Glenn Miller cara no seu bombardeiro ainda antes de ela ter nascido, como se poderia recordar de Glenn Miller?
Olhou para Danny e verificou que voltara a cabea para o lado como se escutasse qualquer coisa que ela no conseguia ouvir. Estava muito plido.
Pum.
A porta fechara-se l em baixo. Um zumbido lamentoso quando o elevador comeou a subir. Wendy viu o motor por cima da cabina, primeiro atravs da janela em forma
de dia-
310
mante, e depois o interior da cabina atravs da porta metlica. Dentro da cabina, uma luz amarelada e quente. Estava vazia. A cabina estava vazia. Estava vazia mas
(na noite da festa deviam ser s dezenas apinhados na cabina sem respeitar os limites de segurana, mas  claro que nessa altura a cabina era nova e todos usavam
mscaras).
(???QUE MSCARAS???)
A cabina parou por cima deles, no terceiro andar. Wendy olhou para Danny, que tinha os olhos muito abertos. A boca resumia-se a uma fresta sem cor, assustada. Em
cima, a porta metlica abriu-se. A porta de madeira abriu-se em seguida, com estrondo. Fez estrondo porque chegara a altura, chegara a altura de dar
(as boas-noites... as boas-noites... sim, era maravilhoso... no, no posso mesmo ficar para depois... tenho de me deitar cedo porque tenho de me levantar cedo...
oh, aquela era a Sheila?... o monge?... no  giro a Sheila ter-se mascarado de monge?... sim, boa noite... boa).
Pum.
O som metlico dos traves. O motor recomeou a trabalhar. A cabina comeou a descer.
Jack  disse Wendy em voz baixa.  O que  isto?
O que se passa?
Um curto-circuito  respondeu Jack. O seu rosto estava
impassvel.
J te disse que foi um curto-circuito.
Continuo a ouvir vozes na minha cabea!  gritou
Wendy.  O que  isto? Sinto que estou a endoidecer!
Que vozes?
Jack olhou para ela plido como um cadver. Wendy voltou--se para Danny.
        E tu ouviste...?
Danny abanou lentamente a cabea em sinal afirmativo.
        Ouvi. E msica. Como se fosse h muito tempo. Na mi
nha cabea.
A cabina do elevador parou outra vez. O hotel estava em silncio, deserto. L fora, o vento uivava ao longo dos beirais, no escuro.
        Talvez vocs estejam os dois malucos  disse Jack para
manter conversa.  Eu no ouvi nada a no ser o elevador a
andar aos soluos. Se querem formar um dueto de histricos,
estejam  vontade. Mas no contem comigo!
311
O elevador vinha a descer outra vez.
Jack afastou-se para o lado direito, onde havia uma caixa com uma porta de vidro, fixa na parede,  altura do peito. Jack bateu no vidro com o punho fechado. O vidro
partiu-se e os pedaos caram l para dentro. Jack tinha os ns de dois dedos ensanguentados. Meteu a mo l dentro e retirou uma chave com um cabo comprido e macio.
Jack, no. No faas isso.
Vou fazer a minha obrigao. Deixa-me em paz, Wendy!
Wendy tentou segurar-lhe o brao. Jack empurrou-a, ela
tropeou no roupo e caiu em cima da carpete com estrondo. Danny soltou um grito estridente e ajoelhou-se a seu lado. Jack voltou-se para o elevador e enfiou a chave
na ranhura.
Os cabos do elevador desapareceram e o fundo do elevador apareceu na pequena janela. Um segundo depois, Jack deu a volta  chave. Ouviu-se um rudo arrastado quando
a cabina se imobilizou de repente. Por instantes o motor desligado chiou com mais fora na cave, e depois o corta-circuitos deixou o Overlook mergulhado num silncio
que no parecia deste mundo. L fora, em plena noite, o barulho do vento parecia mais forte. Jack olhava estupidamente para a porta de metal acinzentado do elevador.
Por baixo da fechadura viam-se trs manchas de sangue dos seus dedos.
Por instantes voltou-se para Wendy e para Danny. Wendy estava sentada e o filho estava agarrado a ela. Ambos o fitavam, cautelosos, como se fosse um estranho, algum
que nunca tinham visto antes e que poderia ser-perigoso. Jack abriu a boca sem saber o que iria dizer.
... Wendy,  o meu trabalho.
Que se lixe o teu trabalho  respondeu Wendy.
Jack voltou-se para o elevador, meteu os dedos no espao que havia do lado direito da porta e conseguiu abri-la um pouco. Depois fez fora e abriu-a completamente.
A cabina parara a meio caminho, o cho ficara ao nvel do peito de Jack. A luz continuava acesa e contrastava com a escurido gordurosa do fosso.
Jack ficou a olhar l para dentro durante muito tempo.
        Est vazia  disse ento.  Foi um curto-circuito, como
eu dissera.
Meteu os dedos na parte de trs da porta e conseguiu empurr-la at a fechar... Depois sentiu a mo de Wendy no seu ombro, com uma fora surpreendente, tentando
afast-lo.
312
        Wendy!  gritou
Mas ela j se agarrara ao fundo da cabina e iara o corpo o suficiente para olhar l para dentro. Depois, com um esforo convulsivo dos ombros e dos msculos abdominais,
tentou subir. Por instantes pensaram que no conseguiria. Os ps vacilaram na escurido do fosso e uma pantufa cor-de-rosa soltou-se--lhe do p e caiu l em baixo,
a perder de vista.
        Mam!  gritou Danny.
Depois, conseguiu subir, de rosto afogueado, com a testa plida e luzidia.
        E isto, Jack? Isto  um curto-circuito?
Atirou qualquer coisa, e de repente o corredor ficou cheio de confetis vermelhos, brancos, azuis e amarelos.
        ?
Uma serpentina verde, que com os anos adquirira um tom pastel.
        E isto?
Wendy atirou uma coisa que veio pousar na selva de azul e negro da carpete. Era uma mscara olho-de-gato, de seda preta, enfeitada de lantejoulas.
        Isto parece-te um curto-circuito, Jack?  gritou-lhe.
Jack afastou-se lentamente daquilo, abanando a cabea com
um gesto mecnico. Da carpete semeada de confetis, a mscara olho-de-gato olhava fixamente para o tecto.
37
0 SALO DE BAILE
Era o primeiro dia de Dezembro.
Danny estava no salo de baile da ala leste, em cima de um cadeiro estofado, a olhar para o relgio debaixo do vidro. Estava ao meio da grande chamin de sala
ornamental, ladeado por dois elefantes de marfim. Danny estava quase  espera de que os elefantes comeassem a andar e o trespassassem com os seus dentes compridos,
mas eles nem se mexeram. Eram seguros. Desde a noite do elevador que passara a dividir todas as coisas do Overlook em duas categorias. O elevador, a cave, o
313
parque infantil, o quarto 217 e a suite presidencial (j sabia como se escrevia a palavra suite, pois vira-a num livro de contas que o pai estivera a ler ao jantar,
no dia anterior, e tivera o cuidado de fix-la), esses stios eram inseguros. Os aposentos dele e dos pais, o trio e o alpendre eram seguros. Aparentemente,
o salo de baile tambm o era.
(Os elefantes eram-no, de qualquer modo.)
Quanto aos outros locais, no tinha a certeza; por isso evitava-os por princpio.
Olhou para o relgio dentro da redoma de vidro. Estava debaixo do vidro porque as rodas, os mecanismos e as molas estavam  mostra. Tinha uma faixa cromada ou
de ao  volta, do lado de fora, e mesmo por baixo do mostrador via-se um pequeno eixo com um par de rodas dentadas de cada lado. Os ponteiros marcavam onze e um
quarto, e, embora Danny no conhecesse os algarismos romanos, adivinhava pela posio dos ponteiros a que horas o relgio parara. O relgio estava assente numa base
de veludo.  frente, ligeiramente distorcida pela curvatura da redoma, estava uma chave de prata finamente gravada.
Danny supunha que o relgio era um dos objectos em que no deveria tocar, tal como os apetrechos decorativos da lareira no seu suporte de lato junto da chamin
do trio ou o menino de porcelana que estava ao fundo da sala de jantar.
De repente, sentiu-se invadido por um sentimento de injustia e de rebelio e
(No me importa aquilo em que no posso mexer, no me importa. Aquilo tocou-me, no tocou? Brincou comigo, no brincou?)
E fora verdade. E no tivera muito cuidado com ele.
Danny estendeu os braos, pegou na redoma de vidro e pousou-a ao lado do relgio. Por instantes deixou que um dos dedos brincasse com os mecanismos, tocasse nas
rodas dentadas e acariciasse as engrenagens. Pegou na chave de prata. Para um adulto, esta seria desconfortavelmente pequena, mas adaptava--se perfeitamente ao tamanho
dos seus dedos. Enfiou-a no orifcio que havia no centro do mostrador. A chave entrou firmemente, com um leve clique, que mal se ouviu. A corda era para a direita,
claro  no sentido dos ponteiros do relgio.
Danny rodou a chave at no poder mais e depois tirou-a. O relgio comeou a fazer tiquetaque. As rodas dentadas comearam a girar. Um grande pndulo andava para
trs e para
314
diante, em semicrculos. Os ponteiros estavam a mexer-se. Se no mexesse a cabea e mantivesse os olhos muito abertos, veria o ponteiro dos minutos a aproximar-se
do ponteiro das horas, o que aconteceria da a quarenta e cinco minutos. s XII.
(E a Morte Vermelha pairava sobre todos eles)
Danny franziu o sobrolho e afastou aquele pensamento. Era um pensamento que no constitua qualquer referncia nem tinha significado para ele.
Com o indicador, empurrou o ponteiro dos minutos para junto do ponteiro das horas, curioso com o que iria acontecer.  claro que no era um relgio de cuco, mas
aquela vara de ao havia de ter alguma finalidade.
Seguiu-se uma srie de pequenos estalidos e depois o relgio comeou a tocar O Danbio Azul, a valsa de Strauss. Um rolo de tecido que no tinha mais de cinco centmetros
de largura comeou a desenrolar-se. Uma pequena srie de varas de lato subia e descia. Da parte de trs do mostrador saram duas figuras, deslizando ao longo da
faixa de ao, dois bailarinos,  esquerda uma rapariga de saia vaporosa e meias brancas,  direita um rapaz de calas pretas e sapatos de bailado. Tinham as mos
arqueadas sobre a cabea. Juntaram-se a meio, em frente do nmero VI.
Danny reparou que tinham pequenas ranhuras dos lados, precisamente debaixo dos braos. O eixo deslizou na direco das ranhuras e ouviu-se um pequeno clique. As
rodas dentadas nas extremidades do eixo. O Danbio Azul continuava a tocar. Os bailarinos abraaram-se. O rapaz atirou a rapariga ao ar, sobre a cabea, e depois
deu uma volta no eixo. Estavam agora deitados, a cabea do rapaz metida debaixo da saia curta da rapariga e o rosto desta encostado ao meio das calas do rapaz.
Contorciam-se num frenesim mecnico.
Danny torceu o nariz. Estavam a dar beijinhos no pipi um do outro. Isso enojava-o.
Pouco depois, as coisas comearam a recuar. O rapaz rodou de novo o eixo. Ps a rapariga na posio vertical. Pareciam dizer adeus um ao outro com as mos arqueadas
sobre a cabea. Retiraram-se tal como tinham vindo e desapareceram no preciso momento em que O Danbio Azul acabou. O relgio comeou a dar uma srie de badaladas
de som metlico.
(Meia noite! Est a bater a meia noite!)
( altura de tirar as mscaras!)
315
Danny deu uma volta na cadeira e por pouco ia caindo. O salo de baile estava deserto. Via a neve a comear a cair do outro lado da janela dupla de catedral. A enorme
carpete do salo (que estava enrolada para facilitar a dana), uma mistura opulenta de vermelho e dourado, jazia no cho, impassvel.  volta, havia pequenas mesas
ntimas para duas pessoas, e as respectivas cadeiras, em forma de aranha, estavam de pernas para o ar, apontando para o tecto.
O salo estava vazio.
Mas no era inteiramente verdade que estivesse vazio. Porque aqui no Overlook as coisas iam e vinham. Aqui no Over-look todos os momentos eram um s. Houvera uma
noite infindvel, em Agosto de 1945, com risos, bebidas e uns quantos eleitos, que brilhavam, subindo e descendo de elevador, bebendo champanhe e distribuindo
favores na cara uns dos outros. E vinte anos depois, numa daquelas noites de Junho ainda no muito claras, os batedores da organizao crivavam de balas os corpos
despedaados e ensanguentados de trs homens que sofriam uma agonia sem fim. Num quarto do segundo andar, uma mulher boiava na banheira,  espera de visitas.
No Overlook as coisas tinham uma espcie de vida. Era como se tivessem dado corda a tudo com uma chave de prata. O relgio estava a trabalhar. O relgio estava a
trabalhar.
E Danny pensava que ele prprio era essa chave. Tony avisara-o e ele limitara-se a deixar as coisas andar.
Estou precisamente nas cinco!, exclamou para algum que estivesse na sala.
Faz alguma diferena que eu esteja nas cinco?
No houve resposta.
Danny voltou-se para o relgio com relutncia.
Abstrara-se dele, na esperana de que acontecesse alguma coisa que o impedisse de chamar Tony outra vez, que aparecesse um gurda-florestal, ou um helicptero,
ou uma equipa de socorro. Nos programas de televiso chegavam sempre a tempo e as pessoas eram salvas. Na televiso, os guardas-florestais, a polcia e o pessoal
paramdico eram uma fora amigvel que contrabalanava com a confuso malfica que ele percebia existir no mundo. Quando as pessoas estavam em apuros, eles salvavam-nas
sempre. E nunca tinham de salvar-se a si prprios.
Por favor!
No houve resposta.
316
Sem resposta, se Tony viesse, ele teria o mesmo pesadelo? Aquela voz prfida, rouca e petulante? A carpete azul e negra que lembrava cobras? Oinissassa?
E depois?
Por favor, oh por favor!
No houve resposta.
A tremer, soltou um suspiro e olhou para o relgio. As rodas dentadas moviam-se engrenadas umas nas outras. O pndulo andava de um lado para o outro, num movimento
hipntico. E, se no mexssemos a cabea, veramos o ponteiro dos minutos a caminhar inexoravelmente das XII para as V. Se no mexssemos a cabea veramos que...
O mostrador do relgio tinha desaparecido. Em seu lugar estava um buraco negro e redondo. Que dava no se sabe para onde. Comeou a aumentar de tamanho. O relgio
desapareceu e, com ele, a sala. Danny cambaleou e depois caiu na escurido que o mostrador ocultara at ento.
De sbito, o rapazinho caiu da cadeira e ficou deitado no cho, enrolado, numa posio pouco vulgar, com a cabea atirada para trs, os olhos vtreos fixos no tecto
alto do salo de baile.
Para baixo, cada vez mais para baixo...
... no corredor, estava de ccoras no corredor, e enganara-se no caminho, ao tentar voltar para as escadas enganara-se no caminho E AGORA...
... reparava que estava no pequeno corredor sem sada que ia dar  suite presidencial, e o barulho aproximava-se cada vez mais, o mao de roque assobiava selvaticamente
no ar e a cabea espetava-se na parede, arrancando pedacinhos de estuque.
(Sai da maldito! Toma o...)
Mas havia outro vulto no corredor. Encostado  parede, de cabea inclinada e com um ar indiferente. Como se fosse um fantasma.
No, no era um fantasma, mas estava todo vestido de branco. Vestido de branco.
(Hei-de descobrir-te, maldito, filho da me, PIGMEU!)
Danny fora recuando. Estava agora no corredor do terceiro andar. No faltaria muito para o dono daquela voz virar a esquina.
(Anda c! Anda c, meu pedao de merda!)
O vulto vestido de branco endireitou-se um pouco, tirou um cigarro do canto da boca e sacudiu uma partcula de tabaco do
317
lbio inferior. Era Hallorann. Com o seu fato de cozinheiro em vez do fato azul com que Danny o vira no ltima dia.
        Se houver sarilho  disse Hallorann  chamas-me. Um
grito forte e sonoro como aquele de h pouco. Ouvir-te-ia nem
que estivesse na Florida. E se ouvir, virei a correr. Virei a cor
rer. Virei a...
(Vem agora, ento! Vem agora, vem AGORA! Oh, Dick preciso tanto, todos ns precisamos tanto...)
        ...correr. Desculpa, mas tenho de correr. Desculpa,
Danny, desculpa, p, mas tenho de correr. Vai ser giro, mas
tenho de vir a correr.
(No!)
Mas quando Danny olhou, Hallorann voltou-lhe as costas, ps de novo o cigarro ao canto da boca e atravessou a parede com um ar indiferente.
Deixando-o sozinho.
E foi ento que o vulto-sombra virou a esquina, imenso,  luz do corredor. S se distinguia o brilho vermelho dos olhos.
(C ests tu! Agora apanhei-te, maldito! Vou dar-te uma lio!)
Correu para ele, a bambolear-se, brandindo o mao de roque. Danny recuou, a cambalear, deu um grito e de repente atravessou a parede e comeou a cair, aos tropees,
cada vez mais para baixo, atravs do buraco, da toca do coelho, at chegar a um pas cheio de maravilhas doentias.
Tony ia um pouco abaixo dele, tambm a cair.
(No posso vir mais, Danny... ele no me deixa aproximar de ti... nenhum deles me deixa aproximar de ti... chama Dick... chama Dick...)
        Tony!  gritou Danny.
Mas Tony desaparecera e de repente Danny achou-se num quarto s escuras. Mas no inteiramente s escuras. Havia uma luz coada vinda de qualquer lado. Era o quarto
da mam e do pap. Estava a ver a secretria do pap. Mas o quarto estava numa desordem horrvel. J estivera neste quarto antes. O gira-discos da mam estava virado
ao contrrio, no cho. Os discos, espalhados na carpete. O colcho estava quase todo fora da cama. Os quadros, arrancados das paredes. O seu div estava tombado
como se fosse um co morto, e o Volkswagen de plstico feito em pedaos.
A luz vinha da porta da casa de banho, que estava entreaberta. Por cima da porta, via-se uma mo pendurada, com o
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sangue a escorrer das pontas dos dedos. E no espelho do armrio dos medicamentos, a palavra OINISSASSA aparecia e desaparecia.
De repente, um relgio muito grande dentro de uma redoma de vidro ganhou forma diante de Danny. O mostrador no tinha ponteiros nem nmeros, apenas uma data escrita
a vermelho: 2 DE DEZEMBRO. E depois, horrorizado, Danny viu a palavra OINISSASSA reflectida na redoma, duas vezes. E percebeu que se escrevia com as mesmas letras
de ASSASSNIO.
Danny Torrance deu um grito de terror. A data desaparecera do mostrador do relgio. O prprio mostrador desaparecera para dar lugar a um buraco escuro e redondo
que inchava, inchava como se fosse uma ris a dilatar-se. Ofuscava tudo, e Danny caiu para a frente. Foi caindo, caindo, estava...
...a cair da cadeira.
Por instantes, ficou deitado no cho do salo de baile, respirando com dificuldade.
OINISSASSA ASSASSNIO OINISSASSA ASSASSNIO.
(A Morte Vermelha pairava sobre todos eles!)
(Tirem as mscaras! Tirem as mscaras!)
E, por trs de cada mscara faiscante, aquele rosto nunca visto do vulto que o perseguira pela escurido dos corredores, de olhos vermelhos, escancarados, vagos
e homicidas.
Oh, Danny tinha medo de ver aquela cara  luz quando finalmente chegasse a altura de tirar as mscaras.
Dick, gritou com todas as suas foras. At a cabea parecera estremecer com a fora do grito.
(!!! OH DICK OH POR FAVOR POR FAVOR POR FAVOR VEM!!!)
Por cima dele, o relgio, a que dera corda com a chave de prata, continuava a marcar os segundos, os minutos e as horas.
??"apARTE QUESTES DE VIDA E DE MORTE
''
38
NA FLORIDA
Dick, o terceiro filho do senhor Hallorann, com o seu fato branco de cozinheiro e um cigarro ao canto da boca, ao volante do seu celebrizado Cadillac, fez marcha
atrs para sair do parque de estacionamento do mercado abastecedor e contornou o edifcio devagar. Masterton, que no era agora o nico dono mas continuava a usar
a patente que adoptara antes da Segunda Guerra Mundial, empurrava uma caixa de alfaces para o interior do edifcio alto e escuro.
Hallorann carregou no boto para baixar o vidro do outro lado e gritou:
        Esses abacates so grandes de mais,  meu palerma!
Masterton olhou por cima do ombro, fez um largo sorriso,
ostentando trs dentes de ouro, e respondeu:
E eu sei onde  que tu havias de met-los, meu bom
amigo.
J estou farto dessas bocas, mano.
Masterton fez-lhe um sinal obsceno com o dedo. Hallorann retribuiu o cumprimento.
Se vieres cedo, amanh, levas as batatas mais bonitas que
j viste.
Eu mando o rapaz  respondeu Hallorann.  Vais l
acima esta noite?
Ofereces a bebida, mano?
 farta!
L estarei. E v se vais devagar, ests a ouvir? Daqui at
St. Pete j todos os polcias te conhecem.
No te escapa nada, hem?  disse Dick, sorrindo.
Eu sei mais do que tu alguma vez hs-de aprender, meu
rapaz.
Olhem para este negro insolente. Esto a ouvir?
323
I

Desaparece daqui antes que eu comece a atirar-te as al
faces.
Anda, atira-as.  da maneira que as consigo de graa.
Masterton fez meno de atirar-lhe uma. Hallorann encolheu-se, fechou a janela e partiu. Sentia-se satisfeito. H meia hora que lhe cheirava a laranjas, mas no
achava isso estranho. A verdade  que passara essa ltima meia hora num mercado de legumes e de frutas.
Eram quatro e meia da tarde do primeiro dia de Dezembro. O senhor Inverno instalara o seu traseiro gelado na maior parte do pas, mas aqui os homens andavam de camisa
de manga curta e as mulheres de vestidos leves e de cales. No cimo do edifcio do First Bank of Florida, um termmetro digital, ladeado de grandes toranjas, marcava
vinte e cinco graus continuamente. Abenoada Florida, pensou Hallorann, com mosquitos e tudo.
Na parte de trs da limusina ia uma dzia de abacates, uma caixa de pepinos, laranjas e toranjas. Trs sacos cheios de cebolas das Bermudas, os legumes mais doces
criados por Deus, ervilhas, que seriam servidas como entrada e que nove em cada dez vezes voltavam para dentro, e um frasco de sumo que era exclusivamente para uso
pessoal.
Hallorann parou na faixa que seguia para Vermont Street, e quando a seta verde apareceu no semforo voltou para a estrada 219, mantendo-se nos setenta at a cidade
comear afastar-se e se entrar na zona perifrica das bombas de gasolina, dos Burger Kings e dos MacDonalds. Hoje fora uma encomenda muito pequena, podia ter mandado
Baedecker busc-la, mas Baedec-ker preferira ir buscar a carne e, alm dissso, Hallorann nunca perdia uma oportunidade de ir ter com Frank Masterton. Talvez Masterton
aparecesse hoje  noite para ver televiso e para beber do Bushmill de Hallorann, ou talvez no. Tanto fazia. Mas v-lo era importante. Cada vez era mais importante,
porque ambos j no eram novos. Nos ltimos dias parecia-lhe que pensara muito nisso. J no se  novo quando se est  beira dos sessenta (ou  para dizer a verdade
 j se ultrapassou essa idade) e se comea a pensar na morte. Podemos ir em qualquer altura. E toda a semana pensara nisso, no de uma forma obsessiva, mas como
uma possibilidade. A morte fazia parte da vida. Tnhamos de estar sintonizados para ela se queramos ser pessoas a srio. E se a morte era difcil de entender,
pelo menos no era impossvel de aceitar.
324
No sabia porque pensara nisto, mas o outro motivo que o levara a vir buscar uma encomenda to pequena fora a oportunidade de poder subir at ao pequeno escritrio
que ficava por cima do Frank's Bar and Grill. Agora havia ali um advogado (parece que o anterior locatrio, um dentista, falira no ano anterior), um jovem negro
chamado Mclver. Hallorann fora ter com ele e dissera-lhe que queria fazer um testamento. Poderia Mclver ajud-lo? Bem, perguntara Mclver, mas para quando quer o
documento? Para ontem, respondera Hallorann, atirando a cabea para trs e soltando uma gargalhada. Tem alguma coisa complicada em mente?, fora a pergunta seguinte
de Mclver. No, Hallorann no tinha nada complicado em mente. Tinha o seu Cadillac, a conta bancria  uns novecentos dlares , uma conta  ordem insignificante
e um armrio com roupas. Queria que fosse tudo para a irm. E se a irm morresse primeiro do que ele?, perguntara Mclver. No faz mal, respondera Hallorann. Se isso
acontecer, farei um novo testamento. O documento fora redigido e assinado em menos de trs horas  uma tarefa rpida para um advogado  e agora repousava no bolso
da camisa de Hallorann, dentro de um sobrescrito azul onde se lia a palavra testamento, em letra gtica.
No sabia explicar por que escolhera este dia quente e cheio de sol, em que se sentia to bem, para fazer uma coisa que andava a protelar h anos, mas tivera aquele
impulso e no lhe dissera que no. Estava habituado a seguir os seus pressentimentos.
Agora j estava fora da cidade. Carregou no acelerador at aos cem, o que era ilegal, e deixou-se seguir pela faixa da esquerda, apanhando a maior parte do trnsito
que ia para Pe-tersburg. Sabia por experincia prpria que a limusina andaria a cento e quarenta com toda a segurana, e mesmo a cento e oitenta no parecia abanar
muito. Mas esses dias loucos j iam longe. S o facto de pensar em chegar aos cento e oitenta numa estrada a direito o assustava. Estava a ficar velho.
(Meu Deus, que cheiro activo tm estas laranjas! E se j no esto boas?)
Os insectos vinham esmagar-se contra o vidro da janela. Dick sintonizou o rdio para uma estao de Miami que transmitia msica soul e apanhou a voz suave e chorosa
de Al Green.
What a beautiful time we had together, --? Now it's getting late and we must leave each other...
325
Abriu a janela, deitou fora a ponta do cigarro e depois abriu--a ainda mais para fazer sair o cheiro das laranjas. Batia com os dedos no volante, ao ritmo da msica,
e cantarolava baixinho. Presa ao retrovisor, a sua medalha de So Cristvo balouava para trs e para diante.
E de repente o cheiro a laranja intensificou-se e Dick soube que aquilo estava a chegar, que qualquer coisa estava a vir at ele. Pelo espelho retrovisor viu os
seus prprios olhos, dilatados de espanto. E depois aquilo veio de repente como se fosse uma enorme exploso que devastasse tudo: a msica, a estrada  sua frente,
a conscincia de si prprio enquanto ser humano nico. Era como se algum lhe tivesse apontado uma arma psquica  cabea e tivesse disparado um grito de calibre
quan-renta e cinco.
(!!! OH DICK OH POR FAVOR POR FAVOR VEM!!!)
A limusina acabara de ficar lado a lado com uma furgoneta conduzida por um homem de fato-macaco. O operrio viu a limusina a entrar na sua faixa e tocou a buzina.
Como o Cadillac continuava a guinar para o seu lado, o operrio deitou uma olhadela ao condutor e viu um negro enorme, muito direito, atrs do volante, olhando
para cima com uma expresso vaga. Mais tarde, o operrio disse  mulher que sabia tratar-se de uma daquelas cabeleiras postias que todos eles usavam naquela altura,
mas, no momento em que ele olhara, Dick parecia ter os cabelos todos em p. Pensou que o negro estava a ter um ataque de corao.
O operrio travou a fundo, sem deixar de tocar a buzina, e barafustou com a limusina desvairada. Convidou o condutor da limusina a cometer um acto sexual interdito
com ele. A ir pregar aos pardais. Props que todos os indivduos de sangue negro regressassem ao continente natal. Exprimiu a sua crena na posio que a alma do
condutor da limusina iria ocupar na outra vida. Acabou por dizer que estava convencido de ter encontrado a me do condutor da limusina num bordel de Nova Orlees.
Depois seguiu em frente, j livre de perigo, e de repente deu conta de que molhara as calas.
Na mente de Hallorann o pensamento repetia-se,
(VEM DICK POR FAVOR VEM DICK POR FAVOR) mas comeou a desvanecer-se, tal como acontece com uma estao de rdio quando nos aproximamos dos limites da sua rea
de difuso. Atordoado, Dick apercebeu-se de que o carro se-
326
guia pela berma do lado esquerdo a mais de oitenta quilmetros por hora. Encaminhou-o de novo para a estrada, sentindo a traseira rabiar por instantes.
Havia uma banca de rootbear1 mesmo  frente. Hallorann fez sinal e voltou, com uma cor doentia e o corao a pulsar violentamente no peito. Arrumou o carro no parque
de estacionamento, puxou do leno e limpou a testa.
(Meu Deus!)
        O que deseja?
A voz voltou a assust-lo, ainda que no fosse a voz de Deus mas a de uma rapariguinha atraente, junto da janela aberta do carro, com um bloco na mo.
Quero um copo de rootbeer, querida. Com duas colheres
de baunilha, est bem?
Est bem, senhor.
A rapariga afastou-se, rolando as ancas com elegncia sob a bata de nylon vermelho.
Hallorann recostou-se no banco e fechou os olhos. Tudo se desvanecera. Os ltimos laivos tinham desaparecido entre o momento em que parara o carro e aquele em que
encomendara a bebida. O que ficara fora uma valente dor de cabea, como se lhe tivessem torcido os miolos e os tivessem posto a secar. Como a dor de cabea que apanhara
por ter permitido que aquele mido, o Danny, tivesse comunicado com ele atravs do seu brilho l de cima, daquela loucura do UUman.
Mas desta vez fora muito mais forte. De incio, o mido estivera apenas a brincar com ele. Mas desta vez estava em pnico, que Dick bem ouvira as palavras a ribombarem-lhe
no crebro.
Olhou para os braos. O sol incidia neles, e at tinham inchado. Dissera ao mido para o chamar se precisasse de ajuda, bem se lembrava. E agora o mido estava
a cham-lo.
De repente perguntou a si mesmo como era possvel que tivesse deixado o rapaz l em cima, brilhando como brilhava. Estava-se mesmo a ver que ia haver problemas,
talvez problemas graves.
De sbito ps o carro a trabalhar, fez marcha atrs, e recuou at  estrada, fazendo chiar os pneus. A empregada do bar ficou junto do arco, com uma bandeja e um
copo de rootbeer nas mos.
' Bebida de baixo teor alcolico feita de extracto de razes. (N. da T.)
327
        O que  que lhe deu? Est alguma coisa a arder?  gri
tou.
Mas Hallorann j desaparecera.
O gerente era um homem chamado Queems e, quando Hallorann chegou, Queems estava a conversar com o seu agente de apostas. Queria os quatro cavalos em Rockaway. No
havia mais nada a dizer. S queria os quatro, por seiscentos dlares  cabea. E os Jets no domingo. O qu? Os Jets corriam pelos Bills? Ele no sabia por quem corriam
os Jets? Quinhentos e setenta dlares. Quando Queems acabou a conversa, com um ar desconcertado, Hallorann percebeu como  que um homem podia fazer cinquenta mil
dlares por ano com este pequeno negcio e continuar a usar fatos coados. Fitou Hallorann com uns olhos ainda injectados de sangue, pelas muitas olhadelas que dera
 garrafa de Bourbon na noite anterior.
H novidades, Dick?
H sim, senhor Queems, creio que sim. Preciso de trs
dias de folga.
Queems tinha um mao de Kent no bolso da camisa amarela de tecido transparente. Puxou um cigarro, sem tirar o mao, e meteu-o na boca, devagar. Acendeu-o com o isqueiro
de mesa.
Tambu eu  respondeu.  Mas o que ests apensar?
Preciso de trs dias  repetiu Hallorann.  E o meu
mido.
Os olhos de Queems caram na mo esquerda de Hallorann, que no tinha aliana.
Estou divorciado desde mil novecentos e sessenta e qua
tro  acrescentou Hallorann, num tom paciente.
Dick, sabes qual  a situao no fim-de-semana. Estamos
cheios. At  porta. At os lugares mais baratos. At no do
mingo  noite temos gente no Salo Florida. Por isso, leva-me o
relgio, a carteira, a penso. Com os diabos, at podes levar-me
a mulher, se conseguires atur-la. Mas por favor no me peas
folgas. O que tem ele, est doente?
Est, senhor  respondeu Hallorann, tentando imagi
nar-se a torcer o chapu barato nas mos e a revirar os olhos nas
rbitas.  Levou um tiro.
Um tiro!  disse Queems.
Pousou o Kent num cinzeiro com o emblema de Ole Miss, de quem era f.
        Sim, senhor  disse Hallorann com um ar sombrio.
328
Algum acidente de caa?
No, senhor  respondeu Hallorann, baixando o tom da
voz.  Foi por causa de Jana, aquela que vive com o motorista
do camio. Ele deu um tiro no meu rapaz. Est num hospital
de Denver, no Colorado. Em estado crtico.
Como diabo  que soubeste? Pensei que tinhas ido com
prar legumes.
Sim, senhor, e fui.
Hallorann parara no escritrio da Western Union,  vinda, para alugar um automvel da Avis que o levasse ao aeroporto de Stapleton. Antes de sair, surripiara um
impresso da Western Union. Agora empunhava a folha de papel dobrada e ama-chucada que tirara da algibeira e exibia-a perante o olhar injectado de sangue de Queems.
Voltou a met-la no bolso e, num tom de voz ainda mais baixo, acrescentou:
Foi Jana que mo mandou. Estava mesmo agora na minha
caixa do correio quando cheguei.
Meu Deus, meu Deus!  disse Queems.
O seu rosto denotava uma preocupao muito peculiar, que Hallorann j conhecia. Aproximava-se de uma expresso de simpatia de um branco que se tinha na conta de
bondoso para com a gente de cor, quando o objecto dessa simpatia era um negro ou o seu filho imaginrio, tambm negro.
        Est bem, podes ir  disse Queems.  Baedecker pode aju
dar-me nesses trs dias, acho eu. O mido pode dar uma ajuda.
Hallorann fez um sinal afirmativo, mantendo uma expresso impassvel, mas a ideia do rapaz a ajudar Queems f-lo sorrir. At num dia de boa disposio duvidava que
o rapaz conseguisse limpar o urinol.
        Quero devolver o salrio desta semana  disse Hallo
rann.  Por inteiro. Sei o transtorno que isto lhe faz, senhor
Queems.
A expresso de Queems tornou-se ainda mais tensa. Parecia que tinha uma espinha atravessada na garganta.
Falaremos disso mais tarde. Vai fazer as malas. Eu falarei
com Baedecker. Queres que te reserve o voo?
No, senhor. Eu trato disso.
Est bem.
Queems levantou-se, inclinou-se para a frente e aspirou uma baforada de fumo do seu Kent. Tossiu com fora e o seu rosto plido e magro ganhou um tom avermelhado.
Hallorann fez um esforo para manter a sua expresso sombria. ,?
329
Espero que tudo se resolva, Dick. Telefona quando sou
beres alguma coisa.
Prometo.
Trocaram um aperto de mo por cima da secretria.
Halloran desceu ao rs-do-cho e atravessou o recinto, antes de soltar uma valente gargalhada. Estava ainda a sorrir e a limpar as lgrimas com o leno quando o
cheiro a laranjas voltou, sbito e intenso, a que se seguiu uma guinada na cabea que o atirou contra a parede de estuque rosado, como se estivesse embriagado.
(!!! POR FAVOR VEM DICK POR FAVOR VEM VEM DEPRESSA!!!
Levou algum tempo a recompor-se e por fim sentiu-se capaz de subir a escada exterior que conduzia ao seu apartamento. Guardava a chave debaixo do tapete, e quando
se baixou para apanh-la caiu-lhe qualquer coisa do bolso interior que resvalou at ao segundo andar com um rudo surdo. Estava ainda to concentrado na voz que
acabara de ouvir que, por instantes, limitou-se a olhar para o sobrescrito azul, sem saber do que se tratava.
Depois, voltou-o e deparou com as letras negras da palavra TESTAMENTO.
(Oh, meu Deus, isto  assim?)
No sabia. Mas podia ser. Toda a semana o pensamento da sua prpria morte o acompanhara com se fosse um... bem, com uma
(V, diz.) como uma premonio.
Morte? Por instantes toda a sua vida pareceu desfilar diante
dos seus olhos, no no sentido histrico, no na topografia dos
altos e baixos por que passara Dick, mas a sua vida tal como era
agora. Martin Luther King dissera-lhes, no muito antes de
aquela bala o levar para o seu tmulo de mrtir, que ele fora 
montanha. Dick no podia afirmar o contrrio. No fora 
montanha, mas atingira um planalto soalheiro depois de vrios
anos de luta. Tinha bons amigos. Possua todas as referncias
de que precisava para conseguir emprego em qualquer lado.
Quando queria fazer amor encontrava sempre uma mulher
simptica que no fazia perguntas e que no questionava o sig
nificado do acto. Conseguira reconciliar-se com a sua condio
de negro  sentia-se feliz. J passara dos sessenta e, graas a
Deus, continuava a viver.        ai
330
Ia pr em risco tudo aquilo  a sua prpria vida  por trs pessoas que nem sequer conhecia?
Mas isso no correspondia  verdade, pois no?
Conhecia o mido. Tinham partilhado alguns momentos como s vezes amigos de quarenta anos no conseguem fazer. Conhecia o mido e o mido conhecia-o a ele porque
ambos tinham uma espcie de farol na cabea, algo que no tinham pedido, e que lhes fora concedido.
(No, tu tens um lampejo, ele  que tem um farol.)
E, por vezes, aquela luz, aquele brilho, parecia ser uma coisa muito bela. Permitia pegar nos cavalos ou, como o mido contara, permitia dizer ao pai onde estava
o ba quando ningum o encontrava. Mas isso era s aparncia, o molho da salada, e l por baixo havia ervilhaca amarga em vez de pepino frio. Aquela luz trazia o
sabor da dor, da morte e das lgrimas. E agora o mido estava enclausurado naquele stio e ele iria ao seu encontro. Porque, ao falar com o mido, s a cor da pele
 que era diferente. Por isso iria ter com ele. Faria o que pudesse, porque seno o rapaz acabaria por morrer dentro da sua cabea.
Mas como era humano, no pde impedir-se de desejar que o copo nunca tivesse transbordado.
(Ela levantara-se e viera atrs dele.)
Estava a meter uma muda de roupa numa pequena mala quando o pensamento o assaltou, gelando-o com o poder da memria como acontecia sempre que pensava nisso. Tentava
evit-lo ao mximo.
A criada, Delores Vickery era o seu nome, ficara histrica. Fora contar coisas a outras criadas e, pior ainda, a alguns hspedes. Quando Ullman soube, como aquela
estpida deveria ter imaginado que iria acontecer, ele despediu-a no mesmo instante. Ela viera ter com Hallorann, lavada em lgrimas, no por ter sido despedida
mas por aquilo que vira naquele quarto do segundo andar. Entrara no 217 para mudar as toalhas, segundo contara, e fora dar com aquela senhora Massey morta, na banheira.
O que era impossvel. O corpo da senhora Massey fora retirado discretamente no dia anterior e voava naquele momento para Nova Iorque  no poro, em vez da primeira
classe a que estava acostumada.
Hallorann no gostava muito de Delores, mas naquela noite fora l acima ver. A criada era uma rapariga de pele cor de azeitona, de vinte e trs anos, que servia
 mesa quando a tem-
331
porada estava a acabar e as coisas acalmavam. Hallorann estava convencido de que ela possua um certo brilho, no mais do que um vislumbre. Um homem silencioso e
a sua companheira, de casaco desbotado, tinham vindo para jantar e Delores arranjara-lhes uma das suas mesas a troco de dinheiro. O homenzinho silencioso deixara
uma fotografia de Alexander Hamilton debaixo do prato, um mau negcio para a rapariga. Mas, pior ainda, Delores dera com a lngua nos dentes. Era preguiosa, uma
amadora envolvida numa operao conduzida por um homem que no permitia amadorismos. Costumava sentar-se num roupeiro, a ler o correio sentimental das revistas
e a fumar, mas sempre que Ullman fazia uma das suas aparies inesperadas (e para pouca sorte da rapariga Ullman andava sempre atrs dela) ia dar com ela a trabalhar
industriosamente, com a revista escondida numa prateleira alta, debaixo dos cobertores, e o cinzeiro enfiado  pressa na algibeira da bata. Sim, Hallorann achava
que ela fora pateta e que as outras raparigas se tinham vingado dela, mas Delores tinha o seu pequeno vislumbre. Sempre assim fora. Mas o que ela vira no quarto
217 assustara-a o suficiente para ter ficado mais do que satisfeita por Ullman ter feito as contas com ela e a ter mandado embora.
Porque viera ter com ele? Um brilho atrai outro brilho, pensara Hallorann, a sorrir.
Ento, naquela noite, subira ao quarto, que seria reocupado no dia seguinte. Utilizara a chave do gabinete para entrar, e, se Ullman o tivesse apanhado com aquela
chave, Hallorann teria ido juntar-se a Delores Vickery na bicha dos desempregados.
A cortina  volta da banheira estava corrida. Hallorann puxara-a, mas, momentos antes, tivera o pressentimento do que iria ver. A senhora Massey, inchada e roxa,
jazia na banheira meia de gua. Ficara ali a olhar para ela, com o pulso acelerado e um n na garganta. Houvera outras coisas no Overlook: um pesadelo que voltava
em intervalos regulares  uma espcie de baile de mscaras, durante o qual ele andava a servir no salo e, quando algum ordenava que tirassem as mscaras, todos
destapavam a cara e via-se que eram insectos em decomposio. E houvera os animais da sebe. Duas vezes, talvez trs, ele os vira (ou se convencera de que vira)
mexer-se, embora quase imper-ceptivelmente. O co parecia abandonar a sua postura sentada e baixar-se, e os lees pareciam avanar, como se ameaassem as crianas
que estavam no parque infantil. No ano passado, em Maio, Ullman mandara-o ao sto procurar os apetrechos
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da lareira que estavam agora junto do fogo de sala do trio. J l em cima as trs lmpadas do tecto tinham-se apagado e Hal-lorann tinha ficado desorientado sem
saber onde era o alapo. Durante muito tempo andara s apalpadelas, quase em pnico, chocando com caixotes e outros objectos, com a sensao cada vez mais forte
de que alguma coisa andava a persegui-lo no escuro. Algum ser enorme e assustador que tinha nascido do cho quando as luzes se tinham apagado. E ao tropear no fecho
do alapo comeara a correr com quantas foras tinha e deixara o sto aberto, cheio de fuligem e em desalinho, com a sensao de que ia acontecer uma desgraa.
Mais tarde, UU-mann descera  cozinha, para informar de que a porta do sto ficara aberta e as luzes acesas. Estaria Hallorann convencido de que os hspedes queriam
ir l para cima brincar aos tesouros? Ou que a electricidade era de graa?
E Hallorann desconfiava  no, tinha quase a certeza  de que alguns hspedes tambm tinham visto ou ouvido coisas. Durante os trs anos que estava ali, a Suite
Presidencial fora reservada dezanove vezes. Seis dos hspedes que a tinham ocupado haviam deixado o hotel mais cedo, alguns visivelmente doentes. Outros hspedes
tinham-se mudado para outros quartos, tambm de repente. Numa noite de Agosto de 1974, ao anoitecer, um homem que ganhara medalhas de bronze e de prata na Coreia
(esse homem fazia agora parte da administrao de trs importantes empresas e dizia-se que seduzira um famoso locutor de televiso) tivera um inesperado ataque
de histerismo no relvado e desatara aos gritos. E enquanto Hallorann estava no Overlook houvera dezenas de crianas que pura e simplesmente se recusavam a ir brincar
para o parque infantil. Uma criana tivera uma convulso quando estava a brincar nos aros de cimento, mas Halloran no sabia se tal facto poderia atribuir-se ao
canto de sereia do Overlook ou no  correra o boato entre a criadagem que a criana, a filha nica de uma estrela de cinema, era epilptica e de que se esquecera
de tomar o remdio naquele dia.
E fora assim, observando o cadver da senhora Massey, que Hallorann se sentira assustado, mas no aterrorizado. Aquilo no o apanhara totalmente de surpresa. O terror
veio quando ela abriu os olhos, mostrando umas pupilas cor de prata, e comeou a rir-se para ele. O terror veio quando
(Ela levantara-se e viera atrs dele.) Hallorann fugiu, com o corao aos pulos e, mesmo depois de
333
fechar a porta atrs de si e a trancar, no se sentira seguro. A verdade  que admitia para si prprio, agora, enquanto corria o fecho da mala, que nunca mais voltaria
a sentir-se seguro no Overlook.
E agora o mido estava a cham-lo, a gritar por socorro.
Halloran olhou para o relgio. Eram cinco e meia da tarde. J ia a encaminhar-se para a porta quando se lembrou de que o Inverno no Colorado era rigoroso, especialmente
no cimo das montanhas, e voltou ao roupeiro. Tirou o seu sobretudo forrado de pele de ovelha do saco em que viera da tinturaria e p-lo no brao. Era a nica pea
de roupa de Inverno que tinha. Fechou as luzes todas e olhou  volta. Esquecera-se de alguma coisa? Sim. De uma coisa. Tirou o testamento da algibeira e p-lo atrs
do espelho do toucador. Se tivesse sorte, havia de voltar para vir busc-lo.
Se tivesse sorte, claro.
Saiu do apartamento, fechou a porta atrs de si, meteu a chave debaixo do tapete, desceu a escada a correr e entrou no Cadillac.
Quando ia a meio caminho do aeroporto internacional de Miami, a uma distncia confortvel de Queems e dos seus bajuladores, Hallorann parou num centro comercial
Laundromat e telefonou para as United Air Lines. Havia voos para Denver?
Havia um s seis e trinta e seis. Servia?
Hallorann olhou para o relgio, que marcava seis horas e dois minutos. E havia lugares vagos?
Deixe-me ver.
Um clique no ouvido seguido de um Mantovani adocicado com o qual se pretendia tornar a espera mais agradvel. No era o caso. Hallorann passava de um p para o outro,
lanando olhares alternados ao relgio e a uma jovem com um beb s costas que descarregava um carrinho. Estava com receio de chegar a casa mais tarde do que planeara
e o assado se queimasse e o marido  Mark? Mike? Matt?  se zangasse.
Passou-se um minuto. Hallorann estava quase a decidir-se a continuar a viagem e a tentar a sua sorte, quando a voz enlatada da empregada das reservas reapareceu
na linha. Havia um lugar vago de algum que cancelara a viagem. Era em primeira classe. Fazia diferena?
No. Hallorann aceitava.
Pagaria em dinheiro ou com um carto de crdito?        
334
Em dinheiro, querida, em dinheiro. Tenho  de apanhar o avio.
E o nome era...?
Hallorann, com dois / e dois n. At logo.
Hallorann desligou e correu para a porta. Continuou a pensar na rapariga, preocupada com o. assado, at se convencer de que iria enlouquecer. As vezes era assim.
Sem qualquer motivo, agarrava-se a um pensamento completamente isolado, sem quaisquer conotaes... e em geral completamente intil.
Estava quase a conseguir.
Carregou no acelerador at aos cento e vinte e avistava j o aeroporto quando um elemento da Brigada de Trnsito da Florida o mandou parar.
Hallorann fez descer o vidro da janela e abriu a boca para falar com o polcia, que folheava as pginas do Cdigo da Estrada.
J sei  disse o polcia com um ar compreensivo.  
um funeral em Cleveland. Do seu pai. Um casamento em Seat-
tle. Da sua irm. Um incndio em So Jos, que destruiu o seu
estabelecimento. Algum cambojano  sua espera num terminal
da cidade de Nova Iorque. Adoro este troo de estrada mesmo
 sada do aeroporto. J em mido, quando andava na escola,
preferia o momento em que se contavam histrias.
Oua, senhor guarda, o meu filho est...
A nica parte da histria que nunca consigo adivinhar at
ao fim  prosseguiu o polcia,  procura da pgina adequada
no Cdigo   o nmero da carta do motorista-contador-de-
-histrias-transgressor e o seu nmero de registo. Por isso, seja
simptico. Deixe-me ver.
Hallorann observava os olhos azuis e tranquilos do polcia, sem saber se havia de contar a histria crtica do filho, e acabou por concluir que isso ainda pioraria
mais as coisas. Este tipo no era o Queems. Puxou da carteira.
        ptimo  disse o polcia.  No se importa de tirar os
documentos para eu ver? Tenho de saber o que vai sair da.
Em silncio, Hallorann tirou a carta de conduo e o ttulo de registo na Florida e estendeu-os ao polcia.
Muito bem. To bem que ganhou um prmio.
O qu?  perguntou Hallorann, esperanado.
Quando eu acabar de tomar nota destes nmeros, voc
vai encher um balo para mim.
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        Oh, meu Deuuuus!  gemeu Hallorann.  Senhor
guarda, o meu voo...
        Chiu  disse o polcia.  No seja rabujento.        '
Hallorann fechou os olhos.
Chegou ao balco da United s seis e quarenta e nove, pedindo a todos os santos que o avio se tivesse atrasado. Nem teve de perguntar. O monitor que havia por
cima do balco destinado ao embarque de passageiros deu-lhe a resposta. O voo 901 para Denver, que devia descolar s seis e trinta e seis, partira s seis e quarenta.
H nove minutos.
        Oh, merda!  disse Hallorann.
E de repente o cheiro a laranjas, intenso e enjoativo, voltou e Dick mal teve tempo de chegar  casa de banho dos homens, antes de ouvir o grito ensurdecedor!
(!!! VEM POR FAVOR VEM DICK POR FAVOR VEm!!!)
.,      39
NAS ESCADAS
Uma das coisas que tinham sido obrigados a vender para fazer dinheiro pouco antes de partirem de Vermont para o Colorado fora a coleco de duzentos lbuns de rock
and roll de Jack. Um desses lbuns, o preferido de Danny, era um duplo de Eddie Cochran, com quatro pginas de textos de Lenny Kaye. Muitas vezes Wendy se impressionara
com o fascnio que este lbum em particular exercia sobre Danny. Um homem-criana que vivera depressa e morrera jovem... Que morrera, de facto, quando ela tinha
apenas dez anos.
Agora, s sete e um quarto (hora da montanha), enquanto Dick Hallorann contava a Queems a histria da sua ex--namorada branca, Wendy viera dar com Danny sentado
nas escadas, a meio caminho entre o trio e o primeiro andar, atirando uma bola de borracha vermelha de uma mo para a outra e cantando um dos trechos do lbum.
A sua voz era baixa e desafinada.
Ento subo um, dois lanos de escadas, trs, quatro, can-
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tava Danny, cinco, seis, sete lances de escada mais... at chegar ao cimo. Estou cansado de mais para danar...
Wendy aproximou-se dele, sentou-se num dos degraus e viu que ele tinha o lbio inferior muito inchado e que tinha sangue seco no queixo. Sentiu um baque no corao,
mas fez o possvel para falar com naturalidade.
        O que aconteceu, p?  perguntou, embora tivesse a cer
teza de que sabia o que fora.
Jack batera-lhe. Claro. Era o que se seguia, no  verdade? As rodas do progresso; mais tarde ou mais cedo elas devolvem--nos ao ponto de partida.
Chamei Tony  respondeu Danny.  No salo de baile.
Acho que ca da cadeira. J no me di. Parece-me que... o
meu lbio est grande de mais.
Foi mesmo isso que aconteceu?  perguntou Wendy,
olhando para ele com um ar preocupado.
No foi o pap. Hoje, no  disse Danny.
Wendy fitou-o, receosa. A bola saltava de uma mo para a outra. Ele lera a sua mente. O seu filho lera a sua mente.
O que... o que te disse Tony, Danny?
No interessa.
O seu rosto estava calmo e a sua voz fria e indiferente.
        Danny...
Wendy agarrou-lhe o ombro, com mais fora do que queria. Mas ele no pestanejou nem tentou libertar-se.
Oh, ns estamos a dar cabo desta criana. No s s tu, Jack, sou eu tambm, e talvez nem sejamos s ns,  o teu pai, a minha me. Estaro aqui tambm? Com certeza,
porque no? Este stio est assombrado, est cheio de fantasmas, porque no mais dois? Oh, meu Deus, ele  como uma daquelas malas que mostram na televiso. Passa-lhes
um carro por cima, caem do avio, so esmagadas por britadoras. Ou um relgio Timex. Leva uma pancada e continua a trabalhar. Ol Danny, lamento tanto...)
No interessa  disse Danny outra vez.
A bola continuava  saltar de mo para mo.
Tony no pode vir mais. No o deixam. Foi vencido.
Quem  que no deixa?
As pessoas do hotel  respondeu Danny.
Nessa altura olhou para ela, e os seus olhos estavam indiferentes a tudo. Tinha um ar sombrio e assustado.
        E as... as coisas no hotel. H-as de toda a espcie. O hotel
est cheio delas.
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Consegues ver...
No quero ver  disse Danny em voz baixa, olhando em
seguida para a bola de borracha a saltar de mo para mo.
        Mas s vezes ouo-as, de madrugada. So como o vento,
todas a suspirar em conjunto. No sto. Na cave. Nos quartos.
Por todo o lado. Pensei que era culpa minha, por ser como sou.
A chave. A chavezinha de prata.
Danny, no... no te tortures assim.
Mas tambm  ele  prosseguiu Danny.   o pap. E a
mam. Ele quer-nos a todos. Est a pregar uma partida ao pap,
est a enlouquec-lo. Est a tentar convenc-lo de que o quer mais.
Mas  a mim que ele quer mais, embora nos v levar a todos.
Se ao menos aquele limpa-neves...
Eles no o deixam  disse Danny com a mesma voz.
        Eles obrigaram-no a atirar uma pea para a neve. Para mui
to longe. E ele sabe que aquela mulher est mesmo no quarto
duzentos e dezassete.
Danny olhou para ela com um ar sombrio e assustado.
        No me interessa se acredita em mim ou no.
Wendy abraou-o.
Eu acredito em ti, Danny, diz-me a verdade. O pap...
ele vai tentar fazer-nos mal?
Eles tentaro obrig-lo a isso  respondeu Danny.
        Tenho estado a chamar o senhor Hallorann. Ele disse-me
que o chamasse se eu precisasse dele. E eu tenho estado a cha
m-lo. Mas  muito difcil. Fico cansado. E o pior  que no sei
se ele est a ouvir-me ou no. No creio que ele possa respon
der porque  muito longe para ele. E eu no sei se  longe de
mais para mim ou no. Amanh...
        O que acontece amanh?
Danny abanou a cabea.        ;
Nada.
Onde est ele agora? O pap?  perguntou Wendy.

Est na cave. No creio que venha para cima esta noite.
Wendy levantou-se de repente.
Espera aqui por mim. Cinco minutos.
A cozinha estava fria e deserta  luz das lmpadas fluorescentes do tecto. Wendy encaminhou-se para o suporte onde os trinchantes estavam pendurados nas tiras magnticas.
Tirou o mais comprido e o mais bem afiado, embrulhou-o num pano de cozinha e apagou as luzes ao sair.
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Danny estava sentado nas escadas, seguindo com os olhos o percurso da bola, de uma mo para a outra. Cantava:
Ela vive no vigsimo andar, l em cima na cidade. O elevador est avariado. Por isso subo um, dois lanos de escada, trs quatro...
(Lou, Lou, anda comigo, Lou...) ;   Danny parou de cantar. Ficou  escuta.
(Anda comigo, Lou, meu querido...)
A voz estava na sua cabea, de tal modo fazia parte dele prprio, estava to assustadoramente perto que bem poderia fazer parte dos seus pensamentos. Era suave
e dissimulada. Estava a fazer troa dele. Parecia dizer:
 (Oh, sim, vais gostar disto aqui. Tenta, que vais gostar. Tenta, que vais gostaaaaar...)
Agora estava de ouvidos  escuta e ouvia-os outra vez, os fantasmas, os espritos, ou talvez fosse o prprio hotel, uma terrvel casa de diverses onde todos os
espectculos acabavam em morte, onde todos os fantasmas pintados especialmente estavam mesmo vivos, onde as sebes andavam, onde uma pequena chave de prata podia
desencadear a obscenidade. Suave, a suspirar, a sussurrar como o vento que uivava nos beirais, sem parar, de noite, o vento mortfero, embalador, que os turistas
de Vero nunca ouviam. Era como o zumbido modorrento das vespas de Vero, sonolentas, mortferas, comeando  despertar. Estavam a dez mil ps de altura.
(Porque se parece um corvo com uma secretria? Quanto mais altos esto menos so. Tomo outra chvena de ch!)
Era um som vivo, mas sem vozes, sem respirao. Um indivduo de pendor filosfico ter-lhe-ia chamado o som das almas. A ama de Dick Hallorann, que nascera nas estradas
do Sul uns anos antes do fim do sculo, ter-lhe-ia chamado fantasmas. Um investigador da psique ter-lhe-ia dado um nome mais comprido  ego psquico, psicocinese.
Mas para Danny era apenas o som do hotel, o velho monstro, avanando pesadamente e aproximando-se cada vez mais deles; corredores que agora recuavam no tempo,
como se fosse  distncia, sombras famintas, hspedes inquietos que no conseguiam descansar em paz.
No salo de baile, s escuras, o relgio, dentro da redoma de vidro, bateu as nove e meia com uma simples nota musical.
Uma voz rouca, que a bebida tornara brutal, gritou: Tirem
as mscaras e vamos foder!        , ?? ^   >, ??.
339
Wendy, que vinha a atravessar o trio, parou de repente.
Olhou para Danny, nas escadas. Continuava a atirar a bola de uma mo para a outra.
 Ouviste alguma coisa?
Danny limitou-se a olhar para ela e continuou a brincar com a bola.
Naquela noite dormiriam pouco, embora juntos e com a porta fechada  chave.
No escuro, de olhos abertos, Danny pensava:
(Ele quer ser como eles e viver para sempre.  o que ele quer.)
Wendy pensava:
(Se for preciso, levo-o para cima. Se tivermos de morrer, prefiro morrer nas montanhas.)
Pusera o trinchante, embrulhado no pano de cozinha, debaixo da cama. Tinha-o  mo. Ora adormeciam ora acordavam. O hotel rangia  volta deles. L fora, a neve
comeara a cair do cu plmbeo.
40
NA CAVE
(!!! A caldeira a maldita caldeira!!!)
O pensamento surgiu em cheio na mente de Jack Torrance, num tom avermelhado e brilhante, de aviso. Com ele, a voz de Watson:
(Se voc se esquecer, ela continua a trepar, a trepar e voc e a sua famlia ainda vo parar  Lua... ela est regulada para os duzentos e cinquenta, mas explodiria
muito antes disso. Quando ela chega s cento e oitenta j fico assustado!)
Estivera ali toda a noite, remexendo nas caixas e nos velhos registos, possudo de uma sensao frentica de que o tempo era escasso e tinha de se apressar. As chaves
vitais, os elos de ligao que tudo explicariam, escapavam-lhe. Tinha os dedos amarelos e sujos de remexer nos papis velhos. E estava de tal modo absorvido que
no fora verificar a caldeira uma s vez. Fora espreit-la de tarde, por volta das seis horas, quando viera para baixo. Eram agora...
340
Olhou para o relgio e deu um salto, tropeando num mao de velhas facturas.
Meu Deus, faltava um quarto de hora para as cinco da manh.
Atrs dele, a fornalha estalava. A caldeira produzia um gemido, um silvo.
Jack correu para ela. O seu rosto, que emagrecera no ltimo ms, estava agora mais escuro por causa da barba por fazer. Tinha o ar de quem acabara de sair de um
campo de concentrao.
A presso da caldeira atingira as duzentas e dez libras por polegada. Jack julgou ver os lados da velha caldeira cheia de remendos a aumentar de volume com a presso
letal.
(Ela trepa... Quando ela chega s cento e oitenta j fico assustado...)
De sbito, Jack ouviu uma voz interior, fria e tentadora.
(Deixa-a. Deixa Wendy e Danny e pe-te a andar daqui. Deixa-a ir pelos ares.)
Podia visualizar a exploso. Um duplo estrondo que em primeiro lugar arrancaria o corao deste lugar e depois a alma. A caldeira explodiria com um claro laranja
e violeta que cuspiria falhas incandescentes por toda a cave. No seu esprito via as peas de metal incandescente elevando-se do cho para as paredes e das paredes
para o tecto, como estranhas bolas de bilhar, atravessando o ar com um assobio mortal. Algumas delas decerto atravessariam o arco de pedra, pegariam fogo aos papis
que estavam do outro lado e arderiam no fogo do inferno. Des-tri os segredos, queima as chaves,  um mistrio que nenhum ser vivo poder alguma vez desvender. Depois,
a exploso provocada pelo gs, o crepitar das chamas, uma Iuz-piloto gigantesca que transformaria o hotel numa fornalha. Escadas, corredores, tectos e quartos
em chamas como o castelo na ltima espira de um filme de Frankenstein. As chamas propagando-se s alas, percorrendo as carpetes azuis e negras como hspedes vidos.
O papel da parede a encarquilhar-se. No havia extintores, apenas aquelas mangueiras antiquadas, e ningum para lhes deitar a mo. E nem um s carro dos bombeiros
conseguiria chegar ali acima antes de fins de Maro. Arde, querido, arde. Doze horas depois, no restaria seno o esqueleto.
O ponteiro junto da vlvula subira para as duzentas e vinte.
A caldeira estalava e gemia como se fosse uma velha a tentar
levantar-se da cama. Dos velhos remendos comeavam a sair
jactos de vapor e pingos de solda.        v
341
Jack no via, no ouvia. Imvel, com a mo em cima da vlvula que reduziria a presso e aplacaria o fogo, os seus olhos brilhavam como safiras.
( a minha ltima oportunidade.)
A nica coisa que no fora reduzida a dinheiro era o seguro de vida que fizera em conjunto com Wendy, no Vero anterior aos dois primeiros anos passados em Stovington.
Quarenta mil dlares se ele ou ela morressem num acidente ferrovirio, num desastre areo, ou num incndio. Sete e quatro faz onze, mata--a em segredo e ganha uma
fortuna.
(Um incndio... Oitenta mil dlares.)
Eles teriam tempo de sair. Mesmo que estivessem a dormir. Teriam tempo de sair. Estava convencido disso. E achava que as sebes ou outra coisa qualquer no tentariam
ret-los se o Overlook se incendiasse.
(Chamas.)
No interior do mostrador gorduroso, quase opaco, a agulha danava e chegava agora s duzentas e quinze libras.
Ocorreu-lhe outra recordao, uma recordao de infncia. Havia um ninho de vespas nos ramos mais baixos da macieira que havia nas traseiras da casa. Um dos irmos
mais velhos  j no se lembrava qual deles  fora mordido quando estava a andar de balouo no velho pneu que o pap pendurara nos ramos mais baixos da rvore. Era
no fim do Vero, altura em que as vespas so mais ferozes.
O pai, que acabara de chegar do trabalho, com o seu fato branco, o rosto tresandando a cerveja, juntara os trs rapazes, Brett, Mike e o pequeno Jacky, e comunicara-lhes
que iria ver--se livre das vespas.
 Agora, prestem ateno  dissera, a sorrir e a cambalear ligeiramente (nessa altura ainda no usava a bengala, pois o acidente com o carro do leite s se daria
da a uns anos).  Talvez aprendam qualquer coisa. O meu pai mostrou-me isto.
Juntara um grande monte de folhas hmidas de chuva debaixo do ramo onde estava o ninho das vespas, um fruto mais mortfero do que as mas engelhadas mas saborosas
que a macieira dava em geral nos fins de Setembro, fazia ento ms e meio. Pegou fogo s folhas. Era um dia luminoso e sem vento. As folhas arderam mas sem chama
e libertaram um aroma  uma fragrncia  de que Jack se lembrava sempre no Outono, quando os homens, de calas de trazer por casa e bluso, juntavam as folhas e
lhes pegavam fogo. Um aroma adocicado, com um toque amargo, rico e evoca-
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tivo. As folhas em combusto lenta produziam grandes rolos de fumo que subiam at ao ninho.
O pai deixara as folhas a arder toda a tarde, bebendo cerveja no alpendre e atirando as latas vazias de Black Label para o balde de plstico da mulher, enquanto
os dois filhos mais velhos estavam a seu lado e Jack estava sentado nos degraus, a seus ps, a brincar com o Bolo Bouncer e a cantar num tom montono: O teu
corao castigador... faz-te chorar... o teu corao castigador... vai dizer-te a verdade.
Quando faltava um quarto para as seis, antes do jantar, o pap aproximara-se da macieira, rodeado pelos trs filhos. Numa das mos tinha uma enxada. Separou as folhas,
formando vrios montculos que continuaram a arder at que se apagaram. Em seguida levantou a enxada, com o cabo para cima, a piscar os olhos, e depois de duas
ou trs tentativas deitou o ninho ao cho.
Os rapazes abrigaram-se no alpendre, mas o pai ficou junto do ninho, a cambalear e a piscar os olhos. Jack aproximou-se para ver. Algumas vespas rastejavam no cho
de papel da sua propriedade, mas nem tentavam voar. Do interior do ninho, daquele lugar estranho e escuro, veio um som inesquecvel: um zumbido baixo, sonolento,
como o som dos cabos de alta tenso.
Porque  que elas no tentam pic-lo, pap?, pergun
tara Jack.
Porque o fumo as embriaga, Jacky. Vai buscar a lata da
gasolina.
Jack correu a busc-la. O pai regou o ninho com gasolina.
        Agora afasta-te, Jacky, a menos que queiras ficar sem so
brancelhas.
Jack recuara. Algures da sua volumosa camisa branca, o pai tirara um fsforo de cozinha. Acendera-o com a unha do polegar e atirara-o para o ninho. Seguira-se uma
exploso branco--alaranjada, quase inaudvel na sua ferocidade. O pai recuara, rindo a bandeiras despregadas. O ninho de vespas desaparecera num instante.
        Fogo  dissera o pai, voltando-se para Jacky, a sorrir. 
O fogo mata tudo.
Depois do jantar voltaram ao quintal, ao anoitecer, e rodearam solenemente o ninho carbonizado e enegrecido. Do interior vinha o som dos corpos das vespas a estalar,
como se fossem pipocas.
343
A presso estava nas duzentas e vinte livras. Um som lamentoso e metlico formava-se nas entranhas da caldeira. Jactos de vapor jorravam de vrios stios como se
fossem puas de um porco-espinho.
(O fogo destruir tudo.)
De repente Jack deu um salto. Tinha estado a dormitar... e quase fora parar ao outro mundo. Em que diabo estivera a pensar? A sua obrigao era proteger o hotel.
Era o vigilante.
Aterrorizado, as mos encheram-se-lhe de suor to depressa que a princpio nem conseguiu agarrar a vlvula. Depois fincou os dedos nas salincias. Deu uma volta,
duas, trs. Ouviu-se um silvo provocado pelo vapor, como se fose o bafo de um drago. Uma nvoa trrida elevou-se da caldeira e cegou-o. Por instantes deixou de
ver o mostrador, mas pareceu-lhe que se passara muito tempo; o barulho no interior da caldeira aumentou, seguido de um contnuo chocalhar e de um silvo metlico.
Quando uma parte do vapor se libertou, Jack verificou que a vlvula da presso descera at s duzentas libras e continuava a descer. Os jactos de vapor que se escapavam
dos remendos soldados comearam a perder a fora. Os silvos comearam a diminuir de intensidade.
Cento e noventa... Cento e oitenta... Cento e setenta e cinco...
(Ele ia a descer, a noventa milhas por hora, quando o assobio se transformou num grito...)
Mas Jack estava convencido de que agora j no rebentaria. A presso descera s cento e sessenta libras.
(... foram dar com ele no meio dos escombros, com a mo na torneira. Morrera escaldado pelo vapor.)
Jack afastou-se da caldeira, a recuar, respirando com dificuldade e a tremer. Olhou para as mos e reparou que j tinha bolhas nas palmas das mos. Para o diabo
com as bolhas, pensou, soltando uma risada nervosa. Por pouco no morrera com a mo na torneira, como o engenheiro Casey em The Wreck ofthe Old 97. Pior ainda,
teria destrudo o Overlook. O estrondoso fracasso final. Falhara como professor, como escritor, como marido e como pai. At falhara como alcolico. Mas no pode
haver falhano maior do que fazer explodir o edifcio de que estamos a tomar conta. E este no era um edifcio vulgar.
De modo nenhum.
344
Jesus, como precisava de uma bebida!
A presso tinha descido s oitenta libras. Cautelosamente, um pouco retrado por causa das dores nas mos, Jack voltou a fechar a vlvula do vapor. Mas a partir
de agora a caldeira teria de ser mais vigiada do que nunca. Podia ter ficado seriamente afectada. No se atreveria a deix-la subir para alm dos cem at ao fim
do Inverno. E se tivessem frio, teriam de suport-lo com um sorriso.
Jack rebentara duas bolhas. As suas mos latejavam como dentes infectados.
Uma bebida. Uma bebida f-lo-ia recompor-se e no havia nenhuma naquela maldita casa  excepo do xerez para cozinhar. Numa altura como esta, uma bebida produziria
o efeito de um remdio. Era isso mesmo. Um anestsico. Jack cumprira a sua obrigao e agora precisava de um anestsico  qualquer coisa mais forte que o Excedrin.
Mas no havia nada.
Lembrou-se das garrafas a brilhar no meio das sombras.
Salvara o hotel. O hotel quereria recompens-lo. Tinha a certeza disso. Tirou o leno de assoar da algibeira de trs e encaminhou-se para as escadas. Limpou a boca.
S uma bebida, pequenina. S uma. Para aliviar a dor.
Prestara um servio ao Overlook e agora o Overlook prestar--lhe-ia um servio a ele. Tinha a certeza disso. Subiu a escada depressa, com avidez. Os seus passos eram
os de um homem que chegara de uma guerra longa e renhida. Eram cinco e vinte da manh.

41
 LUZ DO DIA
Ofegante, Danny despertou de um sonho terrvel. Houvera uma exploso. Um incndio. O Overlook estava a arder. Ele e a mam assistiam  cena do relvado em frente.
A mam dissera:
Olha, Danny, olha para as sebes.
Danny olhara e verificara que estavam todas mortas. As folhas tinham uma cor acastanhada, sufocante. Os ramos cerra-
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dos estavam  vista como se fossem esqueletos de cadveres semidesmembrados. E fora ento que o pap sara de rompante da grande porta dupla do Overlook, a arder
como uma tocha. Tinha a roupa em chamas, e a sua pele adquirira um tom escuro e sinistro. O seu cabelo assemelhava-se a um arbusto ardente.
Foi nessa altura que acordou, com um n na garganta provocado pelo medo, e as mos agarradas ao lenol e aos cobertores. Gritara? Olhou para a me. Wendy estava
deitada a seu lado, tapada at ao queixo, com uma madeixa de cabelo louro na face. Parecia uma criana. No, Danny no gritara.
Deitado na cama, a olhar para cima, o pesadelo comeou a desvanecer-se. Danny tinha a estranha sensao de que uma grande tragdia
(Um incndio? Uma exploso?)
fora evitada por pouco. Deixou a sua mente vaguear, em busca do pap, e descobriu-o algures l em baixo. No trio. Danny fez um esforo maior, tentando entrar nos
seus pensamentos. Fez mal porque o pap estava a pensar na Coisa Feia. Estava a pensar como
(seria bom s uma ou duas no me interessa que o sol tenha desaparecido algures no mundo lembras-te como costumvamos chamar ai? gim e bourbon com um gole de usque
rum e soda e coca tuidledum e tuidledi um copo para mim e um copo para ti os marcianos aterraram em qualquer lado em princeton ou houston em stokeley ou carmichael
nalgum stio depois desta poca e nenhum de ns est).
(SAI DA MENTE DELE, MALDITO PIGMEU!)
Danny encolheu-se, aterrado com aquela voz interior, de olhos esbugalhados e mos crispadas. No era a voz do pai, mas sim a de um ssia inteligente. Uma voz que
ele conhecia. Rouca, brutal, contudo com um toque de humor.
Estava ento to perto?
Danny empurrou os cobertores e saltou para o cho. Tirou as pantufas debaixo da cama e calou-as. Encaminhou-se para a porta, abriu-a e correu para o corredor. Ouvia-se
o rudo surdo dos seus passos na passadeira. Voltou a esquina.
A meio do corredor, entre ele e as escadas, havia um homem de gatas.
Danny ficou gelado.
O homem levantou o olhar para ele. Tinha os olhos pequenos e vermelhos. Estava vestido com uma espcie de fato pra-
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teado, reluzente. Um fato de co, apercebeu-se Danny. Do traseiro desta estranha criatura saa uma cauda longa e felpuda com um tufo de plos na ponta. O fato fechava
com um fecho de correr que ia at ao pescoo.  sua esquerda via-se uma cabea de co ou de lobo, de olhos vazados e boca aberta, num esgar disforme que deixava
ver o desenho azul e negro da carpete por entre uns dentes que pareciam papier-mch.
A boca, o queixo e a face do homem estavam cheios de sangue.
Comeou a rosnar para Danny. Estava a sorrir mas rosnava ao mesmo tempo. Vinha-lhe do fundo da garganta um som aterrador e primitivo. Depois comeou a ladrar. Tambm
os dentes estavam sujos de sangue. Comeou a rastejar na direco de Danny, arrastando a cauda mole. A mscara jazia na carpete, olhando vagamente por cima do ombro
de Danny.
Deixa-me passar  disse Danny.
Eu vou comer-te, rapazinho  disse o homem-co, co
meando a ladrar desalmadamente.
Eram sons humanos nos quais estava presente toda a salva-jaria animalesca. O homem tinha o cabelo escuro, ensopado em suor, que lhe escorria tambm do fato. No seu
hlito havia uma mistura de usque e de champanhe.
Danny recuou mas no fugiu.
Deixa-me passar.        *
Nem pensar nisso  respondeu o homem-co.
Os seus olhinhos vermelhos fitavam atentamente o rosto de Danny. Continuava a sorrir.
        Vou comer-te, rapazinho. E acho que vou comear por
esse pequeno pnis.
Comeou a empinar-se, caprichoso, dando pequenos saltos e rosnando.
Os nervos de Danny cederam. Comeou a correr pelo pequeno corredor que ia dar ao quarto, olhando para trs, por cima do ombro. Ouvia-se uma srie de uivos, ladridos
e rosnadelas,  mistura com sussurros e risinhos.
Danny ficou no corredor, a tremer.
        Levanta-te!  gritou o homem-co do outro lado da es
quina do corredor.
A sua voz tinha tanto de violncia como de desespero.
        Levanta-te, Harry, meu filho da me! No me interessa
quantos casinos, quantas companhias de aviao ou quantos
estdios de cinema tens! Eu sei do que gostas na privacidade da
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tua prpria casa! Levanta-te! No descanso enquanto no acabar com Harry Derwent!
Acabou com um uivo prolongado e terrfico, que pareceu transformar-se num grito de raiva e de dor antes de se desvanecer.
Com um ar apreensivo, Danny voltou-se para a porta fechada do quarto, que ficava ao fundo do corredor, e comeou a dirigir-se para l. Entrou e espreitou. A mam
estava a dormir exactamente na mesma posio. Ningum ouvira o que se passara seno ele.
Fechou a porta sem fazer barulho e voltou para a zona intermdia entre o corredor secundrio e o principal, na esperana de que o homem-co tivesse desaparecido,
tal como acontecera com o sangue nas paredes da Suite Presidencial. Aproximou--se da esquina e espreitou cautelosamente.
O homem vestido de co ainda l estava. Voltara a pr a mscara e estava agora junto da escada, apoiado nas quatro patas, a abanar a cauda. De vez em quando dava
um salto na carpete e rosnava.
 Au, au, au! Uf, uf! Grrrrrr!
Estes sons saam da boca estilizada da mscara,  mistura com outros que poderiam ser soluos ou risos.
Danny voltou para o quarto e sentou-se no seu div, tapando os olhos com as mos. Agora o hotel dominava as coisas. Talvez a princpio as coisas que tinham sucedido
no tivessem passado de acidentes. Talvez a princpio as coisas que vira fossem apenas gravuras assustadoras que no podiam atingi-lo. Mas agora o hotel controlava
essas coisas e elas podiam atingi-lo. O Over-look no queria que ele fosse ao encontro do pai. Isso poderia estragar tudo. Por isso pusera o homem-co no seu caminho,
tal como pusera os animais da sebe entre ele e a estrada.
Mas o pap poderia vir at ali. E, mais tarde ou mais cedo, era o que faria.
Danny comeou a chorar, com as lgrimas a correrem-lhe silenciosamente pelas faces. Era tarde de mais. Eles iam morrer, os trs, e na prxima Primavera, quando
o Overlook reabrisse, estariam ah' para saudar os hspedes juntamente com os outros fantasmas. A mulher na banheira. O homem-co. A coisa escura e horrvel que
estava dentro do tnel de cimento. Estariam...
(Pra! Pra j com isso!)
Danny limpou as lgrimas com fria. Tanto quanto possvel,
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iria evitar que isto acontecesse. Nem a ele, nem ao pap, nem  mam. Tentaria o mais que pudesse.
Fechou os olhos e mandou a sua mente para o alto, numa seta de cristal.
(!!! DICK, POR FAVOR VEM DEPRESSA. ESTAMOS EM APUROS.
DICK, PRECISAMOS!!!)
E de repente, na escurido por detrs dos seus olhos, aquilo que o perseguia nos corredores escuros do Overlook estava ali, ali mesmo, uma criatura imensa, vestida
de branco, com o seu cacete pr-histrico erguido acima da cabea:
Vou obrigar-te a parar! Fantoche maldito. Vou obrigar-te
porque sou o teu PAI!
No!
Danny voltou  realidade do seu quarto, de olhos esbugalhados e vagos, gritando desesperadamente at a me acordar e puxar o lenol at ao peito.
        No, pap, no, no, no...
E ambos ouviram o rudo terrvel do cacete invisvel a descer, cortando o ar muito perto deles, e desvanecendo-se em seguida, quando Danny correu para a me e se
agarrou a ela, tremendo como um coelho apanhado numa armadilha.
O Overlook no ia deix-lo chamar Dick. Aquilo tambm poderia estragar tudo.
Estavam sozinhos.
L fora, a neve caa com mais fora, isolando-os do resto do mundo.
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NO AR
A primeira chamada para o voo de Dick Hallorann foi s seis
e quarenta e cinco da manh, e a hospedeira de terra indicou-
-lhe a porta 31. Nervoso, Dick passava a mala de uma mo para
a outra at ouvir a ltima chamada, s seis e cinquenta e cinco.
Procuravam um homem chamado Carlton Vecker, o nico pas
sageiro do voo 196 da TWA de Miami para Denver que no
comparecera no aeroporto.        a
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        Est bem  disse a hospedeira, estendendo-lhe um bilhete de
primeira classe.  Est com sorte. Pode embarcar, senhor.
Hallorann encaminhou-se para a rampa de embarque e deixou que a hospedeira, com o seu sorriso mecnico, destacasse a senha de embarque do bilhete e lho devolvesse.
Estamos a servir o pequeno-almoo  disse ela.  Se
quiser...
S quero caf, querida  respondeu Hallorann, encami
nhando-se para um banco na zona dos fumadores.
Esperava a todo o momento que o tal Vecker aparecesse  porta no ltimo minuto, como o boneco de uma caixinha de surpresas. A mulher que ia sentada junto da janela,
de rosto pontiagudo e culos de aros de osso, estava a ler um livro intitulado Voc Pode Ser o Seu Melhor Amigo. Tinha uma expresso amarga e incrdula. Hallorann
apertou o cinto de segurana e prometeu a Carkon Vecker que nem cinco empregados da TWA, dos mais corpulentos, conseguiriam arranc-lo do banco. No tirava os olhos
do relgio. O tempo passava com uma lentido desconcertante e nunca mais chegavam as sete horas, hora prevista para a partida.
s sete e cinco, a hospedeira informou os passageiros de que haveria um pequeno atraso, pois a tripulao tinha de verificar o fecho da porta do poro.
        Merda  disse Hallorann entre dentes.
A mulher de rosto pontiagudo voltou-se para ele sem abandonar o seu ar amargo e incrdulo, e em seguida regressou ao seu livro.
Dick passara a noite no aeroporto, correndo de balco para balco  United, American, TWA, Continental, Braniff , interpelando os empregados. Quando j passava
da meia-noite e bebia a oitava ou a nona chvena de caf chegou  concluso de que fora um idiota por ter arcado com esta responsabilidade em cima dos seus ombros.
Havia autoridades. Dirigira-se  cabina telefnica mais prxima e, depois de falar com trs telefonistas diferentes, conseguira o nmero de emergncia dos Servios
Florestais das Montanhas Rochosas.
O homem que atendeu o telefone parecia muito cansado. Hallorann dera um nome falso e dissera que havia problemas no Hotel Overlook, a oeste de Sidewinder. Problemas
graves.
Mandaram-no esperar.
O guarda-florestal (Hallorann presumiu que se tratava de um guarda-florestal) voltou  Unha cinco minutos depois.
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Eles tm um rdio  disse ele.
Claro que tm um rdio  retorquiu Hallorann.
No tivemos nenhum pedido de emergncia deles.
O homem, isso no interessa. Eles...
Qual  precisamente o tipo de problema que eles tm,
senhor Hall?
Bem, trata-se de uma famlia. O vigilante e a famlia. Creio
que o homem est a ficar um pouco tresloucado, percebe? Receio
que ele possa vir a agredir a mulher e o filho pequeno.
Posso perguntar-lhe como teve acesso a essa informao,
senhor?
Hallorann fechou os olhos.
Como se chama voc, amigo?
Tom Staunton, senhor.
Bom, Tom, eu sei. Agora vou ser o mais directo possvel
consigo. Talvez haja problemas graves l em cima. Eventual
mente, um assassnio, percebe?        ,;
Senhor Hall, realmente no percebo como o senhor...
Olhe  respondeu Hallorann.  Estou a dizer-lhe que
sei. H uns anos atrs, havia l em cima um homem chamado
Grady. Matou a mulher e duas filhas e depois suicidou-se. Es
tou a dizer-lhe que isso voltar a acontecer se vocs no levan
tarem o rabo da e no forem l acima!
O senhor no est a telefonar do Colorado.
No. Mas que diferena...
Se no est no Colorado, no est na zona de difuso do
Hotel Overlook. Se no est na zona de difuso do Hotel Over-
look, no pode ter estado em contacto com os...
Ouviu-se um rudo de papis.
Com os Torrance. Enquanto esteve  espera eu tentei
telefonar para l. O telefone no funciona, o que no  invul
gar. H quarenta mil metros de fios telefnicos entre o Hotel
Overlook e a central de Sidewinder. O que me parece  que
voc tem a cabea cheia de manias.
O homem, seu... estpido...
O desespero da Hallorann era to grande que este no conseguiu arranjar um substantivo adequado ao adjectivo. De repente, teve uma ideia luminosa.
Chame-os!  gritou.
O que disse, senhor?
Voc tem rdio e eles tm rdio. Por isso chame-os! Cha
me-os e pergunte-lhes o que se passa!
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Fez-se um breve silncio, a que se seguiu o zumbido prprio das chamadas a longa distncia.
Tambm j tentou, no?  perguntou Hallorann.  Foi
por isso que me fez esperar tanto tempo. Tentou telefonar,
depois tentou cham-los atravs do rdio e no conseguiu nada,
mas est convencido de que no se passa nada de anormal...
O que esto vocs a a fazer? De rabo sentado e a jogar s car
tas?
No, no estamos  respondeu Staunton, irritado.
Hallorann sentiu-se aliviado ao aperceber-se da fria do homem. Pela primeira vez sentiu que estava a falar com uma pessoa e no com uma gravao.
Sou o nico que estou aqui, senhor. Todos os outros
guardas do parque, mais os outros guardas, mais os voluntrios
esto a arriscar a sua vida porque trs idiotas com seis meses de
experincia resolveram tentar escalar a vertente norte do
King's Ram. Ficaram isolados a meio caminho, e talvez consi
gam vir para baixo ou talvez no. Aqui em cima h dois heli
cpteros e os homens que os pilotam esto a arriscar a vida
porque aqui  de noite e est a comear a nevar. Por isso, se
ainda no compreendeu, eu dou-lhe uma ajuda. Em primeiro
lugar, no temos aqui ningum para mandar ao Overlook.
Em segundo lugar, o Overlook no constitui uma priorida
de para ns: o que acontece no parque  que  prioritrio.
Em terceiro lugar, ao princpio da manh nenhum dos heli
cpteros poder levantar voo porque, de acordo com o Servio
Meteorolgico Nacional, vai nevar em grande quantidade.
Est a perceber?
Estou  respondeu Hallorann com brandura.
A minha explicao para o facto de no ter conseguido
contactar com eles atravs do rdio  que (no sei que horas so
no stio em que o senhor est) aqui so nove e meia da noite.
Creio que eles o devem ter desligado e foram deitar-se. Agora,
se o senhor...
Boa sorte para os seus alpinistas, homem  disse Hallo
rann.  Mas quero que saiba que eles no so os nicos que
esto isolados l em cima por no saberem aquilo em que esta
vam a meter-se.
E desligou o telefone.
s sete e vinte da manh, o 727 da TWA saiu do seu lugar, deu a volta e encaminhou-se para a pista. Hallorann soltou um
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suspiro longo e inaudvel. Carlton Vecker, onde quer que estejas, levei-te a melhor.
O voo 196 deixou o solo s sete e vinte e oito e s sete e trinta e um, quando ganhou altitude, o pensamento alvejou a cabea de Dick Hallorann como se fosse um
tiro de pistola. Os seus ombros arquearam-se, impotentes contra o cheiro a laranjas, e depois estremeceram, sacudidos por um espasmo. A testa franziu-se e a boca
fez um esgar de dor. (!!! DICK, POR FAVOR VEM DEPRESSA. ESTAMOS EM APUROS. DICK, PRECISAMOS!!!)
E foi tudo. Desapareceu de repente. No a pouco e pouco como das outras vezes. A comunicao fora claramente interrompida, como se tivesse sido cortada com uma
faca. Dick ficou assustado. As suas mos, agarradas aos braos do banco, estavam lvidas. Tinha a boca seca. Acontecera alguma coisa ao mido. Tinha a certeza disso.
Se algum fizesse mal quela criana...
        Reage sempre assim to violentamente s descolagens?
Dick olhou  sua volta. Era a mulher de culos com aros de
osso.
No foi isso  respondeu Hallorann.   que tenho
uma placa de ao na cabea. Da Coreia. De vez em quando
sinto uma pontada. Uma espcie de vibrao, percebe? D si
nal.
Ah, ento  isso?
, sim, minha senhora.
 sempre o soldado que acaba por pagar as favas quando
h uma interveno estrangeira  disse a mulher de rosto pon
tiagudo com um ar sombrio.
Acha?
Claro. Este pas tem de abandonar as suas guerrazinhas
sujas. A CIA est por trs de todas as guerras em que a Amrica
se envolveu neste sculo. A CIA e a diplomacia do dlar.
A mulher abriu o livro e comeou a ler. O sinal luminoso no smoking apagou-se. Hallorann olhou para a terra que ficava para trs e perguntou a si mesmo se o mido
estaria bem. Ganhara afeio quele rapaz, embora os pais no parecessem gostar muito dele.
Esperava que eles estivessem a cuidar bem de Danny.
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43
BEBIDAS NA CASA
Jack estava na sala de jantar, junto  porta de batente qufe dava para o Salo Colorado,  escuta. Sorria.
 sua volta, ouvia o Hotel Overlook a voltar  vida.
Era difcil explicar como  que sabia, mas estava convencido de que no era muito diferente das percepes que Danny tinha de vez em quando... Tal pai tal filho.
No era assim que o povo dizia?
No que visse ou ouvisse alguma coisa, embora estivesse muito perto disso, separado dessas sensaes pela mais fina das cortinas. Era como se existisse outro Overlook
algumas polegadas abaixo deste, separado do mundo real (se  que existia tal coisa, um mundo real), mas a pouco e pouco viesse juntar-se a este. Jack recordava-se
daqueles filmes a trs dimenses que vira em criana. Se olhssemos para o ecr sem os culos especiais, veramos uma imagem dupla  o tipo de coisa que estava
a sentir naquele momento. Mas quando pnhamos os culos, a imagem ajustava-se.
E todas as pocas do hotel estavam agora reunidas numa nica, a poca dos Torrance. Era bom. Muito bom.
Quase ouvia o petulante ding-ding da campainha da recepo, a chamar os paquetes, enquanto os homens de fato de flanela dos anos 20 saam e os homens de fatos
listrados dos anos 40 entravam. Havia trs freiras sentadas em frente da lareira, enquanto esperavam que a bicha diminusse e, atrs delas, de p, elegantemente
vestidos, com alfinetes de brilhantes nas gravatas azuis e brancas, Charles Grondin e Vito Gienelli discutiam lucros e perdas, a vida e a morte. Havia uma dzia
de autocarros l fora, uns a seguir aos outros. No salo de baile da ala leste decorria uma dzia de diferente reunies de negcios ao mesmo tempo, a pouco centmetros
umas das outras. Havia um baile de mscaras. Havia recepes, festas de casamento, de aniversrio, baptizados. Homens a falar de Neville Cham-berlain e do arquiduque
da ustria. Msica. Risos. Embriaguez. Histeria. Um pouco de amor, no aqui, mas uma forte corrente subterrnea de sensualidade. E Jack quase os ouvia a todos,
de um lado para o outro, produzindo uma graciosaa ca-
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cofonia. Na sala de jantar, onde se encontrava, serviam-se os pequenos-almoos, os almoos e os jantares de setenta anos, ao mesmo tempo, atrs dele. Quase, no,
quase, no. Ouvia-os mesmo,  distncia mas nitidamente, tal como ouvimos uma trovoada longnqua num dia de sol e calor. Ouvia-os a todos, aqueles desconhecidos
maravilhosos. Tinha a conscincia da sua presena tal como eles se tinham apercebido da sua desde o princpio.
Esta madrugada todos os quartos do Overlook estavam ocupados.
Uma casa cheia.
E do outro lado da porta de batentes vinha o murmrio suave da conversa, pairando como fumo de cigarro. Mais sofisticada, mais ntima. Risos fracos de mulher,
do gnero daqueles que provocam vibraes no crculo imaginrio das vsceras e dos rgos genitais. O som de uma caixa registadora, de mostrador suavemente iluminado
na semiobscurdade quente, registando o preo de um gim, de um Manhattan, de um bombardeiro da depresso, de um gim fizz, de um morto-vivo. Ajuke-box espalhando
as suas melodias, umas a seguir s outras.
Jack empurrou os batentes e entrou.
Ol, rapazes  disse Jack Torrance com ternura.  Te
nho estado fora mais voltei.
Boa noite, senhor Torrance  disse Lloyd, verdadeira
mente satisfeito.  Muito prazer em v-lo.
 bom estar de volta, Lloyd  disse Jack com um ar
grave, empoleirando-se num banco, entre um homem de fato
azul-vivo e uma mulher de olhos escuros e vestido negro, que
olhava para as profundezas do copo.
O que vai ser, senhor Torrance?
Martini  respondeu, deleitado.
Olhou para o fundo do bar, com as suas filas de garrafas reluzentes, encimadas por sifes prateados. Jim Beam, Wild Turkey. Gilby's. Sharrod's Private Label. Seagram's.
Estava de novo em casa.
        Um marciano grande, se faz favor  disse.  Eles
aterraram algures neste mundo, Lloyd.
Puxou da carteira e ps uma nota de vinte dlares no balco.
Enquanto Lloyd lhe preparava a bebida, Jack olhou por cima do ombro. Todas as cabinas estavam ocupadas. Alguns dos seus ocupantes estavam mascarados... uma mulher
com calas de odalisca e um soutien cravejado de pedras preciosas,
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um homem com uma mscara representando a cabea de uma raposa emergindo do seu fato de cerimnia, um homem vestido de co, que acariciava o nariz de um mulher de
sarong com o tufo de plos da sua longa cauda, para gudio geral.
Para si  de graa, senhor Torrance  disse Lloyd, pou
sando o copo em cima da nota de vinte dlares.  O seu di
nheiro aqui no tem valor. Ordens do gerente.
Do gerente?
Jack sentiu-se pouco  vontade; contudo, pegou no copo de martini e abanou-o, vendo a azeitona a danar no fundo.
        Claro. O gerente.
A boca de Lloyd abriu-se num sorriso, mas os olhos estavam na sombra e a sua pele apresentava uma palidez horrvel, como se fosse a pele de um cadver.
        Depois ele quer ver o seu mido. Est muito interessado
no seu filho. Danny  uma criana cheia de talentos.
As essncias do gim provocavam-lhe um torpor delicioso, mas estavam tambm a embotar-lhe a razo. Danny? O que era isso de Danny? E que estava ele a fazer num bar,
com um copo cheio na mo?
Ele aceitara o compromisso. Entrara na carruagem. Ele
RENUNCIARA.
O que queriam eles com o seu filho? O que queriam eles com Danny? Wendy e Danny no eram para ali chamados. Jack tentou ler nos olhos de Lloyd, mas estava demasiado
escuro, demasiado escuro, era como tentar captar uma emoo nas rbitas vazias de um crnio.
( a mim que eles querem... no ? Sou eu. No  Danny nem Wendy. Eu  que gosto disto aqui. Eles querem ir-se embora. Eu  que tratei do limpa-neves... fui procurar
os velhos registos... aumentei a presso da caldeira... menti... praticamente vendi a minha alma... o que querem eles de Danny?)
        Onde est o gerente?
Tentou fazer a pergunta num tom casual, mas as palavras saram-lhe j entarameladas pelo primeiro copo, pareciam sadas de um pesadelo e no de um sonho agradvel.
Lloyd limitou-se a sorrir.
        O que queres do meu filho? Danny no est nesta... pois
no?
Jack ouviu o tom suplicante da sua prpria voz. O rosto de Lloyd parecia estar a mudar, a alterar-se, a tornar-se pestilento. A pele branca tornava-se amarelada
como se
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ele tivesse hepatite, engelhada. Cresciam-lhe feridas avermelhadas que libertavam um lquido fedorento. Tinha a testa cheia de gotas de sangue, e algures ouviu-se
um relgio bater a meia-noite com um som metlico.
(Tirem as mscaras, tirem as mscaras!)
        Beba o que tem no copo, senhor Torrance  disse Lloyd
com brandura.  No  um assunto que lhe diga respeito. No
neste caso.
Jack voltou a pegar no copo, levou-o  boca e hesitou. Ouviu o estalo horrvel do brao de Danny a partir-se. Viu a bicicleta a voar por cima da capota do automvel
de Al, rente ao pra--brisas. Viu uma s roda na estrada e os raios apontando para o cu como as cordas de um piano.
Apercebeu-se de que todos se tinham calado.
Olhou por cima do ombro. Estavam todos a olhar para ele,  espera, em silncio. O homem ao lado da mulher de sarong tirara a mscara de raposa e Jack viu que se
tratava de Horace Derwent, com o cabelo louro-claro espalhado pela testa. A mulher que o acompanhava olhava para ele, com se tentasse v-lo melhor. O vestido escorregara-lhe
num dos ombros e, espreitando, via-se um mamilo enrugado ao meio de um seio flcido. Jack voltou a olhar para ela e comeou pensar que poderia tratar-se da mulher
do quarto 217, a tal que tentara estrangular Danny. Do outro lado, o homem de fato azul-forte tirara uma pequena pistola de calibre 32, com cabo de madreprola,
da algibeira do casaco e fazia-a girar sobre o bar, como se estivesse a pensar na roleta-russa.
(Eu quero...}
Percebeu que as palavras no passavam atravs das cordas vocais paralisadas e tentou de novo:
Quero falar com o gerente. Eu... Eu no creio que ele
esteja a perceber. O meu filho no tem nada a ver com isto.
Ele...
Senhor Torrance  disse Lloyd, com uma voz melflua
que saa do rosto infecto , a seu tempo falar com o gerente.
A verdade  que ele resolveu torn-lo seu representante neste
caso. Agora beba o que tem no copo.
        Beba o que tem no copo  repetiram todos, fazendo eco.
Jack pegou no copo, com a mo a tremer. Era um gim puro.
Olhou para dentro do copo e teve a sensao de que ia afogar-
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A mulher a seu lado comeou a cantar com uma voz incarac-terstica, de morta:
        Entorna... o barril... e teremos todos... um barril... de
festa...
Agora  altura de entornar o barril...
Derwent juntou a sua voz s dos restantes. Tinha um cigarro ao canto da boca. Passara o brao direito por cima do ombro da mulher de sarong e acariciava-lhe o seio
com a mo. Observava o homem-co com desprezo, enquanto cantava.
... porque o grupo est todo aqui!...
Jack levou o copo  boca e bebeu o gim em trs tragos. Este foi resvalando pela garganta como se fosse uma vagoneta num tnel e explodiu-lhe no estmago, subindo-lhe
instantaneamente  cabea e provocando-lhe uma convulso que o fez estremecer.
Quando aquilo passou, sentiu-se bem.
Encha outra vez, por favor  pediu empurrando o copo
vazio para Lloyd.
Sim, senhor  disse Lloyd, pegando no copo.
Lloyd tinha agora um aspecto inteiramente normal. O homem de fato azul pusera de lado a sua pistola de calibre 32. A mulher  sua direita olhava fixamente para dentro
do copo. Inclinada sobre o balco forrado de couro, tinha agora o seio completa-mente  mostra. Da boca flcida saa-lhe agora um cantarolar montono, vazio. O sussurro
da conversa recomeara.
Jack tinha na frente a sua segunda bebida.
Muchas gradas, Lloyd  disse, pegando no copo.
 sempre um prazer servi-lo, senhor Torrance  respon
deu Lloyd a sorrir.
Foste sempre o maior, Lloyd.
Ora, muito obrigado, senhor.
Desta vez, Jack bebeu lentamente, deixando o gim deslizar pela garganta gota a gota, atirando alguns amendoins para o cho para dar sorte.
A bebida desapareceu rapidamente e Jack pediu outra. Senhor presidente, fui ao encontro dos marcianos e tenho o prazer de comunicar-lhe que eles so amigveis.
Enquanto Lloyd preparava outra bebida, comeou a remexer nas algibeiras,  procura de uma moeda de vinte e cinco cntimos para meter na jukebox. Pensou de novo em
Wendy, mas o rosto de Danny estava agora oculto, indefinido. Em tempos agredira Danny, mas isso fora muito antes de aprender a lidar com a bebida.
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Esses dias j tinham passado. Nunca mais voltaria a agredir
Danny.
Por nada deste mundo.
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AS CONVERSAS NA FESTA
Danava com uma mulher lindssima.        :
No fazia ideia que horas eram nem h quanto tempo estava no Salo Colorado ou desde quando viera para o salo de baile. O tempo deixara de ter importncia.
Recordava-se vagamente de algumas coisas: de ouvir um homem que em tempos fora um animador da rdio, bem sucedido, e depois um artista de variedades nos primrdios
da televiso, a contar uma anedota hilariante e muito comprida sobre o incesto entre gmeos siameses; de ver a mulher com calas de odalisca e soutien cintilante
a despir-se, com movimentos lentos e ondulantes, ao som de uma msica agitada zjukebox (pareceu-lhe o tema do filme The Stripper, de David Rose); de atravessar
o trio, acompanhado de dois homens de fato de cerimnia que prenunciavam os anos 20, todos a cantar uma cano sobre um remendo nas cuecas de Rosie O'Grady. Lembrava-se
de ter espreitado pela porta dupla e de ter visto lanternas japonesas penduradas em arcos graciosos ao longo da pista, de cores pastel como jias opacas. O grande
globo de vidro no tecto do alpendre estava aceso e os insectos nocturnos chocavam com ele. Uma parte dele, talvez a ltima rstia de sobriedade, tentava dizer-lhe
que eram seis horas de uma manh de Dezembro. Mas o tempo fora banido.
(Os argumentos contra a loucura caem por terra com um som brando/camada sobre camada...)
O que era aquilo? Algum poeta que lera quando andava na faculdade? Algum poeta que no acabara o curso e andava agora a vender mquinas de lavar roupa em Wausau
ou seguros em India-npolis? Talvez um pensamento original? No interessava.
(A noite est escura/as estrelas esto l no alto/uma empada de anona desgarrada/flutua no cu...)
Jack soltou uma risada de desespero
359
        Qual  a graa, querido?
E estava outra vez no salo de baile. O lustre estava aceso e os pares rodopiavam  sua volta, uns vestidos a rigor, outros no, ao som da msica suave da orquestra
do ps-guerra... Mas que guerra? Sabia ao certo?
No, claro que no. S tinha a certeza de uma coisa: estava a danar com uma mulher belssima.
Era alta e ruiva e tinha um vestido de cetim branco. Danava agarrada a ele, e os seus seios faziam uma leve e doce presso no peito de Jack. Tinha a mo plida
entrelaada na sua. Usava uma mscara negra e brilhante e penteara os cabelos para um lado. Estes caam numa torrente suave e brilhante que ia desaguar no vale
entre os seus ombros. O vestido era direito mas Jack sentia as coxas dela contra as suas pernas, de vez em quando, e tinha a certeza de que estava nua por baixo
do vestido,
(Como  bom sentir a tua ereco, meu querido.) e Jack estava a ficar muito excitado. Se isso a ofendia, disfarava bem; chegou-se ainda mais a ele.
No tem graa nenhuma, querida  disse Jack, rindo-se
outra vez.
Gosto de ti  sussurrou ela.
Jack percebeu que ela cheirava a lrios, secretos e ocultos em fendas revestidas de musgo verde, stios em que o sol mal entrava e as sombras dominavam.
Tambm eu gosto de ti.
Podamos ir l para cima, se quisesses. Estou com Harry,
mas ele no dar por nada. Est muito entretido a moer o juzo
ao pobre Roger.
A msica acabou. Seguiram-se os aplausos e depois de uma pequena pausa a orquestra comeou a tocar Mood ndigo.
Jack espreitou por cima do ombro nu da mulher e viu Der-went junto da mesa das bebidas. A rapariga de sarong estava junto dele. Havia garrafas de champanhe em baldes
de gelo alinhadas ao longo da toalha branca que cobria a mesa, e Der-went tinha uma na mo. Juntara-se um grupo de pessoas, a rir. Diante de Derwent e da rapariga
de sarong estava Roger, numa posio grotesca: de gatas, arrastando a cauda atrs de si. Estava a ladrar.
Fala, rapaz, fala!  gritou Harry Derwent.
Au, au!  respondeu Roger.
Toda a gente bateu as palmas. Alguns homens assobiaram.
360
        Agora senta-te. Senta-te, cachorrinho!
Roger empinou-se nos quadris. O focinho da mscara eternizara-se num esgar. Por trs dos buracos dos olhos, os olhos de Roger rolavam com um frenesim hilariante.
Tinha os braos estendidos, abanando as patas.
        Au, au!
Derwent virou a garrafa de champanhe para baixo e a bebida caiu numa torrente de espuma sobre a mscara. Roger rosnou de satisfao e todos aplaudiram de novo. Algumas
mulheres soltaram guinchinhos.
        Harry no  um indivduo com tanto sentido de humor?
perguntou-lhe a sua companheira, encostando-se mais a ele.
Toda a gente acha. Sabes,  bissexual. O pobre Roger  s
homossexual. Uma vez passou um fim-de-semana com Harry,
em Cuba... oh, foi h meses. Agora segue Harry para todo o
lado, abanando a cauda atrs dele.
Soltou uma risadinha. O suave aroma lils espalhou-se de novo.
        Mas  claro que Harry nunca abdica... do seu lado he
terossexual,  claro... e Roger  tosco. Harry disse-lhe que se
viesse ao baile mascarado de cozinho, um cozinho esperto,
podia pensar nisso, e Roger,  to estpido que...
A msica acabou. Houve mais aplausos. Os msicos comearam a preparar-se para fazer um intervalo.
        Desculpa-me, querido  disse ela.  Est ali algum a
quem tenho de... Daria! Daria, minha querida, onde tens es
tado?
Abriu caminho entre a multido que comia e bebia e Jack
olhou para ela com um ar estpido, perguntando a si mesmo
como tinham comeado a danar. No se lembrava. Pareciam
dar-se incidentes sem qualquer correlao. Primeiro aqui, de
pois ali, depois por todo o lado. Tinham a cabea a andar 
roda. Cheirava-lhes a lils e a junpero. Junto da mesa das be
bidas, Derwent segurava agora numa pequena sanduche
triangular por cima da cabea de Roger e incitava-o a fa
zer uma pirueta, o que provocava a hilaridade geral. A mscara
de co estava voltada para cima. As badanas prateadas do fato
de co abanavam. De repente, Roger deu um salto, de cabea
voltada para baixo, e tentou dar uma volta no ar. O salto no foi
suficientemente alto e Roger caiu de costas, desamparado, ba
tendo com a cabea no cho. Da mscara de co saiu um ge
mido OCO.        ?'
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Derwent incitou ao aplauso.
        Tenta outra vez, cozinho! Tenta outra vez!
A assistncia entoava em coro Tenta outra vez, tenta outra vez, e Jack afastou-se a cambalear, sentindo-se um pouco adoentado.
Por pouco no caiu sobre o carrinho das bebidas que era empurrado por um homem carrancudo, com um casaco branco encardido. O p prendeu-se-lhe na prateleira de baixo
do carrinho, fazendo tilintar as garrafas e os sifes que estavam em cima.
        Desculpe  disse Jack com voz arrastada.
De repente sentiu-se aprisionado e com uma sensao de claustrofobia. Queria sair dali. Queria que o Overlook voltasse ao que era... Que se libertasse daqueles hspedes
indesejveis. A sua posio no fora respeitada, como o verdadeiro promotor de tudo aquilo. Era apenas mais um dos dez mil convidados barulhentos, um cozinho a
fazer piruetas e a sentar-se quando lhe mandavam.
        No faz mal  respondeu o homem de casaco branco.
A pronncia correcta e cuidada vinda daquele rosto de rufio
tinha algo de surrealista.
Quer beber alguma coisa?
Um martini.
De trs dele veio outra gargalhada geral. Roger uivava ao som de Home on the Range. Algum acompanhava ao piano Steinway.
        Aqui tem.
O homem estendeu-lhe o copo gelado. Jack bebeu, gratificado, sentindo que o gim atingira os limites da sua sobriedade.
Est bem, senhor?
ptimo.
Obrigado, senhor.
O carrinho recomeou a rodar.
De repente Jack aproximou-se de outro homem e tocou-lhe no ombro.
Que deseja?
Desculpe, mas... Como se chama?
O outro no se mostrou surpreendido.
Grady, senhor. Delbert Grady.
Mas voc... Quer dizer...
O empregado do bar olhava para ele com delicadeza. Jack tentou de novo, embora o gim e o afastamento da realidade lhe
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dificultassem a fala. Cada palavra parecia do tamanho de um cubo de gelo.
        Voc no era o vigilante do hotel? Quando voc...
Quando...
Mas no conseguiu acabar a frase. No podia faz-lo.
No, senhor. No creio.
Mas a sua mulher... As suas filhas...
A minha mulher est a ajudar na cozinha, senhor. As
midas esto a dormir,  claro. J  muito tarde para elas.

Voc era o vigilante. Oh... Confesse! Voc matou-as.
O rosto de Grady no perdeu a compostura.
No me lembro de nada disso, senhor.
Jack esvaziara o copo. Grady tirou-lho das mos inertes e preparou-lhe outra bebida. Trazia no carrinho um pequeno balde de plstico branco cheio de azeitonas.
Por qualquer motivo pareciam a Jack pequenas cabeas decepadas. Grady tirou uma, deixou-a cair dentro do copo e estendeu-o a Jack.
        Mas voc...
        O senhor  que  o vigilante  disse Grady com bran
dura.  O senhor  que foi sempre o vigilante. Eu sei, senhor.
Sempre tenho estado aqui. Foi o mesmo gerente que nos con
tratou, ao mesmo tempo.
Jack bebeu outro golo. Tinha a cabea a andar  roda.       v
 Senhor Ullman...
(..  No conheo ningum com esse nome, senhor.        >.
Mas ele...        >
O gerente  disse Grady.  O hotel, senhor. Com cer
teza que se lembra de quem o contratou, senhor.
No  respondeu Jack com voz grossa.  No, eu...
Acho que tem de ser mais duro com o seu filho, senhor
Torrance. Ele compreende tudo, ainda que no o tenha ilumi
nado.  muito travesso, se me permite o atrevimento, senhor.
A verdade  que est sempre a atravessar-se no seu caminho,
no acha? E ainda no fez seis anos.
        Sim.  verdade  respondeu Jack.
Ouviu-se nova gargalhada geral atrs deles.
        Precisa de levar um correctivo, se me permite. Precisa de
um sermo e talvez de mais alguma coisa. A princpio as mi
nhas filhas no queriam saber do Overlook. Uma delas chegou
mesmo a roubar-me uma caixa de fsforos e a tentar pegar-lhe
fogo. Eu passei-lhes um correctivo. Um correctivo severo. E
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quando a minha mulher tentou impedir-me de cumprir a minha obrigao, dei-lhe um correctivo tambm.
O homem ostentou um sorriso brando e insignificante.
 pena mas  verdade que as mulheres raramente enten
dem as responsabilidades que um pai tem para com os seus
filhos. Como maridos e como pais, temos certas responsabilida
des, no  verdade, senhor?
 verdade  respondeu Jack.
Elas no gostavam do Overlook como eu  prosseguiu
Grady, comeando a preparar-lhe outra bebida.
Viam-se as bolhas na garrafa voltada ao contrrio.
Tal como a sua mulher e o seu filho no gostam dele...
pelo menos neste momento. Mas ho-de gostar. Tem de fazer-
-lhes ver o erro em que esto a incorrer, senhor Torrance. No
concorda?
Sim, concordo.
E concordava. Fora demasiado brando com eles. Como marido e como pai, tinha certas responsabilidades. Eles  que sabiam. A mulher e o filho  que no compreendiam.
No era nenhum crime, mas a verdade  que no compreendiam de propsito. Em geral, no era um homem duro. Mas acreditava na eficcia do castigo. E se a mulher e
o filho se opunham aos seus desejos de propsito, contra as coisas que ele sabia serem melhores para eles, no teria ele uma certa obrigao...?
        Uma criana ingrata  mais venenosa do que um dente de
serpente  disse Grady, estendendo-lhe a bebida.  Acredito
que o gerente consiga meter o seu filho na linha. E a seguir a
sua mulher. No concorda, senhor?
De repente Jack hesitou.
        Eu... Mas... E se eles se fossem embora... Afinal  a mim
que o gerente quer, no ? Tem de ser. Porque...
Porque o qu? Devia saber mas no sabia. A sua pobre cabea estava a nadar em lcool.
Cozinho feio!  dizia Derwent em voz alta para o pbli
co s gargalhadas.  Fez chichi no cho.
Claro que sabe  disse Grady, inclinando-se sobre o car
rinho, em ar de confidncia.  O seu filho est a tentar trazer
para c um elemento estranho. O seu filho tem muito talento,
uma espcie de talento que o gerente podia aproveitar para me
lhorar o Overlook, para o enriquecer, se assim se pode dizer.
Mas o seu filho est a tentar usar esse talento contra ns. Ele 
obstinado, senhor Torrance.  obstinado.
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        Um elemento estranho?  perguntou Jack estupida
mente.
Grady fez um sinal afirmativo.
Quem?
Um negro  respondeu Grady.  Um cozinheiro negro.
Hallorann?
        Sim, creio que  assim que ele se chama, senhor.
Outra gargalhada atrs deles, seguida de um protesto de Ro
ger, num tom lamuriento.
        Sim! Sim! Sim!  comeou a a cantarolar Derwent.
Os outros  sua volta secundaram-no, mas antes que Jack
conseguisse perceber o que queriam que Roger fizesse a orquestra recomeou a tocar. A cano era Tuxedo Junction, com muito saxofone adocicado  mistura, mas sem
laivos de soul.
(De soul. Mas a msica soul ainda nem sequer fora inventada... Ou fora?)
(Um negro... Um cozinheiro negro.)
Jack abriu a boca para falar, sem saber o que iria sair. Disse:
Disseram-me que voc no acabou o liceu. Mas no fala
como se fosse um homem inculto.
 verdade que abandonei os estudos muito cedo, senhor.
Mas o gerente trata dos seus empregados. Acha que compensa.
A educao compensa sempre no concorda, senhor?
Concordo  respondeu Jack, atordoado.
Por exemplo, o senhor demonstra um grande interesse
em saber mais sobre o Hotel Overlook.  muito sensato da sua
parte, senhor. Muito nobre. Deixaram na cave um certo lbum
de fotografias para que o senhor o encontrasse...
Mas quem?  Perguntou Jack, vido.
O gerente, claro. Outras coisas poderiam ser postas  sua
disposio, se quisesse...
Eu quero. Muito.
Jack tentou controlar a curiosidade da sua voz, mas no conseguiu.
        O senhor  um verdadeiro erudito  disse Grady.  Le
ve o assunto at ao fim. Esgote todas as possibilidades.
Baixou a cabea, puxou a lapela do casaco encardido e, com os ns dos dedos, afastou qualquer coisa que Jack no viu o que era.
        E o gerente no pe quaisquer limitaes  prosseguiu
Grady.  De maneira nenhuma. Olhe para mim, sado do d-
365
cimo grau. Pense como poderia subir na hierarquia do Overlook. Talvez... a seu tempo... chegue l acima.
Acha?  perguntou Jack em voz baixa.
Mas  o seu filho que decide, no  verdade?  pergun
tou Grady, erguendo as sobrancelhas.
Os seus movimentos contrastavam com as prprias sobrancelhas, que eram peludas e um pouco selvagens.
Danny?  disse Jack, franzindo o sobrolho.  No,
claro que no. Nunca permitiria ao meu filho que tomasse deci
ses no que diz respeito  minha carreira. De maneira nenhu
ma. Por quem me toma?
Por um homem dedicado  respondeu Grady num tom
afectuoso.  Talvez eu tivesse posto mal a questo, senhor.
Digamos que o seu futuro aqui depende da maneira como se
decidir a lidar com a teimosia do seu filho.
Sou eu que tomo as minhas decises  respondeu Jack
num murmrio.
Mas tem que dom-lo.
 o que farei.
Com firmeza.        .,
 o que farei.        '
Um homem que no consegue controlar a prpria famlia
tem muito pouco interesse para o nosso gerente. De um ho
mem que no consegue dar um rumo  vida da mulher e do
filho dificilmente pode esperar-se que oriente a sua, que as
suma por si s uma posio de responsabilidade num empreen
dimento desta dimenso. Ele...
J lhe disse que vou dom-lo  gritou Jack de repente,
irritado.
Naquele momento a orquestra acabou de tocar Tuxedo Junc-tion e comeou outra melodia. O seu grito coincidiu com a pausa e todos se calaram de repente atrs dele.
Jack sentiu-se corar. Tinha a certeza de que estavam todos a olhar para ele. Tinham largado Roger e agora comeariam com ele. D uma cambalhota. Senta-te. Faz de
morto. Se brincares connosco, ns brincamos contigo. Tinha um lugar de responsabilidade. Eles queriam que ele sacrificasse o filho.
(... Agora segue Harry para todo o lado, a abanar a cauda atrs dele...)
(D uma cambalhota. Faz de morto. Castiga o teu filho.)
366
        Venha por aqui, senhor. H uma coisa que talvez lhe in
teresse  dizia Grady.
A conversa recomeara, recuperando o seu ritmo, dominando ou abafando a orquestra, que agora interpretava uma verso swing de Ticket to Ride, de Lennon e McCartney.
(J tenho ouvido melhor nos supermercados.)
Soltou uma risada tresloucada. Reparou que tinha na mo esquerda um copo meio cheio. Esvaziou-o de uma s vez.
Agora estava diante da chamin da sala e o calor do fogo a crepitar aquecia-lhe as pernas.
Uma lareira acesa? Em Agosto... Sim... No... todas as pocas esto reunidas numa s.)
Havia um relgio numa redoma de vidro, ladeado por dois elefantes de marfim trabalhado. Os ponteiros indicavam que faltava um minuto para a meia-noite. Jack olhou
para ele com um ar vago. Era isto que Grady queria que ele visse? Voltou-se para trs para lhe fazer a pergunta mas Grady desaparecera.
A meio de Ticket to Ride, a orquestra fez um floreado.
        Ghegou a hora!  anunciou Derwent.   meia-noite!
Tirem as mscaras! Tirem as mscaras!
Jack tentou voltar-se outra vez para ver que rostos famosos se escondiam atrs do brilho e das cores das mscaras, mas sentiu-se paralisado, incapaz de tirar os
olhos do relgio  os ponteiros estavam sobrepostos e apontavam para cima.
        Tirem as mscaras! Tirem as mscaras!
A vozearia aumentava.
O relgio comeou a dar as badaladas, num tom suave. De baixo do mostrador,  direita e  esquerda, saram duas figuras. Jack observava-as, fascinado, esquecendo-se
das mscaras. O mecanismo zumbia. As rodas dentadas giravam e engrenavam umas nas outras, o lato brilhava. O pndulo balouava de um lado para o outro num ritmo
certo.
Uma das figuras era um homem em pontas, que tinha nas mos o que parecia ser um pequeno cacete. A outra era um rapazinho com orelhas de burro. As figuras resplandeciam,
movendo-se com uma preciso fantstica. Nas orelhas de burro do rapaz,  frente, estava gravada a palavra bobo.
As duas figuras deslizaram para as extremidades opostas de um eixo metlico. Algures ouvia-se uma valsa de Strauss. Na sua mente havia uma melodia disparatada: Comprem
comida de co, au-au, au-au, comprem comida de co...
O mao metlico nas mos do pap abateu-se sobre a cabea.
367
do rapaz. O rapaz caiu para diante. O mao subia e descia, subia e descia. O rapaz levantara os braos, em sinal de protesto, mas comeara a vacilar. Depois conseguiu
levantar-se. E o mao subia e descia, resplandecente, ao som da msica de Strauss, e Jack parecia ver o rosto do homem tenso e contrado, a boca do pap a abrir-se
e a fechar-se enquanto agredia a figura inconsciente e prostrada do filho.
Uma mancha vermelha surgiu no interior da redoma de vidro.
Agora o lquido vermelho espalhava-se como se fosse um aguaceiro obsceno, fustigando as paredes da redoma, ocultando tudo o que estava l dentro e misturando-se
com os minsculos fragmentos de tecido acinzentado, ossos e massa enceflica. E mesmo assim, Jack via o mao a subir e a descer enquanto o mecanismo continuava
a girar e as rodas dentadas continuavam a accionar as molas e os dentes daquela mquina engenhosa.
 Tirem as mscaras! Tirem as mscaras!  gritava Der-went por trs dele, enquanto algures um co uivava com voz de humano.
(Mas um mecanismo de relgio no deita sangue, um mecanismo de relgio no deita sangue.)
A redoma estava banhada de sangue. Jack distinguia pedaos de cabelo, mas graas a Deus no via mais nada, e convenceu-se de que estava doente porque continuava
a ouvir o mao a subir e a descer, ao mesmo tempo que ouvia os acordes d'O Danbio Azul. Mas o que ouvia j no era os sons mecnicos de um mao a agredir uma cabea
mecnica, mas os rudos abafados de um martelo verdadeiro a golpear tudo  sua volta, a arrasar tudo. Uma razia que em tempos fora...  tirem as mscaras!
(... a Morte Vermelha pairava sobre todos eles!)
Soltando um grito horrvel, afastou-se do relgio, de mos estendidas, os ps tropeando um no outro como se fossem tacos de madeira, enquanto lhes suplicava que
parassem, que o levassem, a ele, a Danny e a Wendy, que levassem toda a gente se quisessem, mas que parassem e lhe proporcionassem um pouco de sanidade mental, um
pouco de luz.
O salo de baile estava vazio.
As cadeiras estavam voltadas de pernas para o ar em cima das mesas cobertas de plstico, por causa do p. A carpete vermelha e dourada estava estendida no cho,
protegendo o polimento. O estrado da orquestra estava vazio, com excepo de um suporte de microfone e de uma guitarra sem cordas, cober-
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tos de p, encostados  parede. A luz fria da manh, a luz do Inverno, entrava languidamente pelas janelas altas.
Jack sentia ainda a cabea  roda, sentia-se embriagado, mas quando se voltou para o fogo de sala o copo desaparecera. S viu os elefantes de marfim e o relgio.
A cambalear, atravessou o trio gelado e sombrio e a sala de jantar. Tropeou na perna de uma mesa e estatelou-se no cho, batendo na mesa com estrondo. Bateu com
o nariz com fora no cho e comeou a sangrar. Levantou-se, a fungar, e limpou o nariz s costas da mo. Atravessou o Salo Colorado e passou as portas de batente,
que foram chocar com a parede.
O local estava vazio, mas o bar estava bem fornecido. Graas a Deus! O vidro e os rtulos prateados brilhavam no escuro.
Lembrava-se que, h muito tempo, ficara irritado por no haver um espelho ao fundo do bar. Agora sentia-se satisfeito. Ao olhar para l, avistou outro bbado que
acabara de apear-se da carruagem: o nariz a sangrar, a camisa desabotoada, o cabelo em desalinho, o rosto por barbear.
(Isto  a mesma coisa que meteres a mo dentro do ninho.)
A solido abateu-se sobre ele, sbita e total. Deu um grito horrvel e desejou sinceramente morrer. A mulher e o filho estavam l em cima, com a porta fechada 
chave, para se defenderem dele. Todos os outros se tinham ido embora. A festa acabara.
A cambalear, aproximou-se do bar.
        Lloyd, onde diabo ests tu?  gritou.
No obteve resposta. Nesta
(cela)
bem camuflada nem o eco da sua voz lhe dava a iluso de estar acompanhado.
        Grady!
No obteve resposta. S as garrafas o ouviam com ateno. (D uma cambalhota. Faz de morto. Apanha. Faz de morto. Senta-te. Faz de morto.)
        No importa, fao eu sozinho, raios me partam.
A meio caminho do bar, perdeu o equilbrio e caiu para a frente, batendo com a cabea no cho. Levantou-se, de gatas, rolando os olhos nas rbitas e produzindo rudos
estranhos com a boca. Depois perdeu os sentidos, com a cara voltada para o lado, a roncar.
L fora, o vento soprava com mais fora, arrastando a neve  sua frente. Eram oito e meia da manh.
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45
AEROPORTO DE STAPLETON, DENVER
s oito e trinta e um, no voo 196 da TWA, uma mulher desatou a chorar e a fazer correr que o avio ia cair, opinio que talvez fosse partilhada por mais alguns passageiros
(ou mesmo pela tripulao).
A mulher de rosto pontiagudo que ia sentada ao lado de Hallorann levantou o olhar e fez uma breve anlise caracte-rolgica:
         parva!
Em seguida voltou  sua leitura. Haviam passado por dois poos de ar que pareciam no a ter perturbado.
        Vai cair! Oh, meu Deus, eu sabia que isto ia acontecer! 
gritava a mulher com voz estridente.
Uma hospedeira correu para ela e ps-se de ccoras a seu lado. Hallorann pensou que s as hospedeiras e as donas de casa muito jovens conseguem pr-se de ccoras
com alguma graciosidade, j que se trata de um talento raro e maravilhoso. Estava a pensar nisto enquanto a hospedeira falava com a mulher num tom doce e a tranquilizava.
Hallorann no conhecia mais ningum no avio, mas estava muito assustado. Da janela no se via nada a no ser uma cortina branca. O avio balanava de um lado para
o outro, sacudido por rajadas de vento que pareciam vir de todas as direces. Os motores estavam preparados para compensar parcialmente esta situao e, em consequncia
disso, o cho vibrava debaixo dos ps. L atrs, na classe turstica, vrias pessoas se lamentavam, e um comissrio de bordo passava por elas com uma mo-cheia de
sacos para o enjoo. Trs filas de bancos  frente de Hallorann, um homem vomitara sobre o National Ob-server e sorrira em sinal de desculpa quando a hospedeira viera
ajud-lo a limpar-se.
        No se aflija,  exactamente o que eu sinto quando estou a
ler o Readafs Digest  disse ela para o confortar.
Hallorann j andara de avio o suficiente para se aperceber do que acontecera. Durante a maior parte do percurso tinham voado contra o vento, o tempo em Denver piorara
de repente e inesperadamente e agora era tarde de mais para se desviarem para
370
outro lado em que o tempo estivesse melhor. Agora era aguentar.
(Isto  uma carga de cavalaria, meu rapaz.) A hospedeira parecia ter conseguido aplacar a histeria da mulher. Esta fungava e assoava-se a um leno de renda, mas
deixara de emitir opinies sobre o possvel eplogo do voo. Por fim, o comissrio de bordo deu-lhe uma palmadinha no ombro e manteve-se de p at o avio ser sacudido
pelo pior dos balanos. A hospedeira perdeu o equilbrio e aterrou no colo do homem que vomitara em cima do jornal, deixando  mostra uma perna encantadora. O
homem pestanejou e depois deu-lhe uma palmadinha no ombro. Ela sorriu, mas Hallorann percebeu que a tenso estava a revelar-se. Estava a ser uma viagem difcil.
A situao desanuviou-se um pouco quando o sinal luminoso de no smoking se reacendeu.
        Daqui fala o comandante  disse uma voz suave, com
um leve sotaque sulista. Estamos prontos para comear a
descer no aeroporto internacional de Stapleton. A viagem tem
sido turbulenta e pelo facto peo as minhas desculpas. A aterra
gem pode ser tambm um pouco difcil, mas no se prevem
problemas de maior.  favor apertarem os vossos cintos e no
fumarem. Esperamos que tenham uma estada agradvel na
rea metropolitana de Denver. Esperamos tambm...
Outra sacudidela forte e novo poo de ar. Hallorann sentiu--se nauseado. Vrias pessoas  no s mulheres  gritaram.
... voltar a v-los em breve noutro voo da TWA.
No  muito provvel  disse algum atrs de Hallorann.
Que disparate  observou a mulher de rosto pontiagudo,
ao lado de Hallorann, pondo uma marca no livro e fechando-o
quando o avio comeou a descer.  Quando se vem os hor
rores de uma guerrazinha suja... como vocs viram... ou se
sente a imoralidade degradante da interveno da diplomacia
do dlar atravs da CIA... como eu senti... uma aterragem dif
cil no tem qualquer importncia. No tenho razo, senhor
Hallorann?
Claro, minha senhora  respondeu Hallorann, olhando
para a tempestade de neve que se desencadeava l fora.
Como  que a sua placa metlica est a reagir a tudo isto,
se me  permitido perguntar?
Oh, da cabea estou bem  respondeu Hallorann. 
Sinto-me  um pouco enjoado.
371
        Que vergonha.
E voltou a abrir o livro.
Enquanto desciam atravs de densas nuvens de neve, Hallo-rann lembrou-se de um desastre no aeroporto de Logan, em Chicago, h uns anos. As condies atmosfricas
eram semelhantes, s que o nevoeiro, em vez de neve, reduzira a visibilidade a zero. O trem de aterragem s comeara a funcionar junto de um muro que havia no
final da pista. O que restara dos oitenta e nove passageiros que iam a bordo no diferia muito de um tacho cheio de carne para hamburgers.
Hallorann no se importava muito se fosse s por ele. Agora estava completamente s no mundo e quem iria ao seu funeral seriam apenas as pessoas que tinham trabalhado
com ele e aquele velho renegado do Masterton, que pelo menos beberia um copo pela sua alma. Mas o mido... o mido estava dependente dele. Talvez Hallorann fosse
a nica pessoa de quem ele poderia esperar ajuda, e no lhe agradara a maneira como o ltimo apelo do mido fora interrompido. Continuava a pensar no modo como os
animais da sebe se tinham mexido...
Uma mo branca e magra pousou em cima da sua.
A mulher de rosto pontiagudo tirara os culos. Sem eles, as suas feies pareciam mais doces.
        Vai correr tudo bem  disse ela.
Hallorann sorriu e fez um sinal afirmativo.
Tal como j fora anunciado, o avio teve uma aterragem difcil pousando no solo com fora suficiente para deitar ao cho todas as revistas e derrubar uma pilha
de tabuleiros na cozinha como se fosse um baralho de cartas. Ningum gritou, mas Hallorann sentiu vrias dentaduras a ranger como se fossem castanholas.
Em seguida as turbinas chiaram, imobilizando o aparelho, e quando baixaram de volume apareceu a voz do piloto de sotaque sulista, talvez um pouco falha de firmeza,
a dizer atravs do intercomunicador:
        Senhoras e senhores, acabamos de aterrar no aeroporto de
Stapleton.  favor manterem-se nos vossos lugares at o apare
lho se imobilizar por completo junto do terminal. Obrigado.
A mulher ao lado de Hallorann fechou o livro e suspirou.
L vamos comear a nossa luta, senhor Hallorann.
Ainda nem acabmos esta, minha senhora.
 verdade.  mesmo verdade. Quer tomar alguma coisa
comigo no salo?        ,
372
Gostaria muito, mas tenho um compromisso.
Est com pressa?
Estou com muita pressa  disse Hallorann muito srio.
Espero que seja alguma coisa que melhore a situao.
Tambm o espero  respondeu Hallorann, sorrindo.
A mulher sorriu tambm e pareceu dez anos mais nova.
Como a sua bagagem se limitava a uma mala pequena, Hallorann conseguiu chegar em primeiro lugar ao balco da Hertz no piso de baixo. L fora, atravs do vidro fumado
das janelas, via a neve que continuava a cair com fora. O temporal empurrava-a de um lado para o outro e as pessoas que atravessavam o parque de estacionamento
lutavam contra ela. Um homem ficara sem o chapu e Hallorann tivera pena dele ao v-lo rodopiar no ar. O homem seguia-o com o olhar e Hallorann pensou:
(Ora, esquece-o, homem. Esse chapu s vir para baixo quando chegar ao Arizona.)
E na sequncia daquele pensamento:
(Se o tempo est assim to mau em Denver, como no estar a oeste de Boulder?)
Talvez o melhor fosse no pensar nisso.
O que deseja, senhor?  perguntou-lhe a empregada da
Hertz, vestida de amarelo.
Preciso de um carro  respondeu Hallorann com um
grande sorriso.
Mediante o pagamento de um suplemento poderia conseguir um carro acima da mdia, um Buick Electra negro e prateado. Dick estava mais preocupado com as estradas sinuosas
da montanha do que com o estilo. Ainda tinha de parar no caminho para lhe porem as correntes. Sem elas no iria longe.
O tempo est muito mau?  perguntou Dick, quando a
rapariga lhe estendeu o contrato para assinar.
Dizem que  a pior tempestade desde mil novecentos e
sessenta e nove  respondeu a rapariga com vivacidade.  Vai
para longe, senhor?
Para mais longe do que gostaria.
Se quiser, posso telefonar para a estao da Texaco no
cruzamento da Estrada Duzentos e Setenta. Eles pem-lhe as
correntes.
Isso seria ptimo.
A rapariga pegou no telefone e fez a chamada.
        Eles ficam  sua espera.        ; .j.tui        :
37$
 Muito obrigado.
Ao afastar-se do balco, Dick avistou a mulher de rosto pontiagudo numa das bichas que se formara diante da zona de recolha da bagagem. Continuava a ler o seu
livro. Hallorann piscou-lhe o olho ao passar por ela. Ela levantou o olhar, sorriu e fez-lhe o sinal da paz.
(brilho)
Dick levantou a gola do sobretudo, a sorrir, e passou a mala para a outra mo. Era pequena mas fazia-o sentir-se melhor. Tinha pena de lhe ter contado aquela histria
da placa na cabea. Em pensamento desejou-lhe boa sorte, e quando se viu na rua, exposto ao vento e  neve, pensou que ela lhe desejaria o mesmo.
A taxa por colocarem as correntes na estao de servio era modesta, mas Hallorann deu mais dez dlares ao empregado por passar um pouco  frente na lista de espera.
s nove e quarenta e cinco minutos estava na estrada, com os limpa-pra--brisas a funcionar e as correntes provocando um rudo montono nas enormes rodas do Buick.
Na portagem havia uma grande confuso. Mesmo com as correntes no conseguia guiar a mais de cinquenta quilmetros por hora. Alguns automveis tinham sado da estrada
em ngulos incrveis e em vrios declives o trnsito mal avanava porque os pneus de Vero escorregavam na poeira da neve. Era a primeira grande tempestade daquele
Inverno, ali nas terras baixas (se  que se podia chamar baixa a uma zona que se encontrava mil seiscentos metros acima do nvel do mar), e isto ainda no era
nada. Muitas destas zonas no estavam preparadas, o que era vulgar, mas mesmo assim Hallorann deu consigo a rogar-lhes pragas ao percorr-las, espreitando pelo
espelho exterior, coberto de neve, para se certificar de que no vinha nada
(a abrir caminho por entre a neve...) a subir pela faixa da esquerda que pudesse atrapalh-lo.
A pouca sorte esperava-o de novo no comeo da subida da Estrada 36. A Estrada 36, que liga Denver a Boulder, tambm segue para oeste, para Estes Park, onde se liga
 Estrada 7. Essa estrada, tambm conhecida por Estrada das Alturas, atravessa Sidewinder, passa pelo Hotel Overlook e finalmente comea a descer, s curvas, para
Utah.
O comeo da subida estava bloqueado por um reboque tombado. Havia sinais luminosos intermitentes espalhados  volta
374
que lembravam velas de um daqueles estpidos bolos de aniversrio de criana.
Hallorann parou e fez descer o vidro da janela. Um polcia com um gorro de pele de cossaco enterrado at s orelhas gesticulava com a mo enluvada para o fluxo
de trfego que se encaminhava para norte, para o itinerrio 25.
No pode subir por aqui!  berrou a Hallorann, sobre
pondo-se ao barulho do vento.  Desa, apanhe a noventa e
um e vire para a trinta e seis em Broomfield!
Acho que podia contorn-lo pela esquerda  gritou Hal
lorann.  Est-me a roubar vinte milhas ao meu caminho!
Uma ova! Esta subida est fechada ao trnsito  berrou o
polcia.
Hallorann fez marcha atrs, esperou por uma aberta no trnsito e continuou a subir pela Estrada 25. As placas informavam-no de que tinha de percorrer apenas cento
e cinquenta quilmetros para chegar a Cheyenne, no Wyoming. Se no tivesse escolhido esta subida teria seguido por ali.
Carregou no acelerador at chegar aos sessenta quilmetros por hora, mas no se atreveu a andar mais depressa; a neve ameaava j obstruir as alavancas de contacto
e os sinais de trnsito eram decididamente uma loucura. Um desvio de vinte milhas. Hallorann soltou uma praga e a sensao de que o mido cada vez tinha menos tempo
quase o sufocava. Ao mesmo tempo, tinha a certeza de que no voltaria desta viagem.
Ligou o rdio, saltou anncios alusivos ao Natal e descobriu uma reportagem sobre o tempo.
... j quinze centmetros e espera-se que aumente mais trinta na rea urbana de Denver ao anoitecer. A polcia local e a polcia federal aconselham-no a no tirar
o carro da garagem, a menos que seja absolutamente necessrio, e avisam-no que, nas montanhas, a maior parte das passagens j esto cortadas. Por isso fique em casa
a puxar o lustro aos mveis e continue a sintonizar...
        Obrigado, mezinha  disse Hallorann irritado, desli
gando o rdio.
375
46
WENDY
Por volta do meio-dia, numa altura em que Danny fora  casa de banho, Wendy tirou o trinchante embrulhado no pano de cozinha de baixo da almofada, meteu-o na algibeira
do roupo e ps-se  porta da casa de banho.
Danny.
O que ?
Vou para baixo fazer o nosso almoo, est bem?
Est bem. Quer que eu desa?
No, eu trago-o para cima. Que tal sopa e uma omeleta de
queijo?
Pode ser.
Wendy hesitou junto da porta fechada.
Danny, tens a certeza de que ests bem?
Sim. Tenha cuidado  respondeu Danny.
Onde est o pai? Sabes?
Danny respondeu com uma voz curiosamente incaracters-tica:
        No. Mas est bem.
Wendy reprimiu o desejo de continuar a fazer perguntas, de andar  volta do assunto. Alguma coisa havia ali, e eles sabiam o que era. Falar nela significava assustar
Danny ainda mais... e assustar-se a si prpria.
Jack perdera o juzo. Wendy e Danny tinham-se sentado no div quando a tempestade comeara a piorar, por volta das oito horas da manh, e tinham-no ouvido l em
baixo, aos berros e aos tropees de um lado para o outro. O barulho parecia vir do salo de baile. Jack entoava pedaos de canes, completamente desafinado, discutia
tomando o partido de uma parte e gritava com fora, e Wendy e Danny ficavam gelados quando olhavam um para o outro. Por fim, ouviram-no atravessar o trio, a cambalear,
e Wendy julgou ouvir um grande estrondo, como se Jack tivesse cado ou aberto uma porta com fora. A partir das oito e meia  eram agora trs e meia  fizera-se
silncio.
Wendy percorreu o pequeno corredor, voltou para o principal e encaminhou-se para as escadas. Parou no patamar do primeiro andar e olhou l para baixo, para o trio.
Pareceu-lhe
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deserto, mas o dia estava cinzento e a neve, constantemente a cair, deixava-o mergulhado numa semiobscuridade. Danny podia estar enganado. Jack podia estar escondido
atrs de uma cadeira ou de um sof... Talvez atrs do balco...  espera que ela descesse...
Wendy humedeceu os lbios.
 Jack!
No obteve resposta.
Levou a mo ao cabo da faca e comeou a descer. Pensara muitas vezes no fim do seu casamento, no divrcio, na morte de Jack num acidente por embriaguez (uma viso
habitual na escurido das duas horas da madrugada quando viviam em Sto-vington ) e, de vez em quando, em devaneios  ser descoberta por outro homem ou ser arrebatada
por um Galaad de opereta, que os levaria, a ela e a Danny, na sela do seu cavalo branco de neve. Mas nunca se imaginara a andar  espreita em escadas e corredores,
como se fosse uma criminosa, de faca na mo para se defender de Jack.
Ao pensar nisto sentiu-se invadida pelo desespero e teve de parar no meio das escadas e de agarrar-se ao corrimo, com medo de que os joelhos cedessem.
(Admite-o. No se trata s de Jack, ele  apenas a nica coisa slida em tudo isto, a que as outras coisas se agarram, as coisas em que no podes acreditar embora
sejas obrigada a acreditar, aquilo das sebes, da mscara no elevador.)
Wendy tentou impedir o pensamento, mas era demasiado tarde.
(E as vozes.)
Porque de vez em quando parecia que havia um homem louco e solitrio por baixo deles, a conversar com os fantasmas, na sua mente perturbada. De vez em quando, tal
como um sinal de rdio que vai e vem, Wendy ouvira  ou convencera-se de que ouvira  outras vozes, msica e risos. A dada altura julgou ouvir Jack a manter uma
conversa com algum de nome Grady (o nome era-lhe vagamente familiar, embora Wendy no tivesse feito qualquer associao mental), a fazer declaraes e perguntas
em silncio, embora falasse em voz alta, como se quisesse fazer-se ouvir no meio de uma algazarra. E depois outros sons pareciam ter-se infiltrado  uma orquestra
de dana, pessoas a bater palmas, um homem com uma voz divertida mas autoritria que parecia tentar convencer algum a fazer um discurso. Durante trinta segundos
Wendy escutara isto, o sufi-
377
ciente para ficar tonta de terror. Depois os rudos haviam desaparecido e s ouvira Jack, a falar naquela voz de comando mas levemente arrastada que recordava os
tempos em que ele se embriagava. Mas no hotel no havia nada para beber a no ser o xerez para cozinhar. No era verdade? Sim, mas se ela imaginava que o hotel
estava cheio de vozes e de msica no poderia Jack imaginar que estava bbado?
Aquele pensamento no lhe agradava. De maneira nenhuma.
Wendy chegou ao trio e olhou  volta. O cordo de veludo que protegia a entrada para o salo de baile fora retirado e o suporte de metal estava tombado, como se
algum tivesse tropeado nele ao passar. Uma luz suave e esbranquiada vinda das janelas altas e estreitas do salo de baile entrava pela porta aberta e projectava-se
na carpete do trio. Com o corao aos pulos, encaminhou-se para as portas do salo, que estavam abertas, e olhou l para dentro. O salo estava vazio e silencioso,
e o nico som era aquele eco curioso e sobrenatural que parece pairar em todos os grandes aposentos, desde a maior das catedrais ao salo de festas da mais pequena
vila.
Voltou para junto do balco e, por instantes, ali ficou, indecisa, a escutar o uivo do vento l fora. Era a tempestade mais forte at ento, e ainda mal comeara.
Algures na ala oeste partira-se o trinco de uma portada e esta andava de um lado para o outro, provocando um barulho forte e seco, como se fosse uma barraca de
tiro s com um cliente.
(Jack, devias ter cuidado com isso. Antes que entre qualquer coisa c para dentro.).
Perguntou a si mesma o que faria se ele lhe aparecesse na
quele momento. Se espreitasse de trs do balco escuro e en
vernizado com a sua pilha de impressos em triplicado e a sua
campainha prateada, como se fosse o boneco assassino de uma
caixinha de surpresas, a sorrir, de machado na mo e olhar
vago. Ficaria paralisada pelo terror ou a situao despertaria
nela o primitivo instinto maternal que a levaria a lutar pelo
filho at um deles estar morto? No sabia. O simples facto de
pensar, nisso punha-a doente, fazia-a sentir que toda a sua vida
se deixara embalar num longo sonho, do qual despertava agora
para viver este pesadelo. Era fraca. Quando tinha problemas,
dormia. O seu passado no tinha nada de notrio. Nunca pas
sara por uma prova de fogo. Agora essa prova chegara, no de
fogo mas de gelo, e Wendy no poderia dormir. O filho espera
va-a l em cima.
378
Agarrando com mais fora o cabo do trinchante, espreitou por cima do balco.
Nada.
Deixou escapar um suspiro de alvio.
Passou para o outro lado e parou para dar uma olhadela ao gabinete antes de entrar. s apalpadelas, procurou o interruptor da cozinha, sempre  espera de que uma
outra mo agarrasse a sua a qualquer momento. Depois as lmpadas fluorescentes acenderam-se, com os rudos caractersticos e Wendy viu a cozinha do senhor Hallorann
 que era agora a sua cozinha, para bem ou para mal  com os seus azulejos verde-claros, a fr-mica reluzente, a porcelana imaculada, os cromados reluzentes. Prometera-lhe
que manteria a sua cozinha limpa e cumprira sua promessa. Para ela era um dos locais em que Danny estava em segurana. A presena de Dick Hallorann parecia envolv-la
e confort-la. Danny chamara o senhor Hallorann, e quando estava sentada l em cima, ao lado de Danny, enquanto o marido rugia c em baixo, esse facto parecera-lhe
a mais tnue das esperanas. Mas agora aqui, na cozinha do senhor Hallorann, a vinda deste parecia-lhe quase possvel. Talvez ele viesse j a caminho, tentando
chegar junto deles, sem se importar com a tempestade. Talvez fosse assim.
Encaminhou-se para a copa, retirou o ferrolho e entrou. Tirou uma lata de sopa de tomate, voltou a fechar a porta da copa e correu o ferrolho. A porta no tinha
qualquer fresta por baixo. Se estivesse sempre fechada no havia que recear que os ratos fossem ao arroz,  farinha ou ao acar.
Abriu a lata e despejou o contedo levemente gelatinoso para um tacho  plop. Tirou ovos e leite do frigorfico para fazer a omeleta. Depois, foi  cmara frigorfica
buscar o queijo. Todas estas tarefas, to vulgares, e que j faziam parte da sua vida antes de vir para o Overlook, ajudaram a acalm-la.
Derreteu a manteiga na frigideira, diluiu a sopa no leite e deitou os ovos batidos na frigideira.
De repente, teve a sensao de que estava algum atrs dela, prestes a agarrar-lhe a garganta.
Voltou-se, agarrando no trinchante. No viu ningum.
(Domina-te, rapariga!)
Cortou uma fatia de queijo, juntou-a  omeleta, deu-lhe uma volta e baixou o lume. A sopa estava quente. Wendy ps o tacho num tabuleiro de metal, juntamente com
duas tigelas,
379
dois pratos, o saleiro e o pimenteiro. Depois de pronta a omeleta, passou-a para um dos pratos e tapou-a.
(Agora volta para onde estavas. Fecha as luzes da cozinha. Passa pelo gabinete. Atravessa o balco e tira duzentos dlares.)
Wendy parou no trio, junto do balco, e pousou o tabuleiro ao lado da campainha prateada. Quais os limites da realidade? Isto parecia-lhe uma espcie de jogo surrealista
das escondidas.
Deixou-se ficar no trio, s escuras, a pensar, de sobrolho carregado.
(No fujas aos factos desta vez, menina. H certas realidades, por muito incrvel que esta situao possa parecer. Uma delas  que s tu a nica pessoa responsvel
que resta deste jogo grotesco. Tens um filho de cinco anos  quase a fazer seis  para cuidar. E quanto ao teu marido, acontea-lhe o que lhe acontea e por muito
perigoso que se tenha tornado..., faz parte das tuas respon-sabilidades, tambm. E mesmo que assim no fosse, pensa nisto: hoje  o dia dois de Dezembro. Se no
aparecer nenhum guarda florestal podero ficar aqui fechados mais quatro meses. Mesmo que comecem a interrogar-se porque no os chamamos pelo rdio, hoje no viro
c... nem amanh... talvez demorem algumas semanas. Vais passar um ms a descer  socapa para vir preparar as refeies, com uma faca escondida, e a dar um pulo
cada vez que vires uma sombra? Achas mesmo que poders evitar Jack durante um ms? Achas que poders manter Jack afastado dos quartos l de cima se ele quiser entrar?
Ele tem a chave, e com um pontap forte rebentaria a fechadura.)
Deixando o tabuleiro em cima do balco, Wendy encaminhou-se lentamente para a sala de jantar e espreitou l para dentro. Estava deserta. S uma das mesas tinha
as cadeiras  volta. Era a mesa em que tinham comeado a comer, a princpio, antes de se sentirem incomodados com a sala vazia.
        Jack.  chamou, hesitante.
Naquele momento o vento aumentou de intensidade, atirando a neve contra as portadas, mas Wendy teve a sensao de que ouvira qualquer outra coisa. Uma espcie de
gemido abafado.
        Jack.
Desta vez no ouviu qualquer som, mas caram-lhe os olhos num objecto que estava junto das portas do Salo Colorado, um objecto que soltava um brilho tnue, a luz
coada do aposento. Era o isqueiro de Jack.
Fazendo um apelo  coragem, Wendy atravessou as portas
380
de batente. O cheiro do gim era to forte que lhe fez ccegas na garganta. No era adequado chamar-lhe cheiro; tratava-se verdadeiramente de um vapor forte e desagradvel.
Mas as prateleiras estavam vazias. Onde diabo o descobrira Jack? Alguma garrafa escondida atrs de um armrio? Onde?
Ouviu-se novo gemido, fraco e indefinido, mas desta vez perfeitamente audvel. Lentamente, Wendy encaminhou-se para o bar.
        Jack.
No teve resposta.
Espreitou para o outro lado do bar e l estava ele, estendido no cho, inconsciente. Bbado que nem um cacho, a avaliar pelo cheiro. Devia ter tentado saltar e perdera
o equilbrio. Fora uma sorte no ter partido o pescoo. Veio-lhe  ideia um velho provrbio: Ao menino e ao borracho pe Deus a mo por baixo.
Todavia, no estava zangada com ele. Ao v-lo naquele estado achou que parecia um rapazinho exausto que tivesse feito um grande esforo e cado a dormir no cho
da sala. Jack deixara de beber e no fora ele que tomara a deciso de recomear. Ali no havia lcool... por isso, de onde viera? Espalhadas pelo bar em forma de
ferradura, viam-se garrafas de vinho, com velas enfiadas no gargalo. Para dar um ar de bomia, supunha. Pegou numa e abanou-a,  espera de ouvir o chocalhar do gim,
(vinho novo em garrafas velhas)
mas a garrafa no tinha nada l dentro. Wendy pousou-a de novo.
Jack estava a mexer-se. Wendy contornou o bar, descobriu o stio de passagem e aproximou-se de Jack, parando apenas para deitar um olhar para as torneiras cromadas
e reluzentes. Estavam secas, mas quando passou por elas cheirou-lhe a cerveja, um cheiro fresco e requintado.
Quando chegou junto de Jack, este rolou o corpo, abriu os olhos e olhou para ela. Por instantes, a sua expresso manteve--se vaga, mas depois tornou-se mais natural.
Wendy, s tu?  perguntou ele.
Sou  respondeu Wendy.  Achas que consegues subir
as escadas? Se te agarrares a mim? Jack, onde arranjaste...
Jack agarrou-lhe brutalmente o tornozelo.        >
        Jack, o que ests a...
        Gotcha!  disse Jack, comeando a rir-se.        i
 sua volta havia um cheiro repelente a gim e a azeitonas que
381
a aterrorizou, que foi capaz de a aterrorizar mais do que qualquer hotel s por si. O pior de tudo, pensou,  que ambos tinham voltado a isto, ela e o marido embriagado.
Jack, eu quero ajudar-te.
Ah, sim. Tu e Danny s querem ajudar.
Jack apertava-lhe agora o tornozelo com muita fora. Sempre agarrado a ela, a tremer, tentou pr-se de p.
Querias ajudar-nos a todos a sair daqui. Mas agora...
Eu... Gotcha!
Jack, ests a magoar-me o tornozelo...
        E no vou magoar-te s o tornozelo, filha da me!
Aquele termo apanhou Wendy completamente de surpresa,
a tal ponto que nem fez um esforo para se afastar quando Jack lhe largou o tornozelo e conseguiu pr-se de p, a cambalear na sua frente.
Nunca me tiveste amor  disse ele.  Querias que nos
fssemos embora porque sabias que isso seria o meu fim. J
alguma vez pensaste nas minhas... res... responsabilidades?
No, aposto que no. S pensas  na maneira de me deitares
abaixo. s exactamente como a minha me, s uma cobardola!
Cala-te!  disse Wendy, a chorar.  No sabes o que
ests a dizer. Ests bbado. No sei como, mas ests bbado.
Oh, eu sei. Eu sei. Tu e ele. Aquele pigmeu que est l
em cima. Vocs os dois tm andado a fazer planos. No ?
No, no! No fizemos planos nenhuns! O que ests a...
Mentirosa!  gritou Jack.  Oh, eu sei como fazes!
Aposto que sei! Quando eu digo Vamos ficar aqui e eu vou
fazer o meu trabalho, tu dizes Sim, querido, e ele diz Sim,
pap, e depois vocs os dois fazem os vossos planos. Vocs
planearam servir-se do limpa-neves. Foram vocs que resol
veram isso. Mas eu j sabia. Adivinhei. Estavam convencidos
de que eu no iria descobrir? Pensam que eu sou estpido?
Naquele momento, Wendy olhava para ele, sem conseguir falar. Jack ia mat-la e, em seguida, mataria Danny. Depois, talvez o hotel ficasse satisfeito e lhe permitisse
que se suicidasse. Tal como acontecera ao outro vigilante. Tal como
(Grady).
Quase a desfalecer de terror, Wendy percebeu finalmente com quem  que Jack estivera a conversar no salo de baile.
        Voltaste o meu filho contra mim. Isso foi o pior.  O
rosto de Jack era uma mscara de autocompaixo.  O meu
menino. Agora ele tambm me odeia. A culpa  tua. Era esse o
382
teu plano, no  verdade? Sempre tiveste cimes, no  assim? Tal como a tua me. S te sentias satisfeita quando tinhas tudo s para ti, no era? No era? Wendy
no conseguia falar.
        Bem, vou dar-te uma lio  disse Jack, tentando pr-
-lhe as mos  volta do pescoo.
Wendy recuou um passo, depois outro, e Jack caiu por cima dela. Wendy lembrou-se da faca que tinha no bolso do roupo e procurou agarr-la, mas Jack passara-lhe
o brao esquerdo  volta do corpo e prendera-lhe a mo. Wendy sentiu o cheiro a gim e o odor acre do suor.
        Tm de ser castigados  grunhia Jack.  Punidos. Cas
tigados com dureza.
Com a mo esquerda agarrou-lhe a garganta.
Quando comeou a no conseguir respirar, o pnico apoderou--se dela. Jack agarrava-lhe agora a garganta com as duas mos, o que lhe teria permitido pegar na faca,
mas nem se lembrou de o fazer. Levantou os braos e comeou desesperadamente a tentar libertar-se das mos de Jack, maiores e mais fortes.
        Mam!  gritou Danny de qualquer lado.  Pap, pare!
Est a magoar a mam!
Danny soltava gritos estridentes, que Wendy ouvia  distncia, como se fossem cristais a tilintar.
Clares vermelhos passavam diante dos seus olhos, como se fossem bailarinos. A sala tornou-se mais escura. Viu o filho subir para o balco e atirar-se sobre os ombros
de Jack. De repente uma das mos soltou-se-lhe do pescoo para dar um soco em Danny, tentando afast-lo. O mido foi de costas contra as prateleiras vazias e caiu
ao cho, atordoado. A mo voltou  sua garganta. Os clares vermelhos comearam a tornar--se negros.
Danny chorava baixinho. Wendy sentia o peito a arder e Jack gritava-lhe na cara:
        Vou dar-te uma lio! Maldita, vou mostrar-te quem 
que manda aqui! Vou mostrar-te...
Mas agora todos os sons se desvaneciam, como se estivesse num longo corredor s escuras. Comearam a faltar-lhe as foras para lutar. Uma das mos largou a de Jack
at o brao ficar em ngulo recto com o corpo. A mo pendia do pulso, inerte, como se fosse a mo de uma mulher a afogar-se.
Tocou numa garrafa  uma das garrafas de vinho empalhadas que serviam agora de castiais.
383
Sem ver nada, com as foras que lhe restavam, pegou no gargalo, sentindo as mos pegajosas da cera.
(Oh, meu Deus, se ela escorrega...)
Comeou a agit-la para um lado e para o outro, sabendo que se o atingisse no ombro ou no brao ele daria cabo dela.
Mas a garrafa caiu redonda em cima da cabea de Jack Tr-rance e o vidro estilhaou-se no interior do vime. A base da garrafa era espessa e pesada e bateu-lhe na
cabea como se fosse uma bola a cair num soalho de madeira. Jack caiu de costas e os olhos rolaram-lhe nas rbitas. A presso na garganta de Wendy abrandou e depois
desapareceu por completo. Jack estendeu as mos, como que para equilibrar-se, e em seguida estatelou-se no cho.
Wendy deu um longo suspiro, que mais parecia um soluo. Por pouco no caiu. Agarrou-se  beira do balco e conseguiu manter-se de p. Estava prestes a perder a conscincia.
Ouvia Danny chorar mas no fazia ideia onde ele estava. Parecia-lhe vindo de uma cmara de eco. Viu gotas de sangue do tamanho de moedas de dez cntimos a carem
na superfcie escura do bar, do seu nariz, supunha. Pigarreou e cuspiu para o cho. Isto provocou-lhe uma sensao de agonia na garganta, mas  agonia seguiu-se
uma presso, uma dor... suportvel.
A pouco e pouco conseguiu dominar-se.
Saiu do bar, deu a volta e viu Jack estatelado no cho, com a garrafa partida ao lado. Parecia um gigante abatido. Danny estava de ccoras debaixo da caixa registadora,
com as mos na boca, a olhar para o pai inconsciente.
A cambalear, Wendy dirigiu-se a ele e tocou-lhe no ombro. Danny afastou-se dela.
Danny, ouve...
No, no  murmurou Danny com uma voz rouca que
parecia a de um velho.  O pap magoou-se... A mam ma
goou o pap... Quero ir dormir. O Danny quer ir dormir.
Danny...
Dormir, dormir. Boa noite.
No!
A dor voltou-lhe  garganta. Wendy retraiu-se. Mas Danny abriu os olhos e fitou-a com um ar cauteloso.
Wendy fez o possvel por falar com calma, sem deixar de olhar para o filho. Falava quase num sussurro, em voz baixa e rouca. Custava-lhe a falar.
        Ouve-me, Danny. O teu pai no quis magoar-me. E eu
tambm no quis mago-lo. O hotel  que tomou conta dele,
384
Danny. O Overlook tomou conta do teu pai. Ests a perceber?
Uma expresso de entendimento regressava lentamente ao olhar de Danny.
A Coisa M  disse em surdina.  Antigamente no
havia aqui nada disso, pois no?
No. O hotel  que a trouxe. O...
Wendy teve um acesso de tosse e cuspiu mais sangue. Tinha a garganta muito inchada.
O hotel  que o obrigou a beber. Ouviste aquela gente
com quem ele estava a falar esta manh?
Ouvi... As pessoas do hotel...
Eu tambm ouvi. E isso significa que o hotel est a ficar
mais forte. Quer fazer-nos mal a todos. Mas acho... Espero...
que consiga servir-se apenas do teu pai. Ele  o nico a quem
conseguiu apanhar. Ests a perceber-me, Danny?  tremenda
mente importante que me compreendas.
O hotel tomou conta do pap.
Danny olhou para Jack e soltou um gemido.
        Eu sei que gosta muito do pap. Eu tambm gosto. Mas
temos de lembrar-nos que o hotel est a tentar fazer tanto mal a
ele como a ns.
E Wendy estava convencida de que era verdade. Mais: pensava que quem o hotel queria verdadeiramente era Danny, por isso estava a ir to longe... talvez por isso
estava a conseguir ir to longe. Podia mesmo acontecer que, por algum processo desconhecido, fosse o prprio brilho de Danny a comand-lo, tal como uma bateria comanda
o sistema elctrico de um automvel... tal como uma bateria pe um automvel a trabalhar. Se eles conseguissem sair daqui, o Overlook poderia voltar ao seu velho
estado de semi-inconscincia, e de no ser capaz de fazer mais do que passar filmes de terror de terceira categoria aos hspedes fisicamente mais aptos. Sem Danny,
no seria mais do que um recinto de diverses assombrado, em que um ou dois hspedes ouviam barulhos, ou os sons fantasmagricos de um baile de mascarados, ou viam
de vez em quando qualquer coisa que os perturbava. Mas se absorvia Danny... o seu brilho ou a sua fora espiritual... como lhe quisssemos chamar... puxando-o
para si mesmo... O que seria ento?
O pensamento deixou-a gelada.
        Quem me dera que o pap estivesse melhor  disse Dan
ny, recomeando a chorar.
385
        Tambm eu  disse Wendy, abraando-o com fora. 
E, querido,  por isso que tens de ajudar-me a pr o pap em
qualquer lado. Num stio em que o hotel no possa fazer-lhe
mal e ele no nos possa fazer mal tambm. Depois... se o teu
amigo Dick vier, ou um guarda-florestal, poderemos tir-lo da
qui. E acho que ele ficar bom outra vez. Todos ns ficaremos
bem. Creio que existe essa possibilidade, se formos fortes e
corajosos, como tu foste quando lhe saltaste para as costas. Es
ts a perceber?
Wendy olhou para o filho com um ar suplicante e  era estranho  achou que o filho nunca se parecera tanto com Jack.
Estou  respondeu Danny, fazendo um sinal afirmativo.
 Acho que... se conseguirmos tir-lo daqui... tudo voltar a
ser como dantes. Onde havemos de p-lo?
Na despensa. H comida l dentro e um bom ferrolho por
fora. E est quente. E ns podemos comer o que est no frigor
fico e no congelador. H comida suficiente para os trs at che
gar algum para nos ajudar.
Vamos fazer isso agora?
Sim, agora mesmo. Antes que ele acorde.
Danny levantou o tampo do balco enquanto Wendy dobrava os braos de Jack sobre o peito e escutava a sua respirao por instantes. Era lenta mas regular. A avaliar
pelo cheiro, devia ter bebido bastante... e j tinha perdido o hbito. Wendy lembrou-se de que tanto podia ter sido o lcool como a pancada na cabea com a garrafa
que o tinham deixado inconsciente.
Pegou-lhe nas pernas e comeou a arrast-lo pelo cho. Estava casada com ele h quase sete anos, ele tinha-se posto em cima dela vezes sem conta  milhares de vezes
, mas Wendy nunca se apercebera de como era pesado. A respirao ofegante fazia-lhe doer a garganta. Todavia, sentia-se melhor do que vinha a sentir-se h dias.
Estava viva. Vira-se to perto da morte que esse facto era precioso. E Jack tambm estava vivo. Por obra do acaso, mais do que por previso, tinham talvez descoberto
a nica maneira de sarem dali sos e salvos.
Quase sem flego, Wendy parou por instantes, encostando os ps de Jack s ancas. A atmosfera fazia-lhe lembrar o grito do capito, n'A Ilha do Tesouro, depois de
o velho Pew, cego, lhe ter passado o Black Spot: Vamos conseguir!
E depois recordou-se, inquieta, de que o velho lobo do mar cara morto passados alguns segundos.
386
Est a sentir-se bem, mam? Ele... ele no  muito pe
sado?
C me arranjarei.
Wendy recomeou a pux-lo. Danny estava junto de Jack. Uma das mos cara-lhe do peito e Danny voltara a p-la no seu lugar, com cuidado, com carinho.
Tem a certeza, mam?
Tenho.  o melhor que temos a fazer, Danny.
 como se estivssemos a met-lo na priso.
Mas por pouco tempo.
Est bem. Acha que consegue?
Acho.
Danny pegara na cabea do pai ao passarem na soleira das portas, mas o cabelo gorduroso de Jack fez-lhe escorregar as mos ao entrarem na cozinha. A nuca bateu nos
mosaicos e Jack comeou a gemer e a mexer-se.
        Tens de utilizar o fumo  murmurou Jack.  Agora
corre e vai buscar-me aquela lata de gasolina.
Wendy e Danny trocaram um olhar tenso e assustado.
        Ajuda-me  disse Wendy em voz baixa.
Por instantes, Danny ficou como que paralisado, a olhar para o rosto do pai. Em seguida, com um gesto desajeitado, ps-se ao lado da me e ajudou-a a levantar-lhe
a perna esquerda. Arrastaram-no pelo cho da cozinha, como que num pesadelo em cmara lenta. Os nicos sons que se ouviam eram o zumbido das lmpadas fluorescentes
e a sua prpria respirao.
Quando chegaram  despensa, Wendy pousou os ps de Jack no cho e voltou-se para pegar no ferrolho. A fralda da camisa sara-lhe das calas e Danny interrogou-se
se o pai estaria suficientemente bbado para no ter frio. Parecia-lhe errado fecharem-no na despensa como se fosse um animal selvagem, mas presenciara o que ele
tentara fazer  mam. Ainda l em cima, adivinhara que o pai ia fazer aquilo. Em pensamento, ouvira os dois a discutir.
(Se ao menos todos pudssemos sair daqui. Ou se isto fosse um sonho que eu estivesse a ter, j em Stovington. Se ao menos...)
O ferrolho custava a sair.
Wendy puxou-o com quantas foras tinha, mas ele nem se mexeu. No conseguia tirar o maldito ferrolho. Era estpido e injusto... abrira-o sem qualquer dificuldade
quando fora buscar a lata da sopa. Agora no se mexia. O que havia de fazer?
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No podiam met-lo na cmara frigorfica, pois morreria gelado. Mas se o deixassem c fora e ele acordasse... Jack voltou a mexer-se.
Eu encarrego-me disso  murmurou.  Eu compreendo.
Ele est a acordar, mam!  avisou Danny.
Ofegante, Wendy empurrava o ferrolho com as duas mos.

Danny...  Apesar de arrastada, a voz de Jack tinha um
leve tom de ameaa.  s tu, Danny?
Durma, pap  disse Danny com nervosismo.  So
horas de ir para a cama, j sabe.
Danny olhou para a me, que continuava a lutar com o ferrolho, e percebeu imediatamente o que estava mal. Ela esquecera-se de rodar o ferrolho antes de tir-lo.
A pequena lingueta estava presa no seu encaixe.
        Aqui  disse Danny em voz baixa, afastando as mos
trementes da me.
As suas mos estavam agora a tremer quase tanto como as dela. Soltou a lingueta com uma pancada e o ferrolho correu com facilidade.
        Depressa  disse.
Olhou para o cho. Jack abrira ligeiramente os olhos, e desta vez estava a olhar para ele, com uma expresso estranhamente vaga e pensativa.
        Tu tiraste uma cpia  disse-lhe o pap.  Eu sei que o
fizeste. Mas est por aqui algures. E hei-de encontr-lo. Pro
meto-te. Hei-de encontr-lo...
A voz embargou-se-lhe outra vez.
Wendy abriu a porta da despensa com o joelho, mal se apercebendo do cheiro penetrante a fruta seca que saa l de dentro. Pegou nos ps de Jack e arrastou-o l
para dentro. Estava quase sem flego, no limite das suas foras. Ao puxar a corrente para acender a luz, os olhos de Jack abriram-se ligeiramente.
        O que ests a fazer, Wendy? O que ests a fazer?
Wendy passou por cima dele.
Jack foi rpido, surpreendentemente rpido. Estendeu a mo e Wendy teve de afastar-se para o lado, correndo o risco de cair, para se afastar dele. Mesmo assim, conseguiu
agarrar-se ao roupo dela, que fez um rudo desagradvel ao rasgar-se. Jack estava agora de joelhos e com as mos no cho, e o cabelo cado para os olhos, como se
fosse um animal. Um co grande... ou um leo.
        Raios vos partam. Eu sei o que vocs querem. Mas no
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vo conseguir. Este hotel...  meu.  a mim que eles querem. A mim! A mim!
        A porta, Danny!  gritou Wendy.  Fecha a porta!
Danny empurrou a pesada porta de madeira com estrondo,
no preciso momento em que Jack dava um salto. A porta fechou-se e Jack atirou-se a ela sem qualquer resultado.
As pequenas mos de Danny tactearam o ferrolho. Wendy estava demasiado afastada para ajudar; dentro de dois segundos decidir-se-ia se Jack ficaria fechado ou conseguiria
libertar-se. Danny falhou, tentou de novo e fechou o ferrolho precisamente no momento em que a lingueta comeou a andar para baixo e para cima. Depois fixou-se.
Seguiram-se vrios estrondos. Era Jack a atirar-se  porta, com os ombros. O ferrolho, que tinha seis milmetros de dimetro, no dava sinais de querer soltar--se.
Lentamente, Wendy recuperou o flego.
        Deixem-me sair daqui!  rugia Jack.  Tirem-me da
qui! Danny, abre, que o teu pai quer sair! Faz o que eu te digo!
Com um gesto maquinal, Danny estendeu a mo para a porta. Wendy pegou-lhe na mo e apertou-a contra o peito.
        Olha o teu pai, Danny! Faz o que te digo! Abre a porta ou
dou-te uma tareia que nunca mais esqueces. Abre a porta ou
estoiro-te os miolos!
Danny olhou para a me, branco como os vidros das janelas. Ouviram a sua respirao ofegante pela nesga da slida porta de carvalho.
        Wendy, deixa-me sair! Deixa-me sair j! Desgraada, fi
lha da me! Deixa-me sair! Estou a falar a srio! Deixa-me sair
daqui e eu deixo-te ir embora! Se no o fizeres, desfao-te!
Estou a falar a srio! Ficas de tal maneira que a tua me no te
reconhecer se passar por ti na rua! Abre j a porta!
Danny soltou um gemido. Wendy olhou para ele e viu que estava prestes a desmaiar.
        V l, p  disse, surpreendida com o tom calmo da sua
prpria voz.  Lembra-te de que no  o pap que est a falar.
 o hotel.
        Vem c e tira-me daqui, J!  gritou Jack.
Ouviram Jack a raspar na porta com as unhas.
         o hotel!  disse Danny.   o hotel. Eu lembro-me.
Mas ao olhar para trs, por cima do ombro, tinha uma ex
presso tensa e aterrada.
389
47
DANNY
Eram trs horas da tarde de um longo, longo dia.
Estavam ambos sentados na cama grande do quarto. Danny forava-se a brincar com o VW roxo, de cujo tejadilho saa o monstro, fazendo-o girar nas mos.
Tinham ouvido o pai a bater na porta, atravs do trio, e a sua voz rouca e petulante a vomitar promessas de castigos, pragas, a prometer-lhes que haviam de viver
para lamentar terem-no trado, depois de ele se matar a trabalhar para eles depois de todos aqueles anos.
Danny pensou que no o ouviriam l em cima, mas os seus gritos de fria subiam pelo fosso do monta-cargas. A mam estava plida e tinha umas horrveis ndas negras
no pescoo, no stio em que o pap tentara...
Fazia girar o automvel nas mos, o prmio do pap por ter aprendido a ler.
(... em que o pap tentara abra-la com fora.)
A mam ps alguns discos a tocar no seu gira-discos, cheio de riscos e de rudos. Sorriu para ele com um ar cansado. Danny tentou retribuir o sorriso mas no conseguiu.
At com o volume alto ouvia o pap a gritar com eles e a dar murros na porta da despensa como se fosse um animal enjaulado. E se o pap tivesse de ir  casa de banho?
Como faria ento?
Danny comeou a chorar.
Wendy baixou a msica imediatamente, pegou-lhe ao colo e comeou a embal-lo.
        Danny, meu querido, tudo vai correr bem. Vais ver. Se o
senhor Hallorann no tiver recebido a tua mensagem, mais al
gum a ter recebido. Assim que a tempestade acabar. De
qualquer maneira, ningum poderia vir aqui. Quer fosse o se
nhor Hallorann ou outra pessoa qualquer. Mas quando a tem
pestade acabar, tudo ir correr bem. Sairemos daqui. E sabes o
que iremos fazer na Primavera? Ns os trs?
Danny abanou a cabea, encostado ao seu peito. No sabia. Parecia-lhe que nunca mais chegaria a Primavera.
        Iremos pescar. Alugaremos um barco e iremos pescar,
como fizemos o ano passado no lago Chatterton. Tu, eu e o
390
pap. E talvez apanhes uma perca para o nosso jantar. Ou talvez no apanhemos nada, mas tenho a certeza de que havemos de divertir-nos.
Gosto muito de si, mam  disse Danny, abraando-a.
Oh, Danny, eu tambm gosto muito de ti.
L fora, o vento uivava.
Por volta das quatro e meia, precisamente quando o dia comeava a declinar, os gritos cessaram.
Ambos tinham adormecido, inquietos. Wendy, agarrada a Danny, no acordou. Mas Danny acordou. De certo modo, o silncio era pior, ainda mais terrvel do que os gritos
e as pancadas na resistente porta da despensa. Estaria o pap a dormir outra vez? Ou estaria morto? Ou teria sado?
Um quarto de hora depois, o silncio foi quebrado por um rudo metlico de qualquer coisa a chocalhar. Ouviu-se um barulho forte. Wendy acordou com um grito.
O elevador estava outra vez a andar.
Ficaram a escut-lo, de olhos muito abertos, agarrados um ao outro. Passava de andar para andar e ouvia-se a porta de lato a abrir e a fechar. Ouviam-se risos,
gritos de embriaguez, berros ocasionais e o rudo de objectos a partirem-se.
A sua volta, o Overlook regressava  vida.        to
48
JACK
li
Jack estava sentado no cho da despensa, de pernas estendidas, uma caixa de bolachas no meio delas, a olhar para a porta. Comia as bolachas uma a uma, sem as saborear,
apenas porque tinha de comer qualquer coisa. Quando sasse dali iria precisar de fora. Muita fora.
Neste preciso instante, pensava que nunca se sentira to infeliz em toda a sua vida. Corpo e esprito, em conjunto, constituam um verdadeiro monumento  dor. O
latejar doentio da ressaca provocava-lhe uma dor de cabea horrvel. Os sintomas complementares tambm no faltavam: a boca sabia-lhe como se tivesse
391
engolido um monte de esterco; os ouvidos zumbiam, o corao parecia ter o dobro do peso e batia como se fosse um tambor. Alm disso, os ombros doam-lhe terrivelmente
por se ter atirado  porta e tinha a garganta dorida de tanto gritar, afinal para nada. Fizera um golpe na mo direita, com o fecho da porta.
E quando sasse dali, iria fazer estragos.
Mastigava as bolachas uma a uma, recusando-se a ceder ao estmago devastado, que queria vomitar tudo. Lembrou-se dos Exce-drins que tinha na algibeira e resolveu
esperar que o estmago se acalmasse um pouco. No valia a pena tomar um analgsico quando sabia que iria deit-lo fora. Tinha de usar a inteligncia. A clebre inteligncia
de Jack Torrance. No era ele aquele tipo que em tempos resolvera viver  sua prpria custa? Jack Torrance, o autor de recordes de vendas. Jack Torrance, o aclamado
dramaturgo e vencedor do New York Critics Circle Award. John Torrance, homem de letras, pensador reconhecido, vencedor do Prmio Pulitzer aos setenta anos pelo
seu vigoroso livro de memrias A Minha Vida no Sculo Vinte. Tudo aquilo significava que vivia  sua prpria custa.
Viver  nossa prpria custa  sabermos sempre onde esto as vespas.
Meteu outra bolacha na boca e trincou-a.
Na sua opinio, o que mais contava era a falta de confiana deles em si prprio. O facto de no acreditarem que ele sabia o que era melhor para eles e como havia
de consegui-lo. A mulher tentara usurp-lo, a princpio atravs de mtodos brandos
(mais ou menos isso)
e depois de um modo abominvel. No momento em que as suas insinuaes e violentas objeces tinham sido derrotadas pelos argumentos bem fundamentados do marido,
voltara o filho contra ele, tentara mat-lo com uma garrafa, e depois fechara-o  chave, ainda por cima nesta maldita despensa.
Ainda assim, uma  vozinha interior continuava a atorment-lo.
(Sim, mas donde veio o lcool? No  o esse o fulcro da questo? Tu sabes o que acontece quando bebes, sabe-lo atravs de experincias amargas. Quando bebes, perdes
a cabea.)
Atirou a caixa das bolachas pelo ar. A caixa bateu numa prateleira com latas de comida e caiu ao cho. Jack olhou para a caixa, limpou a boca com a mo e depois
olhou para o relgio. Eram quase seis e meia. Estava ali h horas. A mulher fechara-o ali dentro e estava ali h horas.
Comeava a compreender o seu pai.
392
Apercebia-se agora de que aquilo que nunca perguntara a si prprio era exactamente o que comeara por levar o pai a beber. E realmente... quando se transformara
naquilo a que os antigos alunos tinham o prazer de chamar uma meiga... no fora por culpa da mulher com quem casara? Uma cobardola, uma esponja, sempre a andar
pela casa com uma expresso de mrtir. Uma grilheta na perna do pai? No, no era uma grilheta. Nunca fizera qualquer tentativa objectiva para aprisionar o pai,
tal como Wendy fizera. O destino do pai de Jack fora mais parecido com o de McTeague, o dentista, no final do grande romance de Frank Nor-ris: algemado a um morto
na terra-de-ningum. Sim, era prefervel. Mentalmente e espiritualmente morta, a me vivera algemada ao pai atravs do casamento. Mesmo assim, o pap tentara fazer
o melhor possvel ao tentar arrastar o seu cadver em decomposio atravs da vida. Tentara criar os quatro filhos de modo a saberem separar o bem do mal, a entenderem
a disciplina e, acima de tudo, a respeitarem o pai.
Bem, tinham sido uns ingratos, todos eles, mesmo ele prprio. E agora estava a pagar o seu preo. O seu prprio filho tornara-se, tambm ele, um ingrato. Mas isto
no ia ficar assim. Havia de sair daqui de qualquer maneira. Havia de castigar os dois com dureza. Daria a Danny um castigo exemplar, para que, quando fosse um homem,
o filho soubesse o que havia de fazer melhor do que ele prprio.
Lembrava-se daquele jantar de domingo em que o pai dera uma tareia  me com a bengala, quando estavam  mesa... Como ele e os outros haviam ficado horrorizados.
Agora percebia que fora necessrio, que o pai se limitara a fingir que estava embriagado, que se mantivera atento,  espera do menor sinal de desrespeito.
Jack rastejou para apanhar as bolachas e comeou de novo a com-las, sentado ao p da porta que Wendy trancara de forma to traioeira. Perguntou a si mesmo o que
vira o seu pai exactamente, e como se apercebera de que ela estava a representar. Estaria ela a rir-se dele por trs? A deitar-lhe a lngua de fora? A fazer gestos
obscenos com os dedos? Ou apenas a olhar para ele com um ar insolente e arrogante, convencida de que a estupidez e a bebedeira o impediam de ver as coisas como elas
eram? Fosse o que fosse, ele percebera e castigara-a severamente. E agora, vinte anos depois, Jack tinha finalmente ocasio de apreciar a sabedoria do pai.
E claro, podiam dizer que o pai fora um idiota em casar com uma mulher assim, em ter-se deixado amarrar a um cadver... a
393
um cadver to pouco digno de respeito. Mas, quando os jovens casam  pressa, mais tarde vm a arrepender-se, e talvez o pai do pai tivesse casado com o mesmo tipo
de mulher, tal como o prprio Jack o fizera. S que a sua mulher, em vez de se sentir satisfeita com o facto de ter passivamente estragado uma carreira e amputado
outra, optara por assumir um papel activo e destruir a sua melhor e derradeira oportunidade: tornar-se um membro do quadro do pessoal do Overlook e, possivelmente,
subir... at chegar a gerente, a seu tempo. Wendy estava a tentar negar-lhe Dan-ny, e Danny era o seu bilhete de admisso. Isto era uma tolice, claro  porque haviam
de querer o filho quando podiam ter o pai? , mas os patres tm muitas vezes ideias disparatadas e essa era a sua condio.
No iria conseguir argumentar com ela, via-o agora com clareza. Tentara argumentar com ela no Salo Colorado, e ela recusara--se a ouvi-lo, dera-lhe com uma garrafa
na cabea. Mas em breve Jack teria outra oportunidade. Havia de sair dali.
De repente, susteve a respirao e ps-se  espreita. Algures, um piano tocava um boogie-woogie e as pessos riam e aplaudiam. O som era abafado pela slida porta
de madeira, mas ouvia-se. A cano era There'U be a Hot Time in the Old Tovm Tonight.
Jack cerrou os punhos com desespero; tinha de conter-se para no bater com eles na porta. A festa recomeara. Havia lcool  descrio. Algures, a danar com outro
homem, estaria a rapariga que ele sentira nua por baixo do vestido de seda branca.
Hs-de pagar por isto!  uivou.  Malditos sejam vocs
os dois! Vo-me pagar! Ho-de tomar o vosso remdio por isto,
prometo-lhes! Vocs...
Oua, oua, agora  disse uma voz melflua do lado de
fora da porta.  No vale a pena gritar, homem. Ouo-o per
feitamente bem.
Jack ps-de de p.
Grady?  voc?
Sou. Claro que sou. Parece que est fechado  chave.
Deixe-me sair, Grady, depressa.
Estou a ver que o senhor no soube tomar conta do as
sunto de que falmos. O correctivo  sua mulher e ao seu filho.
Foram eles que me fecharam aqui. Puxe o ferrolho, por
amor de Deus!
O senhor deixou que eles o fechassem  chave?  A voz
de Grady denotava uma verdadeira surpresa.  Oh, meu
394
Deus. Uma mulher com metade do seu tamanho e um mido? Parece que no tem grande queda para gerente, pois no? Jack sentiu as veias a latejar nas tmporas do lado
direito.
Deixe-me sair, Grady. Eu encarrego-me deles.
Est a falar a srio, senhor? Duvido.  A surpresa dava
lugar ao desprezo.  Lamento dizer que duvido. Eu (e os ou
tros) chegmos  concluso de que o seu corao no est com
isto, senhor. Que o senhor no tem... estmago para isto.
Tenho, sim!  gritou Jack.  Tenho, juro!
Traria o seu filho?
Sim! Sim!
A sua mulher poria graves objeces, senhor Torrance. E
parece que ela  um pouco mais forte do que imaginvamos.
Mais dotada. O que parece  que ela lhe levou a melhor. 
Grady riu-se  socapa.  Senhor Torrance, talvez devssemos
ter lidado sempre com ela.
Trago-o, juro  disse Jack.
O seu rosto estava agora encostado  porta. Estava a suar.
Ela no por objeces. Juro que no. Ela no ser capaz
de o fazer.
Receio que tivesse de mat-la  disse Grady com frieza.
Farei o que tiver de fazer. Mas deixe-me sair daqui.
D-me a sua palavra, senhor?  insistiu Grady.
Dou-lhe a minha palavra, prometo. Fao uma jura sagra
da, o que voc quiser. Se voc...
Ouviu-se uma pancada seca quando o ferrolho foi corrido. A porta abanou e abriu-se um centmetro. Jack calou-se e susteve a respirao. Por instantes sentiu que
era a prpria morte que estava do lado de fora da porta.
A sensao dissipou-se.
Disse em surdina:
        Obrigado, Grady. Juro que no se h-de arrepender. Juro
que no.
No obteve resposta. Apercebeu-se de que todos os sons tinham deixado de se ouvir, excepto o uivo gelado do vento l fora.
Empurrou a porta da despensa. As dobradias chiaram ligeiramente.
A cozinha estava vazia. Grady fora-se embora. Tudo estava imvel e gelado sob a luz esbranquiada e cortante das lmpadas fluorescentes. O seu olhar caiu sobre
o tampo enorme onde os trs tinham tomado as refeies.      sop ?> ,r
395
Em cima do tampo havia um copo de martini, uma garrafa de gim e um prato de plstico cheio de azeitonas.
Encostado ao tampo via-se um dos maos de roque que estavam na arrecadao.
Jack ficou a olhar para o mao durante muito tempo.
Depois, uma voz mais profunda e muito mais forte do que a de Grady disse, vinda de qualquer lado... de todo o lado... de dentro dele:
Cumpra a sua promessa, senhor Torrance.
Jack encaminhou-se para o tampo e pousou a mo no cabo do mao.
Pegou nele.
Agitou-o.
O mao assobiou no ar, provocando um silvo horrvel.
Jack Torrance comeou a sorrir.
A SUBIDA DE HALLORANN
Eram duas e um quarto da tarde e, a avaliar pelas tabuletas cobertas de neve e pelo udmetro do Buick, Hallorann estava a menos de duas milhas de Estes Park quando
por fim saiu da estrada.
Nas montanhas, a neve caa mais rapidamente e com mais fria do que j presenciara (o que no tinha grande significado, porque Hallorann raras vezes vira neve na
sua vida) e o vento soprava com uma velocidade caprichosa  ora de oeste, ora na direco do norte, empurrando nuvens de neve para o seu campo de viso, avisando-o
de que se fizesse uma manobra errada poderia sair da estrada e cair de uma altura de sessenta metros. O pior de tudo era o facto de no ter qualquer experincia
de conduzir no  Inverno. Assustava-o ver a linha amarela do meio da estrada coberta de neve. Assustava-o que o pesado Buick fosse abalado pelas rajadas de vento
que sopravam dos desfiladeiros. Assustava-o ver que os sinais rodovirios estavam cobertos de neve e que tinha de adivinhar se a curva seguinte era para a esquerda
ou para a direita, naquele ecr branco que tinha  sua frente e que parecia ir atravessar. Estava assustado,
396
 verdade. Enchera-se de suores frios desde que comeara a subir as montanhas a oeste de Boulder e de Lyons, tocando nos pedais do acelerador e do travo como se
fossem jarres Ming. Nos intervalos das canes de rock and roll do rdio, o locutor no parava de aconselhar os condutores a sarem das estradas principais e a
no irem, em circunstncia alguma, para as montanhas, porque muitas das estradas estavam intransitveis e todas eram perigosas. Havia notcia de acidentes sem
importncia e de dois acidentes graves: um grupo de esquiadores num pequeno autocarro VW e uma famlia que ia para Albuquerque pelas montanhas Sangre de Cristo.
Dos dois acidentes tinham resultado quatro mortos e cinco feridos. Por isso, mantenham--se afastados dessas estradas e continuem a ouvir boa msica, aqui na KTLK,
conclua o locutor alegremente, contribuindo para a infelicidade de Hallorann ao pr a cano Seasons in the Sun. We had joy, we had fun, we had.., cantava Terry
Jacks, radiante. Hallorann desligou o rdio, furioso, sabendo que voltaria a lig-lo da a cinco minutos. Por muito mau que fosse, era prefervel a ir a conduzir
sozinho, nesta euforia de branco.
(Admite-o. Este negro tem pelo menos uma longa faixa amarela... que lhe sobe pelas costas acima!)
No tinha graa nenhuma. Teria voltado para trs ainda antes de avistar Boulder se no fosse o facto de saber que o mido estava em apuros. At uma vozinha dentro
de si  mais a voz da razo do que a da cobardia, em sua opinio  lhe aconselhava a passar a noite num motel de Estes Park e a esperar que os limpa-neves limpassem
pelos menos a faixa central. Aquela voz fazia-lhe lembrar a aterragem turbulenta do jacto em Staple-ton, aquela sensao de que o avio ia afocinhar, mandando os
passageiros para as portas do Inferno e no para a porta 39, corredor B. Mas a razo no conseguia sobrepor-se quela pul-so. Tinha de ser hoje. A tempestade estava
contra ele. Tinha de defront-la. Receava que, se no fosse capaz, tivesse de defrontar alguma coisa muito pior, em sonhos.
O vento voltava a soprar, desta vez de nordeste. Um pouco mais e ficaria de novo isolado dos contornos vagos das montanhas e mesmo das bermas da estrada. No via
nada  sua frente seno branco.
E foi ento que as luzes fortes do limpa-neves apareceram, apontando para baixo, e Dick, horrorizado, viu que o nariz do Buick apontava directamente para o meio
daquelas luzes e no para um
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lado. O limpa-neves no tivera grande preocupao em manter-se na sua faixa, e Hallorann deixara o Buick rodar  vontade.
O rudo do motor do limpa-neves sobreps-se ao uivo do vento. Seguiu-se o barulho da buzina, forte, prolongado, quase ensurdecedor.
Os testculos de Hallorann transformaram-se em dois pequenos sacos engelhados, cheios de gelo picado. As tripas pareciam ter-se tornado uma massa disforme.
A cor materializava-se agora, emergindo do fundo branco, um tom alaranjado manchado de neve. Dick viu a cabina alta e at mesmo o vulto do motorista, a gesticular,
por trs da lmina gigantesca. Viu tambm as lminas laterais, que formavam um V, cuspindo a neve para o lado esquerdo da estrada, como se fossem exaustores de fumos.
P!, berrou a buzina, indignada.
Dick carregou no acelerador como se este fosse o seio de uma amante e o Buick resvalou para a frente e depois para a direita. Naquele stio no havia berma; os limpa-neves,
cujas lminas estavam voltadas para cima, limitavam-se a empurrar a neve directamente para a vala.
(A vala, ah sim, a vala...)
As lminas laterais, que eram quatro ps mais altas do que o tejadilho do automvel, ficaram a uma distncia que no ia alm de uma ou duas polegadas. At ao momento
em que o engenho passou por ele, Hallorann convenceu-se de que o choque seria inevitvel. Uma prece, que era quase um pedido de desculpas no articulado ao mido,
atravessou-lhe o esprito como se fosse um farrapo.
Dick voltou o volante para a esquerda, mas no serviu de nada. O piso parecia agora um rinque de patinagem e o Buick flutuava na direco da berma, ao mesmo tempo
que de baixo dos guarda-lamas saa uma espuma de neve.
Dick rodou o volante para o lado contrrio, na direco em que o automvel continuava a deslizar e o Buick comeou a derrapar. Em pnico, Dick carregou no travo
a fundo e depois sentiu um solavanco forte. Na sua frente a estrada desaparecera... e ele via agora um precipcio coberto de neve, do qual no distinguia o fundo,
e alguns pinheiros de um verde--acinzentado, l muito ao longe.
(Vou morrer, santa me de Jesus, vou morrer.)
E foi ento que o carro parou, formando um ngulo de trinta graus. O guarda-lamas do lado esquerdo enfeixara-se na barrei-
398
ra de segurana e as rodas de trs estavam quase fora do solo. Quando Hallorann tentou fazer marcha atrs, as rodas limitaram-se a girar em vo. O seu corao parecia
um tambor.
Dick saiu do carro  com muito cuidado  e encaminhou--se para a traseira do automvel.
Estava ali, a olhar para as rodas traseiras, sem saber o que fazer, quando ouviu uma voz prazenteira atrs de si, a dizer:
        Ol, amigo. Voc deve ter perdido o juzo.
Dick voltou-se para trs e viu o limpa-neves quarenta metros mais abaixo, do qual a neve s deixava ver a faixa castanho-escura do exaustor e as luzes azuis que
giravam no tejadilho. O motorista estava mesmo atrs dele, com um casaco comprido de pele de ovelha, e um impermevel por cima. Trazia na cabea um bon azul e branco,
como o dos engenheiros, que Hallorann no percebeu como se mantinha ali com o vento que estava.
(Deve estar colado. De certeza que est colado.)
Ol  disse.  Pode rebocar-me para a estrada?
Oh, acho que posso  respondeu o motorista do limpa-
-neves.  Que diabo est o senhor a fazer aqui?  uma boa
maneira de dar cabo de si.
Uma urgncia.
No h nada que seja assim to urgente.
O motorista falava lentamente e com delicadeza, como se tivesse na frente uma atrasado mental.
Se tivesse ido parar um pouco mais  frente, ningum
conseguiria tir-lo dali seno no dia do Juzo Final. No  des
tes stios, pois no?
No. E no estaria aqui se no tivesse um assunto urgente
a resolver, como j disse.
Ah sim?
O motorista mudava de posio como um ar amigvel, como se mantivessem uma conversa ocasional numa escada das traseiras e no no bramido da tempestade, com o carro
de Hallorann num equilbrio precrio noventa metros acima das copas das rvores, l em baixo.
Para onde vai? Para Estes?
No, para um stio chamado Hotel Overlook  respon
deu Hallorann.  Fica um pouco acima de Sidewinder.
Mas o motorista abanava a cabea com um ar aflito.
        Acho que sei onde isso fica  disse o homem.  O se
nhor nunca chegar ao velho Overlook. As estradas entre Estes
Park e Sidewinder esto uma desgraa. Escorregamos para trs
399
por mais que tentemos subir. J percorri algumas milhas e tenho vindo sempre a deslizar. E mesmo que conseguisse chegar a Sidewinder, a estrada que vai para Buckland,
Utah, est fechada. Nem pensar.  O homem abanou a cabea.  No vai conseguir, senhor. No vai conseguir.
Tenho de tentar  respondeu Hallorann, apelando s
suas ltimas reservas de pacincia para manter uma voz nor
mal.  H um mido l em cima...
Um mido? No. O Overlook fecha no fim de Setembro.
No tem hspedes suficientes para fechar mais tarde. L em
cima h  muitas tempestades como esta.
 o filho do vigilante. Est em apuros.
Como sabe?
Hallorann perdeu a pacincia.
Por amor de Deus, vai ficar aqui a dar  lngua o resto do
dia? Eu sei! Eu sei! Eu sei! E agora ajuda-me a rebocar o carro
ou no?
Voc est irritado, no est?  observou o motorista, que
no parecia particularmente incomodado.  Claro, volte para
ali. Tenho uma corrente atrs do assento.
Hallorann sentou-se ao volante e comeou a tremer, numa reaco retardada. Tinha as mos entorpecidas. Esquecera-se de trazer as luvas.
O limpa-neves aproximou-se da traseira do Buick e Dick viu o motorista sair com uma grande corrente enrolada na mo. Dick abriu a porta e saiu a gritar:
O que posso fazer para ajudar?
Saia do caminho, mais nada  respondeu o motorista,
tambm a gritar.  Isto no demora nada.
E tinha razo. O Buick estremeceu quando a corrente se esticou, e um segundo depois o carro estava de novo na estrada, voltado mais ou menos para Estes Park. O
motorista do limpa--neves aproximou-se da janela e bateu no vidro. Hallorann abriu-o.
Obrigado  disse.  Desculpe por ter gritado consigo.
Eu tambm gritei  respondeu o homem a sorrir. 
Acho que voc est nervoso. Tome l isto.
Um par de luvas azuis, grossas, caiu no regao de Hallorann.
        Vai precisar delas quando voltar a sair da estrada, acho
eu. Est muito frio. Calce-as, a menos que queira passar o resto
da vida a limpar o nariz com uma agulha de croch. E devolva-
-mas. Foi a minha mulher que as fez e gosto delas. O meu
400
nome e a morada esto cosidos ao forro. A propsito, chamo--me Howard Cottrell. Devolva-mas quando j no precisar delas. E olhe que no quero pagar o selo.
Est bem  respondeu Hallorann.  Obrigado. Muito,
muito obrigado.
Tenha cuidado. Eu prprio o levaria se no tivesse tanto
que fazer.
No faz mal. Mais uma vez obrigado.
Hallorann comeou a fechar a janela, mas Cottrell deteve-o.
Quando chegar a Sidewinder  se conseguir l chegar 
v ao Durkin's Conoco. Fica mesmo ao p da biblioteca. No
tem que enganar. Pergunte pelo Larry Durkin. Diga-lhe que
vai da parte de Howie Cottrell e que quer alugar um limpa-
-neves. Fale-lhe em mim e mostre-lhe essas luvas, que ele faz-
-lhe um desconto.
Muito obrigado, mais uma vez  disse Hallorann.
 curioso. Voc nunca poderia saber se h algum em
apuros, l em cima, no Overlook... O telefone est avariado, 
mais que certo. Mas acredito em si. s vezes tenho pressenti
mentos.
Hallorann respondeu:
Eu tambm tenho, s vezes.
Sim. Eu sei que sim. Mas tenha cuidado.
Prometo.
Cottrell desapareceu na atmosfera difusa com um aceno final. O bon de engenheiro continuava encarrapitado na cabea. Hallorann ps o carro a trabalhar, as correntes
caram na neve e enterraram-se o suficiente para libertar o Buick. L atrs, Howard Cottrell desejou-lhe boa sorte mais uma vez, com um toque de buzina, embora
fosse desnecessrio. Hallorann sentia que ele lhe desejava boa sorte.
Dois brilhos no mesmo dia tinham de constituir um bom pressgio. Mas no confiava em pressgios, fossem bons ou maus. E o facto de ter encontrado duas pessoas com
brilho num s dia (quando em geral no encontrava mais do que quatro ou cinco durante um ano) podia no ter qualquer significado. Aquele sentimento terminal, um
sentimento
(como se as coisas estivessem todas empacotadas) que ele no conseguia definir completamente, acompanhava-o ainda. Era...
O Buick preparava-se para derrapar ao dar uma curva fechada e Hallorann desviou-o com cuidado, mal se atrevendo a res-
401
pirar. Acendeu o rdio e ouviu Aretha. Gostava de Aretha. Um dia havia de convid-la para dar um passeio no Buick.
Outra rajada de vento atingiu o carro, abanando-o e fazendo--o deslizar. Hallorann praguejou e agarrou-se mais ao volante. Aretha acabou de cantar, e l estava o
locutor outra vez a dizer que guiar num dia como aquele era uma boa maneira de morrer.
Hallorann desligou o rdio.
Dick conseguiu chegar a Sidewinder, embora levasse quatro horas e meia na estrada que ligava a cidade a Estes Park. Quando chegou  estrada de Upland era noite escura,
mas a tempestade de neve no dava sinais de abrandar. Por duas vezes fora obrigado a parar diante dos montes, que eram to altos como a capota do carro, e esperar
que chegassem os lim-pa-neves e abrissem caminho. De uma das vezes o limpa-neves aparecera na sua faixa e aproximara-se demasiado do Buick. O motorista limitara-se
a contornar o automvel, sem sair para abater as banhas, mas fizera um daqueles gestos com os dois dedos que todos os americanos acima dos dez anos reconhecem e
que no era o sinal da paz.
A medida que se aproximava do Overlook, a necessidade de se apressar parecia-lhe cada vez mais imperiosa. Deu consigo a olhar constantemente para o relgio. Os ponteiros
pareciam voar.
Dez minutos depois de ter voltado para Upland, passou por duas placas. O vento forte libertara-as da neve e Dick leu. sidewinder 10, dizia a primeira. E a segunda:
estrada cortada a
12 MILHAS DE DISTNCIA DURANTE OS MESES DE INVERNO.
Larry Durken, disse Hallorann com os seus botes. O seu rosto tenso reflectiu-se na superfcie esverdeada e brilhante dos instrumentos do tablier. Eram seis e
dez O Conoco, junto da biblioteca. Larry...
E foi ento que o cheiro a laranjas e o pensamento intenso, odioso e assassino o atingiram com fora:
SAI DAQUI NEGRO NOJENTO ISTO NO  DA TUA CONTA VOLTA PARA TRS VOLTA PARA TRS OU ENFORCO-TE NUMA RVORE ANIMAL E A SEGUIR PEGO-TE FOGO QUE  O QUE SE FAZ AOS
NEGROS POR ISSO DESAPARECE AGORA MESMO.
Hallorann deu um grito no interior do carro. A mensagem no chegou at ele atravs de palavras mas atravs de imagens
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que lhe atingiram o crebro com uma fora terrvel. Tirou as mos do volante para afast-las.
Nessa altura, o carro foi embater numa ribanceira, deu meia volta e depois parou. As rodas de trs giraram em vo.
Hallorann ps o carro em ponto morto e em seguida cobriu o rosto com as mos. No chorou propriamente, o que fez foi soltar um uivo prolongado. Estava a arfar. Sabia
que se este movimento o tivesse levado para um troo de estrada com um precipcio, poderia estar morto naquele momento. Talvez essa tivesse sido a ideia. E aquele
pensamento poderia voltar a atac-lo em qualquer altura. Tinha de se proteger. Estava rodeado por uma fora imensa que bem podia ser a memria. Estava a afogar-se
no instinto.
Destapou a cara e abriu os olhos cautelosamente. Nada. Se alguma coisa tentasse assust-lo outra vez, no o conseguiria. Dick estava protegido.
Aquilo acontecera ao mido? Meu Deus, aquilo acontecera ao mido?
E de todas as imagens, aquela que mais o preocupou foi aquele som que lembrava uma pancada forte, como se fosse um martelo a abater-se sobre um pedao de queijo
duro. Qual o seu significado?
(Jesus, o mido, no. Jesus, por favor.)
Accionou lentamente a alavanca das mudanas e carregou no acelerador. As rodas giraram, agarraram-se ao solo, tornaram a girar e agarraram-se de novo ao solo. O
Buick comeou a andar. Os faris projectaram uma luz fraca sobre a neve que rodopiava no ar. Dick olhou para o relgio. Eram quase seis e meia. E ele comeava a
sentir que era mesmo muito tarde.
50
OINISSASSA
Wendy Torrance estava de p no meio do quarto, indecisa, a olhar para o filho, que adormecera.
H meia hora que os barulhos tinham cessado. Todos eles, ao mesmo tempo. O elevador, a festa, o rudo das portas dos
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quartos a abrirem-se e a fecharem-se. Em vez de alivi-la, aquele facto contribua para aumentar a tenso que vinha sentindo. Era um silncio malfico antes do
desencadear brutal da tempestade. Mas Danny adormecera quase de repente. Primeiro, mergulhara num sono leve e inquieto, mas havia dez minutos que cara num sono
profundo. Mesmo olhando directamente para ele, mal distinguia o movimento da respirao no seu peito franzino.
Wendy no sabia h quanto tempo ele no dormia uma noite inteira descansado, uma noite sem sonhos aflitivos ou sem longos perodos de viglia na escurido, escutando
as orgias que ela s ouvira  e vira  nos ltimos dois dias, quando o Overlook apertara o cerco  volta de todos eles.
(Seriam fenmenos psquicos ou hipnose de grupo?)
Wendy no sabia e no achava que o assunto fosse importante. Fosse o que fosse, era igualmente mortfero. Olhou para Danny e pensou
(Deus permita que ele esteja calmo.)
que se ele estivesse calmo conseguiria dormir o resto da noite. Fossem quais fossem os seus dons, era ainda uma criana e precisava de descansar.
Era Jack que comeava a preocup-la.
Com um esgar de dor, tirou a mo da boca e verificou que tinha partido uma unha. E ela que tinha tanto cuidado com as unhas. No eram demasiado longas mas eram bem
feitas e
(Para que ests a preocupar-te com as unhas?) Wendy soltou uma risadinha. Era um riso nervoso, sem alegria.
Primeiro fora Jack que deixara de gritar e de dar murros na porta. Depois fora a festa que recomeara
(ou teria parado alguma vez? talvez tivessem apenas deixado de a ouvir de vez em quando)
contrapondo-se ao barulho do elevador. Depois, este parara. Fora naquela altura que Danny adormecera e que ela imaginara ouvir algum a falar em voz baixa, num tom
de conspirao, na cozinha, quase debaixo deles. A princpio no ligara, pensando tratar-se do vento, que sabia imitar muitas vozes humanas diferentes, desde um
simples murmrio em redor das portas e das janelas at um grito ao longo dos beirais... o som de uma mulher a fugir de um assassino num melodrama barato. Todavia,
sentada junto de Danny, a ideia de que se tratava de facto de vozes humanas tornara-se cada vez mais convincente.
404
Jack e outra pessoa discutiam a sua fuga da despensa.
Discutiam o assassnio da mulher e do filho.
No seria nada de novo; aquelas paredes j tinham presenciado assassnios.
Wendy aproximara-se do aquecedor e encostara o ouvido  grelha, mas naquele preciso momento a fornalha reacendera-se e o rudo do ar quente a subir desde a cave
abafara todos os sons. Quando a fornalha se apaziguara cinco minutos antes, fizera-se um silncio total, apenas cortado pelo vento, pelo bater da neve no edifcio
e pelo ranger ocasional de uma tbua.
Wendy olhou para a unha aleijada. Pequenas gotas de sangue caam-lhe do dedo.
(Jack saiu.)
(No digas disparates.)
(Sim, ele saiu. Tirou uma faca da cozinha, ou talvez o trinchante. E agora vem a subir pela beira dos degraus, para o soalho no ranger.)
Ests louca!)
A boca tremia-lhe e, por instantes, pareceu-lhe que tinha falado em voz alta. Mas o silncio continuava.
Sentiu-se vigiada.
Voltou-se e olhou para a janela, onde, da escurido da noite, emergia um rosto plido, horrvel, cujos olhos eram orifcios negros que a fitavam, o rosto de um louco
que estivera escondido atrs destas paredes...
Era apenas uma mancha de orvalho do lado de fora do vidro.
Cheia de medo, respirou fundo, sem fazer barulho, e pareceu-lhe ouvir, desta vez com bastante clareza, risos  socapa vindos de qualquer lado.
(At as sombras te fazem saltar. Mesmo sem isto j era bastante mau. Amanh de manh, estars pronta.)
S havia uma maneira de afastar aqueles receios, e ela sabia qual era.
Tinha de ir l abaixo e certificar-se de que Jack ainda estava na despensa.
Era muito simples. Bastava descer. E espreitar. Voltar para cima. Oh, a propsito, parar e agarrar no tabuleiro que estava em cima do balco da recepo. A omeleta
j no se podia comer, mas a sopa poderia voltar a aquecer-se na placa elctrica que estava junto da mquina de escrever de Jack.
(Oh, sim e tem cuidado, no v ele estar l em baixo com uma faca.)
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Wendy dirigiu-se ao toucador, tentando afastar o medo que sentia. Em cima do toucador havia moedas espalhadas, senhas de gasolina para o camio do hotel, os dois
cachimbos que Jack trouxera consigo mas que era raro utilizar... e o molho das chaves...
Wendy pegou nele, manteve-o na mo por instantes e depois pousou-o de novo. A ideia de trancar a porta do quarto j lhe ocorrera, mas no lhe agradara. Danny estava
a dormir. Wendy lembrou-se vagamente de um incndio e de coisas ainda mais graves, mas afastou esses pensamentos.
Atravessou o quarto, parou  porta, indecisa, depois tirou a faca da algibeira do roupo e agarrou o cabo de madeira com fora.
Abriu a porta.
O pequeno corredor que conduzia aos seus aposentos estava vazio. Os candelabros brilhavam, dispostos em intervalos regulares, e faziam sobressair as linhas entrelaadas
e sinuosas da carpete azul.
(Ests aqui? Aqui no h fantasmas.)
(No, claro que no. Eles querem que tu saias. Querem que faas qualquer patetice de mulher, que  precisamente o que tu ests a fazer.)
Wendy hesitou de novo, terrivelmente indecisa, sem querer abandonar Danny e a segurana do apartamento e, ao mesmo tempo, sentindo uma necessidade absoluta de se
certificar de que Jack estava ainda... fechado.
(Claro que est.)
Mas as vozes.)
(No houve vozes nenhumas. Foi a tua imaginao a trabalhar. Era o vento.)
 No foi o vento.
O som da sua prpria voz f-la dar um salto. Mas a certeza que ela encerrava levou-a a continuar. A faca captava feixes de luz e projectava-os no papel de seda da
parede. As pantufas ouviam-se ao de leve na carpete. Wendy tinha os nervos em franja.
Chegou  esquina do corredor principal e espreitou para todos os lados, suspensa do que poderia encontrar.
No havia nada para ver.
Depois de um momento de hesitao, voltou a esquina e comeou a descer o corredor principal.  medida que avanava para a escada, mergulhada na sombra, o seu terror
aumentava,
406
tal como a conscincia de que deixava para trs o filho adormecido, s e desprotegido. O som das pantufas na carpete parecia--lhe cada vez mais forte; por duas
vezes olhou para trs, por cima do ombro, para se certificar de que ningum a perseguia.
Chegou  escada e pousou a mo no pilar frio do corrimo. Havia dezanove degraus largos at ao trio. J os contara vrias vezes. Dezanove degraus alcatifados, e
Jack de ccoras num deles. Claro que no estava. Jack estava fechado na despensa, do outro lado de uma grossa porta de madeira com um grande ferrolho de ao.
Mas o trio estava s escuras e to cheio de sombras.
Sentia o corao a pulsar com fora na garganta.
A frente, um pouco para a esquerda, a bocarra de ao do elevador continuava aberta, com um ar trocista, convidando-a a entrar e a fazer a viagem da sua vida.
(No, obrigada.)
O interior da cabina estava enfeitado com serpentinhas cor--de-rosa e brancas. Havia confetis espalhados pelo cho. Atrs, ao canto, do lado esquerdo, via-se uma
garrafa de champanhe vazia.
Wendy sentiu qualquer coisa mexer por cima dela e percorreu com o olhar os dezanove degraus que iam dar ao patamar do segundo andar, mas no viu nada; todavia,
tinha a sensao inquietante de que os objectos
(objectos)
tinham saltado da escurido do corredor para junto dela, para que pudesse v-los.
Olhou de novo para a escada.
Com a mo direita coberta de suor segurava o cabo da faca; passou-a para a mo esquerda, limpou a palma da outra mo ao turco do roupo e voltou a pegar na faca
com a mo direita. Quase inconsciente de que o seu esprito lhe ordenara que avanasse, comeou a descer as escadas, mal pousando a mo no corrimo.
(Onde  a festa? No me obriguem a assustar-vos, monte de lenis bafientos. Ningum assusta uma mulher com uma faca na mo! Vamos ouvir msica! Vamos descontrair-nos
um pouco!)
Dez degraus, doze.
A luz que vinha do corredor do primeiro andar tinha uma tonalidade amarelada e montona. Wendy lembrou-se que teria de apagar as luzes do trio  entrada da sala
de jantar ou no gabinete do gerente.
407
Contudo, vinha luz de outro lado qualquer.
As lmpadas fluorescentes, evidentemente. Na cozinha.
Parou no dcimo terceiro degrau e tentou lembrar-se se as apagara ou se as deixara acesas quando subira com Danny. No conseguiu recordar-se.
L em baixo, no trio, as cadeiras estavam mergulhadas na sombra. As portas de vidro estavam cobertas por um manto uniforme de neve. As tachas de lato do sof soltavam
um brilho tnue, como se fossem olhos de gatos. Havia muitos stios em que uma pessoa se poderia esconder.
Aterrada, com as pernas a tremer, continuou a descer.
Dezassete, dezoito, dezanove.
(No andar do trio, minha senhora. Tenha cuidado.)
As portas do salo de baile estavam abertas de par em par e espalhavam escurido. L de dentro veio o som de um tiqueta-que forte, como se fosse uma bomba. Wendy
ficou hirta e depois lembrou-se do relgio que havia em cima da chamin de sala, o relgio da redoma de vidro. Jack ou Danny deviam ter--lhe dado corda... ou talvez
o relgio tivesse dado corda a si mesmo, como tudo o resto que existia no Overlook.
Ento, o relgio comeou a dar horas, em badaladas fracas.
Wendy endireitou-se, com a lngua colada ao cu da boca. Depois descontraiu-se. O relgio estava apenas a bater as oito horas. Oito horas.
... cinco, seis, sete...
Wendy contava as badaladas. De repente pareceu-lhe que seria prefervel no se mexer at o relgio acabar.
... oito, nove...
(Nove???)
... dez... onze...
De repente percebeu, mas j era tarde. Voltou-se lentamente para as escadas, consciente de que era tarde de mais. Mas como poderia ter adivinhado?
Doze.
Todas as luzes do salo de baile se acenderam. Ouviu-se um prolongado som metlico. Wendy soltou uma exclamao insignificante quando comparada com o som que vinha
daquelas entranhas de metal.
Tirem as mscaras! Tirem as mscaras! Tirem as mscaras, gritou o eco.
Depois os sons dissiparam-se, como se se tivessem escoado no grande corredor do tempo, deixando-a outra vez s.
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No, no estava s.
Era Jack. No era Jack. O seu olhar vago tinha um brilho assassino, a boca abria-se agora num sorriso trmulo, sem alegria.
Numa das mos tinha o mao de roque.
        Estavas convencida de que me tinhas fechado  chave?
Era isso que pensavas?
O mao assobiou no ar. Wendy recuou, tropeou num tapete e caiu na alcatifa.
Jack...
Filha da me  disse Jack em surdina.  Sei muito bem
quem tu s.
O mao abateu-se com um silvo, a uma velocidade mortfera, atingindo Wendy no estmago. Wendy deu um grito, de sbito mergulhada num mar de dor. Mal viu o mao abater-se
de novo. Depois apercebeu-se vagamente de que ele iria espanc--la at  morte com o mao.
Tentou gritar-lhe, suplicar-lhe que parasse, em nome de Danny. Mas ficara sem flego. O que lhe saiu foi apenas um murmrio, algo que nem se parecia com um som.
        Agora, agora  disse Jack a rir, dando um pontap no
tapete.  Acho que  agora que vais tomar o remdio.
O mao caiu de novo. Wendy rolou para a esquerda, com o roupo entalado nos joelhos. O mao caiu ao cho. Jack teve de inclinar-se para apanh-lo. Nesse lapso de
tempo, Wendy correu para as escadas, a arfar. Tinha o estmago a latejar de dor.
        Filha da me  disse Jack, a rir, preparando-se para ir
atrs dela.  Filha da me, vais ver o que te acontece.
O mao assobiou no ar e caiu sobre ela, atingindo-a mesmo debaixo do seio, partindo-lhe duas costelas e deixando-a numa agonia. Wendy caiu para a frente, nos degraus,
e teve um novo acesso de dores. O instinto f-la rolar o corpo. O mao passou--lhe rente  cara e por pouco no a atingiu. Foi espetar-se na alcatifa da escada,
com um rudo abafado. Foi ento que viu a faca, que lhe cara da mo na altura da queda. L estava, a brilhar, no quarto degrau.
        Puta!
O mao voltou a cair. Wendy arrastou-se para cima e foi atingida por baixo do joelho. De repente ficou com a parte de baixo da perna a arder. L vinha o mao outra
vez. Afastou a cabea para se furtar ao golpe e o mao foi cair no degrau,
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precisamente entre o seu pescoo e o ombro, arrancando-lhe um pedao de carne da orelha.
Jack fez meno de atingi-la de novo, e desta vez Wendy rolou na sua direco, pelas escadas abaixo, na sua esfera de alcance. A dor nas costelas partidas f-la
soltar um grito. Agarrou-o pelas canelas no momento em que ele procurava equilibrar-se. Jack caiu para trs, soltando um grito de raiva e de surpresa, e esforando-se
por manter os ps no cho. Depois, estatelou-se e o mao fugiu-lhe das mos. Por instantes, ficou sentado a olhar para ela, com um ar obtuso.
        Vou matar-te por causa disto  disse.
Rolou o corpo e tentou agarrar o mao. Wendy fez um esforo para se levantar. A perna doa-lhe at  anca. Estava lvida mas controlada. Saltou-lhe para as costas,
no momento em que Jack alcanava o mao de roque.
        Oh, meu Deus!  gritou para o trio do Overlook mer
gulhado na escurido, enterrando-lhe a faca ao fundo das cos
tas, at ao cabo.
Jack ficou hirto e depois deu um grito. Wendy nunca ouvira um som to horrvel em toda a sua vida; era como se as tbuas, as janelas e as portas do hotel tivessem
gritado em unssono. Parecia-lhe que aquele som nunca mais acabava, enquanto Jack continuava hirto, debaixo dela. Lembravam uma confuso de cavalo e cavaleiro. A
nica diferena  que a camisa de quadrados vermelhos e negros de Jack estava a ficar mais escura, ensopada em sangue.
Ento Jack caiu para a frente, afastando-se dela. Wendy soltou um gemido de dor.
Por instantes ficou ali, a arfar, sem conseguir mexer-se. Cada vez que respirava, era como se tivesse um punhal cravado no corpo. O sangue da orelha caa-lhe no
pescoo.
Ouvia-se apenas a sua respirao alterada, o vento e o tique-taque do relgio no salo de baile.
Por fim, fez um esforo para se levantar e encaminhou-se para as escadas, a coxear. Agarrou-se ao pilar do corrimo, de cabea baixa, cheia de dores. Quando a dor
abrandou um pouco, comeou a subir, utilizando a perna s e agarrando-se ao corrimo. Olhou para cima,  espera de ver Danny, mas a escada estava vazia.
(Graas a Deus ele continua a dormir, graas a Deus, graas a Deus.)
Depois de subir seis degraus teve de descansar, com a cabea
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baixa e os cabelos louros enrolados no corrimo. O ar assobiava-lhe na garganta, dolorosamente, como se esta tivesse farpas. O lado direito do seu corpo era uma
massa quente e inchada.
(Anda Wendy, anda rapariga, fecha-te atrs de uma porta e depois vers que os estragos no so assim to grandes. E quando chegares ao corredor l de cima poders
ir de gatas. Dou-te licena para isso.)
Wendy respirou fundo, com a fora que as costelas partidas lhe permitiam, e, a custo, subiu mais um degrau. E mais outro.
Estava no nono degrau, quase a meio caminho, quando ouviu a voz de Jack atrs de si.
        Cabra. Mataste-me  disse ele com voz grossa.
Um terror mais negro do que a noite apoderou-se dela. Olhou por cima do ombro e viu Jack a levantar-se lentamente.
Estava curvado e via-se-lhe o cabo da faca da cozinha espetada nas costas. Os seus olhos pareciam ter-se contrado, terem-se perdido nas rugas da pele lvida e
flcida. Na mo esquerda segurava o mao de roque, cuja extremidade estava ensanguentada. Do meio pendia um pedao de roupo cor-de--rosa de Wendy.
        Vou dar-te o remdio  disse ele em surdina, comeando
a avanar para as escadas, a cambalear.
A tremer de medo, Wendy recomeou a subir, com esforo.
Dez degraus, doze. Mas, mesmo assim, o corredor do primeiro
andar parecia distante como o cume de uma montanha inating
vel. Estava a arfar, o seu corpo protestava. Os cabelos dana
vam-lhe na fronte. O suor fazia-lhe arder os olhos. O tiqueta-
que do relgio do salo de baile parecia encher-lhe os ouvidos,
alternando com a respirao agonizante de Jack, que comeou
a subir as escadas.        ,..,,.
51
A CHEADA DE HALLORANN
Larry Durkin era um homem alto e muito magro, com um rosto taciturno encimado por uma madeixa exuberante de cabelo ruivo. Hallorann apanhara-o precisamente no momento
em que ele ia a sair da estao de servio Conoco, de rosto
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enfiado num camuflado do exrcito. No estava disposto a trabalhar mais naquele dia de tempestade, viesse Hallorann donde viesse, a ainda se mostrava mais relutante
em alugar um dos seus dois limpa-neves quele homem de olhar selvagem que insistia em subir at ao velho Overlook. Para as pessoas que viviam em Sidewinder h muito
tempo, o hotel tinha uma reputao duvidosa. Naquele stio tinham-se cometido crimes. Em tempos fora frequentado por criminosos e indivduos que se entregavam a
negcios escuros. E tinham-se passado coisas no Overlook que nunca tinham vindo nos jornais, porque o dinheiro faz calar muita coisa. Mas as pessoas de Sidewinder
sabiam muito bem o que l se passara. A maior parte das criadas do hotel eram de l, e as criadas vem muita coisa.
Mas quando Hallorann mencionou o nome de Howard Cot-trell e mostrou a Durkin a etiqueta no interior de uma das luvas azuis, o dono da bomba de gasolina desanuviou-se.
        Foi ele que o mandou?  perguntou, abrindo uma das
portas da garagem e convidando Hallorann a entrar.  Agra
da-me saber que esse velho patife ainda tem um resto de bom
senso. Pensei que j o tinha perdido.
Ligou um interruptor, e um conjunto de lmpadas fluorescentes muito velhas e sujas acendeu-se.
        E que diabo quer voc de um stio como aquele, homem?
Os nervos de Hallorann tinham comeado a ceder. As ltimas milhas antes de chegar a Sidewinder tinham sido muito difceis. Uma rajada de vento a mais de cem quilmetros
por hora arrastara o Buick e fizera-o dar uma volta de trezentos e sessenta graus. E Hallorann ainda tinha muito que andar, para ir encontrar sabia Deus o qu. Estava
aterrado por causa do mido. Agora faltavam quase dez minutos para as sete e ainda tinha de aturar isto.
L em cima h uma pessoa em apuros. O filho do vi
gilante  disse num tom cauteloso.
Quem? O filho de Torrance? Apuros de que espcie?
No sei  respondeu Hallorann entre dentes.
O tempo que isto estava a demorar punha-o doente. Estava a falar com um homem da provncia e sabia que todas as pessoas da provncia tm a mesma necessidade de abordar
os seus negcios de uma forma sinuosa, de farejar os assuntos antes de se meterem neles. Mas no havia tempo para isso, porque ele prprio estava assustado, e
se isto durasse muito mais tempo teria de tomar a deciso de se ir embora de qualquer maneira.
412
Oua  disse.  Por favor. Preciso de ir l acima e para
isso tenho de arranjar um limpa-neves. Pago-lhe o que quiser,
mas pelo amor de Deus deixe-me fazer o que tenho de fazer!
Est bem  respondeu Durkin com um ar imperturb
vel.  Se Howard o mandou, isso chega. Leve este ArcticCat.
Vou meter-lhe vinte e cinco litros de gasolina. D-lhe para ir e
para voltar, acho eu.
Obrigado  disse Hallorann sem grande convico.
Levo-lhe vinte dlares. Incluindo o etilo.
Hallorann procurou na carteira uma nota de vinte dlares e estendeu-a a Durkin, que a meteu num dos bolsos da camisa quase sem olhar para ela.
Tambm acho que  melhor tratarmos dos agasalhos 
disse Durkin, tirando o camuflado.  Esse sobretudo no vai
servir-lhe de muito numa noite como esta. Voc devolve-me
isto quando vier entregar o limpa-neves.
Olhe que no...
No discuta comigo  interrompeu-o Durkin, com bran
dura.  No quero que voc fique enregelado. Eu s tenho de
andar dois quarteires e tenho o jantar  minha espera.
Um pouco atordoado, Hallorann trocou o sobretudo pelo camuflado forrado de pele. No tecto, as lmpadas fluorescentes zumbiam, fazendo-lhe lembrar as luzes da cozinha
do Overlook.
O filho de Torrance  disse Durkin, abanando a cabea.
 Parece um mido porreiro, no acha? Ele vinha aqui muito
com o pai, antes de a neve comear a cair. No camio do hotel,
a maior parte das vezes. Pareceu-me que eram os dois muito
pegados um ao outro. V-se que  um mido que adora o pai.
Espero que ele esteja bem.
Tambm eu.
Halloran correu o fecho do camuflado e atou o capuz.
        Deixe-me ajud-lo a tirar isto daqui  disse Durkin.
Conduziram o limpa-neves atravs do cho de cimento cheio
de manchas de leo at  porta da garagem.
J alguma vez conduziu uma coisa destas?
No.
Bem, no tem nada que saber. As instrues esto aqui
coladas no tablier, mas o que h a fazer  parar e andar. O pedal
do acelerador  aqui, tal como num automvel. O travo  do
outro lado. Incline-o nas curvas. Este bicho pode chegar at aos
cento e dez, mas com esta neve no conseguir lev-lo a mais de
oitenta.
413
Estavam agora na estao de servio, cuja frente estava coberta de neve, e Durkin levantava a voz para se fazer ouvir com o barulho do vento.
        No saia da estrada!  gritou ao ouvido de Hallorann. 
Mantenha-se atento s barreiras de proteco e aos sinais, e no
ter problemas, acho eu. Se sair da estrada, morrer. Percebe?
Hallorann fez um sinal afirmativo.
        Espere a  disse Durkin, correndo para o interior da
garagem.
Nessa altura, Hallorann rodou a chave da ignio e carregou ao de leve no pedal do acelerador. O limpa-neves tossicou e comeou a trabalhar.
Durkin voltou com uma mscara de esquiar vermelha e preta.
        Ponha isto debaixo do capuz!  gritou.
Hallorann tirou-lha das mos. Ficava-lhe apertada, mas protegia-lhe a face, a testa e o queixo do vento entorpecedor. Durkin inclinou-se para ele para se fazer
ouvir.
Voc faz-me lembrar o Howie em certas coisas  disse.
 Isso no interessa, a no ser pelo facto de aquele stio ter m
fama. Se quiser, dou-lhe uma arma.
No creio que servisse de alguma coisa  gritou Hallo
rann.
Voc  que manda. Mas se encontrar o mido traga-o a
Peach Lane, nmero dezasseis, que a mulher arranja-lhe uma
sopa.
Est bem. Obrigado por tudo.
        Tenha cuidado! No saia da estrada!  gritou Durkin.
Hallorann acenou-lhe e accionou lentamente o pedal do
acelerador. O limpa-neves avanou e o farol projectou um cone de luz que atravessou a neve espessa. Atravs do retrovisor, Hallorann viu Durkin a dizer-lhe adeus
e correspondeu ao aceno. Depois virou o volante para a esquerda e comeou a subir a rua principal. O limpa-neves deslizava serenamente atravs da luz esbranquiada
fornecida pelos candeeiros da rua. O velocmetro marcava cinquenta quilmetros por hora. Eram sete e dez. No Overlook, Wendy e Danny estavam a dormir e Jack Torrance
estava a discutir questes de vida e de morte com o vigilante anterior.
Ao fim de cinco quarteires, os candeeiros da rua acabaram. Seguia-se uma fila de pequenas casas, todas elas protegidas da tempestade, e depois a escurido e o vento
ululante, apenas. De novo no escuro, apenas com a luz fraca do farol do limpa-
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-neves, o terror abateu-se de novo sobre Hallorann, um terror infantil, sombrio e desencorajador. Nunca se sentira to s. Durante alguns minutos, quando as poucas
luzes de Sidewin-der se tornaram difusas e desapareceram no retrovisor, o desejo de dar meia volta e regressar tornou-se quase inultrapassvel. Ocorreu-lhe que,
apesar da preocupao que Durkin mostrara pelo filho de Jack Torrance, ele no se oferecera para pegar no outro limpa-neves e acompanh-lo.
(Aquele stio tem m fama por estes stios.)
Cerrando os dentes, carregou no pedal do acelerador e viu o ponteiro do velocmetro passar os sessenta e parar nos setenta. Tinha a sensao de ir a uma velocidade
incrvel e, todavia, receava no ir suficientemente depressa. A esta velocidade, levaria quase uma hora a chegar ao Overlook. Mas se fosse mais depressa, talvez
nem l chegasse.
No tirava os olhos das barreiras de proteco nem dos minsculos reflectores montados no cimo de cada uma. Muitos deles estavam cobertos de neve. Por duas vezes
avistou demasiado tarde sinais indicadores de curvas perigosas e sentiu o limpa-neves galgar os montes de neve que ocultavam as bermas, antes de voltar para a estrada
tal como ela era na poca de Vero. O udmetro registava as milhas percorridas com uma lentido de enlouquecer  cinco, dez, quinze, finalmente. Mas por baixo da
mscara de esquiar, o rosto de Hallorann comeava a enregelar e as pernas estavam cada vez mais entorpecidas.
(Aposto que era capaz de dar cem dlares por umas calas de esquiar.)
A medida que ia avanando, o seu terror aumentava  como se aquele local estivesse mergulhado numa atmosfera venenosa que se adensava  medida que se aproximava
dela. Sempre fora assim? Verdadeiramente nunca gostara do Overlook, e havia outras pessoas que partilhavam deste sentimento. Mas nunca fora assim.
Sentia a voz que quase o demovera de prosseguir a viagem a tentar entrar nele, a galgar as suas defesas para se lhe enterrar na carne. Se isto se tivesse passado
vinte e cinco milhas atrs, ter-se-ia mostrado igualmente forte? No podia garantir. As suas foras estavam a diminuir e tinha a cabea cheia de vises sinistras
e subliminares. Cada vez se tornava mais ntida a imagem de uma mulher gravemente ferida, numa casa de banho, de braos no ar, tentando defender-se de uma agresso,
e tinha a sensao de que essa mulher devia ser...
415
(Jesus, tem cuidado!)
O aterro ergueu-se  sua frente como se fosse um comboio de mercadorias. Distrado como ia, Hallorann no repararanoum sinal que indicava uma curva. Guinou o volante
do limpa-neves todo para a direita, e o veculo danou e inclinou-se. De baixo veio o rudo forte da neve a raspar na rocha. Hallorann convenceu-se de que ia ser
cuspido, pois o limpa-neves vacilou, nos limites do equilbrio, at deslizar de novo para a superfcie mais ou menos plana da estrada coberta de neve. Seguiu-se
o declive. Atravs da luz do farol, Hallorann deixou de ver a estrada para ver apenas escurido. Voltou o limpa-neves para o outro lado, sentindo um n na garganta.
(No saias da estrada, Dick, meu velho.)
Contra a sua vontade, carregou no pedal do acelerador. O ponteiro do velocnetro marcava agora quase oitenta quilmetros por hora. O vento rugia. O farol esquadrinhava
a escurido.
Passado algum tempo  no sabia dizer quanto , ao dar uma curva, avistou uma luz  sua frente. Apenas um lampejo, logo ofuscado por uma faixa de terreno a subir.
O lampejo foi to fugaz que Dick convenceu-se de que fora a sua imaginao a trabalhar, tal era o seu desejo de chegar. Mas, ao descrever outra curva, avistou de
novo a luz, um pouco mais prxima, durante alguns segundos. Desta vez no havia dvidas; j muitas vezes a avistara deste ngulo. Era o Overlook. Havia luzes no
primeiro andar e no trio, pelo menos assim parecia.
Uma parte do seu terror  aquela que estava relacionada com o medo de sair da estrada e de que o limpa-neves se despenhasse numa curva inesperada  dissipou-se
inteiramente. O limpa-neves descreveu com segurana a primeira metade de uma curva em S, de que Hallorann se recordava em pormenor, e foi ento que o farol iluminou
o...
(Oh, meu Deus, o que  aquilo!)
na estrada,  sua frente. Em tons de branco e negro, a princpio Hallorann julgou tratar-se de algum lobo enorme que tivesse descido das alturas, acossado pelo mau
tempo. Depois, ao aproximar-se mais, reconheceu-o e o terror obstruiu-lhe a garganta.
No era um lobo, mas sim um leo. Um leo da sebe.
O focinho era uma mscara de sombras negras e de salpicos de neve e os quadris preparavam o salto. E saltou, espalhando a neve  volta das patas traseiras, numa
exploso silenciosa de cristais.
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Hallorann deu um grito e guinou o volante para a direita, afocinhando ao mesmo tempo. Sentiu uma dor percorrer-lhe o rosto, o pescoo e os ombros. A mscara de esquiar
rasgou-se. Dick foi cuspido do veculo. Caiu na neve, enterrou-se nela e comeou a rolar.
Sentia-o a aproximar-se. Sentia um cheiro acre a folhas verdes e a azevinho. Uma pata enorme atingiu-o nas costas, fazendo-o voar dez metros. Veio estatelar-se
no cho, como se fosse um boneco de trapos, e viu o limpa-neves, desgovernado, chocar com o aterro e tentar galg-lo, com o farol apontado para o cu. Em seguida
caiu com estrondo e imobilizou-se.
Ento o leo da sebe avanou para ele. Era um restolhar, um rudo de qualquer coisa a partir-se. Qualquer coisa que lhe apareceu na frente e lhe rasgou o camuflado.
Podiam ser galhos secos, mas Hallorann sabia que eram garras.
        No ests aqui! No ests aqui!  gritou Hallorann ao
leo da sebe, que tentava encurral-lo, a rosnar.
Conseguiu pr-se de p e aproximar-se um pouco do limpa--neves, antes de o leo se atirar a ele, atingindo-o na cabea com uma pata de unhas afiadas. Hallorann viu
luzes explodindo em silncio.
        Aqui no!  disse outra vez.
Mas o som da sua voz perdeu-se num murmrio. Os joelhos cederam e Dick caiu na neve. Rastejou na direco do limpa--neves, com a face direita coberta de sangue.
O leo atacou-o de novo, deixando-o deitado de costas, como se fosse uma tartaruga. Rugia, divertido.
Hallorann debateu-se, no intuito de chegar ao limpa-neves. E l estava outra vez o leo em cima dele, a esfacel-lo.
:.::?: 52
WENDY E JACK
Wendy arriscou olhar de novo para trs. Jack ia no sexto degrau, agarrado ao corrimo, tal como ela prpria fizera. Continuava a sorrir, e da boca escorria-lhe
um fio de sangue que ia at ao queixo.
        Vou estoirar-te os miolos. Vou estoirar-te os miolos.
Subiu mais um degrau.
O pnico apoderou-se dela e as dores amainaram um pouco. Subia o mais depressa que podia, sem fazer caso das dores, agarrando-se convulsivamente ao corrimo. Conseguiu
chegar ao cimo e olhou para trs.
Jack parecia estar a ganhar foras em vez de estar a perd--las. Faltavam-lhe apenas quatro degraus para chegar ao cimo da escada. Media a distncia com o mao de
roque na mo esquerda ao mesmo tempo que se servia da direita para subir.
        Estou mesmo atrs de ti  disse, a arfar, com um sorriso
sangrento, como se estivesse a ler-lhe os pensamentos.  Es
tou mesmo atrs de ti, cabra. Com o teu remdio.
Wendy correu pelo corredor principal, a cambalear, com as mos agarradas ao corpo.
A porta de um dos quartos abriu-se de repente e um homem com uma mscara verde espreitou.
        Que grande festa, no acha?  gritou-lhe na cara.
Ouviu-se um estalido que fez eco e de repente Wendy viu-se
rodeada de serpentinas. O homem da mscara deu uma gargalhada, meteu-se no quarto e fechou a porta com fora. Wendy estatelou-se na carpete. O lado direito do seu
corpo parecia estar prestes a explodir de dor. Lutava desesperadamente para no perder os sentidos. Atordoada, ouviu o elevador a andar outra vez, e por baixo dos
seus dedos pareceu-lhe ver os desenhos da carpete a andarem de um lado para outro, em movimentos sinuosos.
O mao caiu atrs de si e Wendy atirou-se para a frente, com um soluo. Por cima do ombro, viu Jack a cambalear, quase a perder o equilbrio, e a agitar o mao,
precisamente antes de cair na carpete e de expelir uma golfada de sangue.
O mao atingira-a entre os ombros e, por instantes, a agonia foi to grande que Wendy s conseguiu debater-se, de mos crispadas. Qualquer coisa se partira dentro
de si  ouvira-o claramente , e durante alguns momentos teve uma vaga conscincia do que estava a passar-se, como se observasse a cena atravs de uma cortina de
nvoa.
Depois, recobrou inteiramente a conscincia e, com ela, o terror e as dores.
Jack tentava subir para concluir a sua tarefa.
Wendy fez um esforo para se pr de p mas no conseguiu. Parecia estar a ser sacudida por choques elctricos. Comeou a
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rastejar, de lado. Jack rastejava atrs dela, utilizando o mao de roque como se fosse uma muleta ou uma bengala.
Wendy alcanou a esquina e conseguiu vir-la, agarrando-se ao ngulo da parede. O seu terror aumentava  no acreditava que tal coisa fosse possvel, mas era. Era
agora mil vezes pior no conseguir v-lo nem saber at que ponto estava perto. Ao arrastar-se, arrancava tufos de plo da carpete, e estava quase a chegar ao fim
do corredor quando reparou que a porta do quarto estava aberta.
(Danny! Oh, meu Deus!)
Conseguiu pr-se de joelhos e, agarrando-se  parede, quase a escorregar, ps-se de p. Com as unhas, arrancou pedacinhos de papel. Sem fazer caso das dores, a coxear,
entrou no quarto, no momento em que Jack virava a esquina e avanava para a porta do quarto, encostado ao mao.
Wendy agarrou-se  beira do toucador e depois  ombreira da porta.
Jack gritou-lhe:
        No feches essa porta! Raios te partam, no te atrevas a
fechar essa porta!
Wendy fechou a porta com fora e correu o ferrolho. A sua mo esquerda roou no tampo do toucador, deitando ao cho as moedas, que rolaram em todas as direces.
Wendy pegou na argola das chaves no preciso momento em que o mao de roque se abateu sobre a porta, fazendo estremecer a ombreira. Meteu a chave na fechadura e deu-lhe
uma volta. Ao ouvir a chave rodar na fechadura, Jack deu um grito. O mao caiu de novo sobre a porta, numa fria de golpes que fizeram Wendy vacilar e recuar. Como
podia ele fazer uma coisa daquelas com uma faca espetada nas costas? Onde iria buscar as foras? Apeteceu--lhe gritar: Porque no morreste?
Em vez disso, voltou-se para trs. Levaria Danny para a casa de banho e trancaria tambm a porta, no caso de Jack conseguir arrombar a porta do quarto. Veio-lhe
 ideia que poderiam fugir pelo fosso do monta-cargas, num acesso de desespero, mas depois afastou esse pensamento. Danny cabia l dentro, mas ela no teria foras
para puxar a corda. Poderia despenhar--se l em baixo.
Tinha de ser na casa de banho. E se Jack conseguisse entrar. ..
Mas no podia dar-se ao luxo de pensar nisso.
        Danny, querido, tens de acordar e...
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Mas a cama estava vazia.
Quando o filho comeara a dormir mais profundamente, Wendy puxara os cobertores e as mantas para cima dele. Mas agora a roupa da cama estava puxada para trs.
        Vou apanhar-te!  uivou Jack.  Vou apanhar-vos aos
dois!
Cada uma das suas palavras era seguida por uma pancada na porta com o mao, ainda que Wendy ignorasse ambas as coisas. A sua ateno estava agora concentrada na
cama vazia.
Saiam da! Abram essa maldita porta!
Danny?  chamou Wendy em voz baixa.
Claro... fora no momento em que Jack a atacara. Tinha-se apercebido do que se passava, como parecia acontecer sempre que se tratava de emoes fortes. Talvez tivesse
visto tudo no meio de um pesadelo. Estava escondido.
Wendy caiu de joelhos, aguentando a dor na perna inchada e a sangrar, e espreitou debaixo da cama. No estava l nada seno bolas de poeira e as pantufas de Jack.
Jack gritou o seu nome e, nessa altura, uma lasca de madeira saltou da porta. A pancada seguinte provocou um estalo doentio, o som de aparas secas a saltarem a
golpes de machado. O mao sangrento abria agora novo buraco na porta, recuava e abatia-se outra vez, espalhando lascas de madeira pelo quarto.
Wendy conseguiu pr-se de p outra vez, agarrando-se aos ps da cama, e arrastou-se pelo quarto at chegar junto do roupeiro. As costelas partidas faziam-na gemer
de dor.
        Danny?
Wendy afastou as roupas com frenesim; algumas caram dos cabides e flutuaram graciosamente at carem no cho. Danny no estava dentro do roupeiro.
Wendy dirigiu-se para a casa de banho, a cambalear, e quando chegou  porta olhou para trs. O mao abatia-se sobre a porta, aumentando o buraco, e depois apareceu
uma mo  procura do ferrolho. Horrorizada, Wendy reparou que se esquecera do molho de chaves de Jack na fechadura.
A mo correu o ferrolho e, ao faz-lo, tocou no molho das chaves. Elas tilintaram com um som alegre. A mo agarrou-as, com um gesto vitorioso.
Com um soluo, Wendy entrou na casa de banho e fechou a porta no momento em que a porta do quarto se abria de rompante e Jack entrava, ameaador.
Wendy correu o ferrolho e olhou  sua volta, desesperada. A
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casa de banho no tinha ningum. Danny tambm no estava ali. E ao ver a cara ensanguentada e horrorizada no espelho do armrio dos medicamentos, Wendy sentiu-se
satisfeita. Nunca aceitara que as crianas pudessem ser testemunhas das brigas dos pais. E talvez aquilo que agora devastava o quarto, deitando as coisas ao cho
e esmagando-as, acabasse por desfalecer antes de encontrar o filho. Talvez Wendy conseguisse infligir--lhe ainda mais danos... destru-lo, talvez.
Wendy lanou um olhar rpido s superfcies de porcelana da casa de banho,  procura de qualquer coisa que pudesse servir de arma. Havia um sabonete, mas mesmo que
o embrulhasse numa toalha no acreditava que pudesse matar algum. Tudo o resto no tinha qualquer utilidade. Meu Deus, no haveria nada que pudesse fazer?
Do outro lado da porta, os sons animalescos de destruio continuavam, acompanhados de urros. Toma o remdio; Ho-de pagar pelo que me fizeram; Ho-de ver quem
 que manda. Ambos eram fantoches.
Ouviu-se um estrondo quando o gira-discos de Wendy foi atirado ao cho, e outro quando o ecr da televiso em segunda mo se estilhaou. Seguiu-se um tilintar de
vidros partidos e uma corrente de ar frio vinda debaixo da porta da casa de banho. Um estrpito quando os colches foram arrancados das camas gmeas em que ambos
dormiam, costas com costas. Jack batia indiscriminadamente nas paredes com o mao.
No havia nada do verdadeiro Jack naquela voz ululante, disparatada e petulante. As lamrias de autocompaixo alternavam com gritos lgubres. Impressionada, Wendy
lembrou-se dos gritos que vinham s vezes da enfermaria de geriatria do hospital onde estivera a trabalhar durante um Vero quando andava no liceu. Demncia senil.
J no era Jack que estava l fora. O que estava a ouvir era a voz louca e furiosa do prprio Overlook.
O mao espetou-se na porta da casa de banho, fazendo uma brecha na madeira. Wendy viu metade de um rosto luntico a olhar para ela. A boca, as faces e a garganta
estavam cobertas de sangue, e o nico olho que conseguia ver era pequeno, animalesco e brilhante.
 No tens para onde fugir, minha cabra!  disse ele, a rir-se, respirando com dificuldade.
O mao caiu outra vez, atirando lascas de madeira para o interior da banheira e para o espelho do armrio dos medicamentos.
(O armrio dos medicamentos!)
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Momentaneamente esquecida das dores, Wendy deixou escapar um gemido ao mexer-se e abriu a porta do espelho do armrio. Comeou a remexer no que estava l dentro.
Atrs dela, aquela voz rouca ameaava:
        C vou eu! C vou eu, porca!
Estava a destruir a porta com um frenesim mecnico.
Frascos de xarope para a tosse, vaselina, perxido de hidrognio e benzocana caram no lavatrio e partiram-se.
No momento em que Wendy ouviu a mo de Jack a mexer no ferrolho e na fechadura, a sua prpria mo fechou-se sobre a caixa de lminas de barbear.
Wendy retirou uma das lminas, com a respirao entrecortada. Fizera um golpe na cabea do polegar. Deu meia volta e enterrou a lmina na mo que agora dera a volta
 chave na fechadura e agora tacteava  procura do ferrolho.
Jack soltou um grito. A mo recuou.
A arfar, segurando a lmina entre o polegar e o indicador, Wendy esperou que ele tentasse de novo. Quando isso aconteceu desferiu-lhe outro golpe. Ele gritou de
novo, tentando agarrar-lhe a mo e Wendy vibrou-lhe mais um golpe. A lmina dobrou-se-lhe na mo e cortou-a, caindo em seguida no cho, junto da sanita.
Wendy tirou outra lmina do armrio e ficou  espera.
Havia qualquer coisa a mexer no outro quarto...
(Vai-se embora???)
Seguiu-se um som vindo da janela. Um motor. Um som forte, que lembrava o zumbido de um insecto.
Um grito de fria de Jack e depois  sim, sim, Wendy tinha a certeza  ele ia a sair do apartamento, abrindo caminho no meio de toda aquela destruio, e chegava
ao corredor.
(Est algum a chegar, um guarda-florestal, Dick Hallo-rann?)
        Oh, meu Deus!  murmurou Wendy, aos soluos, como
se tivesse a boca cheia de lascas de madeira e de serradura ve
lha.  Oh, meu Deus! Oh, por favor!
Agora tinha de sair dali, tinha de ir procurar o filho para que vivessem juntos o que restava deste pesadelo. Aproximou-se da porta e procurou o ferrolho. Parecia
que o brao nunca mais l chegava. Por fim, conseguiu encontr-lo. Abriu a porta, saiu a cambalear, e de repente, horrorizada, teve a certeza de que Jack simulara
a retirada... que estava escondido  sua espera.
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Wendy olhou  volta. O quarto no tinha ningum. Estava tudo remexido, partido.
O roupeiro? Tambm estava vazio.
Ento comeou a ver tudo cinzento  sua volta e caiu no colcho que Jack arrancara da cama, semi-inconsciente.
53
HALLORANN EM APUROS
Hallorann alcanou o limpa-neves, que se voltara, no mesmo instante em que, a uma milha e meia de distncia, Wendy conseguia virar a esquina do pequeno corredor
que conduzia ao apartamento do vigilante.
No era o limpa-neves que ele queria, mas sim o depsito do combustvel que estava preso na traseira do veculo, com duas tiras elsticas. As suas mos, ainda com
as luvas azuis de Cot-trell, agarraram no elstico e soltaram-no, no momento em que o leo da sebe rugiu atrs dele  um som que parecia vir mais do interior da
sua cabea do que do exterior. Uma patada forte na perna esquerda provocou-lhe uma dor que lhe fez estremecer o joelho. Hallorann soltou um gemido por entre os
dentes cerrados. O leo j estava cansado de brincar com ele e estava agora disposto a mat-lo.
Hallorann tentou retirar o outro elstico. Sentiu que tinha sangue agarrado aos olhos.
(Grrrrrr! Toma!)
Desta vez apanhara-lhe as ndegas e quase o deitara ao cho, afastando-o do limpa-neves. Dick agarrou-se  no era exagero   vida.
Em seguida, conseguiu tirar o outro elstico. Puxou o depsito para si no momento em que o leo voltou a atac-lo, fazendo-o rolar sobre as suas costas. Viu-o
de novo, apenas uma sombra na escurido, destacando-se na neve que continuava a cair, aterrador como uma carranca no meio de um pesadelo. Hallorann desenroscou a
tampa do depsito quando a sombra avanou para ele, levantando borrifos de neve. Conseguiu tirar a tampa e sentiu o cheiro penetrante da gasolina.
No momento em que o leo se aproximou dele, ameaador e
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incrivelmente rpido, Hallorann ps-se de joelhos e atirou-lhe gasolina para cima.
Ouviu-se um silvo, uma cuspidela, e o leo recuou.
 Gasolina!  gritou Hallorann com uma voz estridente, destruidora.  Vou pegar-te fogo, meu menino! Prepara-te!
O leo avanou de novo para ele, furioso, ainda a cuspir. Hallorann voltou a atirar-lhe gasolina, mas desta vez o animal no desistiu. Continuou a avanar. Hallorann
sentiu-lhe o focinho perto da cara e atirou-se para trs, evitando-o em parte. No entanto, o leo atingiu-lhe a coxa, com um golpe rpido que lhe provocou uma dor
sbita. A gasolina escorreu do depsito, que Dick ainda segurava, e ensopou-lhe a mo e o brao. Estava gelada.
Agora Hallorann estava deitado de costas,  direita do limpa--neves, a uma distncia de dez passos. A sua esquerda estava o leo, soltando rugidos ameaadores. Aproximava-se
outra vez. Hallorann julgou ver-lhe a cauda a abanar.
Tirou a luva da mo direita, a cheirar a l molhada e a gasolina. Levantou a bainha do camuflado e meteu a mo na algibeira das calas. Ali, juntamente com as
chaves e os trocos, estava um velho isqueiro Zippo j muito gasto. Comprara-o na Alemanha, em 1954. Uma vez, a dobradia partira-se e Dick mandara-o para a fbrica.
Tinham-no consertado gratuitamente, tal como vinha nos anncios.
Uma torrente de pensamentos dignos de um pesadelo atravessou-lhe a mente num segundo.
(Querido Zippo o meu isqueiro foi engolido por um crocodilo caiu de um avio perdeu-se no Pacfico uma vala salvou-me de uma bala Kraut na batalha de Bulge querido
Zippo se este patife no funciona este leo arranca-me a perna.)
O isqueiro no funcionou. Hallorann abriu a tampa. O leo corria para ele, soltando um rugido que lembrava o som de um tecido a rasgar-se, Dick tentou de novo, uma
falha, uma chama,
(A minha mo!)
a mo, ensopada em gasolina, comeou a arder, e as chamas propagaram-se  manga do camuflado. O leo recuava, afastando-se daquele fogo sbito, uma esttua de buxo,
com olhos e boca, horrvel, a tremeluzir, a afastar-se, tarde de mais.
Contraindo-se com a dor, Hallorann aproximou o brao em chamas do leo.
No mesmo instante o vulto comeou a arder, uma tocha ardente contorcendo-se na neve. Rugia de raiva e de dor e parecia
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querer libertar-se da cauda em chamas, que ziguezagueava na frente de Hallorann.
Dick mergulhou o brao na neve, abafando as chamas, sem conseguir desviar o olhar do leo agonizante. Depois, ofegante, ps-se de p. A manga do camuflado estava
mascarrada mas no ardera, e o mesmo acontecera com a sua mo. Trinta metros mais abaixo, o leo da sebe transformara-se numa bola de fogo. As falhas elevavam-se
no cu e eram arrastadas pelo vento. Por instantes, as costelas e a cabea foram envolvidas por uma chama alaranjada e em seguida pareceram desintegrar--se e cair
em vrios montes de cinzas.
(No te importes com isso. Continua.)
Hallorann pegou no depsito e fez um esforo para se aproximar do limpa-neves. A sua conscincia parecia ir e vir, proporcionando-lhe excertos de filmes mas nunca
o filme completo. Numa dessas alturas apercebeu-se de que pusera o limpa-neves na sua posio normal e se sentara l dentro, sem flego e incapaz de se mexer durante
algum tempo. Noutra altura, punha no seu lugar o depsito, que estava ainda meio cheio. Os vapores da gasolina tinham-lhe provocado dores de cabea horrveis (alm
da reaco provocada pela siia luta com o leo da sebe, supunha) e, atravs do buraco fumegante na neve, apercebeu-se de que vomitara, mas no conseguiu lembrar-se
em que momento.
Com o motor ainda quente, o limpa-neves comeou imediatamente a trabalhar. Dick carregou vrias vezes no acelerador e o veculo comeou a avanar aos estices,
o que aumentou as suas dores de cabea. A princpio o limpa-neves andava desgovernado de um lado para o outro, mas ao levantar a cara acima do pra-brisas, expondo-a
ao vento cortante, Dick afastou em parte a letargia. Carregou mais no acelerador.
(Onde esto os outros animais da sebe?)
No sabia, mas pelo menos no voltaria a ser apanhado desprevenido.
O Overlook estava na sua frente e as janelas iluminadas do primeiro andar projectavam grandes rectngulos de luz amarelada na neve. O porto ao fundo do caminho
estava fechado e Dick apeou-se depois de olhar cautelosamente  sua volta, pedindo a Deus que no tivesse perdido as chaves ao tirar o isqueiro do bolso... Servindo-se
da luz viva do farol do limpa--neves, procurou a chave. Encontrou-a e abriu o cadeado, deixando-o cair na neve. A princpio pensou que no seria capaz
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de abrir o porto, fosse de que maneira fosse; cavou freneticamente a neve  sua volta, sem fazer caso das dores de cabea e do medo de que algum dos outros lees
se aproximasse dele por trs. Conseguiu abri-lo um pouco, fez fora e empurrou-o. Abriu-o o suficiente para permitir que o limpa-neves passasse e avanou com ele
por ali dentro.
Apercebeu-se de que se passava qualquer coisa  sua frente, no escuro. Os animais da sebe, todos eles, estavam reunidos ao fundo dos degraus de Overlook, a guardar
a entrada e a sada. Os lees estavam  espreita. O co estava de p, com as patas dianteiras no primeiro degrau.
Hallorann carregou no acelerador e o limpa-neves deu um salto para a frente, cuspindo neve atrs de si. No apartamento do vigilante, a cabea de Jack Torrance voltou-se
ao ouvir o zumbido forte  que lembrava o zumbido das vespas  do veculo que se aproximava, e de repente comeou a arrastar-se para o corredor. Aquela cabra no
era agora to importante. Aquela cabra poderia esperar. Agora era a vez deste negro nojento. Deste porco, deste negro que se metia onde no era chamado. Primeiro
ele e depois o filho. Havia de mostrar-lhes. Havia de mostrar-lhes que... que ele... que ele tinha vocao para gerente!
L fora, o limpa-neves avanava cada vez mais depressa. O hotel parecia correr na sua direco. A neve fustigava o rosto de Hallorann. O farol iluminou o focinho
do pastor-alemo, de olhos vagos.
Depois desapareceu, deixando uma clareira. Hallorann agarrou-se ao volante do limpa-neves com todas as foras que lhe restavam. O veculo descreveu um semicrculo
pronunciado, levantando nuvens de neve que ameaavam soterr-lo. A traseira bateu no ltimo degrau do alpendre e fez ricochete. Hallorann apeou-se num pice e
subiu as escadas a correr. Tropeou, caiu e em seguida levantou-se. O co rosnava  de novo na sua cabea  mesmo atrs de si. Qualquer coisa lhe fez um corte no
ombro do camuflado. Em seguida viu-se, so e salvo, debaixo do alpendre, no corredor estreito que Jack abrira na neve, com a p. Os animais eram demasiado grandes
para caberem ali.
Aproximou-se da grande porta dupla que dava para o trio e procurou de novo as chaves. Enquanto tentava encontr-las, ps a mo no puxador e este rodou sem dificuldade.
Dick empurrou a porta e entrou.
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        Danny!  gritou com voz rouca.  Danny, onde ests?
Silncio.
O seu olhar percorreu o trio at ao fundo das escadas. Deixou escapar um suspiro. A carpete estava manchada de sangue. No cho estava um bocado de tecido turco
cor-de-rosa. Os pingos de sangue continuavam pela escada acima. Tambm no corrimo havia sangue.
Meu Deus!  disse entre dentes.
E, levantando a voz:
Danny! DANNY!
O silncio do hotel parecia escarnecer dele com ecos dissimulados e oblquos que eram quase uma presena.
(Danny? Quem  Danny? Algum aqui sabe quem  Danny? Danny, Danny, onde est o Danny? Algum andou a brincar com o Danny? Algum pisou o rabo do Danny? Sai daqui,
negro. Ningum aqui conhece Danny, desde que o mundo  mundo.)
Jesus, teria passado por tudo aquilo para chegar tarde de mais? J teria acontecido?
Subiu os degraus a dois e dois e parou ao chegar ao primeiro andar. As manchas de sangue iam at ao apartamento do vigilante. O terror subiu-lhe nas veias quando
comeou a encaminhar-se para o pequeno corredor. Os animais da sebe tinham--no feito passar um mau bocado, mas isto era pior. No seu ntimo, j sabia o que iria
encontrar quando chegasse ali.
No tinha pressa.
Jack escondera-se no elevador enquanto Hallorann subia as escadas. Agora arrastava-se atrs daquele vulto de camuflado coberto de neve, um fantasma sangrento com
um sorriso na boca. Na mo segurava o mao de roque, to alto quanto a dor que lhe dilacerava as costas
(Foi aquela cabra que ma espetou no te lembras?) lho permitia.
        Negro  disse em voz baixa.  Vou ensinar-te a no
meteres o nariz na vida das outras pessoas.
Hallorann ouviu a voz e comeou a voltar-se, a desviar-se, e o mao assobiou no ar e atingiu-o. O capuz do camuflado amorteceu a pancada, mas no foi suficiente.
Um fogueto explodiu-lhe na cabea, deixando um rasto de estrelas... e depois, nada.
Dick cambaleou, foi embater na parede e Jack agrediu-o outra vez, de lado, partindo-lhe o osso da face e a maior parte dos dentes do lado esquerdo. Dick caiu desamparado.
        Agora  sussurrou Jack.  Agora, por Deus.
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Onde estava Danny? Tinha umas contas a ajustar com o filho desobediente.
Trs minutos depois, a porta do elevador abriu-se ruidosamente no terceiro andar. Jack Torrance vinha l dentro, sozinho. A cabina parara a meio caminho e ele
teve de atirar-se para o cho, torcendo-se com dores como se fosse um aleijado. Arrastava atrs de si o mao de roque j lascado. L fora, nos beirais, o vento uivava
e rugia. Os olhos de Jack rolaram selva-ticamente nas rbitas. Tinha sangue e confetis no cabelo.
O seu filho estava l em cima, em qualquer lado. Sentia-o. Entregue a si prprio, podia fazer fosse o que fosse: riscar com os lpis de cor o papel caro da parede,
estragar os mveis, partir os vidros das janelas. Era um mentiroso, um trapaceiro, e tinha de ser castigado... com dureza.
Jack Torrance ps-se de p a custo.
 Danny?  exclamou.  Danny, chega aqui um instante, ests a ouvir? Fizeste uma maldade e eu quero que venhas c e que tomes o teu remdio como um homenzinho. Danny?
Danny!
54
TONY
(Danny...)
(Dannnnnyyyyy...)
Escurido e corredores. Vagueava atravs da escurido e de corredores que eram semelhantes aos do hotel mas um pouco diferentes. As paredes forradas de papel de
seda subiam, subiam e, mesmo quando Danny dobrava o pescoo, no conseguia ver o tecto. Perdia-se na obscuridade. Todas as portas estavam fechadas  chave, e
tambm elas se elevavam e se perdiam na obscuridade. Por baixo das vigias (que nestas portas gigantes eram do tamanho de miras de espingardas), viam-se pequenas
caveiras e ossos cruzados presos a cada porta, em vez dos nmeros dos quartos.
E algures, Tony chamava-o.
(Dannnnyyyy...)
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Ouviu-se um barulho forte, que Danny bem reconhecia, e gritos roufenhos, ao longe. Danny no podia distinguir palavra por palavra, mas naquele momento sabia exactamente
do que se tratava. J ouvira antes, em sonhos e acordado.
Aquele rapazinho que largara as fraldas ainda no havia trs anos parou e tentou perceber onde estava, onde poderia estar. Sentia medo, mas era uma espcie de medo
que conseguia suportar. De h dois meses para c que tinha medo todos os dias, um medo que ia desde a inquietao montona at ao terror que o fazia cair no abatimento.
Isto podia ele suportar. Mas queria saber porque viera Tony, porque estava ele a chamar pelo seu nome neste corredor que nem era real nem fazia parte daquele mundo
de sonhos em que, s vezes, Tony lhe revelava coisas. Ora, onde...
        Danny.
L ao fundo do corredor gigantesco, quase to pequeno como o prprio Danny, estava um vulto s escuras. Tony.
Onde estou?  perguntou Danny com brandura.
A dormir  respondeu Tony.  A dormir no quarto da
tua me e do teu pai.
A voz de Tony era triste.
Danny. A tua mam vai ficar gravemente ferida. Talvez
morra. E o senhor Hallorann tambm.
No!
Danny soltou um grito distante, com um terror que parecia sufocado por aquela atmosfera horrvel e irreal. Todavia, assolavam-no imagens de morte: uma r morta
espalmada como se fosse um selo medonho; o relgio de pulso do pap, partido, em cima de um caixote do lixo, prestes a ser deitado fora; pedras tumulares com uma
pessoa morta debaixo de cada uma; um pssaro morto no poste dos telefones; os restos de comida que a mam rapava dos pratos e as entranhas escuras do contentor
do lixo.
Todavia, no conseguia equacionar estes smbolos singelos com a realidade complexa e mutvel da sua me; ela satisfazia--se com a sua definio infantil de eternidade.
Ela estivera onde ele no estava. Continuaria a estar onde ele j no estava. Ele aceitava a hiptese da sua prpria morte, confrontara-se com ela desde o encontro
no quarto 217.
Mas no era o caso dela.
Nem do pap.
Nunca.
429
Danny comeou a debater-se, e a escurido e o corredor comearam a vacilar. Os contornos de Tony tornaram-se quimricos, indistintos.
No!  exclamou Tony.  No, Danny, no faas isso!
Ela no vai morrer! Ela no vai morrer!
Ento tens de ajud-la. Danny... ests num stio pro
fundo da tua mente. No mesmo stio em que eu estou. Eu sou
uma parte de ti, Danny.
Tu s Tony. No s uma parte de mim. Quero a mam...
Quero a mam...
No fui eu que te trouxe para aqui, Danny. Foste tu
mesmo. Porque j sabias.
No...
Sempre soubeste  prosseguiu Tony, comeando a apro
ximar-se.
Pela primeira vez, Tony aproximava-se.
Ests no fundo de ti prprio, num stio que ningum
pode alcanar. Estamos aqui sozinhos por momentos, Danny.
Este  um Overlook ao qual ningum ter acesso. Aqui os rel
gios no trabalham. No h chaves que consigam dar-lhes
corda. As portas nunca foram abertas e nunca ningum ficou
nestes quartos. Mas tu no podes ficar por muito tempo. Por
que aquilo est a chegar.
Aquilo...  sussurou Danny, a medo.
Ao faz-lo, o barulho irregular parecia mais prximo, mais forte. O terror que sentia, at h pouco frio e distante, tornava--se agora algo de imediato. Agora distinguia
as palavras. Roucas, errantes; eram pronunciadas numa voz que constitua uma imitao tosca da voz do pai, mas no era o pap. Sabia-o agora. Ele sabia.
(Foste tu mesmo. Porque j sabias.)
        Oh, Tony, no  o pap? No  o pap que vem buscar-
-me?  gritou Danny.
Tony no respondeu. Mas Danny no precisava de resposta. Ele sabia. J h anos que decorria ali um longo e fantasmagrico baile de mscaras. A pouco e pouco juntara-se-lhe
uma fora, secreta e silenciosa como o juro de uma conta bancria. Uma fora, uma presena, uma forma, eram tudo palavras que no interessavam. Usavam muitas mscaras,
mas eram todas uma s coisa. Agora, algures, essa coisa vinha busc-lo. Escondia-se por trs do rosto do pap, imitava a voz do pap, usava a roupa do pap.
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Mas no era o pap.
No era o pap. Tenho de ajud-los!  gritou.
E agora Tony estava mesmo na sua frente, e olhar para Tony era o mesmo que olhar para um espelho mgico e ver-se a si mesmo da a dez anos, com os olhos afastados
e muito escuros, o queixo firme, a boca finamente moldada. O cabelo era louro--claro como o da me e, contudo, as feies eram as do pai, como se Tony  como se
o Daniel Anthony Torrance que um dia viria a ser  fosse um misto de pai e filho, um fantasma de ambos, uma fuso.
        Tu tentaste ajudar  disse Tony.  Mas o teu pai... Ele
agora est com o hotel, Danny.  onde ele quer estar. O hotel
tambm te quer, porque  muito guloso.
Tony caminhava a seu lado, na sombra.
Espera!  gritou Danny.  O que posso eu...
Ele est perto agora  disse Tony, sempre a andar. 
Tens de fugir... Esconder-te... Afasta-te dele. Afasta-te.
Tony, no posso!
Mas j comeaste a faz-lo.  disse Tony.  Lembrar-
-te-s sempre daquilo que o teu pai esqueceu.
E Tony desapareceu.
E algures, de muito perto, veio a voz aduladora do pai:
        Danny. Podes sair da, p. S uma tareiazinha, mais
nada. Aceita-a como se fosses um homenzinho e ficaremos por
a. No precisamos dela, p. Ficamos os dois, s tu e eu, est
bem? Quando acabarmos esta... esta tareiazinha... ficaremos
s os dois, s tu e eu.
Danny fugiu.
Atrs dele, o temperamento daquela coisa ganhou foros de normalidade.
        Anda c, malandro! J!
Percorreu um longo corredor, a arfar. Voltou a esquina. Subiu um lano de escadas. E  medida que corria, as paredes, que eram to altas e distantes, comearam
a baixar; a passadeira, que fora apenas uma mancha debaixo dos ps, adquiriu o padro azul e negro que lhe era familiar, as linhas sinuosas; as portas tinham nmeros,
e do outro lado as festas prosseguiam, frequentadas por geraes de hspedes. A atmosfera parecia tremer  sua volta, e as pancadas de mao nas paredes faziam ecos
sucessivos. Danny parecia estar a irromper de um tero cheio de placenta fina, de sono para
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a carpete do lado de fora da Suite Presidencial, no terceito andar; a seu lado, numa poa de sangue, jaziam os corpos ensanguentados de dois homens de fato e gravata
estreita. Tinham sido mortos a tiro e agora comeavam a mexer-se e a levantar-se.
Danny quis gritar mas no conseguiu.
(SO ROSTOS FALSOS!! NO SO REAIS!!)
Como fotografias antigas, os vultos dos homens diluram-se ante o seu olhar e desapareceram.
Mas, por baixo dele, o rudo tnue do mao a bater nas paredes prosseguia, sem parar, atravessando o fosso do elevador e as escadas. A fora dominadora do Overlook,
sob a forma do seu pai, semeava a destruio no primeiro andar.
Abriu-se uma porta e l de dentro veio um som fraco.
O cadver de uma mulher em decomposio, com um vestido de seda apodrecido, os dedos amarelados e desfeitos cheios de anis oxidados, apareceu  porta. No seu rosto
rastejavam vespas corpulentas.
Entra  sussurrou-lhe ela com a sua boca enegrecida. 
Entra e vamos danar o tango.
s um rosto falso!  gritou Danny.  No s real!
A mulher recuou, assustada, e ao afastar-se dele desapareceu.
        Onde ests?
Mas a voz existia apenas na cabea de Danny. Danny ouvia aquilo que se servia do rosto de Jack, l em baixo, no primeiro andar... e mais alguma coisa.
O barulho forte de um motor que se aproximava.
Danny deixou de respirar, com um suspiro. Seria outro rosto do hotel, outra iluso? Ou seria Dick? Queria  queria deses-peradamente  acreditar que era Dick, mas
no se atrevia a tentar.
Recuou para o corredor principal, e depois pegou num dos galhos. Quase no fazia barulho com os ps. As portas, fechadas, faziam-lhe caretas como acontecera em
sonhos, durante as vises. S que agora estava no mundo real, onde o jogo era a srio.
Voltou para a direita e parou, com o corao a saltar-lhe no peito. Sentiu calor nos tornozelos. Vinha dos aquecedores, evidentemente. Devia ser dia de o pap aquecer
a ala oeste e...
(Lembrar-te-? daquilo que o teu pai esqueceu.) o que seria? Estava quase a adivinhar. Era qualquer coisa que poderia salv-lo a ele e  mam? Mas Tony dissera
que teria de ser ele a faz-la. O que seria?
432
Encostou-se ainda mais  parede, fazendo um esforo desesperado para pensar. Era to difcil... O hotel insistia em entrar na sua cabea... A imagem daquele vulto
escuro e disforme agitando o mao de um lado para o outro, rasgando o papel da parede... arrancando pedaos de estuque.
        Ajuda-me  murmurou.  Tony, ajuda-me.
E de repente apercebeu-se de que o hotel mergulhara num silncio mortal. O barulho do motor deixara de se ouvir
(no deve ter sido verdade)
e os sons da festa tinham cessado e ouvia-se apenas o vento a uivar e a assobiar.
De sbito o elevador comeou a trabalhar.
Vinha a subir.
E Danny sabia quem  o que  vinha l dentro.
Ficou imvel, de olhar alucinado. Sentia-se dominado pelo pnico. Porque o mandara Tony para o terceiro andar? Estava encurralado. Todas as portas estavam fechadas
 chave.
O sto!
Sabia que havia um sto. Fora l com o pap no dia em que andara a colocar as ratoeiras. O pap no quisera que ele subisse, por causa dos ratos. Tinha medo que
Danny fosse mordido. Mas era no tecto de um pequeno corredor desta ala que ficava o alapo que conduzia ao sto. Havia um pau encostado  parede. O pai servira-se
do pau para abrir a porta do alapo, seguira-se um rudo de contrapesos  medida que a porta se levantava e uma escada descera at ao cho. Se Danny conseguisse
l chegar e puxar a escada...
Algures no labirinto de corredores atrs de si, o elevador parou. Ouviu-se o rudo da porta metlica a abrir-se. E depois uma voz  no na sua cabea mas terrivelmente
real gritou:
        Danny! Danny, chega aqui num instante, ests a ouvir?
Fizeste uma maldade e quero que venhas c e que tomes o teu
remdio como um homenzinho. Danny! Danny!
A obedincia estava to fortemente entranhada nele que, com um movimento maquinal, deu dois passos na direco do stio de onde vinha a voz, antes de parar. Cerrou
os punhos.
(No s real! s um rosto falso! Sei quem tu s! Tira a mscara!)
        Danny!  rugiu a voz.  Chega aqui, idiota! Chega aqui
e toma o remdio, como se fosses um homenzinho!
Ouviu-se um barulho forte e oco quando o mao atingiu a
433
parede. No momento em que a voz voltou a cham-lo, mudara de posio. Estava mais prxima.
No mundo real, a perseguio comeara.
Danny desatou a correr. Corria pela carpete espessa, sem fazer barulho, passando pelas portas fechadas, pelo papel de parede, pelos extintores presos ao canto da
parede. Hesitou e depois entrou no ltimo corredor. Ao fundo no havia nada seno uma porta trancada. No havia por onde fugir.
Mas o pau continuava l, encostado  parede, no stio onde o pap o deixara.
Danny pegou no pau e levantou-o. Olhou para a porta do alapo. Na ponta do pau havia um gancho que tinha de enfiar--se numa argola presa  porta do alapo. Tinha
de...
Da porta do alapo pendia um cadeado Yale, novinho em folha. O cadeado que Jack Torrance pusera  volta do fecho depois de colocar as ratoeiras, no fosse o filho
lembrar-se um dia de ir l acima fazer as suas exploraes.
Encurralado. O terror apoderou-se dele.
Atrs de si, aquilo aproximava-se a cambalear. Passou pela Suite Presidencial, agitando o mao no ar.
Danny encostou-se  ltima porta e ficou  espera.
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o QUE FOI ESQUECIDO
A pouco e pouco, Wendy voltou a si. A escurido  sua volta dava lugar  dor: as costas, a perna, o flanco... no acreditava que conseguisse mexer-se. At os dedos
lhe doam, embora a princpio no percebesse porqu.
(A lmina de barbear, eis a razo.)
O cabelo louro, agora hmido e manchado de sangue, caa--lhe sobre os olhos. Wendy afastou-o, e uma dor forte nas costelas f-la soltar um gemido. Via agora o colcho
azul e branco sujo de sangue. Do seu sangue, ou talvez do sangue de Jack. De qualquer modo, ainda estava fresco. No estivera ali muito tempo. O que era importante,
porque...
(porqu?)
Porque...
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Foi do rudo do motor, que lembrava o zumbido de um insecto, que se lembrou em primeiro lugar. Por instantes, dete-ve-se estupidamente na memria, e depois, com
um simples movimento vertiginoso e agonizante, a sua mente pareceu voltar atrs, revelando-lhe tudo num pice.
Hallorann. Devia ter sido Hallorann. Por que outro motivo havia Jack de ter-se ido embora to depressa, sem acabar... sem acabar com ela?
Porque ele no estava quieto. Tinha de encontrar Danny depressa... e antes que Hallorann o detivesse.
Ou isso j acontecera?
Ouviu o barulho do elevador a subir.
(No meu Deus por favor no o sangue ainda est fresco no permitas que j tenha acontecido.)
Sem saber como, ps-se de p e atravessou o quarto a cambalear, passou pela sala em desordem e aproximou-se da porta arrombada. Abriu-a e saiu para o corredor.
        Danny!  gritou, sentindo uma dor no peito.  Senhor
Hallorann! Est aqui algum? Algum?
O elevador recomeara a andar e parava naquele instante. Wendy ouviu a porta metlica a abrir-se e depois algum a falar. Podia ser imaginao sua. O barulho do
vento era to forte que no podia ter a certeza.
Encostada  parede, conseguiu chegar  esquina do pequeno corredor. Estava quase a dar a volta quando aquele grito a gelou, vindo das escadas e do fosso do elevador:
        Danny! Anda c, idiota! Anda c e toma o remdio como
um homenzinho!
Era Jack. No segundo ou no terceiro andar.  procura de Danny.
Wendy deu a volta, tropeou e quase caiu. Reteve a respirao. Qualquer coisa
(algum?)
estava encostada  parede, a cerca de um quarto da distncia que a separava da escada. Comeou a andar mais depressa, estremecendo cada vez que sentia o peso do
corpo na perna ferida. Era um homem, distinguia-o agora, e quando se aproximou compreendeu o que significava o zumbido daquele motor.
Era o senhor Hallorann. Afinal sempre viera.
Ajoelhou-se junto dele, pedindo a Deus que no estivesse morto. Tinha o nariz a sangrar e um terrvel gotejar de sangue
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saa-lhe da boca. Tinha uma ferida vermelha numa das faces. E respirava, graas a Deus. Com dificuldade.
Ao observ-lo mais de perto, Wendy esbugalhou os olhos. Uma das mangas do camuflado que ele trazia vestido estava chamuscada e enegrecida. E tinha um rasgo. O senhor
Hallo-rann tinha sangue no cabelo e uma ferida pouco profunda mas com mau aspecto na parte de trs do pescoo.
(Meu Deus, o que lhe aconteceu?)
        Danny!  rugiu a voz roufenha e autoritria por cima
deles.  Sai da, malandro!
No havia tempo a perder com perguntas. Wendy comeou a aban-lo, contraindo-se com a dor nas costelas. Sentia o flanco inchado e febril.
(E se elas esto a furar-me o pulmo de cada vez que me mexo?)
Mas tambm contra isso no havia nada a fazer. Se Jack encontrasse Danny, mat-lo-ia, espanc-lo-ia at  morte com o mao de roque, como tentara fazer com ela.
Por isso Wendy abanava Hallorann, e depois comeou a bater-lhe na face, ao de leve.
        Acorde  disse.  Senhor Hallorann, tem de acordar.
Por favor... Por favor...
L de cima vinha o barulho constante do mao. Jack Tor-rance andava  procura do filho.
Danny estava encostado  parede, a olhar para a esquina em que os corredores se encontravam. As pancadas firmes e irregulares do mao nas paredes tornavam-se mais
ntidas. O que vinha a persegui-lo gritava, uivava e praguejava. Era impossvel dizer onde acabava o sonho e comeava a realidade.
Aquilo aproximou-se da esquina.
De certa maneira, o que Danny sentiu foi alvio. No era o pai. A cara e o corpo eram uma mscara dilacerada, uma graa de mau gosto. No era o pap aquele filme
de terror de sbado  noite, com os olhos a rolarem nas rbitas, os ombros levantados, ameaadores, e a camisa manchada de sangue. Aquilo no era o pap.
        Agora, por Deus!  exclamou aquilo, a arfar.
Com a mo a tremer, limpou a boca.
        Agora vais saber quem  que manda aqui! Vais ver. No 
a ti que eles querem. E a mim. A mim. A mim!
Comeou a vibrar golpes com o mao, cuja cabea era agora
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uma massa disforme e lascada. Atingiu a parede, fazendo um corte circular no papel. O estuque saltou. Comeou a rir-se.
        Vamos a ver se brincas comigo agora  disse entre den
tes.  Eu no nasci ontem, percebes? No ca do cu. Vou
cumprir o meu dever de pai para contigo, menino.
Danny respondeu:
        Voc no  o pap.
Aquilo imobilizou-se. Por instantes pareceu hesitante, como se no tivesse a certeza do que era. Depois recomeou a andar. O mao assobiou no ar, atingiu o painel
de uma porta e provocou um estrondo abafado.
Ests a mentir. Quem mais poderia eu ser? Tenho dois
sinais de nascena, o umbigo arredondado mesmo na ponti
nha, meu rapaz. Pergunta  tua me.
Voc  uma mscara  disse Danny.  Tem um rosto
falso. A nica razo pela qual o hotel o utiliza  porque voc
no est to morto como os outros. Mas quando der conta de si,
no servir para nada. Voc no me assusta.
Vou assustar-te!  uivou aquilo.
O mao assobiou no ar e veio cair na carpete, entre os ps de Danny. Danny nem se mexeu.
        Tu disseste mentiras a meu respeito! Tornaste-te coni
vente com ela! Conspiraste contra mim! Intrujaste-me! Copiaste
naquele exame final!
Os olhos brilhavam debaixo das sobrancelhas espessas. A sua expresso tinha muito da argcia de um luntico.
        Tambm hei-de descobri-lo. Est l em baixo na cave, em
qualquer lado. Hei-de descobri-lo. Eles prometeram-me que
eu poderia ver tudo o que quisesse.
Levantou de novo o mao.
        Sim, prometeram, mas esto a mentir  disse Danny.
Num momento de hesitao, o mao ficou suspenso no ar.
Hallorann comeara a vir a si, mas Wendy deixara de lhe bater na face. Momentos antes, as frases Intrujaste-me!, Copiaste naquele exame final! tinham descido pelo
fosso do elevador, difusas, mal se sobrepondo ao rudo do vento. Vinham algures da ala oeste. Wendy estava praticamente convencida de que eles estavam no terceiro
andar e que Jack  ou o que quer que se apoderara de Jack  encontrara Danny. Ela e Hallorann nada poderiam fazer agora.
        Oh, p  murmurou.
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Os olhos marejaram-se-lhe de lgrimas.
        Aquele filho da me partiu-me o queixo  disse Hallo-
rann com voz arrastada.  E a minha cabea...
Fez um esforo para se sentar. Tinha o olho direito negro e quase fechado com o inchao. Mesmo assim, viu Wendy.
Senhora Torrance...
Chiu  disse Wendy.
Onde est o mido, senhora Torrance?
No terceiro andar. Com o pai  respondeu Wendy.
Eles esto a mentir  repetiu Danny.
Qualquer coisa lhe atravessara o esprito, rpida como um meteoro, demasiado veloz, demasiado brilhante para que pudesse capt-la. Apenas ficara o rasto do pensamento.
(Est l em baixo na cave, em qualquer lado.) (Lembrar-te-s do que o teu pai esqueceu.)
        Tu... Tu no devias falar assim do teu pai  disse com
voz rouca.
O mao estremeceu no ar e voltou para baixo.
        S piorars as coisas para ti. O teu... O teu castigo. Ser
pior.
Cambaleava como um brio e olhava para Danny com uma expresso de autocompaixo que estava a transformar-se em dio. O mao elevou-se de novo no ar.
Voc no  o meu pai  disse-lhe Danny.  E se houvesse
dentro de si qualquer coisa do meu pai, saberia que eles aqui
esto a mentir. Tudo  uma mentira e uma fraude. Como os
cubos que o pap me ps no sapatinho no Natal, como os pre
sentes que eles pem nas montras dos armazns e o pap diz
que no tm nada l dentro, que no so presentes, que so
caixas vazias. S para fazer vista, diz o pap. E voc  a mesma
coisa, no  o meu pai. Voc  o hotel. E quando conseguir o
que quer no dar nada ao meu pai porque  egosta. E o meu
pai sabe isso. Tinha de obrig-lo a beber a Coisa M. Era a
nica maneira de tomar conta dele, seu rosto falso e menti
roso.
Mentiroso! Mentiroso!
As palavras saram-lhe num grito dbil. O mao agitou-se no ar.
        V, bata-me. Mas nunca conseguir de mim o que pre
tende.
O rosto que Danny tinha na frente modificou-se. Era difcil
438
dizer como; no se produziu qualquer alterao nas feies. O corpo tremeu ligeiramente, e depois as mos ensanguentadas abriram-se como se fossem patas partidas.
Largaram o mao, que caiu com estrondo na passadeira. Mais nada. Mas, de sbito, o seu pai estava ali, a olhar para ele na sua agonia de morte, com uma tristeza
to grande que Danny se sentiu comovido. A boca comeou-lhe a tremer.
P, foge! Depressa. E lembra-te de que gosto muito de ti
 disse Jack Torrance.
No  disse Danny.
Oh, Danny, pelo amor de Deus...
No  disse Danny.
Pegou numa das mos ensanguentadas do pai e beijou-a.
        Isto est quase a acabar.
Hallorann encostou as costas  parede, fez fora e conseguiu levantar-se. Ele e Wendy olhavam um para o outro como se fossem sobreviventes de um pesadelo num hospital
bombardeado.
        Temos de ir l acima. Temos de ajud-lo  disse ele.
Lvida, com um ar assustado, Wendy olhou-o nos olhos e
disse:
         tarde de mais. Agora s ele se pode ajudar a si mesmo.
Passou-se um minuto, dois, trs. Em seguida ouviram um
grito, desta vez no de raiva ou de triunfo, mas de terror.
Meu Deus  disse Hallorann em voz baixa.  O que
est a acontecer?
No sei  respondeu Wendy.
T-lo- ele matado?
No sei.
O elevador comeou a descer com aquela coisa encurralada l dentro, a gritar, enraivecida.
Danny no se mexeu. No havia stio para onde pudesse fugir onde o Overlook no estivesse presente. Reconheceu-o de repente, completamente, sem sofrimento. Pela
primeira vez na sua vida pensara como um adulto, sentira como um adulto, a essncia da sua experincia neste lugar maldito  uma triste concluso:
(A mam e o pap no podem ajudar-me e estou s.)
        Vai-te embora  disse ao desconhecido ensanguentado
que tinha na frente.  Vai. Sai daqui.
439
1
Aquilo inclinou-se para a frente, mostrando o cabo da faca espetada nas costas. As suas mos agarraram de novo no mao, mas em vez de apontarem para Danny apontaram
a cabea dura do mao para o seu prprio rosto.
De repente, Danny compreendeu tudo.
Ento o mao comeou a subir e a descer, destruindo o que restava da imagem de Jack Torrance. Aquela coisa danava uma polca sinistra, arrastada, a cujo ritmo o
som terrvel do mao servia de contraponto. O sangue espalhou-se pelo papel da parede. Pedaos de osso saltaram no ar como teclas partidas de um piano. Era impossvel
dizer quanto tempo aquilo durou. Mas quando voltou a dar ateno a Danny, o seu pai desaparecera para sempre. O que restava do rosto tornou-se uma mistura de rostos,
estranha e imperfeita, rostos que se fundiram num s. Danny viu a mulher do quarto 217, o homem-co, o rapaz-objecto esfomeado que estivera dentro do aro de cimento.
        Tirem as mscaras, ento. No quero mais interrupes
 disse aquilo em voz baixa.
O mao elevou-se no ar pela ltima vez. Danny ouviu um tiquetaque.
        Tm mais alguma coisa a dizer?  perguntou aquilo. 
Tm a certeza de que no querem fugir? Talvez jogar ao loto,
no? Tudo o que nos resta  tempo, como sabem. Uma eterni
dade. Ou acabamos com isto? Tambm pode ser. Afinal esta
mos a perder a festa.
Riu-se, mostrando os dentes partidos e vidos. E Danny lembrou-se do que o pai se esquecera. Teve uma sbita expresso de triunfo; a coisa que estava na sua frente
apercebeu-se e hesitou, confusa.
        A caldeira!  gritou Danny.  Desde esta manh que
no  vigiada! Est a subir! Vai explodir!
Uma expresso de terror grotesco e de sbita revelao varreu as feies desfiguradas daquilo que estava na frente de Danny. O mao caiu-lhe das mos e tombou na
passadeira azul e negra.
A caldeira!  gritou a coisa.  Oh, no. Isto no pode
acontecer! Claro que no! No! Maldito fantoche! Claro que
no! Oh, oh, oh...
E isso!  exclamou Danny com um ar cruel. Comeou a
aproximar-se do destroo que tinha na frente, de punhos cerra
dos  A qualquer momento! Eu sei! A caldeira, o pap esque
ceu-se da caldeira! E voc esqueceu-se tambm!
440
 No, oh, no, no pode ser, mido maldito! Vou obrigar--te a tomar o remdio, gota a gota, oh no, oh no...
De repente, deu meia volta e afastou-se, a cambalear. Por
instantes a sua sombra vacilou na parede. Deixou atrs de si
um rasto de gritos, como pedaos de serpentinas.
Pouco depois, o elevador comeou a andar.        ,>
De repente, Danny sentiu o brilho
(Mam o senhor Hallorann Dick para os amigos juntos vivos eles esto vivos temos de sair daqui porque isto vai pelos ares
como um raio de sol forte e resplandecente e comeou a correr. Nem reparou que dera um pontap no mao de roque ensanguentado, afastando-o para o lado.
A chorar, correu para as escadas.
Tinham de sair dali.
56      ,
A EXPLOSO
Hallorann nunca teve a certeza do modo como os acontecimentos evoluram depois daquilo. Lembrava-se de que o elevador subia e descia sem parar, e que estava qualquer
coisa l dentro. Mas nem tentou ver o que era atravs da pequena janela em forma de diamante, porque no lhe parecia humano. Momentos depois, ouviram algum a correr
pelas escadas. A princpio, Wendy Torrance recuou, aproximando-se dele, mas depois avanou para o corredor principal o mais depressa que podia.
 Danny! Danny! Oh, graas a Deus! Graas a Deus!
Abraou-o, soltando um gemido de alegria e de dor.
(Danny!)
Ainda agarrado  me, Danny olhou para ele, e Hallorann verificou que o mido estava diferente. Tinha o rosto plido e pisado e umas olheiras enormes. Parecia ter
perdido peso. Ao olhar para os dois, Hallorann achou que era a me que parecia mais nova, apesar da terrvel agresso de que fora vtima.
(Dick... temos de fugir... de correr... este stio... vai...)
441
Teve uma viso do Overlook. As chamas saltavam do telhado, os tijolos caam c em baixo, na neve. O som das sirenas... No, nenhum carro dos bombeiros conseguiria
chegar ali acima antes de fins de Maro. O que se destacava dos pensamentos de Danny era a noo de que tinham de sair dali imediatamente, uma sensao de que o
acontecimento estava iminente.
        Est bem  disse Hallorann.
A princpio, ao encaminhar-se para ambos, parecia-lhe estar a nadar debaixo de gua. Perdera a noo do equilbrio e o olho do lado direito teimava em no ver com
nitidez. A dor do queixo estendia-se das tmperas at ao pescoo, e a sua face estava do tamanho de uma couve. Mas a aflio do mido fazia-o superar a situao
e sentir-se um pouco melhor.
Est bem?  Wendy olhou para Hallorann, depois
para o filho e de novo para Hallorann.  O que quer dizer com
isso?
Temos de ir-nos embora  disse Hallorann.
No estou vestida... As minhas roupas...
Danny afastou-se dela e comeou a correr pelo corredor. Wendy seguiu-o com o olhar at ele voltar a esquina e depois voltou-se para Hallorann.
E se ele volta?
O seu marido?
Ele no  Jack  respondeu entre dentes.  Jack mor
reu. Este stio matou-o. Este stio maldito.
Bateu na parede com o punho fechado e soltou um grito de dor.
 a caldeira, no ?
 sim, minha senhora. Danny diz que vai explodir.
ptimo.
A palavra fora pronunciada com determinao.
No sei se conseguirei voltar a descer aquelas escadas. As
minhas costelas... Ele partiu-me as costelas. E tenho qualquer
coisa nas costas. Que me di.
Vai conseguir  disse Hallorann.  Vamos todos conse
guir.
Mas de repente lembrou-se dos animais da sebe, e pensou se no estariam l fora a guardar a porta.
Em seguida, Danny voltou. Trazia as botas, o casaco e as luvas de Wendy, e tambm o seu casaco e as luvas.
Danny, as tuas botas  disse Wendy.
J no h tempo.
442
Olhou para ambos com uma espcie de loucura desesperada. Em seguida fitou Dick, cuja mente captou de sbito a imagem de um relgio dentro de uma redoma de vidro,
o relgio do salo de baile que fora oferecido por um diplomata suo em 1949. Os ponteiros do relgio indicavam que faltava um minuto para a meia-noite.
        Oh, meu Deus. Oh, meu Deus!  exclamou Hallorann.
Passou um brao  volta do corpo de Wendy e ajudou-a a
levantar-se. Com o outro brao, agarrou-se a Danny. Correu para as escadas.
Wendy soltou um grito de dor quando ele lhe apertou as costelas partidas, como se alguma coisa nas costas se tivesse desconjuntado, mas Hallorann no abrandou. Comeou
a descer as escadas, agarrado a eles. Com um olho aberto e outro quase fechado. Lembrava um pirata zarolho arrebatando os refns por quem tencionava pedir resgate.
De repente sentiu o brilho chegar e percebeu o que Danny quisera dizer ao afirmar que j no havia tempo. Sentia a exploso prestes a irromper na cave e a rasgar
as entranhas daquele stio horrvel.
Correu mais depressa, atravessando o trio na direco da porta dupla.
Atravessou a cave a correr, na direco da luz fraca e amarelada que vinha da casa da caldeira. Babava-se de medo. Estivera to perto, to perto de conseguir o
mido e os seus dons extraordinrios... Agora no podia perder. Aquilo no podia acontecer. Ia regular a caldeira e depois castigaria severamente o mido.
        No pode acontecer!  gritou.  Oh, no, no pode
acontecer!
A cambalear, encaminhou-se para a caldeira, cujo claro avermelhado se estendia ao longo do seu corpo tubular. Assobiava e cuspia vapor em todas as direces como
se fosse um monstro. O ponteiro indicador da presso estava no extremo do mostrador.
        No, no pode ser!  gritou o gerente-vigilante.
Pousou as mos de Jack Torrance na vlvula, sem se importar com o cheiro a carne queimada nem com a queimadura provocada pela roda incandescente.
A vlvula cedeu e, soltando um grito de triunfo, ele abriu-a. Um gigantesco jacto de vapor irrompeu da caldeira, lembrando
443
um grupo de drages assobiando em unssono. Mas antes de o vapor ocultar o mostrador, viu nitidamente que o ponteiro recuara.
        GANHEI!  gritou.
Dava saltos obscenos no meio daquela fornalha, agitando as mos em chamas por cima da cabea.
        CHEGUEI A TEMPO! GANHEI! CHEGUEI A
TEMPO! CHEGUEI A TEMPO! CHEGUEI A...
As palavras transformaram-se num grito de triunfo e o grito foi engolido por um estrondo avassalador, no momento em que a caldeira do Overlook explodiu.
Hallorann saiu pela porta dupla e conduziu Wendy e Danny atravs da vala cavada na neve que se acumulara no alpendre. Viu claramente os animais da sebe, mais claramente
do que antes, e antes ainda de se aperceber que os receios tinham fundamento, que eles se encontravam entre o alpendre e o limpa--neves, o hotel explodiu. Pareceu-lhe
que aquilo acontecera de repente, embora mais tarde conclusse que no podia ter sido assim.
Houve uma exploso extensa, um som que parecia infltrar-se em tudo,
a que se seguiu uma baforada de ar quente que os atingiu nas costas, parecendo empurr-los ligeiramente. Foram projectados do alpendre, os trs, e um pensamento
confuso
( assim que o Super-Homem se deve sentir.) acudiu a Hallorann enquanto iam no ar. Largou-os e em seguida aterrou suavemente num monte de neve. Esta entrou-lhe
na camisa e no nariz, mas provocou-lhe uma sensao agradvel na face ferida.
Dick trepou para o cimo do monte de neve, e naquele momento esqueceu os animais da sebe, Wendy Torrance e o mido. Rolou o corpo de modo a ficar deitado de costas
para o ver morrer.
As janelas do Overlook estilhaaram-se. No salo de baile, a redoma de vidro que cobria o relgio, em cima da chamin de sala, partiu-se em duas e caiu ao cho.
O relgio deixou de trabalhar: as engrenagens, as rodas dentadas e o pndulo imobilizaram-se. Seguiu-se um rudo fraco, sussurrado, e uma
444
grande vaga de poeira. No quarto 217, a banheira partiu-se ao meio, espalhando uma pequena quantidade de gua esverdeada e mal cheirosa. Na suite presidencial, o
papel da parede incendiou-se. As portas de batente do Salo Colorado saltaram das dobradias e caram no cho da sala de jantar. Na cave, do outro lado do arco,
as pilhas de papis velhos incendiaram-se e elevaram-se no ar com um silvo. A gua a ferver rolou sobre as chamas mas no as apagou. Como folhas de Outono a arder
debaixo de um ninho de vespas, rodopiaram no ar e enegreceram. O fornalha explodiu, quebrando as vigas do tecto e espalhando-as no cho como se fossem os ossos
de um dinossauro. O jacto de gs que alimentava a fornalha, agora incontrol-vel, elevou-se numa labareda ameaadora que atravessou o soalho lascado do trio.
O fogo propagou-se  alcatifa da escada, subindo at ao primeiro andar como se fosse portador de boas notcias. Uma srie de exploses em cadeia varreu o hotel.
O candeeiro da sala de jantar, uma bomba de cristal que pesava cem quilos, abateu-se com estrondo sobre as mesas, partindo-as. As labaredas saam das cinco chamins
do Overlook, na direco das nuvens.
(No! No pode ser! NO PODE SER!)
O hotel deu um grito, mas era um grito sem som, feito de pnico, de destruio e de maldio, que s ele ouvia, difuso, desprovido de discernimento e de inteligncia.
O seu todo espalhava-se, perdia-se, afastava-se, fugia, partia para o vazio, para o nada, esboroando-se.
A festa terminara.
57     -:
A PARTIM
O estrpito abalou toda a fachada do hotel. Os vidros foram cuspidos para a neve e tilintaram com se fossem diamantes quebrados. O co da sebe, que se aproximara
de Danny e da me, recuou, baixando as orelhas verdes e sombrias e metendo o rabo entre as pernas, no momento em que baixava os quadris com um gesto repelente. Na
sua cabea, Hallorann ouviu-o ui-
445
var, e misturado com aquele som estava o miar dos gatos. Conseguiu pr-se de p e quando se preparava para ir ao encontro dos outros para os ajudar, viu uma cena
ainda mais fantasmagrica do que o resto: o coelho, ainda coberto de neve, atirava--se como louco  cerca metlica no extremo do parque infantil, e a rede tilintava,
produzindo uma espcie de msica digna de um pesadelo, como  se fosse uma ctara espectral. At dali conseguia ouvir o rudo dos ramos secos do seu corpo a quebrarem--se
como se fosse ossos.
        Dick! Dick!  gritou Danny.
Tentava amparar a me, ajud-la a alcanar o limpa-neves. As roupas que trouxera para os dois estavam espalhadas pelo cho, no stio onde tinham cado e onde eles
se encontravam agora. De repente, Hallorann apercebeu-se de que a mulher estava em camisa de dormir, Danny estava sem casaco, e a temperatura no ia alm dos dez
graus negativos.
(Meu Deus, ela est descala.)
Lutando com a neve, foi apanhar-lhe o casaco e as botas, assim como o casaco e as luvas de Danny. Depois correu para eles, enterrando-se na neve quase at s coxas.
Wendy estava horrivelmente plida e tinha uma parte do pescoo coberta de sangue, que entretanto gelara.
No consigo  disse, em voz baixa.
Encontrava-se num estado de semi-inconscincia.
No... no consigo. Desculpem.
Danny olhou para Hallorann com um ar suplicante.
        Ela vai ficar boa  disse Hallorann, segurando-a de
novo.  Anda.
Os trs conseguiram chegar ao stio para onde deslizara o limpa-neves. Hallorann sentou a mulher no banco destinado aos passageiros e cobriu-a com o casaco. Levantou-lhe
os ps  estavam muito frios mas ainda no tinham enregelado  e esfregou-os vigorosamente com o casaco de Danny, antes de lhe calar as botas. O rosto de Wendy
estava da cor do alabastro. Tinha os olhos semicerrados e um ar atordoado, mas comeara a tremer. Hallorann achou que era bom sinal.
Atrs deles, uma srie de trs exploses abalou o hotel. As labaredas cor de laranja iluminaram a neve.
Danny encostou a boca ao ouvido de Hallorann e gritou-lhe qualquer coisa.
O qu?
Perguntei-lhe se precisava daquilo.
446
O mido apontava para o depsito de combustvel que estava cado na neve.
Dick apanhou-o e abanou-o. Ainda tinha gasolina, no sabia dizer que poro. Atou o depsito  traseira do limpa-neves, aps vrias tentativas, pois estava a ficar
com os dedos entorpecidos. Pela primeira vez deu-se conta de que perdera as luvas de Howard Cottrell.
(Se sair daqui, tenho de pedir  minha irm que te faa uma dzia de pares, Howie.)
Sobe!  gritou Hallorann ao mido.r
Danny recuou, encolhendo-se.
Vamos ficar enregelados!
        Temos de ir  arrecadao! H l vrias coisas... Cober
tores e coisas desse gnero. Pe-te atrs da tua me.
Danny subiu. Hallorann voltou-se para trs e gritou aos ouvidos de Wendy.
        Senhora Torrance, segure-se a mim! Est a ouvir? Se
gure-se!
Wendy agarrou-se a ele e encostou a face s suas costas.
Hallorann ps o limpa-neves a trabalhar e carregou no pedal do acelerador com cuidado para o veculo no arrancar com um estico. A mulher mal conseguia agarrar-se
a ele, e, se resvalasse para trs, o peso do corpo poderia faz-la cair, a ela e ao mido.
Comearam a andar. Hallorann fez o limpa-neves descrever um crculo e em seguida dirigiram-se para oeste, paralelamente ao hotel. Hallorann contornou-o, na direco
da arrecadao, que ficava nas traseiras.
Tiveram uma viso momentnea mas ntida do trio do Overlook. As chamas, avanando pelo soalho, lembravam uma gigantesca vela de aniversrio, amarela no meio e de
contornos azuis e tremeluzentes. Avistaram o balco da recepo com a sua campainha de prata, os decalques dos cartes de crdito, a caixa registadora antiquada
e rica em ornamentos, as pequenas carpetes, as cadeiras de espaldar alto, as almofadas em forma de ferradura. Danny distinguiu o pequeno sof junto da lareira,
onde as trs freiras estavam sentadas no dia da sua chegada  o ltimo dia. Mas este  que era verdadeiramente o ltimo dia.
Em seguida, a neve acumulada no alpendre tapou-lhes a viso. Pouco depois contornavam a ala oeste do hotel. Havia ainda claridade suficiente para verem sem precisarem
de acender o farol do limpa-neves. Os dois andares superiores estavam
447
agora a arder e as chamas viam-se das janelas. A tinta branca das paredes comeara a enegrecer e a empolar. As portadas que protegiam a suite presidencial  e que
Jack tivera o cuidado de prender, seguindo as instrues recebidas em meados de Outubro  eram agora ties pendurados que revelavam a escurido no interior, como
uma boca desdentada num derradeiro e silencioso bocejo de morte.
Wendy encostara a cara s costas de Hallorann para se proteger do vento, e Danny encostara igualmente a sua s costas da me. Assim, apenas Hallorann viu uma coisa
de que nunca haveria de falar.  janela da suite presidencial julgou ver um vulto escuro e enorme, contrastando com o campo coberto de neve. Por instantes, o vulto
assumiu a forma de uma manta gigantesca. Em seguida, o vento pareceu apoderar-se dela e rasg-la, como se fosse uma folha de papel velho e enegrecido. Fez--se
em pedaos, foi apanhada num turbilho de fumo e pouco depois desapareceu como se nunca tivesse existido. Mas durante aqueles breves segundos em que o vulto rodopiou
no ar, como que a executar uma dana, Hallorann recordou-se de um trecho da sua meninice... h cinquenta anos ou mais. Ele e o irmo tinham encontrado um grande
ninho de vespas na parte norte da quinta. Estava metido num buraco entre a terra e uma velha rvore destruda por um raio. O irmo trazia dentro do chapu uma bombinha
que apanhara no 4 de Julho. Acendera-a e atirara-a para o ninho. A bombinha explodira com estrondo, e um zumbido furioso  quase um grito, fraco  elevara-se do
ninho incendiado. Ambos tinham desatado a fugir, como se fossem perseguidos por demnios. De certo modo, Hallorann achava que se tratava igualmente de demnios.
E, ao olhar para trs, por cima do ombro, como fazia agora, vira uma grande nuvem negra de vespas subindo no ar quente, rodopiando em conjunto e separando-se em
seguida,  procura do inimigo que fizera uma coisa daquelas  sua casa para  apenas a nata do grupo  o matarem com picadas.
Depois aquilo desapareceu no cu. Era provvel que no tivesse passado de um rolo de fumo ou de um grande pedao do papel de parede. Ficou apenas o Overlook, uma
pira a rugir nas goelas da noite.
Hallorann tinha uma chave da arrecadao no seu chaveiro, mas achou que no era necessrio us-la. A porta estava aberta de par em par e o cadeado estava pendurado
no gancho.
448
No posso entrar ali  disse Danny em voz baixa.
Est bem. Fica aqui com a tua me. Antigamente havia l
umas mantas de cavalos velhas.  provvel que a esta hora j
tenham sido comidas pelas traas mas  prefervel a morrermos
gelados. Senhora Torrance, est a ouvir-nos?
No sei  respondeu Wendy com uma voz dbil. 
Acho que sim.
ptimo. No me demoro nada.
Venha o mais depressa que puder. Por favor  sussurrou
Danny.
Hallorann fez um sinal afirmativo. Voltara o farol para a porta e caminhava agora a custo pela neve, projectando uma sombra enorme  sua frente. Empurrou a porta
da arrecadao e entrou. As mantas ainda estavam ao canto, junto dos apetrechos de roque. Hallorann pegou em quatro  cheiravam a mofo e a velho e decerto tinham
proporcionado s traas um belo almoo  e depois parou.
Um dos maos de roque desaparecera.
(Foi com isso que ele me bateu?)
Bem, no interessava com o que fora, no  verdade? Todavia, levou a mo  cara e comeou a acariciar a face inchada. Seiscentos dlares de honorrios do dentista
perdidos por causa de uma simples pancada. E afinal
(Talvez ele no me tenha batido com um destes. Talvez algum mao que andava perdido. Ou que tivesse sido roubado. Ou levado para recordao.)
no tinha importncia nenhuma. Porque ningum iria ali jogar roque no Vero. E no era previsvel que viessem a faz-lo num futuro prximo.
No, no tinha importncia nenhuma, mas olhar para a fila de maos em que faltava um provocava-lhe um certo fascnio. Deu consigo a pensar no baque forte da cabea
do mao a bater na bola de madeira. Um belo som estival. V-lo deslizar atravs do
(osso. sangue) pedrisco. Evocava imagens de
(osso. sangue)
ch gelado, balouos no alpendre, senhoras de chapus de palha brancos, o zumbido dos mosquitos, e
(rapazinhos travessos que no cumprem as regras do jogo) tudo aquilo. Claro. Era um jogo agradvel. Antiquado, mas... agradvel.
        Dick?
449
A voz era fraca, ansiosa e, pensou Hallorann, bastante desagradvel.
        Est bem, Dick? Venha-se embora. Por favor!
(Anda c para fora, negro de um raio!)
A sua mo agarrou com fora o cabo de um dos maos. Era--lhe agradvel ao tacto.
(Poupa o mao, destri a criana.)
O seu olhar fixou-se na escurido abalada pelo claro das labaredas. Na verdade, faria um favor a ambos. Ela estava perdida... com dores... e a maior parte daquilo
(tudo aquilo)
fora culpa do mido. Claro. Deixara o pai morrer queimado l dentro. Se pensssemos bem, fora quase um assassnio. Um parricdio, como lhe chamavam. Um caso muito
grave.
Hallorann tirou o mao do suporte e voltou-o para o feixe de luz projectado pelo farol do limpa-neves. Os ps arranharam as tbuas do soalho, como se fossem os ps
de um boneco de corda que tivesse comeado a andar.
De repente parou, lanando um olhar interrogador ao mao que tinha na mo, e, horrorizado, perguntou a si mesmo o que estava a pensar fazer. Cometer um assassnio?
Pensara em cometer um assassnio?
Por instantes, a sua mente pareceu dominada por uma voz furiosa, levemente prepotente:
(V! V! Fracalhote, negro cobardolas! Mata-os! MATA--OS A AMBOS!)
Em seguida, atirou o mao para trs das costas, soltando um grito abafado. O mao foi cair no canto onde antes estavam as mantas, com uma das pontas virada para
ele, como que a convid-lo.
Hallorann fugiu.
Danny estava sentado no banco do limpa-neves e Wendy agarrava-se a ele com as poucas foras que tinha. O mido tinha o rosto molhado de lgrimas e tremia como se
tivesse palu-dismo. A bater os dentes, perguntou:
Onde esteve? Estvamos assustados!
 um stio que assusta  respondeu Hallorann lenta
mente.  Mesmo que este local arda at aos alicerces, nunca
mais me apanham a cem milhas daqui. Tome, senhora Tor-
rance, embrulhe-se nestas mantas. Eu ajudo-a. E tu tambm,
Danny. Mascara-te de rabe.
Hallorann enrolou duas das mantas  volta de Wendy, ser-
450
vindo-se de uma como capuz, e ajudou Danny a prender a sua para que no casse.
        E agora segurem-se bem  disse.  Temos um longo
caminho a percorrer, mas o pior j passou.
Contornou a arrecadao e depois apontou o limpa-neves para a estrada. O Overlook era agora uma tocha cujas labaredas subiam ao cu. Abrira buracos enormes dos lados
e o interior era um inferno de chamas. A neve derretida escorria pelas goteiras em torrentes fumegantes.
Desceram o relvado da frente, com o caminho bem iluminado. As dunas de neve irradiavam um brilho escarlate.
        Olhem!  gritou Danny quando Hallorann abrandou
diante do porto principal.
Apontou para o parque infantil.
Os animais da sebe estavam todos na sua posio inicial, mas estavam despidos, enegrecidos, queimados. Os ramos mortos, entrelaados, formavam uma rede visvel 
luz das chamas, e as pequenas folhas jaziam a seus ps, espalhadas, como ptalas cadas.
Esto mortos!  gritou Danny, numa histeria triunfal.
 Mortos! Esto mortos!
Chiu  disse Wendy.  Est bem, querido. Est bem.
Ouve l, p  disse Hallorann.  Vamos para um stio
mais quente. Ests pronto?
Estou  respondeu Danny em voz baixa.  H tanto
tempo que estou pronto...
Hallorann encaminhou-se para a passagem entre o porto e o poste. Pouco depois iam na estrada, na direco de Sidewinder. O rudo do motor do limpa-neves diminuiu
de intensidade, at se diluir no rugido imparvel do vento. O veculo passou pelos ramos nus dos animais da sebe com um rudo fraco e desolado. O incndio continuava.
Pouco depois de o barulho do motor deixar de se ouvir, o telhado do Overlook ruiu  primeiro a ala oeste, depois a ala leste e por fim a parte central. Uma imensa
espiral de falhas e de escombros elevou-se na escurido da noite invernosa e ululante.
Um monte de telhas e uma massa incandescente, ambos levados pelo vento, atravessaram a porta aberta da arrecadao.
Pouco depois, a arrecadao incendiou-se.
Encontravam-se ainda a trinta quilmetros de Sidewinder
451
quando Hallorann parou para despejar o resto da gasolina no depsito do limpa-neves. Estava a ficar seriamente preocupado com Wendy Torrance, que parecia no dar
pela presena deles. E havia ainda um longo caminho a percorrer.
Dick!  gritou Danny.
Pusera-se de p no assento, a apontar.
Dick, olhe! Olhe para ali!
A neve parara e uma Lua que lembrava uma moeda de prata espreitava atravs das nuvens. L em baixo, na estrada, a subir na direco deles, descrevendo uma srie
de curvas em S, via--se uma fila de luzes. O vento parou por instantes e ouviu-se o barulho distante dos motores dos limpa-neves.
Hallorann, Danny e Wendy chegaram junto deles um quarto de hora depois. Os outros traziam-lhes roupas, brande e o doutor Edmonds.
A longa escurido acabara.
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EPLOGO/VERO
Depois de ter inspeccionado as saladas preparadas pelo substituto e espreitado a feijoada caseira que serviam como aperitivo naquela semana, Hallorann tirou o
avental, pendurou-o no gancho e saiu pela porta das traseiras. Ainda tinha quarenta e cinco minutos antes de comear a preparar o jantar.
O local chamava-se Red Arrow Lodge e ficava situado na zona montanhosa a oeste do Maine, a trinta milhas da cidade de Rangely. Era um bom emprego, na opinio de
Hallorann. O trabalho no era muito pesado, as gorjetas eram boas e at agora nenhum cliente mandara a comida para trs. No era mau, considerando que a poca ia
quase em meio.
Tomou o caminho que ficava entre a esplanada e a piscina (porque havia algum de preferir a piscina, se o lago estava to perto, era qualquer coisa que Hallorann
nunca haveria de perceber), atravessou uma faixa de relva onde um grupo de quatro pessoas jogava croquet e ria  gargalhada e subiu um outeiro. Naquele stio, o
vento acariciava os pinheiros, espalhando o aroma adocicado da resina.
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Do outro lado, discretamente metidos entre as rvores, havia uma srie de apartamentos com vista para o lago. O ltimo era o mais agradvel e Hallorann reservara-o
para duas pessoas, em Abril, quando arranjara este emprego.
A mulher estava sentada no alpendre, numa cadeira de balouo, com um livro na mo. Mais uma vez Hallorann ficou impressionado com a mudana que se operara nela.
Em parte era a sua postura direita, quase formal, apesar da atmosfera informal que a rodeava  mas isso era do gesso,  claro. Sofrera fractura de uma vrtebra
e de trs costelas, e contuses internas. As costas eram o que mais demorava a curar e estavam ainda engessadas... Da a postura direita. Mas a mudana ia para
alm disso. A mulher parecia mais velha e mal se ria. Agora, enquanto lia o livro, Hallorann apercebia-se de uma espcie de beleza grave que lhe faltava no dia em
que a conhecera, nove meses antes. Agora era uma mulher, um ser humano que fora arrastado para o lado oculto da Lua e regressara para juntar os destroos. Mas esses
destroos nunca mais se ajustariam da mesma maneira. Nunca mais.
A mulher sentiu-o chegar e levantou o olhar, fechando o livro.
        Dick! Ol!
Fez meno de levantar-se, mas o rosto crispou-se-lhe com a dor.
        No, no se levante  disse Dick.  No suporto ceri
mnias, a menos que esteja de gravata branca e de fraque.
A mulher sorriu quando ele subiu a escada e se sentou ao seu lado no alpendre.
Como vai?
Muito bem  respondeu Dick.  Esta noite vai experi
mentar o arroz de camaro. Vai gostar.
Combinado.
Onde est Danny?
L em baixo.
Wendy apontou e Hallorann viu uma pequena figura sentada  ponta do cais. Tinha as calas enroladas at aos joelhos e vestia uma camisa s riscas vermelhas. Mais
adiante, nas guas calmas, flutuava uma bia. De vez em quando, Danny enrolava a linha, examinava o chumbo e o anzol e depois voltava a lan-la.
Est a ficar bronzeado  disse Hallorann.        s
 verdade. Est muito bronzeado.
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Wendy olhou para o filho com ternura. Hallorann tirou um cigarro, bateu-o e acendeu-o. O fumo dissipou-se lentamente na atmosfera luminosa da tarde.
E aqueles sonhos que ele tinha?
Est melhor  respondeu Wendy.  Esta semana s so
nhou uma vez. Era costume ser todas as noites, duas e trs
vezes. As exploses. As sebes. E acima de tudo... voc j sabe.

Sim. Ele vai ficar bom, Wendy.
Wendy olhou para o filho.
Ficar? No sei ao certo.
Hallorann abanou a cabea.
        Voc e ele esto a voltar ao que eram. Com diferenas,
talvez, mas esto bem. No so iguais ao que eram, mas isso
no  necessariamente mau.
Ficaram em silncio durante alguns minutos, Wendy a balouar-se na cadeira e Hallorann com os ps em cima do varandim do alpendre, a fumar. Levantou-se uma brisa
fraca, que percorria furtivamente os pinheiros mas mal agitava o cabelo de Wendy. Wendy cortara-o curto.
        Resolvi aceitar a oferta de Al... do senhor Shockley 
disse.
Hallorann abanou a cabea.
Parece ser um bom emprego. E algo que poder interes
s-la. Quando comea?
Logo a seguir ao Dia do Trabalhador. Quando Danny e
eu sairmos daqui iremos logo para Maryland para arranjar casa.
Verdadeiramente foi a publicao da Cmara de Comrcio que
me convenceu, sabe? Parece ser uma bela cidade para criar um
filho. E gostaria de voltar a trabalhar antes de gastarmos uma
boa parte do dinheiro do seguro que nos coube pela morte de
Jack. Ainda temos mais de quarenta mil dlares. O suficiente
para mandar Danny para a escola e proporcionar-lhe um bom
comeo de vida, se for bem investido.
Hallorann fez um sinal de assentimento.
        E a sua me?
Wendy olhou para ele com um sorriso murcho.
Creio que Maryland  suficientemente longe.
No vai esquecer os velhos amigos, pois no?
Danny no mo permitiria. V l abaixo ter com ele. Tem
estado todo o dia  sua espera.
Tambm eu.
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Hallorann levantou-se e prendeu a sua bata de cozinheiro nas ancas.
        Vocs dois vo ficar bem  repetiu.  No o sente?
Wendy olhou para ele e desta vez mostrou um sorriso mais
aberto.
        Sinto. s vezes acho que sinto.
Pegou na mo de Hallorann e beijou-a.
O arroz de camaro. No se esquea  disse ele, des
cendo os degraus.
Prometo.
Hallorann desceu o caminho de pedrisco que ia at ao lago e depois seguiu pelo ponto de tbuas gastas at ao fundo, onde Danny estava sentado, com os ps mergulhados
na gua lmpida. Do outro lado, o lago era mais largo e reflectia os pinheiros em declive. O terreno  volta era montanhoso, mas as montanhas eram velhas, arredondadas
e domadas pelo tempo. Hallorann gostava muido delas.
 Ests a pescar muito?  perguntou Hallorann, sentando-se a seu lado.
Descalou um sapato, depois o outro e, suspirando, enfiou os ps quentes na gua fria.
No. Mas de vez em quando sinto morder.
Amanh de manh havemos de ir andar de barco. Se qui
seres apanhar um peixe para comer, temos de ir para o meio do
lago, meu rapaz. L  que os h grandes.

De que tamanho?
Hallorann encolheu os ombros.
Ora... Tubares, baleias... desse gnero.
Aqui no h baleias!

No h baleias-azuis, no. Claro que no. Estas aqui no
tm mais de vinte metros. So baleias cor-de-rosa.
E como  que elas vm do mar?
Hallorann pousou a mo na cabea do mido e acariciou-lhe o cabelo ruivo.
Sobem a corrente, meu rapaz. Assim mesmo.
A srio?
A srio.
Durante algum tempo ficaram em silncio, contemplando o lago tranquilo. Hallorann estava pensativo. Quando olhou de novo para Danny reparou que este tinha os olhos
cheios de lgrimas.
Ps-lhe um brao  volta dos ombros e perguntou:
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Que se passa?
Nada  respondeu Danny em voz baixa.
Sentes a falta do teu pai, no ?
Danny fez um sinal afirmativo.
O senhor sabe sempre.
Uma lgrima rolou-lhe pelo canto do olho at  face.
        No podemos ter segredos um para o outro,  o que  
disse Hallorann.
Olhando para a cana de pesca, Danny prosseguiu:
        s vezes desejo que tivesse sido eu. A culpa foi minha.
Foi tudo por minha culpa.
Hallorann perguntou:
No falas nisso ao p da tua me, pois no?
No. Ela quer esquecer at que tudo aconteceu. Eu tam
bm quero, mas...
Mas no consegues.
No.
No precisas de chorar...
O mido tentou responder, mas as palavras foram engolidas por um soluo. Encostou a cabea ao ombro de Hallorann e desatou a chorar, com as lgrimas a rolarem-lhe
pela face. Hallorann abraou-o e no disse nada. Sabia que o mido ainda teria de esconder as lgrimas vezes sem conta, e era uma sorte ser ainda to novo e conseguir
faz-lo. As lgrimas que curam so as mesmas que nos queimam e destroem.
Quando ficou um pouco mais calmo, Hallorann disse-lhe:
Vais ultrapassar isto. Creio que ainda no ests bom, mas
virs a estar. Tens o bri...
Quem me dera no o ter! Quem me dera no ota! 
exclamou Danny, sufocado pelas lgrimas.
Mas tens  retorquiu Hallorann tranquilamente.  Para
bem ou para mal. No podes neg-lo, meu rapaz. Mas o pior j
passou. Podes utiliz-lo para falar comigo quando as coisas no
correrem bem. E se correrem muito mal, chama-me que eu
venho.
Mesmo quando eu estiver em Maryland?
Mesmo de l.
Calaram-se, vendo a bia de Danny a cerca de dez metros da extremidade do cais. Depois Danny perguntou, muito baixinho:
Continuar a ser meu amigo?        ?;<?[
Enquanto tu quiseres.
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O mido agarrou-se a ele e Hallorann abraou-o.
Danny, escuta. Vou falar-te disto uma s vez e nunca
mais o farei. H coisas que no se deviam dizer a uma criana
de seis anos, mas as coisas quase nunca so o que deveriam ser.
O mundo  duro, Danny. No se importa connosco. No nos
odeia, mas tambm no gosta de ns, de mim e de ti. Aconte
cem coisas terrveis no mundo, coisas que ningum pode expli
car. As pessoas boas sofrem e morrem, e deixam sozinhos os
seus entes queridos. s vezes parece que s os maus  que tm
sade e prosperam. O mundo no gosta de ti, mas a tua me
gosta e eu tambm. s um bom rapaz. Sofre pelo teu pai, e
quando sentires que tens de chorar pelo que lhe aconteceu me
te-te na casa de banho ou debaixo da roupa e chora at te far
tares.  isso que faz um bom filho. Mas, cautela, no soobres.
 a tua misso neste mundo difcil, manteres vivo o teu amor e
no soobrares, acontea o que acontecer. Domina-te e conti
nua em frente.
Est bem  respondeu Danny em surdina.  No pr
ximo Vero vou visit-lo, se quiser... Se no se importar. No
prximo Vero fao sete anos.
E eu fao sessenta e dois. E vou dar-te um grande abrao.
Mas deixa acabar este Vero, antes de comearmos a pensar no
outro.
Est bem.
Danny olhou para Hallorann.
Dick?...
Hum?
No vai morrer to cedo, pois no?
No estou a pensar nisso. E tu?
No senhor. Eu...
Tens peixe, meu rapaz.
Hallorann apontou para a bia vermelha e branca que fora puxada para debaixo de gua. Apareceu outra vez  superfcie, a brilhar, e depois mergulhou de novo.
        Ena!  gritou Danny, entusiasmado.
Wendy aproximara-se deles e ficara de p atrs de Danny.
O que ?  perguntou.  Um peixe?
No, minha senhora  respondeu Hallorann.  Creio
que  uma baleia cor-de-rosa.
A extremidade da cana dobrou-se. Danny puxou-a para trs, e um grande peixe com as cores do arco-ris brilhou ao sol, dando uma cambalhota e desaparecendo outra
vez.
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Danny enrolou o fio com frenesim.
        Ajude-me, Dick! Apanhei-o! Apanhei-o! Ajude-me!
Hallorann riu-se.
        Ests a sair-te muito bem sozinho, meu rapaz. No sei se
 uma baleia cor-de-rosa ou uma truta, mas no faz mal. Qual
quer delas serve.
Ps um brao por cima dos ombros de Danny, que comeou a iar o peixe, a pouco e pouco. Wendy sentou-se ao lado do filho, os trs sentados  beira do cais naquela
tarde de sol.
